terça-feira, 7 de maio de 2019

BOMBA! MF DOOM não odeia o Hip Hop, confira.


Hoje é mais um daqueles dias que eu acordo linda como sempre, e falo "vou ter um dia tranquilo", e abro a rede social pra dar de cara com postagens fazendo comentários estranhos sobre gigantes do rap, olho no link da matéria que a pessoa postou e vejo o tradicional Portal Bola Fora do Rap, óbvio.

Queria deixar explícito três coisas pra justificar a atenção que eu reservo pra passar raiva com isso. A primeira delas é que, apesar de todo mundo reclamar que a fofoca e afins tomou uma proporção maior do que a música, dentro do público vejo muitas pessoas viralizando notícias desse tipo, que acabam sendo virais pelo título e não pela matéria em si. Segundo, é que acabamos de eleger um moleque mimado, com a maturidade da terceira série, não por suas propostas, mas porque justamente a falta de propostas reais, fez a equipe e os eleitores apostarem nos títulos de matérias sensacionalistas e fake news, pra divulgar e manter seu nome da boca do povo, e deu certo. Terceiro e mais importante, eu acho tudo isso uma bosta, mas o portal tem direito de se portar assim, ainda mais tendo em vista que existe público pra isso. Então, esse posicionamento e stress, não é pra xingar o portal, e nem nada do tipo, mas sim pra convidar você leitor e se enxergar nesse meio de campo, e se você entende a dimensão que os portais de Rap tem na manutenção da cultura dentro da sociedade da informação em que vivemos, porra, leiam as coisas que consomem com mais criticidade! Da última vez que gente que não se importa com o Hip Hop jogou qualquer coisa pra vocês abraçarem, elegeram um álbum do ano que tinha tudo, menos "rap". 


Outra coisa que tange sobre a desonestidade, uma busca rápida sobre o nome "mf doom" na caixa de busca do tal site, encontrei 4 matérias. Uma sobre o post do Doom sobre o filho dele que faleceu em 2017, uma sobre o enredo de um clipe do Kanye, onde MF Doom assassina Kanye West, uma sobre uma declaração onde Doom diz que tem alguns álbuns prontos com Madlib. E a trágica matéria que vimos hoje, onde a frase "Escrevo rimas apenas para conseguir dinheiro" é tirada do contexto e numa matéria porcamente traduzida e não revisada, o site pega um dos maiores nomes do rap underground e traz pro público brasileiro, e pra que não o conhece, como se ele fosse um zé bunda sem noção que trata o Hip Hop como um lixo. E óbvio que isso me incomodou, então retomei a entrevista original e trouxe de maneira integral pra que possamos analisar novamente. O problema e incômodo maior, não é a questão de ser mal traduzida, porque ninguém é obrigado a saber inglês, eu mesmo não sei nada. Mas o carinho básico de revisar um texto pro seu leitor/leitora e não criar polêmica onde não existe.

Antes de começar a ler a entrevista de Daniel Dumile, o MF DOOM queria pontuar que essa entrevista foi feita por Will Gottsegen, e publicada no site Spin, você pode conferir a matéria original aqui, e a partir daqui até o marcador final, tudo é conteúdo da entrevista original, com ajuda do nosso espetacular Google Tradutor, tem muita coisa que talvez esteja mal colocada, mas achei importante trazer a frase no seu contexto integral. 

Madlib e MF DOOM /Foto: Jimmy Mould
15 anos de Madvillainy: MF Doom fala sobre o legado de sua colaboração clássica com Madlib.

Em meados dos anos 90, Daniel Dumile se tornou "villain". Como parte do trio K.M.D., o precursor wordsmith (não existe uma tradução literal pra palavra, mas é a habilidade fora do comum com as palavras, inclusive existe esse artigo da NPR, que traz um infográfico com os rappers que tem mais vocabulário), passou a primeira parte da década como Zev Love X, gravando discos com seu irmão Subroc e um amigo deles de Long Beach, que se chamava Onyx the Birthstone Kid. Após a morte repentina da Subroc em 1993, a K.M.D foi retirada da gravadora e Dumile deu um tempo de música. Durante esse hiato de cinco anos, ele começou a se chamar de MF Doom, escrevendo rimas e tocando em noites de microfone aberto no lendário Nuyorican Poets Café de Manhattan. Logo no início, ele experimentou se disfarçar usando bandanas e bonés, e por fim ele colocou a tradicional máscara.

