quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Rapper Vinicius Terra lançara o álbum "Manifesto à Descolonização da Palavra Lusofonia"

Foto: Alex Costa Jamal

Obra, que será lançada em 13 setembro, traz 10 faixas inéditas com a participação de artistas expoentes de África, Portugal e Brasil.

Com o objetivo de reconectar a história da língua portuguesa sob a ótica da cultura hip-hop, o rapper carioca, Vinicius Terra, lança dia 13 de setembro, nas principais plataformas digitais, seu primeiro disco autoral com uma consciência de desconstrução e, ao mesmo tempo, de pertencimento lusófono. “Elxs Ñ Sabem A Minha Língua {...}” é um grande manifesto à descolonização da palavra lusofonia em nosso tempo, unindo por intermédio da música países distantes, separados por oceanos, porém conectados pelo mesmo idioma.

A obra é o resultado de mais de uma década de pesquisa dedicada ao rap e à língua portuguesa. Em suas 10 faixas, Vinicius passeia pela história desde a travessia do Atlântico rumo aos períodos dos descobrimentos e de colonização até os dias atuais, defendendo que não há lusofonia sem o Brasil e os países de África cujo idioma oficial ainda é o português. No álbum, divide e dá voz com diversos artistas em destaque no novo cenário musical lusófono – como Dino D’Santiago, Selma Uamusse, Mynda Guevara, Keso, Karyna Gomes, entre outros.

Vinicius Terra é considerado uma figura singular e pioneira por promover intensamente a construção e o fortalecimento dos laços entre os países e territórios lusófonos pelo mundo. É dele a autoria do rap “Versos que atravessam o Atlântico”, considerado o primeiro registro lusófono unindo África, Brasil e Portugal, que acumula mais de cinco milhões de streamings/views em diversos canais e plataformas digitais. A canção foi gravada em 2013, durante a primeira edição do festival “Terra do Rap”, também criado por Vinicius, que desde então acontece anualmente com o objetivo de lançar e conectar artistas de língua portuguesa.

A partir daí, Vinicius cria o conceito de Rap Lusófono, ou seja, a percepção de que a oralidade, a poesia das ruas produzidas em periferias urbanas como Luanda, Maputo, Lisboa ou Rio de Janeiro só existe graças à língua. Ao mesmo tempo, também começa a apontar outros caminhos, o que ele vem chamando de “Nova Lusofonia”, quando as ex-colônias começam a dialogar, criando novas formas estéticas, sem precisar da chancela lusitana: “Acredito que hoje os países, outrora colônias, influenciam muito mais a cultura portuguesa do que Portugal em si, daí há a urgência em descolonizar o termo lusofonia como algo ditado pela ‘descobridora’”, explica.

Segundo Terra, essa nova lusofonia está representada por nomes como do caboverdiano, Dino D’Santiago que em “Elxs Ñ Sabem A Minha Língua {...}” divide com ele a faixa, “O Cafuso”, faixa onde é narrado o encontro do indígena escravizado com o africano levado à força para nosso país. Dino esteve no Brasil em julho, a convite de Vinicius na programação musical do palco da EDP Brasil durante a FLIP, em Paraty-RJ – no mesmo palco estiveram este ano sob a curadoria do rapper a cantora Adriana Calcanhotto e o escritor e dj angolano Kalaf Epalanga, autor do recém-lançado “Também os brancos sabem dançar”.

Outro nome importante é a moçambicana Selma Uamusse, que participa na música, “Os Invisíveis”, e que, segundo Vinicius, traz um dos versos mais emblemáticos do álbum sobre a confusão do Atlântico; aquilo que se perdeu durante a travessia : e o que foi tragado na travessia do oceano?/ É uma certeza que afunda/Dúvida ancestral confusa, profunda. De Guiné-Bissau, a cantora Karyna Gomes, presente em “Guetos 2.0”, onde o artista se pergunta: que gueto é esse desta nova lusofonia?

Já em “{...}Nasce Um Novo Dia”, considerada a mais rap do álbum, Vinicius faz um recorte sentimental do Rio de Janeiro e d’O Porto, as duas cidades onde morou. “É a primeira cypher lusófona já feita. Foi gravada em 2016 (também durante uma edição de seu festival), com a colaboração dos cariocas Akira Presidente, Gustavo CHS, Goribeatzz e os portuenses Maze DLM, Keso e Denise. Todos os nomes dessa que considero a nova lusofonia”, comenta.

Seguindo uma linha temporal, o álbum narra toda a história da língua portuguesa sob a ótica do rap desde o trovadorismo do século XII até o hip-hop lusófono do século XXI, tendo a travessia como grande mote: aquilo que chegou ao Brasil e nos transformou; aquilo que também se perdeu na confusão do Atlântico e precisa ser retomado/remontado. A faixa de abertura, “Máscaras de Azulejo”, é um fado pós-moderno que resgata essa viagem e a invenção do Brasil através da ótica feminina e conta com a participação da dupla portuguesa, “Lavoisier”, formada por Patrícia Relvas (vocal) e Roberto Afonso (guitarra). Em resposta, “Vidas em Português” faz uma ode ao filme “Língua: Vidas em Português”, do diretor Victor Lopes, dessa vez, buscando refletir quem é essa mulher lusófona hoje na solidão das grandes metrópoles, onde defende que a cada dia o mundo perde suas cores, dando lugar ao cinza como predominância de angústia.

