quinta-feira, 18 de abril de 2019

#Entrevista - Marabu e sua musicalidade preta, brasileira e diaspórica.

Matheus Santos, 22 anos, que leva o nome artístico Marabu. Ele frequenta saraus e slams desde muito novo. Mas, há um ano e meio, ele começou a construir o seu primeiro trabalho no rap. A escolha do nome é por representar a etnia Fula, localizada no ocidente africano, onde hoje é a região do Mali.

Seu último lançamento, intitulado “Boa Sorte” foi lançada no dia 18 de fevereiro, sem perder a autenticidade já característica de seu trabalho, Marabu e Levi Keniata foram buscar suas referências no funk da baixada e no samba-rock, mas o resultado final não se enquadra em apenas um desses gêneros. A percussão ficou por conta de Edvan Mota (o músico também trabalhou em “Um Corpo no Mundo, da cantora Luedji Luna) já o responsável pela guitarra e engenharia de som foi Matheus Miranda.


O som de Marabu nos chamou atenção desde a primeira vez que ouvimos e resolvemos trazer um pouco deles pra vocês, confiram abaixo a troca de ideias que tivemos com ele. 

NP: Bom, primeiramente a gente quer agradecer você ter aceito a entrevista, desde que ouvi Boa Sorte, eu achei extremamente original e fiquei feliz pra trocar uma idéia com você. É meio clichê, mas sempre começamos pedindo para o convidado se apresentar. Então, quem é Marabu?

Marabu: Minha família é preta por parte de pai, do interior da Bahia, por parte de mãe é todo mundo mineiro e branco. Sou nascido e criado nas ruas do Capão Redondo e do Jardim Ângela. Acho que não sou muito mais que isso, sou minha origem, as outras coisas sempre estão mudando com o tempo, agora tô fazendo música, estudando história, dando aula no Núcleo de Consciência Negra e colaborando com a gestão da entidade, ainda tenho muita coisa pra fazer e ser.


NP: No seu texto de apresentação, tem um trecho que diz "as dualidades usuais para o ser negro no espaço urbano e branco são usadas como ferramentas para abrir novos caminhos e firmar os elos necessários na construção de identidades negras que, por diversos motivos, foram destruídas pelo racismo." O que compõe a sua identidade como homem negro?

Marabu: Essa pergunta é muito muito incrível! Mesmo! Obrigado por se dispor a fazer perguntas assim num tempo em que a maioria dos jornalistas brancos só querem colocar a gente numa caixa muito pequena em que não cabe nem metade do que a gente é como indivíduo e como coletivo. Minha identidade é composta pelas contradições de ser preto em São Paulo. É uma parada muito coletiva, muitos jovens se entendem da mesma maneira, vivem essa dualidade todo dia, mas ao mesmo tempo é muito individual, cada um lida com essas fitas de uma maneira diferente. Ser quem sou aqui é viver numa quebrada, estudar e trabalhar no centro, buscar as raízes e a ancestralidade tendo crescido na igreja que demoniza tudo isso, conviver com famílias nordestinas, famílias que já estão na metrópole faz um bom tempo, famílias brancas, muitas vezes tudo isso junto, sentir nojo da direita e odiar a desonestidade da esquerda, ser claro e ao mesmo tempo escuro. Tô tentando entender o que a diáspora se tornou hoje pra ver se eu consigo pensar em como vai ser nosso futuro, não  adianta ficar tentando buscar o fundamento da minha identidade em uma África romântica, passada, muito menos na Europa que segrega tudo o que não é branco, nada disso é sobre mim, já estou aqui há pelo menos 200 anos, as coisas estão mudando muito desde que chegamos, nosso futuro vai ser aqui, nossos filhos vão crescer aqui, e esse futuro é consequência do que somos hoje e do que pretendemos ser. A identidade tá sendo produzida a alterada o tempo todo, não é fixa, tenho transitado muito por muitos lugares. Não me sinto muito a vontade em São Paulo, a cidade foi feita pra sufocar, né? Seja no Capão Redondo, e mais ainda no centro, não dá pra me encaixar perfeitamente em lugar nenhum, mas mesmo que eu não me sinta a vontade, essa cidade e essas quebradas são minha casa, e elas são tão parte de mim tanto quanto eu sou parte delas.

NP: Falando um pouco sobre composições. Quais as influências de onde você cresceu e mora pra sua construção, e você absorve essas formações identitárias pra poder compor suas músicas? Acha que a arte pode abrir caminhos pra mudanças necessárias nos lugares de onde viemos?

