Dan Le Sac vs Scroobius Pip


Dupla inglesa tem discurso sério, mas despojado. Álbum de estréia sai na semana que vem




Visualize a cena. Um MC inglês no maior festival norte-americano chama o rap local de "lixo americano" ao louvar o conterrâneo Dizzie Rascal. O público, atento ao discurso ríspido e veloz, veste máscaras barbudas de aspecto árabe, semelhante à do próprio rapper. A platéia ouve atenta e excitada, e solta respostas em gritos de "me mostre o que você tem então, motherfucker!". Na tréplica, entra o DJ com um break gordo e acelerado ritmado pelo discurso, unindo em catarse artista e público. "Haha-ha-há, Dan Le Sac. Scrooooobius Pip. Hip Hop is Art!" (ouça ao pé da material a faixa "Fixed").

Essa ágora musical, misto de comício e sarau musicado, foi um dos momentos mais bacanas e, por que não dizer, intelectualizados, da Disney musical que foi o Coachella 2008. Sem dúvida um turning-point internacional na carreira da dupla Dan Le Sac (DJ e produção) e Scroobius Pip (MC), artistas originários de Stanford-Le-Hope, pequena cidade de Essex (Reino Unido).

Ambos se conheceram há dois anos, quando Dan Le Sac convidou o poeta Scroobius Pip (nome original: David Meads), para abrir uma de suas festas. Surgiu uma parceria que criou, em 2007, a música "Thou Shalt Always Kill", um hino que foi parar entre os 40 maiores singles do Reino Unido. É um breakbeat de humor Fatboy Slim, em que Scroobius canta manifesta em spoken word uma das sínteses de idéias musicais e de outras referências pop mais brilhantes dessa década. Não a toa, o próprio Fatboy Slim encerrou seu set no Coachella num remix tsunâmico da música.

Scroobius canta/discursa lendo em folhas, o que dá à dupla um ar messiânico ao vivo. Sem fórmula certa de base pré-criada, ele interage com Le Sac, que também verseia e solta as batidas dos knobs e laptop sempre no humor e na cadência do discurso.

Não é o hip hop tradicional, muito menos o gangsta. Mesmo de break marcado, a batida pode vir com pipocos de guitarra e ambientações electro-jazzísticas de um Four Tet. A sonoridade vem do crunk e do 2-step garage dos porões britânicos, transformado em bases mais lineares do club rap basicamente dançante.

Os versos cantarolados de Scroobius lembram sonoramente as narrativas de Beck, sotaques à parte. Junto com Dan Le Sac, forma-se uma revigorante sonoridade única na música negra moderna, espécie de Gnarls Barkley menos melódico e sem rescaldo pop. No fim de tudo, pelo ritmo e pela poesia, é "goddam good hip hop", como frisou bem a garota que me deu a máscara barbuda lá no Coachella.

SAINDO DO FORNO
Dia 12 de maio agora sai o aguardado disco de estréia da dupla, Angles, que já vazou na rede e mostra um bem-acabado álbum, rigor necessário para quem quer ir além de um hit barulhento de estréia como "Thou Shalt Always Kill". "(O sucesso da faixa) é bastante justo. É um poema-lista com toneladas de referências pop dentro para as pessoas interpretarem como elas bem quiserem. Uma das vantagens de coisas como o MySpace é que as pessoas podem conferir instantaneamente como nós temos mais coisas, que essa música não é tudo o que somos", explica o próprio Scroobius em (ótima) entrevista ao site platformsmagazine.com.

Os próximos hits devem ser "Look For The Woman", de pianos e baixo forte - lembra ainda mais o Beck no refrão, e "Letter From God to Man", em que Deus passa a limpo numa conversa franca o que acontece na humanidade. "Estou escrevendo pra me desculpar por todos os horrores cometidos em meu nome / embora nunca tenha sido o que eu pretendia, sinto que tenho que ter minha parte de culpa / meus ensinamentos foram tirados do contexto para satisfazer a agenda de outros / interpretações foram tomadas de diferentes maneiras (...)", diz a letra, dando uma idéia da militância esclarecida e atual do rapper poeta. Graças a Deus, sem ser politicamente corretos, como prova "Thou Shalt Always Kill" e suas contradições (o nome de Joe Strummer não pode ser dito em vão, mas o Clash é só uma banda?). Até mesmo o Radiohead, outra just a band, é sampleada sem disfarces em "Letter From God to Man."

Outra contradição por aqui mesmo é a própria alcunha club rap, já que o hip hop e afins são música dançantes por excelência. Mas Dan Le Sac e Scroobius Pip são uma prova de que é possível a expressão de um discurso sério enquanto se dança. Enfim, gênero por gênero se resume a um verso da própria dupla: "quando eu dizer HIP não dirás HOP".

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