Nem todo mundo entendeu o rapper com o metal cobrindo seu rosto, apesar de sua lírica afiada. A crítica esmagadora do álbum Operation: Doomsday, estréia solo de Dumile em 1999, chamava o álbum de um “exercício de terapia musical”. Ele parecia estar no caminho certo. Suas rimas eram gigantes e notáveis, verdadeiramente um complexo jogo de palavras num flow monótono que se tornaria sua assinatura. Em 2002, a Stones Throw Records convocou-o para Los Angeles, onde Madlib - um produtor extraordinariamente talentoso com diversos samples obscuros para presentear o rapper - estava pronto para abandonar todos os projetos em seu currículo para uma possível colaboração com Doom.

Das maratonas de gravação, uma nova persona nasceu no híbrido do produtor e MC: Madvillain (junção de Madlib e "villain"). Os meses que Doom e Madlib passaram juntos no complexo Stones Throw resultaram em um período brusco de criatividade: Madlib fazendo batidas, Doom na varanda escrevendo rimas. O álbum que eles criaram é sombrio, sem censuras e algumas vezes engraçado - o som de dois eficazes profissionais, andando juntos o dia todo, disparando letras e trocando ideias. Quinze anos após seu lançamento em março de 2004, Madvillainy é um clássico do rap underground. Sua influência pode ser ouvida em uma nova geração de rappers como Earl Sweatshirt e MIKE, e podemos deslumbrá-los sem parecer que nos levantamos do divã no qual estávamos ouvindo Madvillainy.

Para marcar o 15º aniversário do lançamento de Madvillainy em 23 de março de 2004, a SPIN falou com Doom sobre o legado do álbum e suas memórias sobre ele - a primeira entrevista em quase uma década em que o rapper falou longamente sobre sua colaboração Madlib. Por telefone, ele não banca seu status de lenda, ele é engraçado e surpreendentemente aberto para um cara que passou a maior parte de sua carreira atrás de uma máscara. Ele se lembra do período de fazer Madvillainy como se fosse um período agitado e marcante. Ele ainda diz que ele e Madlib têm vários materiais que gravaram desde então, que ele espera lançar algum dia. E também fala de forma emocionante sobre seu filho Malachi Dumile, que nasceu quando Doom e Madlib estavam fazendo Madvillainy, e morreu aos 14 anos em 2017.
Foto por: Mr. Mass

A entrevista a seguir foi editada e condensada para melhor compreensão.


Existem momentos particulares no estúdio, gravando Madvillainy, que marcaram você?

Quando dizemos “estúdio”, quero que as pessoas tenham uma ideia correta do que foi. Não foi tão restrito quanto as pessoas podem pensar, uma sala com uma mesa de mixagem e engenharia de som. Era algo mais natural que isso. Veja, nós dois somos produtores. Nós dois temos o conjunto de equipamentos que usamos. E Madlib tinha tambores e todo tipo de coisa no deck. Nós estávamos em uma casa grande, e poderíamos estar em qualquer lugar da casa fazendo o que fizemos.

Eu acho que a terceira música que eu fiz foi a "America's Most Blunted". Eu estava escrevendo no deck de trás, num dia ensolarado, eu com vista para o Hollywood Hills, você sabe como é L.A. E todos estavam lá fora. Eles tinham o que eles chamavam de "bubble gum" na época, mas acho que agora eles chamam de "superman" ou algo assim. Você sabe como eles chamam isso? "Sour diesel". É a mesma variedade, eu acho, mas eles mudaram o nome. Foi depois da Sour Diesel, um trago dessa merda, e eu escrevi essa música. (*bubble gum, superman e sour diesel são variedades de cannabis).

Havia também uma sala que costumávamos chamar de abrigo anti-bombas. Não havia janelas lá. Era como um verdadeiro abrigo anti-bombas, como se algo lá fora desse errado, nós poderíamos estar lá embaixo e ficaríamos bem. Era lá que tínhamos alguns equipamentos de gravação, onde podíamos gravar. Nós só íamos lá quando era hora de gravar. Durante o resto do tempo, estava escrevendo, e ouvindo beats. A casa inteira era o estúdio.