Marabu: A minha cidade, minha história e, por consequência, minha identidade são fundamentais pro meu processo criativo, eu e o Levi (produtor musical) estamos sempre conversando sobre isso. Meu primeiro contato com música foi na igreja, mas também cresci no meio do funk, toca em toda festa, todo baile, todo lugar, também frequentei muito os bailes reggae da minha área, como o reggae do 3 estrelas, reggae do saldanha, capão posse etc. Minha família sempre ouviu muito forró, teve a época do axé, meu pai sempre ouviu muita música gringa, muito samba junto comigo, já que ele também é um homem preto crescido nos anos 80 e 90, que também transitou por vários lugares da cidade, ainda novo conheci o hip hop, que mudou toda a minha perspectiva de vida. Tudo isso precisa estar presente na minha música, na minha lírica, na melodia, no ritmo, senão corro o risco de perder minha autenticidade. Respondendo sua segunda pergunta, acredito que a arte é indispensável pra pensar um novo futuro pros jovens de quebrada, sem a arte nas quebradas tudo se desfaz, os diálogos morrem, as identidades são perdidas. E mais do que isso, precisamos de uma arte que seja proposta pela e para a nossa gente, nos nossos moldes, com a nossa língua, nossos ritmos, pra que a gente consiga reatar esse elo que muitas vezes me parece perdido entre as populações negras dos diversos lugares do Brasil, dos diversos movimentos culturais das quebradas, as cenas não podem ficar fechadas em si mesmas, minha mãe sempre me disse que se a pregação é só pra quem já é convertido não adianta, o Emicida já perguntava lá em 2009: “vamo falar pra quem concorda ou pra quem precisa?”.

NP: E como tem sido manter essa serenidade e essa bandeira num momento tão complicado no país, de regressões sociais, esse clima pesado e os casos de racismo te afetam enquanto artista? Tipo, faz você repensar sua arte, ou ter cuidados e inspirações?

Marabu: Serenidade num tem não, cada dia é uma merda diferente. Eu tô muito chateado com a prisão do Rennan da Penha, e mais chateado ainda por ver que os artistas do funk que aparentemente estavam próximos do Rennan não estão se posicionando claramente com relação a prisão dele, muito provavelmente por medo de prejudicarem a própria carreira. É triste, né? Nossa gente sendo morta, aprisionada, desrespeitada até quando já nem está entre nós e as pessoas pensam em promoção individual? Que carreira você vai ter se o seu público majoritário continuar sendo morto, preso e afundado na desinformação? As pessoas hoje dizem muito que a arte é sobre nós, mas não é isso que parece, tudo parece se tratar de indivíduos. Eu quero mudar minha vida com a arte, me manter contundente, criativo e plantar sementes em lugares inimagináveis, eu não posso ceder, não tem essa opção, em qualquer área em que eu for atuar. Essas questões politicas, os casos de racismo, os problemas diários que eu e meus chegados enfrentam alteram sim minha percepção como artista, acho que se tornam combustível, é necessário falar cada vez mais alto, viver em voz alta, a arte pra mim é cura, mas também é arma, ferramenta, poder. 


NP: Seu som "Boa sorte", teve referências no funk da baixada e no samba-rock, em "Negócios" também podemos perceber forte influência da percussão, entre outras coisas características da música negra. Você tem essa perspectiva "deslimitada" de só fazer música, independente de se encaixar num padrão de gênero musical? Acho importante esse movimento, porque ao menos no Rap, temos uma luta constante pra que as pessoas entendam que não existe apenas uma vertente e/ou forma de fazer rap pra que seja rap. Então é importante entender sua concepção nesse sentido.

Marabu: Acho que estamos em um momento importantíssimo pro rap e pro funk no Brasil, ambos os movimentos estão alterando as suas direções, e eu não sei se acho que boas decisões serão tomadas pelos atores principais dessas cenas. Algumas propostas que vinham dando muito certo nos últimos anos agora parecem estar se esgotando, eu tô muito ansioso pra propor novas direções e mais ainda pra acompanhar as coisas boas que surgiram de outros artistas nesse processo. Acho que tenho uma perspectiva pro futuro bem deslimitada sim, ainda quero experimentar minhas brisas musicais em muitas linguagens, mas nesse momento tô construindo meu fundamento e quero deixar ele bem fincado na música brasileira, dentre os grandes músicos brasileiros, ouço muito Jorge Ben e me sinto obrigado a assumir o trampo pesado que dá tentar mostrar o que aprendo com ele na minha musicalidade, me sinto no dever de saudar Luedji Luna, Neguinho do Kaxeta, Mateus Aleluia, PP da VS, Criolo, Daleste, enfim, todos os músicos que são importantes demais pra minha formação e que estão vivos! Isso é o mais incrível, nosso passado e nosso presente estão cheios de músicos brilhantes, vivendo entre nós, trabalhando muito perto da gente, sentindo muito do que a gente sente e produzindo obras incríveis, não posso negar isso pra ir buscar fundamento em outros países, outras histórias, que também são lindas e possuem muitos ensinamentos, mas não são nossas no sentido mais musical e afetivo mesmo. Por enquanto preciso conhecer e respeitar aqueles que vivem e viveram na minha casa, depois a gente vai vendo, o mundo é muito grande, é que não dá pra ir muito longe sem fundamento sólido.

