terça-feira, 12 de novembro de 2019

Basquete de Rua | Sobre história, fundamento e Hip Hop


por Ana Rosa

Esse texto tem trechos de diversos outros textos já publicados, e você pode conferir as referências ao final. Contudo, é um conteúdo de pesquisa feito por mim para expor um pouco sobre como Hip Hop e Streetball interagem na história. É só uma parte da história, pois são décadas e décadas de parceria entre culturas.



"I got a color tv so I can see, the knicks play basketball", o trecho de Rapper's Delight, de 1979 do lendário grupo Sugarhill Gang, já nos dava indícios da forte ligação entre as comunidades que construíam o Hip Hop e o basquete. 

Essas ligações também se fortaleceram e puderam ser vistas conforme o Hip Hop ganhava mais força, principalmente na década de 90, onde por exemplo o grupo de jogadores conhecidos como “Fab Five” do Michigan Wolverines, adotou pela primeira vez o estilo de vestimentas do Hip Hop durante os jogos da NCAA (National Collegiate Athletic Association), e também durante os intervalos eles não gritavam "defesa", mas gritavam "Gotta Let Your Nuts Hang", trecho de Scarface que dá nome a música do Geto Boys. 
Jalen Rose, Chris Weber, Juwan Howard, Jimmy King e Ray Jackson representaram a fusão do basquete com a crescente identidade negra no Hip Hop. 

JIMMY KING, JUWAN HOWARD, CHRIS WEBBER, JALEN ROSE, RAY JACKSON, O FAB FIVE
Em determinado momento na história, o Hip Hop, as culturas presentes nos guetos e o estilo dos jogadores negros se fundiram com o basquete, e esse novo lifestyle passou a dominar a cultura do esporte. Houve também o repúdio ao estilo de jogo que tinha ênfase na criação de uma única estrela, fazendo assim que fortalecessem as realizações de equipe, coletivas.
Nesta época, também vimos jogadores de basquete, como Shaquille O'Neal fazendo álbuns de rap. 
Inúmeros jogadores e equipes da NBA (National Basketball Association) foram citados em canções de rap. 


A comum marginalização ... 

Mas a influência da cultura no esporte nem sempre foi aceita. Décadas atrás, juntamente com a criminalização da cultura Hip Hop, houve também dentro das ligas de basquete, diversas tentativas de distanciar essa imagem de Hip Hop e rappers, pois os dirigentes, proprietários e treinadores acreditavam que isso prejudicava a reputação da NBA.
Comentários como o do técnico Phil Jackson dizendo que "Os jogadores se vestem com roupas de prisão nesses últimos cinco ou seis anos", fizeram com que o comissário da NBA, David Stern, criasse um código de vestimenta em 2005.
Segundo o site Theplayoffs, o código tinha o objetivo de mudar a imagem negativa da liga, principalmente de seus atletas, e reforçar o profissionalismo do esporte, o código de vestimenta define as roupas que devem ser usadas em todos os eventos da NBA, como pré-jogos, entrevistas coletivas ou eventos da liga. Os jogadores foram proibidos de usar bonés, camisetas, óculos de sol, correntes e muitos outros itens relacionados ao Hip Hop foram banidos em favor de trajes "casuais".

Atualmente, as comunidades do basquete e Hip Hop estão altamente associadas, desde jogadores como Damian Lillard que se arrisca na música, até Jay-Z que se tornou o primeiro rapper a ser co-proprietário de uma equipe da NBA, o Brooklyn Nets
Mas tudo isso é papo pra outro dia, não é sobre basquete profissional que vamos falar, é sobre o chamado Street Basketball, ou basquete de rua. 




Um pouco de história ...



Além das quadras, além das ligas de colégios, o basquete tomou as quadras de guetos americanos. O chamado "Streetball" não tem origem apenas no jogo, mas também tem uma associação especial com a juventude e as comunidades periféricas americanas. O basquete de rua é conectado as periferias e consequentemente, também é ligado ao Hip Hop, principalmente por ter começado em lugares como Nova York, Washington DC e Filadélfia, também berço de vários grupos e nomes que compunham o Hip Hop. Na cidade de Nova York, o basquete não é apenas um esporte. É um modo de vida. Diferente do Brasil, onde em cada esquina temos um campinho de futebol, por lá existem mais de 700 quadras de basquete ao ar livre, e essa aproximação desde criança, estimula as e os jovens a estarem nas quadras.


