quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Coluna do Leitor | Rap Nacional e os filhos do sistema



Texto escrito pelo Geysson Santos, Cientista Social e membro do Coletivo Hip Hop de Alagoas

Pensar na conjuntura política tem sido cada vez mais angustiante. Nesse governo neofascista, a narrativa hegemônica do Estado brasileiro tem sido de extermínio de negros (as), de indígenas, de LBGTQ+, seguindo uma política econômica de esvaziamento de nossas geladeiras e um empoderamento do ódio fardado nas ruas. São basicamente esses elementos que definem o cenário político que estamos atravessando, sem perder de vista que esse momento não se deu do dia para a noite, foi um processo que contou com a participação de diversos atores em variados setores e cenários. É a partir disso que tentarei construir uma breve, mas necessária, reflexão acerca do Rap Nacional. 

A grande questão é: O que o Rap tem a ver com tudo isso?

Não é saudosismo, tampouco pagar de “guardinha do rap”, a ideia aqui é refletir o que o Rap representou – e pode representar, no imaginário coletivo da periferia e a partir daí, problematizar algumas posições e cobrar posturas não só de MCs, mas de organizadores e públicos que aceitam determinadas atitudes dentro do movimento. Trato aqui como movimento hip hop, não como cultura, por entender que num cenário político em que vivemos, temos a necessidade de entender nosso papel político em tudo isso.

Esse texto não é aleatório, não o escrevo à toa. Ele é endereçado e está localizado num contexto em que o MC BuddyPoke, naturalizou o estupro e ridicularizou a pedofilia na Batalha da Aldeia, realizada no último dia 17 de fevereiro ao cantar: “mano, mano, mano tá ligado que eu faço tudo de improviso e tô no lucro / Postaram a batalha de trio no xvideos e acharam que era vídeo de estupro”, em seguida, para justificar sua “gastação”, BuddyPoke alegou que estava “estuprando na rima”.

Para entender o que esconde essa “piada”, é importante destacar um breve histórico do mesmo MC. Quando mencionei no primeiro parágrafo um pouco do cenário político brasileiro, destaquei que vários atores, em diferentes cenários, contribuíram para o avanço do neofascismo no Brasil, utilizando suas “armas” para atingir determinados públicos, sejam youtubers através de seus canais, influencers através de seus Instagrans, robôs no Facebook e Twitter, empresários com financiamento, artistas com sua arte e até mesmo MCs com suas músicas. É nesse contexto que o BuddyPoke está inserido. Para quem não lembra, esse é o mesmo MC que participou da cypher “Vem para a Rua”, gravada por alguns MCs com o intuito de convidas pessoas para participarem das manifestações favoráveis ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff, além de abrir os caminhos para a eleição do Bolsonaro. BuddyPoke também protagonizou um caso viral de blackface, com o grupo de rap “Vagabonde”.

Um termo que se tornou comum no debate político é o “mimimi” – mais recentemente, surgiu uma variação, dessa vez usada pela própria esquerda de “descansa militante”. O termo “mimimi” foi usado pela extrema direita para deslegitimar problematizações apontadas por setores da militância, majoritariamente dos segmentos de opressões, o que podemos dizer que é uma das características centrais da “memetização” do debate político. É justamente no aprofundamento desse argumento que vemos se tornar comum a tentativa de reverter opressões, como é o caso do racismo. Inclusive, ainda na idéia de “racismo reverso”, o próprio BuddyPoke já deu sua opinião sobre isso ““Eles querem me excluir simplesmente por não ser preto / tentam me oprimir só porque eu não nasci no gueto” (trecho retirado da música “Fome”, do grupo Vagabonde). 

Não há distância entre a narrativa construída pelo BuddyPoke com a do então presidente da república Jair Bolsonaro. Os dois não só ridicularizam o debate de opressões, como corroboram para o fortalecimento de uma ideologia, que a grosso modo, busca o nosso extermínio. 

Por outro lado, o Rap Nacional foi construído a partir de uma concepção informativa, que busca reconhecer a raiz dos problemas do país e reconstruir o imaginário coletivo da periferia, através de uma autoafirmação, do nosso empoderamento, para então garantir nossa libertação – espiritual, mental e material. Esse é o rap que cresci ouvindo e é responsável diretamente pela formação política de uma geração que aprendeu com o GOG que “o estudo é o escudo”. Dessa forma, é dever do público repudiar de forma extrema e sem passagem de pano, ideias que de alguma forma façam contraponto com nosso direito de viver e tentem ridicularizar nossas pautas.

Nossa auto-organização é fundamental para enfrentarmos coletivamente o avanço das ideias fascistas no país. As rodas e batalhas de freestyle que estão espalhadas em todo país devem ser vistas como um reflexo da juventude negra/periférica/progressista se organizando em torno de uma contracultura marginal e de enfrentamento. As batalhas de freestyle devem se tornar um quilombo moderno em cada esquina desse país. brancos progressistas devem ser bem-vindos, mas para racistas/machistas/LGBTfóbicos, a solução é uma só: FOGO!


Gostaria de também ter seu texto publicado me nosso site? 
Entre em contato conosco em nossas redes sociais

Facebook: Noticiário Periférico
Twitter: no_periferico
Instagram: @noticiarioperiferico

Nenhum comentário:

Postar um comentário