6) NP: Musicalmente, quais são suas maiores influências e quem são seus músicos favoritos? E fora da música, o corre de alguém te inspira?

Marabu: Hoje eu tenho me inspirado muito no Kaxeta, no Jorge Ben (não sei se um dia vou largar ele), no Hariel, no PP da VS, na Juçara Marçal e no Branca Di Neve. Sempre acabo voltando pra esses músicos quando tô buscando referencias pra algumas coisas. Esses também são alguns dos meus músicos favoritos, mas tenho muito carinho pela Luedji Luna, pelo Mano Brown, pelo Bebeto, pelo Exaltasamba, pelo Criolo, Fela Kuti, Kanye West, enfim... Acho que essa lista é infinita, admiro muitas coisas em muitos músicos. Os trabalhos do Levi (Keniata, produtor) e do Matheus Miranda também são muito brilhantes e me inspiram e influenciam muito, ainda mais porque essas são os músicos que trabalham comigo.
Fora do música admiro o corre de muitas pessoas na arte e na política, algumas eu conheço mais de perto, outras eu ainda vou conhecer com certeza. Acho muito incríveis as obras do No Martins, do Maxwell Alexandre, Linoca, que tenho prazer de ter por perto, também produz coisas incríveis, tenho uma admiração infinita pela Nuna, que já é um dos nomes mais importantes do cinema atual em São Paulo, os fotógrafos Jeferson Delgado e o Felipe Cardoso estão sempre na rua fazendo coisas incríveis, enfim, tenho o prazer de ter muitas das minha referências por perto, e é só o começo.

NP: Mano, é certo dizer que os Slams e Batalhas de Rimas tem muita influência sobre essa geração de artistas.

Marabu: Certíssimo! Muita gente muito foda vai fazer dos slams um movimento cultural e político cada vez mais contundente, e acredito que muitos talentos vão sair desse movimento pra música, pras artes corporais, além disso são nesses espaços que muitas conexões fodas e que serão e são importantes pra arte vão se formar. Acredito que o mesmo ocorre nas batalhas, principalmente naquelas em que o  conhecimento é colocado a prova e as que dão muito mais espaço pras meninas rimarem.

NP: Você é cria da da Zona sul e o som "Boa Sorte" começa com um trecho do Mano Brown. Qual o nível de importância do Brown em sua carreira? E como você enxerga pessoas como ele, através da música, na construção da identidade de jovens negros da zona sul, e das periferias em geral?

Marabu: Mano Brown é referência pra todos os artistas que são das ruas do Capão Redondo, a gente cresceu vendo e ouvindo Racionais, andando nas mesmas ruas, enfrentando problemas semelhantes, o  andamento da nossa disciplina são as músicas do Racionais, principalmente. Os mais velhos que são de onde eu sou, que andaram onde eu ando, sempre vao merecer destaque e reverência da minha parte.

NP: Anuncie pra gente quais seu planos para o futuro. Podemos esperar singles, álbuns, o que planeja? Como vislumbra sua carreira? Para onde deseja apontar ela daqui pra frente?

Marabu: Atualmente eu estou trabalhando no meu segundo clipe, o clipe da faixa “Boa Sorte”, junto com pessoas fodas, como a Nuna, Andressa Oliveira (da Liga do Funk), Jeferson Delgado, Felipe Cardoso, Wellison Freire e Cauê Carvalho que tão sempre correndo comigo. Tô preparando minhas próximas apresentações, junto com a DJ Livea Soares, minha amiga e aliada. O meu primeiro disco tá sendo preparado pra sair ainda esse ano e vai traduzir musicalmente tudo isso que tenho dito aqui. Eu, o Levi Keniata e o Matheus Miranda estamos em estúdio e tudo que tem sido feito tem agradado muito a gente e a equipe toda, espero que agrade todo mundo nas rua também, o processo tá muito rico e brilhante.

NP: Por fim, deixe sua mensagem aos leitores e leitoras do NP.

Marabu: Eu quero muito agradecer pela riqueza das perguntas enviadas por vocês, me senti muito contemplado como músico e como pessoa, necessariamente. Muita coisa está por vir contra nós, muitos problemas, cada vez maiores, nas esferas individuais e coletivas, vão ser prova pra nós, precisamos ter sabedoria, organização e saúde intelectual e emocional em dia pra nos cuidarmos e nos fortalecemos. O projeto vigente no Brasil é a nossa morte e o fim da nossa história, mas nós não gostamos do projeto, a arte e a informação são umas das armas mais poderosas que temos.

O NP agradece a disposição do artista, e recomenda OUÇAM MARABU!!!!!!!!



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