Que tipos de beats estavam na sua cabeça na época? Você teve algum tipo de ideia para o álbum?
Eu não tinha idéia dos sons do álbum até ouvir os beats. Então a música é o que impulsionou a ideia. Otis [Madlib] me deu fitas de beat e CDs, juntando tudo tinha uns 50 beats lá. Alguns deles tinham dois minutos de duração, alguns deles tinham um minuto de duração, mas havia um monte deles. Um em cada quatro, em média, se destacava para mim.

Tão rápido quanto eu tinha idéias, ele tinha mais beats para eu ouvir. Enquanto estava escrevendo, ele estava na outra sala terminando mais instrumentais. Quando eu chegava com mais algumas letras, eu ficava tipo, “Você tem outro CD?”, e ele tinha feito outro CD, com outros beats. Eu ouvi outros 50, e isso me levou por dois ou três dias. Apenas ouvindo, indo e voltando e sentindo, e depois, pow! Até então, eu tinha quatro músicas. Quatro ou cinco dos 50 primeiros beats. Então, a cada 50 beats que ele me deu, eu consegui cinco músicas.

Otis tinha o arranjo e a produção já feitas, então eu não mudava nada quando ele me dava o beat. Ele me dava a música já feita e eu escrevia a letra. Mesmo os refrões, os cortes e os samples já estavam todos lá. "America's Most Blunted" já tinha o sample, então eu tive que escrever uma música em torno do refrão já existente, e mesmo assim sinto que foi bom. Foi um desafio trabalhar com algo já existente e fazer algo natural.

Na verdade, quando eu ouço a batida nos primeiros segundos, já estou tendo uma ideia. Então, eu não sabia até que o álbum estivesse pronto, como deveria soar as músicas. Eu não estava nem escolhendo como iria soar. O beat quem estava levando.

O beat faz parte do trabalho para você?
Depende de como você analisa, eu faço o trabalho pelo beat ou o beat faz o trabalho para mim. De qualquer maneira, ele quem está guiando. A música que guia, e eu chego com a ideia depois que ouço o que a música está me dizendo. Eu não invento a ideia primeiro.

O que mais vocês estavam fazendo naquela casa além de fazer música? Você estava lendo, assistindo filmes, saindo?
Algumas vezes saí com Otis. Na maioria das vezes eu não saía, então as vezes que saí foi memorável. Nós íamos ao clube e ouvíamos música, basicamente. Otis é popular, as pessoas conhecem seu rosto. Eu não tenho esses problemas, os filhos da puta não me conhecem. E às vezes, quando as pessoas conhecem seu rosto desse jeito, elas podem trazer problemas que podem ser do tipo, "Yo, esse nego está com a minha garota!", ou algo do tipo ciumento e outras merdas assim. 

Como você ouve o álbum hoje, depois de 15 anos?
Quinze anos, é isso que estamos fazendo? Como? Quando, hoje ou amanhã?

Este fim de semana.
Uh! Caramba, o tempo voa, e eu preciso tirar um dia de folga. Então, a questão é como a música me mudou ou como me sinto ouvindo?

Como você acha que o disco "envelheceu"? Você ouve diferente agora?
Parece que acabei de fazer essa porra, eu faria o mesmo agora se você me desse os mesmos beats. A maneira como eu ouço - eu não ouço isso o tempo todo, mas talvez a cada dois anos eu vou ouvir, ou me deparar com um instrumental ou algo assim- traz de volta todas as letras para mim.

Você tem uma faixa favorita no disco?
Eu não posso escolher apenas uma. Todo o trabalho para mim é importante, então é difícil dividir assim. "Rhinestone Cowboy" é um bom final, mas o fato de ser um bom final é baseado em tudo o que vem antes. Então eu posso dizer que "Rhinestone Cowboy" é a minha favorita, mas se "Figaro" não estivesse lá, o álbum não seria construído da mesma maneira.



Você tem esse flow muito técnico que funciona muito bem com a produção de Madlib. O foco está sempre em metáforas pesadas e em jogos de palavras realmente técnicos. O que você pensa sobre essa técnica?