“Elxs Ñ Sabem A Minha Língua” (faixa 3, que dá título ao álbum) sintetiza tanto musicalmente em termos estéticos de sua construção, quanto na poética a proposta do álbum: “é um brasileiro, nascido na Baixada Fluminense e cria da Pavuna, chamando pra responsa outros territórios periféricos, para dizer que a língua é nossa, das ruas, por isso ela está viva!”, refere-se às participações especiais de Dexter Oitavo Anjo (do emblemático grupo de rap 509-E, de São Paulo), Azagaia (Moçambique) e Mynda Guevara (caboverdiana radicada em Portugal). A música foge completamente dos padrões ditados pelas rádios e plataformas streaming: são aproximadamente 6 minutos entre as estéticas do trap, do jazz-rap e spoken Word misturados a samples de entrevistas nos últimos anos, nos dois lados do Atlântico, onde Vinicius defende os rappers como trovadores do século XXI.

Exatamente, no meio do caminho está “Morabeza” (faixa 5, a única love song do disco), que significa amável, agradável, um estado de ser caboverdiano, em diálogo com a poética bossanovista e o sentimento lusitano, a saudade. A faixa 10, “Adamastor”, última do álbum é também o fim da epopeia. O título é uma referência direta ao personagem da obra “Os Lusíadas”, de Luís de Camões. Nela, Vinicius aborda a questão da pós-verdade e das fake news. “A música fala da minha missão como ponto de conexão entre esses mundos separados por oceanos e, assim como na travessia para as Índias, Adamastor é o grande vilão a ser vencido. Ele retornou para atrapalhar nossas (re)conexões, portanto, fogo no retrocesso”, diz, também em referência à capa do disco, onde há uma réplica da estátua do Adamastor em chamas, produzida inspirada na monstruosa alegoria imaginada por Camões, instalada desde 1927 no Miradouro de Santa Catarina, na capital portuguesa Lisboa.

Em seus 40 minutos, “Elxs Ñ Sabem A Minha Língua {...}” transporta o ouvinte à história da língua portuguesa misturada à estética das ruas e periferias urbanas de nosso idioma, unindo anseios, mazelas, reparações históricas, sonhos e necessidades que atravessam os mares e nos aproxima uns dos outros, em cada ponta lusófona, seja no Rio de Janeiro, em Lisboa, em Luanda ou em Maputo. Gravado e produzido num home studio no Morro do Fallet (bairro do Catumbi), entre 2017 e 2019, o local era a base de recepção das diversas vozes das participações que vinham igualmente de estúdios caseiros em periferias urbanas de diversos territórios lusófonos espalhados entre Brasil, Portugal e o continente africano.

Toda a construção do álbum foi em parceria com o jovem músico e produtor baiano, radicado no Rio de Janeiro, Gabriel Marinho (sobrinho do saudoso Luiz Melodia); em suas produções o hip-hop brasileiro e a música afro-contemporânea são estéticas que Marinho usa como fonte. Em sua recente trajetória na música, uma das mais relevantes colaborações foi com a cantora Angelique Kidjo (Benin). O álbum é distribuído pela Mondé – selo independente responsável por lançar no mercado fonográfico nomes como Raffa Moreira e BK'.

Segundo Terra, o disco é um manifesto pra posteridade e que deve servir de referência “tanto para quem estuda o conceito de lusofonia ou mesmo para quem a desconhece, sobretudo no Brasil, onde somos a superpotência da língua. Mergulhei em pesquisas por anos, em busca de uma consciência poética, lírica que não fosse acariocada, muito menos abrasileirada ou com estereótipos africanos ou indígenas. O rap é o fio condutor, o lugar de fala, mas, sempre dialogando com outros estilos”, revela. No álbum, o resumo desse manifesto está na canção-poema “Pra Lusofonia {...}”, cujos versos nos guiam em forma de mapa deste povo lusófono, que vai muito além da língua. “Muita coisa aconteceu até me perceber lusófono. E só me percebo ao final dessa obra, ou melhor, uma espécie de outro lusíada; um novo lusófono a descolonizar tudo aquilo que mais nos distancia de nossa língua do que nos conecta”, conclui.






“ELXS NÃO SABEM MINHA LÍNGUA {...}” – FAIXA A FAIXA & PARTICIPAÇÕES

1. Máscaras de Azulejo – conta a história da travessia e a invenção do Brasil a partir das mulheres. Nela, o autor encara a lusofonia como a representação da letra A, a primeira do alfabeto, defendendo a palavra usando o recurso do “eu-lírico feminino”. Um fado pós-moderno com a participação da dupla portuguesa Lavoisier.

