sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

#ReferênciAna - AFROCYPHER III

Retomando o quadro mais nerd do blog, depois do Hebreu, #ReferênciAna tá de volta, assim como explica o nome, nessa seção do NP, você vai encontrar algumas de minhas percepções e discussões sobre referências históricas e sociais utilizadas em letras de músicas.

#ReferênciAna - AFROCYPHER 3

Relembre o último episódio do projeto: #ReferenciAna - Afrocypher vol. 2

A música, Afrocypher III, é o último episódio da triologia e fechou o mês da consciência negra abordando temas como o racismo, desigualdade social, mídia, estética e história. Você pode ouvir o som abaixo e saber mais sobre a produção, vídeo e tudo mais aqui: Afrocypher 3 tá na área!


Lembrando sempre que eu vou discutir sobre as referências com cunho histórico e social que eu percebi utilizadas nos versos de cada rapper, lembrando que são minhas percepções como ouvinte, pode não ser a intenção real do rapper. Esse quadro não se direciona a discutir técnica, produção e afins, é um post pra evidenciar as linhas e suas referências, pra cultivar o elemento do Hip Hop que tem que estar presente em todo espaço, o conhecimento. Vocês podem conferir a letra completa do som aqui, enquanto assistem ao clipe acima.


O primeiro a lançar seus versos é o Rodrigo Buga, sempre referenciando África e os africanos. Inclusive, veja o papo que ele trocou com o Noticiário Periférico no quadro Opinião Periférica.

Nkosi Sikelei' iAfrika, o verso que abre caminho na cypher, é o título do hino da África do Sul, e foi posteriormente adotado pelo pan-africanismo. A frase que é uma mistura de Zulu, Suaíle e mais alguns idiomas, quer dizer "Deus abençõe a África", o hino marca o início da era democrática e homenageia a época "colorida" da África do Sul. Você pode encontrar mais informações aqui, e ouvir o hino abaixo.


"Tempestade passou, chegou a bonança, Marcus Garvey regou o solo, em nosso peito brotou esperança". No último verso do Afrocypher II, Buga ressignificou o #somostodostalcoisa, usado muitas vezes por racistas velados pra falar justificar, como ocorreu com o somos todos macacos por exemplo. e deu sentido ao #somostodosMarcusGarvey, dando sentido positivo de sermos todos ativistas, já que Marcus Mosiah Garvey foi um comunicador, empresário e ativista jamaicano. É considerado um dos maiores ativistas da história do movimento negro. Ele retoma esse verso, quando faz a analogia de que as palavras de Garvey foram sementes, e brotaram esperança em cada um de nós.  

"Cada criança preta dança a ciranda, com a mente fortalecida pra Somália se tornar Wakanda" Essa é boa pra filtrar os modinha de HQ rsrsrs. No verso destacado, Buga menciona as crianças na Somália, fazendo alusão ao momento de desespero que o país passou em Outubro desse ano, onde num atentado foram mortos mais de 358 pessoas. A mente fortalecida pra que o país se torne Wakanda, é uma esperança que um dia o país devastado pela violência como foi a Somália se torne a nação Wakanda. Um pequeno país no interior do continente Africano e uma das maiores potências tecnológicas no universo Marvel, governada por nada menos que Pantera Negra.


Buga continua suas linhas com uma sequência de trocadilhos e inversões, "Oferta de potássio é vitamina pro Nego Drama, arregaço quem discrimina jogando banana" o potássio é um dos principais nutrientes da banana, que é a fruta associada como alimento do macaco. Macaco pra quem ainda não sabe o porque de ser R-A-C-I-S-T-A, é um termo pejorativo associado a história, "O xingamento de macaco, na verdade, tem a ver com a maneira com a qual os europeus, eles mesmos, se diferenciaram, biológica e culturalmente, em um esforço de manter superioridade sobre outros povos."

"Rap white quer ser rap god sem rap good" seguindo, nem precisa referenciar, só explicar de maneira sucinta, o rap branco que quer ser rap "deus" sem ser rap bom. Buga cita filmes como Estrelas além do tempo, vidas cruzadas, filmes de temática negra, antes de finalizar sua parte na cypher, de maneira emocionante e muito pessoal, que se assemelha a muitos jovens negros do Brasil.