Você pode me exemplificar com uma música, quando você diz um estilo de rima pesado?


“That’s why he bring his own needles, and get more cheese than Doritos, Cheetos, or Fritos.”
Referências? Metáforas? Referências cruzadas? Duplo sentido? Tem tudo aí. É isso que você quer dizer?

Sim, muita técnica.
Bem, veja como uma piada complexa onde você tem várias maneiras de interpretar. Você precisa de um esforço extra para usar uma técnica como essa em sua escrita. Por exemplo, quando você está olhando para a qualidade do jogo de palavras, está vendo quantas palavras são repetidas nos compassos? Quantas sílabas você pode usar? De certa forma, você precisa ter uma contagem de pontos pelas palavras. Você sabe como no Scrabble, você tem várias articulações de palavras, e tem uma maneira de obter pontos com base nas palavras e como elas se correlacionam e se formam no quadro, certo? É semelhante a pensar em ganhar pontos assim, se você realmente quiser elevar o nível.
(*Scrabble é um jogo de tabuleiro em que procuram marcar pontos formando palavras interligadas).

Resultado de imagem para Scrabble

O que eu olho é a qualidade da palavra que rima: foneticamente, ou seja, como o tom soa na pronúncia da palavra. Independentemente do idioma, você pode ser fluente e falar espanhol, árabe, qualquer coisa. Você pode usar uma palavra árabe para rimar com uma palavra em espanhol e ter uma gíria em inglês entre elas. Enquanto a própria palavra rimar, você ainda ganha pontos por essa palavra. E a referência é outra maneira de pontuar. Quantas referências você pode cruzar e ainda permanecer coerente? E ainda rimar? Quanto mais complexo é o assunto e o jogo de palavras, é aí que você ganha seus pontos.

Eu sou um rimador, então eu vou por pontos. Eu não vou estar falando merda sobre o próximo, ou se gabando das coisas que eu tenho. Eu falo besteira, eu falo sobre coisas que eu não tenho, ou coisas pelas quais eu estou me esforçando. Digamos que você está falando de um ponto de vista em que está falando sozinho, talvez de mau humor. As pessoas podem sentir o que você está dizendo? Eles podem ouvir o que você está dizendo? Você pronuncia bem? Talvez você tenha propositadamente um pouco de desleixo com a pronúncia mas com a intenção de mostrar algo. Você pode trazer o assunto, a coerência e ainda obter os pontos darima? É como ginástica no papel.

Há algo que você mudaria no disco?
Não, eu não posso mudar nada. É perfeito como fizemos. Lembro-me de quando estávamos fazendo, lembro dos dias e das coisas que estavam acontecendo. Como quando eu estava ouvindo um beat num domingo chuvoso e estava um pouco molhado o chão. Estava tudo muito tranquilo, para que pudéssemos nos concentrar e pensar. Para mim, se eu dissesse: "Ah, eu mudaria isso agora", é como se eu mudasse parte do dia. Se você tivesse um dia em que você tivesse batido com o dedo do pé, e que depois você conheceu uma garota especial. Se você não tivesse batido o dedo, talvez não tivesse conhecido aquela garota. Entende o que eu quero dizer? Eu não mudaria nada, foi perfeito, foi do jeito que o dia foi. Eu teria ouvido o beat a mesma quantidade de vezes, eu teria escrito exatamente a mesma coisa. Eu não mudaria nada sobre o disco, assim como eu não mudaria nada sobre quando o sol nasce e quando se põe.

Seu filho Malachi, nasceu nessa época, antes do álbum ser lançado. Você associa essa época a ele?
Sim, definitivamente. Muitas boas lembranças.

Ele nasceu em 2003? Então ele tinha um ano de idade quando o álbum saiu?
Sim. Esteja certo que o nome dele estava lá, e que eu brindei por ele. "King Malachi", o melhor menino que eu poderia imaginar ter. Ele era um rei de fato!

O que você lembra sobre seu relacionamento com ele nessa época?
Ele nasceu, e eu tive a chance de estar lá quando ele nasceu. Então eu fui para L.A para gravar, por uns meses. Quando se tem o primeiro filho, você percebe que eles são realmente muito pequenos. Você pode segurá-lo, mas você não pode fazer nada. Quando voltei, ele estava um pouco maior, mas ele ainda não estava andando. Seus primeiros passos e tudo mais vieram depois do disco, e nós tivemos a chance de ouvir o disco por um tempo. Ele era um bebê, mas ele era grandão. Ele sempre foi um menino grande, sabe o que estou dizendo? Eu poderia dizer que ele era forte.