O universitário Earl "The Goat" Manigault.
Em 1950, um professor de basquete chamado Holcombe Rucker começou uma competição em uma quadra do Harlem para ajudar jovens a encontrar algo mais interessantes que as ruas e seguir uma carreira universitária, ele dá nome a uma das quadras mais famosas do streetball, a de Rucker Park, no Harlem, Nova York. 
A Rucker produziu muitos jogadores da NBA e lendas do streetball, tornando-se um paraíso para o basquete. Várias lendas já passaram pelo Rucker Park, jogadores da NBA Kenny Anderson, Kenny Smith, Julius “Dr. J”Erving, e Rafer Alston todos tiveram seu início no Rucker, além da lenda do StreetBall, Earl "The Goat" Manigault.

A iniciativa de Rucker através do basquete, nos lembra a iniciativa de Afrika Bambaataa através da Zulu Nation em 1973. A Universal Zulu Nation foi uma organização fundada na Stevenson High School no Bronx por Bambaata, que viveu o estilo de vida das gangues, e tentava mudar sua história e a de outros jovens. Eles passaram a abraçar e preservar os 4 elementos do que passaria a ser conhecido como movimento Hip Hop  (DJ, MC, Break e o Grafite), e exemplificaram o que é frequentemente considerado o 5º Elemento do Hip Hop, o 'Conhecimento'. Para a Zulu Nation, princípios fundamentais de Paz, Amor, União e Diversão, foram implantados e difundidos entre seus membros e demais hip hoppers de todo o mundo, a fim de promover o verdadeiro espírito do Hip-Hop.


Algumas produções sobre StreetBall


O filme “Doin it the Park”, mostra como o Street é diferente da NBA e como ela afetou a NBA.

Outra produção interessante, é o livro Black gods of the asphalt - Religion, Hip Hop and Street Basketballsobre o basquete de rua vivido como "religião" em alguns dos bairros mais perigosos da América. Mas, mais centralmente, trata-se também da esperança  vista pelas lentes dos jovens negros que, embora sobrecarregados pelas forças da morte que os rodeavam, de alguma forma se destacavam nas quadras. Segundo a crítica Christie Storm "Nesta temporada, onde corpos masculinos negros estão sob ataque, Black gods of the asphalt, oferece uma narrativa profunda de sobrevivência, autodeterminação e os ganhos urbanos das quadras de basquete da cidade de Boston como locais onde a religião é 'vivida' e a transformação espiritual ocorre regularmente".

E por fim, deixo também como dica, o canal DPC TV (Dois Por Cento TV), um canal brasileiro muito bom, do nosso amigo Sidney, onde ele comenta, traz histórias e o cotidiano sobre basquete, basquete de rua e freestyle.


Fundamentos ...

      Bom, o Streetball dá e incentiva os ballers (jogadores), a liberdade de criar e improvisar jogadas. As quadras de rua, são extensões das quadras profissionais, onde são permitidos e incentivados a criatividade, e a habilidade de improvisação.
 No streetball, os ballers (jogadores), querem executar (moves ou handles), jogadas que são uma espécie de drible, com o máximo de dificuldade para enganar o marcador. O jogo é rápido e competitivo pelo espaço reduzido e o número de jogadores é menor que o convencional.
       A liberdade dos ballers nos lembra também as rodas de freestyle, que originaram as famosas batalhas de rimas. Os MC's não precisam necessariamente ter uma voz bonita, ou uma caneta pesada em músicas, basta ter habilidade de improvisação, flow, entre outras categorias que serão julgadas pelo público.
     Outro ponto interessante, é que grande parte dos rachas, jogos disputados nas ruas, eram embalados ao som do Rap, pela comunidade local, e quase sempre eram acompanhados por um MC (Mestre de cerimônias) que levava o público junto com o jogo.


Por fim, é possível ver que culturas periféricas se conversam, e tendem a trazer a auto estima e a união através da diversão, do lazer. Fica um ponto pra gente pensar como o rap e o funk se comportam em terras brasileiras, ou ainda o futebol, enquanto ponto de ascensão para jovens e também lazer para quem é assolado todos os dias.

O Streetball e o Hip Hop uniram jovens nas suas infinitas diversidades e consequentemente os fez parar de enxergar no outro semelhante um inimigo. É esse o papel que as culturas, o esporte, e os modos de vida das periferias deveria ter. 


Nenhum comentário:

Postar um comentário