"Meu pai morreu assassinado e a mãe no hospital uma tragédia
Somei a idade deles e chegou perto da média,
da expectativa de vida de uma pessoa branca!"


"Se a ignorância for uma benção, a mídia vem sendo o Papa, Dando papa pra quem só pensa caca, Gugu da-dados móveis neurônios imóveis, Eles precisam de livros não de automóveis. (foi Gol?)" Rhenan inicia seus versos com uma aliteração (que é uma figura de linguagem que consiste na repetição de sons de consoantes iguais ou semelhante) de palavras, que nos dão a ideia de como a mídia nos "abençoa" com tanta ignorância através da manipulação de informações.

"Meu Rap faz poesia da ferida que não estanca, Todo mundo tem uma amiga preta que pensa que é branca, Tem preto que odeia preta e sempre avalia, Pois cresceu ouvindo: "tem que clarear a família!"" na minha visão, Rhenan denuncia a questão da autoestima das e dos negros, boicotada desde a infância. Impondo uma beleza branca padrão a ser alcançada, principalmente a mídia, além da sociedade no geral, cria estereótipos e os coloca para olhar as e os negros do Brasil. Se estiver dentro do padrão estabelecido, ok, se não estiver vão fazer de tudo para que se acredite que é necessário se moldar ao padrão. Lógico que tem toda uma questão histórica no Brasil que influencia na questão do se ver negro, por conta da miscigenação e tudo mais, é um projeto contínuo, e embora "pretos e pretas estejam se armando", a autoaceitação ainda é um dos principais meios pelo qual se boicota o ser negro, o se aceitar negro, se enxergar como negro e pautar sua negritude.

"Nos somos lindos, ou melhor, realeza, Seu globo ocular que não quer ver nossa beleza" nessa linha, numa interpretação bem pessoal, faço conexão com o verso anterior, onde discutimos a questão da imposição midiática de um padrão estético a ser seguido. Logo, mesmo sendo lindos, reis e rainhas, o globo ocular não quer ver nossa beleza, esse globo ocular pode ser entendido como sentido literal de olho, ou o figurativo, representando a leitura do mundo através da Rede Globo.

"Sejamos mais do que presas sendo presas" aqui parece ser uma crítica de Rhenan ao sistema judiciário brasileiro. Na biologia, presa significa algo que está sob domínio do predador, para ser devorada posteriormente. Se olharmos com essa percepção, corpos negros seguem sendo dominados por um sistema racista, que empurra nossos jovens para um sistema carcerário falido, influenciando na desestruturação de famílias e na violência ao corpo preto.

"Amor e nossa cor são irmãs siamesas" , esse trecho é mais que necessário, evidenciando a afetividade preta. Gêmeos siameses, são gêmeos que nascem conectados fisicamente um ao outro, nesse caso, Rhenan contrapõe o que denunciou até agora sobre o auto ódio, a baixa estima e os padrões, já que nossa cor é ligada ao amor.

Por fim, diante das várias notícias que ganharam destaque esse ano, de casos de racismo explícito contra crianças, Rhenan usa a imagem da MC Sofia, nossa menina pretinha, que canta justamente contra o racismo e os padrões da sociedade.


"Pode fingir mas sabemos que você sente,
Que uma MC Sofia incomoda muita gente."

A cypher continua, e o próximo a rimar é o rapper Daniel Garnet.
"Não querem ser black na face mas quer no Face" esse trecho da parte de Garnet nos remete ao artigo "Quem quer ser negro no Brasil?" afinal, diante da era da internet, ficou relativamente "fácil"se posicionar enquanto pessoa negra (mesmo sendo branca rs), e pautar várias coisas em discussão no facebook, mas não ser atingida ou atingido de maneira pontual, somente por ser negra ou negro. Não querem ser preto na face, porque não querem sofrer as violências relacionadas a cor da pele, obviamente. Não querem ser pretos na face porque não querem discutir racismo estrutural, questionar privilégios, questionar um sistema violentamente racista. Mas o discurso de facebook, sobre poder usar um turbante, uma trança, roupa africana, fazer rap, esses são defendidos com unha e dentes.