Você tocava sua música para ele?
Não, eu ia para o trabalho e fazia o trabalho. Eu sinceramente não faço música em casa. Nós ouvimos música, mas eu faço isso pra conseguir grana. Eu escrevo rimas para conseguir grana. Além disso, eu não ouço Hip Hop. Eu ouço jazz, instrumentais e coisas assim. Eu só faço isso pelo simples fato dos pontos por rima, o jogo de pontos que mencionei. Parece ser uma coisa lucrativa nos dias de hoje, e apesar de ninguém mais estar realmente prestando atenção nisso, você pode fazer seus pontos, e se ninguém mais puder fazer isso, você pode obter alguma vantagem nisso, porque você é o único a fazer isso. 

Eu não sabia que ia ser uma coisa tão popular. É algo que costumávamos fazer por hobby, para manter a mente atualizada. Jogos de palavras! Você pode estar andando na rua, brincando com as palavras em sua mente, então você as joga de um lado para o outro, e as palavras que rimam chegam até você. É algo que fizemos como hobby, como prática de pensamentos, exercícios cerebrais. Pesquisas de palavras e coisas assim, estudando idiomas diferentes e a etimologia das palavras. Apenas uma prática para manter a mente afiada, é assim que costumávamos ver as rimas. Mas então se tornou algo - se você coloca isso na música, de uma maneira rítmica, e você sabe como mostrar o assunto, então você pode transformá-lo em algo que é realmente lucrativo. Eu sou abençoado por fazer parte dessa coisa toda, dessa experiência chamada Hip Hop.

Você compartilhou essa mentalidade com seu filho? Ele rimava e tentava manter a mente afiada da mesma maneira?
Ele nunca gostou desse tipo de música. Mas ele era um cara das palavras. Todas as manhãs ele escrevia seus sonhos e isso o mantinha escrevendo. Ele trabalhou em um livro de contos, e ele estava prestes a colocar tudo em ordem para poder publicá-lo. Ele era jovem escritor. Ainda estou muito orgulhoso dele. E eu definitivamente vou garantir que o livro seja publicado e suas ideias saiam pro mundo. Certa vez, eu disse: “Ei, você deveria escrever uma história para ler para as suas irmãs”. Em dez minutos, ele fez uma história, um assunto, um final maravilhoso para a história, tudo, e foi algo a mais, fora da mente dele. Eu fiquei tipo, "Você escreveu isso? Como você fez isso?".

Então, dessa forma, ele era um wordsmith. A maçã não cai muito longe da árvore, como dizem. Ele sempre foi um jovem bem articulado. Eloquente com as palavras, como ele dizia as coisas, como seu comportamento e coisas assim. Ele nunca foi um cara relaxado. Nunca dei bronca nesse sentido. Eu nunca o ouvi dizer uma gíria. Eu tentei fazê-lo xingar uma vez, tipo: “O cara só fala merda, mano, você pode xingar, você não vai ter problemas!” E ele estava tipo “Não, eu não vou fazer isso".


Você teve vários personagens diferentes ao longo dos anos. Como Madvillain - você e Otis combinados - se encaixa no que ultrapassa o Doom. Qual é o papel dele?
Toda a personalidade e ideia do Doom é como se eu estivesse pensando em minha mente, e não estivesse falando com ninguém. Você está ouvindo meus pensamentos e o que eu estou pensando quando estou andando, meus pensamentos aleatórios, como se você estivesse na mente do escritor. Agora em Madvillain, a abordagem que tomei é como se eu estivesse falando com Otis. Tipo, "Hey, dê uma olhada, ha ha", fazendo piadas com alguém, como se eu estivesse falando com alguém em voz alta. Então essa é a diferença. Isso é o que eu fiz para diferenciar o reino Doom, que é um reino pensado, de Madvillain, que é mais como um reino externo, vivenciado fisicamente.