2. O Cafuso – mantém o recorte histórico da travessia e da invenção de um Brasil fruto da escravidão. Na canção, é narrada a chegada dos africanos iminentes à escravidão em encontro com o nativo da terra (o indígena) já escravizado. Mar e terra se encontram: “é mais lama do que se pensa”. Há uma série de citações de palavras que fazem parte do vocabulário brasileiro, mas que pertencem às matrizes tupy e afro. Conta com a participação de Dino D’Santiago, com cantos de lamento em criolo caboverdiano.

3. Eles Não Sabem A Minha Língua – música-título do álbum, feita do rap para o rap. A mais longa, com aproximadamente 6 minutos de duração. Une três estilos musicais sustentados pelo hip-hop: trap, jazz rap e spoken word, unido a samples de entrevistas que o rapper cedeu ao longo dos últimos anos sobre sua “missão lusófona”. Nesta construção Vinicius aponta um caminho estético para a música rap e, ao mesmo tempo, utiliza da poética mais crua para introduzir a urgência de um pensamento geopolítico lusófono. “A língua é uma cigana que deitou-se com o favelado”, rima o autor. Participações de Dexter Oitavo Anjo (do emblemático 509-E), do moçambicano Azagaia e da jovem luso-caboverdiana Mynda Guevara.

4. Vidas em Português – uma ode ao filme “Língua”, de Victor Lopes. Uma música que surpreende pela simplicidade instrumental (piano e programações eletrônicas), com Vinicius assumindo novamente a mulher como autora. O autor usa cenários portugueses,

porém, ambientados na cidade do Rio de Janeiro. A canção fecha o que o rapper considera o Brasil inventado pela travessia e pela língua. Um país em que todos estão cansados, onde “nada é mais preto e branco, o mundo é cinza”.

5. Morabeza – termo originário de Cabo Verde, que significa gentileza, amabilidade (e muito se confunde à palavra saudade por outros lusófonos, por ser um termo único e pertencente à língua portuguesa). A única love song do álbum, cumprindo mais uma vez uma consciência das raízes na poética do rap. Entretanto, a temática ainda é inédita no gênero rap, por se tratar da história de um amor maduro, daqueles que venceram fronteiras. Os encontros amorosos são apontados em pontes aéreas e em regiões lusófonas quentes, como Algarve e Salvador. Esteticamente África é o continente para onde aponta o álbum a partir desta faixa.

6. Guetos 2.0 – é a África como protagonista de uma lusofonia potente, apontadora de caminhos. Após a tensão e reflexão à consciência de reparação nas primeiras faixas, esta canção funciona como uma espécie de oásis aos ouvidos e à consciência. Há uma experiência estética de alegria, certeza de que a conexão será o melhor para a nossa nova língua como uma grande potência cultural e social. Participação da cantora Karyna Gomes (Guiné-Bissau).

7. Pra Lusofonia {...} – o grande manifesto. Um pertencimento lusófono aonde Vinicius vai e volta às origens. É um poema. Composto com palavras que não são muito usadas no português brasileiro, mas inseridas no contexto dos versos. Encerra esta faixa clamando à Portugal para que emprestem a ele, do outro lado do Atlântico vermelhos cravos/ pra silenciar os canos/ que calam os meus em Costa Barros – em referência às chacinas que acontecem de maneira corriqueira e muitas vezes silenciosa nas periferias urbanas.

8. {...} Nasce Um Novo Dia – é um recorte sentimental que faz a conexão entre Rio de Janeiro e O Porto, as duas cidades onde Vinicius morou e construiu o conceito “Rap Lusófono”. A primeira cypher lusófona, reunindo artistas pra falar sobre o mesmo tema. Tem raízes do trap e boombap. Considerada a mais rap do disco, com participações dos brasileiros (Rio de Janeiro) Akira Presidente, Gustavo CHS, Goribeatzz e os portugueses (O Porto) Maze DLM, Keso e Denise. Faixa onde reforça a urgência de união e fim das mazelas neste século.

9. Os Invisíveis – como se fosse a carta escrita por uma pessoa em situação de invisibilidade. Fala da condição dos imigrantes que acabam vivendo invisivelmente, como se não existissem. O verso de abertura “... E o que foi tragado na travessia do oceano?/ É uma certeza que afunda/ Dúvida ancestral confusa, profunda” novamente nos convida à condição de reflexão sobre as conexões que ainda carecem de reparações históricas para definitivamente existir. Participação da moçambicana Selma Uamusse.

10. Adamastor – é o fim da epopeia em que Vinicius aborda a questão da pós-verdade, das fake news através do embate com seu grande vilão, o Adamastor, que reaparece para atrapalhar o trânsito da língua, a comunicação entre os países. Comparativamente, hoje, o Cabo das Tormentas seria representado pelos vistos, os passaportes, a situação de ilegalidade numa vida entre países irmãos do idioma. Nesta faixa onde Terra mergulha “na língua crua de um destino incerto” deixa como pista que este álbum poderá ter uma continuação (abordando as questões relacionadas ao Timor Leste e à Ásia Lusófona” no últimos versos: “e na era da pós-verdade/ Adamastor que nos aguarde/ porque palavras podem confundir-se ao vento/ porém também são de quem as ouve/ logo, metade!”

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