"No meio em quem dita o rap game tem cartão Black, Carta branca e marra de skinhead (spin that shit!), O mundo gira e os nossos rodam, exceto os nossos Pelés e nossos Jordan's" na minha percepção, parece uma crítica aos MC’s e grupos que se encaixam nesse termo de rap game, o ter cartão black, me parece uma referência ao “ter luxo e não ter limite” referencia aos cartões de crédito de luxo, carta branca, porque em geral fazem o que querem e muitas vezes apoiados pelas e pelos fãs sem o senso crítico para questionar a postura dos ídolos, e a marra de skinhead é literal rs. O mundo gira e os nossos rodam, mais uma vez pontuando a questão do racismo brasileiro, que segue sendo racista, quando Garnet diz que exceto nossos Pelés e nossos Jordan’s tem a ver com a presença das e dos negros no esporte e o “respeito” que de certa forma conquistam, enquanto estão dando alegrias pro clube do coração.  

"Cortam, esse mal pela raiz, Quando na alma usam machado de Xangô e na mente o de Assis", Kaô Cabecilê!, dentro das diversas formas de vivenciar as religiões de matriz africana, Xangô é o orixá da justiça, seu machado de duas lâminas iguais, porém voltadas para lados opostos, demonstram a qualidade de divisão entre os opostos, a própria formação da dualidade tão característica de nosso mundo e o perfeito equilíbrio dinâmico entre esses opostos. “Xangô é decididamente um Orixá guerreiro e, mais que isto, justiceiro.” por isso utilizar na alma o machado de Xangô, simbolizando o cuidar espiritual, a alma. E na mente, usar o Machado de Assis, simbolizando a importância do grande escritor negro brasileiro, considerado um dos maiores escritores brasileiros, por muitas vezes tido como branco, Machado de Assis era negro.

"Doctor MC's curaram-me do coma, Doctor Dre curou-me os sintomas, Fez as batidas do meu coração subir a toda, Quando ele parou conheci o Doutor Vivien Thomas" mencionando o grupo Doctor MC`s e a capacidade de tirar do coma, com o som e a levada da UBC, além do trocadilho com o nome do rapper Doctor Dre, Garnet menciona o Doutor Vivien Thomas, que foi o primeiro afro americano sem um doutorado a realizar a cirurgia de coração aberto em um paciente branco nos Estados Unidos, e tem sua história contada no filme Quase Deuses.

"O que nos difere é a oportunidade, O que nos difere são alguns centímetros, De usar grafite 0.7 ou uma 9 milímetros" dando o gancho pras rimas do Peqnoh a seguir, Garnet finaliza sua participação evidenciando a falta de oportunidades impostas a determinadas pessoas, associada a cor da pele principalmente, que empurra ao uso do grafite 0.7, simbolizando a escola, o estudo, a escrita, ou a 9mm, simbolizando a arma, violência e outras situações que muitas e muitos são empurrados sem escolha.



Eles queriam nos delimitar dentro das linhas que viam nos campos, Não queriam nos ver militar por linhas nossas escritas nos campus” Peqnoh começa sua parte na cypher fazendo uma crítica explícita ao modo que se enxerga o negro no Brasil, limitando as possibilidades, e colocando situações certas para pessoas negras alcançarem o “sucesso”, como por exemplo é o futebol. Robson continua fazendo um trocadilho com campus, que se refere a Universidade, dessa forma, evidencia a dualidade de um sistema que “permite” a algumas pessoas alcançar a fama, mas ao mesmo tempo limita as oportunidades e impede de se alcançar essa fama seja por qual maneira for.

“Agora falam de pretos no topo, Mas agem como quem queria ver os pretos nos troncos ... adoram a estética e odeiam a genética eu tô ligado” acredito que nessa parte, o rapper quis trazer parte do que se vivencia no chamado “embranquecimento” do rap, que nada tem a ver com cor de pele de quem faz rap, mas sim a forma como se naturaliza e se apropria de uma cultura predominantemente preta pra deslegitimar algumas coisas, por exemplo som que denuncia racismo e desigualdades, são raramente lembrados quando confrontados com sons que rimam coisas óbvias. Sendo assim, não é o Rap, a cultura Hip Hop que as pessoas estão amando, mas sim o ego, fama e dinheiro atrelado ao fazer rap. Além de obviamente o sentido literal, falar de pretos no topo, referenciando a cypher com o mesmo nome, mas difunde comentários, atitudes e ofensas racistas por aí ...