Do que você ouviu de rap recentemente, você conseguiu ouvir você e Madlib? Por exemplo, Earl Sweatshirt lançou um álbum no ano passado, e muitas pessoas notaram algumas semelhanças entre ele e Madvilliainy. Você ouviu?
Não, eu não ouvi. Mas é um elogio para nós, se alguém disser que soa semelhante. Eu vejo como isso pode ter influenciado muitos desses artistas. Eu não ouvi nada que soa como nós, mas eu vejo como eles podem ter sido influenciados por nós, baseado no fato de que nós estávamos "Vamos sentar lá, e o que você pensar, vamos fazer". Nossas coisas eram roteirizadas assim. O que quer que vinha à mente, fazíamos, registrávamos. Sabíamos o que estávamos dizendo, como nos sentíamos. Cada música era única, baseada no fato de que eu escolhi a escrita baseada no instrumental. Cada instrumental foi diferente, então cada música foi diferente.

Alguém pode até não usar um beat de Otis, mas eles podem estar usando a mesma forma de criar: “Ei, quando você ouvir uma batida, escreva o que quer que seja que você vai escrever, põe pra fora essa merda”. A espontaneidade é o que trouxe Madvillain para fora. Então, eu acho que as pessoas talvez estejam ouvindo rap  de uma forma instantânea, ao invés de uma música pré escrita, que você tenha pirado cantando, que você memorizou, que você andou de um lado para o outro no estúdio. Quando eu fiz o disco, escrevi a música e disse a rima ali mesmo. Tudo foi baseado em: "O que eu queria dizer naquele dia, com aquela batida?". Não foi pré-formatado. 

Você estava envolvido em Madvillainy 2 em 2008, o disco de remix? Você assinou ele?
Eu estava envolvido na medida em que me perguntavam se estava tudo bem em usar minha voz para remixá-la. E eu estava tipo "Sim, ok". Eu não estava envolvido na gravação dele. E eles tocaram para mim as versões finalizadas para aprovação, e eu estava tipo, "OK, aprovado". Isso foi mais como um álbum de remixes, mas foi marcado como Madvillainy 2, que é ... é legal, eu acho. Mas desde então, gravamos muito mais coisas. Há algumas coisas que poderíamos lançar como álbuns inteiros. Estou apenas procurando o momento certo. É difícil escolher um momento certo, no que diz respeito a produção e aos negócios. Assim que tudo estiver encaminhado, as pessoas ouvirão mais. É uma tonelada de coisas que nós temos.

Então, nos últimos 15 anos, você colaborou com Madlib, mas não se sentou em uma casa com ele da mesma maneira que em Madvillainy?
Nós fizemos isso mais duas vezes, bons momentos. Eu estava lá durante todo o verão. Nós gravamos um monte de coisas. Eu usei a mesma técnica. Eu recebia os beats de Otis e escrevia para os beats. Eu não mudei nada quanto a isso. Eu deixei ele ser o produtor e eu era o MC. Eu fiz da mesma maneira, onde o primeiro pensamento era - faça uma breve sintaxe e diga seu primeiro pensamento. Garanta que o seu jogo de palavras está bem feito. 
Bem, qualquer um dos trabalhos poderiam ter sido feitos ao mesmo tempo - se você os ouvisse, pareceria que ambos são permutáveis. Todos os trabalhos tem sensação de serem uma coisa conjunta.

Quando foi que você saiu para ir trabalhar com Otis?
Não me lembro em que ano foi. Eu não estava prestando atenção em que ano era. Eu não tinha nada para fazer. Eu estava sem planos.

Aqui acaba a entrevista de Will Gottsegen.

Bom, de forma geral, achei importante pontuar a entrevista inteira, já que o site que mencionei, publicou "Enquanto a entrevista estava cheia de histórias de bastidores, uma resposta do rapper acabou se destacando", e apesar de alterarem o texto depois, colocaram que mesmo depois dessa grande troca de ideias e informações dos bastidores de Madvillainy uma frase fora de contexto que importava mais.

Conheçam os legados, conheçam as contribuições, conheçam minimamente o que cada pessoa tem a dizer. Não viralizem polêmicas inexistentes, não viralizem o que não agrega ao Hip Hop.

Sem mais.

Nenhum comentário:

Postar um comentário