“Eu me vi quando ouvi Public Enemy "Don't believe tha hype"”, ah se todo mundo se visse quando ouvisse DON’T BELIEVE THA HYPE, ouçam o som abaixo, e acompanhem a tradução aqui. A música é uma parada mais política, assim como basicamente todas as músicas do Public Enemy, inspirada nas obras de Noam Chomsky, que era entre muitas coisas, um filósofo americano, que escreveu muitas obras com temas de guerra, política e mídia de massa. Apesar do trecho fazer todo sentido, acredito também na dupla interpretação do título, "Não acreditar no hype" hoje no rap significa ouvir música para além dos indicados em react análise rs, além do que está na chamada mídia informativa de rap e cultura que produz conteúdo dentro de um quarto de condomínio e nunca viveu a rua, não acreditar no hype hoje é mais do que manipulação midiática apenas, é um marco essencial pra manuntenção da cultura de rua.

                

"Descobrimos seus segredos de minar os nossos sonhos, mas nosso "Sorriso Negro" te assusta quando vê brilhar, Ainda temos "Voz Ativa" "E nada pode nos Parar" mantemos a "Mente Engatilhada" e é "1, 2 pra atirar" referenciando clássicos do samba e do rap nacional, Peqnoh talvez retome a ideia acima, sobre o tal hype, na minha visão como “consumidora” de rap, dificilmente se produzem clássicos atemporais como os referenciados acima, as músicas são em geral são comerciais e com uma espécie de  “obsolescência programada”.



No underground, já que o Mainstream ta igual o Crepúsculo: Branco!” autoexplicativo, mas achei importante pontuar como os versos dos artistas conversam entre si, o problema do mainstream já foi citado acima e o tratamento das mídias.


Comum, o Brasil é engraçado que nem Mussum, e esqueceu do guri do Habbib’s mas não dos 7 a 1”, Moto treta sempre faz referências aos problemas que nos atinge diretamente, nesse verso ele faz uma comparação com a chamada “tragédia” que muita gente se refere, quando o Brasil perdeu de 7 a 1 no futebol para a Alemanha na Copa, e ao mesmo tempo se esquece do assassinato do garoto João Victor, de apenas 13 anos, espancado pelo segurança do Habbib’s em Fevereiro desse ano.

Vida fora da Terra? é Fantástico … drástico memo é Africano ganhar comida de Plástico” nesse ano, além de todos os absurdos denunciados na África, como o caso da Líbia por exemplo, que geraram pouca ou quase nenhuma comoção mundial para auxílio, foram veiculadas várias fotos e vídeos sobre alimentos de plástico que estariam sendo consumidos na África.

Minha fome por vitória me faz ser super guloso, com medo de ser preso a toa e só sai tuberculoso” LIBERDADE RAFAEL BRAGA! nesse verso, Moto Treta faz a triste referência ao caso do jovem Rafael Braga, e dos vários e vários Rafaéis Bragas presos injustamente no Brasil. Rafael Braga Vieira, 28, teve mantida sua condenação a 11 anos e três meses de prisão por ter sido encontrado com 0,6 g de maconha e 9,3 g de cocaína no Complexo de Favelas da Penha, zona norte do Rio. Em setembro desse ano, Rafael conseguiu prisão domiciliar para poder tratar a tuberculose contraída na cadeia. A tuberculose é uma doença  bacteriana infecciosa e a elevada incidência de tuberculose nos presídios brasileiros é uma emergência de saúde pública e de direitos humanos que demanda ações mais efetivas de controle, tratamento e prevenção, segundo especialistas.



“Sou ''Djonga livre'', matei uns racista e depois ri, ''Racismo Reverso'' a maior piada que ja ouvi!” aqui, para finalizar a cypher, a junção de Django Livre, filme de Quentin Tarantino de 2013, que conta a história do ex-escravo Django faz uma aliança inesperada com o caçador de recompensas Schultz para caçar os criminosos mais procurados do país e resgatar sua esposa de um fazendeiro que força seus escravos a participarem de competições mortais. A substituição de Django por Djonga, se refere ao rapper que lançou um som pelo projeto Perfil, onde uma de suas rimas é “Fogo nos racista!”.  

Bom, é isso, minhas percepções como ouvinte de algumas referências utilizadas, pode não condizer com a intenção do autor. Deixem sugestões de músicas nos comentários, e críticas também.