quarta-feira, 11 de março de 2020

LANÇAMENTO | Bivolt lança álbum homônimo pela Som Livre


CARAMBA! Essa foi minha expressão ao terminar de ouvir pela terceira vez o disco da rimadora, cantora, dançarina e artista foda, Bárbara Bivolt. Acompanho ela das batalhas, e sempre esperei um trabalho que consolidasse o trabalho dela, e nada melhor que um primeiro álbum lindo como o lançado hoje para isso. Só pra vocês terem noção, ela apresentou duas frequências sonoras e inovou com experiência audiovisual interativa. Sério, confiram.



O álbum homônimo, "Bivolt" foi produzido pela Som Livre com direção musical de Nave, mixagem e masterização por Luiz Café, conta com participações de Tasha e Tracie Okereke no som 110v, Jé Santiago em Tipo Giroflex, Xênia França em Sigilo, Dada Yute e Tropkillaz no som Freestyle, e Lucas Boombeat no som Hipnose. O álbum tem 14 músicas cheio de ápices e ao mesmo tempo momentos de tranquilidade, que mostra bem o que é ser Bivolt.

Cria da comunidade do Boqueirão-SP, Bivolt é conhecida por ser uma das mulheres a roubar a cena vencendo diversas batalhas de rap pelas cidades brasileiras. O primeiro álbum de sua carreira, apresenta ao público a dupla voltagem da artista. Composta por duas frequências, a primeira mostra o lado mais pop da cantora, com o estilo lovesong e um toque de R&B. Já o mood 220 revela sua origem vinda das batalhas de rap, a linguagem de rua, com rimas mais intensas e muita dança.

Sobre a experiência audiovisual, pela primeira vez no mundo, vemos uma artista fazer um feat com ela mesma. As faixas ‘110v” e ‘220v’ foram criadas especialmente para apresentar os dois polos da cantora. Separadamente, músicas distintas. Mas quando o play é dado de forma simultânea, os beats se encontram e formam uma faixa inédita que apresenta os dois moods da rapper em perfeita sincronia. Uma experiência que fica ainda maior no Youtube, onde os dois clipes se completam não só musicalmente, mas também em suas narrativas. A concepção da experiência interativa e a campanha de lançamento são assinadas pela agência AKQA.

ANTES DE FALAR MAIS, GENTE DÁ PLAY NOS DOIS CLIPES ABAIXO. 


110v   
220v

Com seu jeito irreverente e suas melodias, Bivolt não passa despercebida quando o assunto é lírica. Em 2017 ela lançou "Doce", freeverse que abre caminhos para os singles "Olha pra mim" e "Entre Tu e Meu Som". Esse álbum em questão, não nos traz aquela sensação de encher linguiça, de quem precisa lançar um álbum por ano pra se sentir a vontade, traz um trabalho sem pontas soltas, que nos diz "é tudo isso que tenho pra apresentar" de uma forma sutil e objetiva. 


Sobre as faixas, já tenho as minhas favoritas, que estralam no som do carro e me fizeram dirigir dançando e cantando. Mas cada faixa traz uma experiência gostosa, não são faixas cheias de rococós, com referências aleatórias só pra nos mostrar que ela conhece algo. A sensação que temos, é que a única referência é a vida e vivência dela, por isso o álbum nos aproxima dela e traz ela pra perto da gente ao mesmo tempo.



Lucas Boombeat e Bivolt | Foto: Laís Moss | Divulgação: Som Livre

A faixa 110v, produção musical de Nave, abre o álbum é um som tranquilo, com Bivolt cantando como se nos recepcionasse, e estivesse nos levando pra sentar na sala e ouvir o trabalho completo. É algo suave, como uma recepção mesmo. Como se as luzes se apagassem, e as cortinas se abrissem, o som Você já sabe, chega com o pé no nosso peito. Com produção do brabo Vibox, o som nos lembra um  G-Funk, gangsta, ao melhor estilo "aprende aqui", um batidão cheio de colagens e scratches feitos por DJ Nato,  inclusive o fim com a Rúbia RPW falando "Por isso, convido mais garotas pra esse clima, feche os olhos tome coragem e caia pra cima", e também tem um refrão cremoso. O verso "Mas pra eu me reconhecer, tive que deixar de lado comentários escrotos que só iriam me puxar pra baixo" nos resume o som, uma autoreflexão guiada, do porque você ela (nós) já sabemos quem somos e o resto é só perreco.


Jé Santiago e Bivolt | Foto: Laís Moss | Divulgação: Som Livre

Em seguida, o som Me Salva traz um diálogo bem intímo com um extraterrestre, sim, Bivolt apela pra algo maior e não mundando pra que a ajude. Trazendo suas visões sobre problemas da vida, ela pede ajuda de uma maneira leve, podemos até fazer uma analogia com o ET sendo algo que a faz relaxar, esquecer dos problemas, um ponto de fuga. Quando achamos que vamos ficar relaxados na cadeira apreciando o álbum, ela convida as gêmeas multitalentosas Tasha e Tracie para O MEU SOM FAVORITO, AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA, podia ser esse o meu comentário sobre a faixa. Unir Tasha e Tracie com a Bivolt só podia dar isso, som sujo, pra ouvir com cara de nojente. Os versos que intercalam a participação de Tasha e Tracie são simplesmente sensacionais, "É o lado B né , sabe como é, preta e favelada né denegrindo sempre e o meu mood é murda murda, recua e sai antes que eu morda, só vem com meu dinheiro eu quero que você se foda! A diferença é incontestável, que o meu estilo é chave seu estilo é sequestrável, rá!". NOSSA PRECISAMOS DE UM CLIPE URGENTE DESSA MÚSICA. EU QUERO POR CADA VERSO NUM LUGAR VISÍVEL. Gangsta Rap, de mina, com qualidade foda.

Já que estávamos com os dedinhos pra cima e se divertindo com as amigas, nada melhor do que o som Cubana, produção de Nave e Douglas Moda, pra fechar essa dança. Debochada, sensual, ela tá que tá, sem simpatia. Cubana pode ser abraçada fortemente pelos bailes de rua, pelas academias de fitdance, pelo carro com paredão de som, até pelos fones de ouvido pra você caminhar 6h da manhã dando um gás. É um som versátil, chiclete. 

Depois de dançar e se divertir, pra que a gente descanse um pouco, pensando sobre como a vida pra gente é isso, tentar se divertir com doses de realidade, mas tentar não se embebedar pra não sucumbir. Bivolt descreve em Mary End (analogia com Mary Jane do fim da tarde, chá da tarde e o que mais você queira chamar), sua vida normal, dura, o cotidiano normal da pessoa humana que está por trás da artista do palco. Particularmente eu não gosto muito de sons mais calmos, gosto dos porradões, mas esse som é bem bonito, suave, delicado, e se a gente for analisar a letra, é uma storytelling, como se estivéssemos ao lado dela em um dia cotidiano. 

Jé Santiago e Bivolt. Foto: CREDITAR / Divulgação Som Livre
Em Tipo Giroflex, Bivolt convida Jé Santiago para uma produção impecável de Filiph Neo, esse R&B, daqueles pra gente fazer passinho com os amigos, nos mostra antes de qualquer coisa, que Bivolt e Jé são nomes que a gente pode contar pra tudo. Eles cantam e rimam com facilidade, o que deixa Tipo Giroflex bem fluído e gostoso de ouvir. 

Já com o ouvinte bem próximo a ela, a sequência Peixinhos, serve como um love song pra si mesmo. Um som sobre trajetória e corre, sobre caminhar. É gostoso olhar pro próprio caminhar, a gente sabe que nada é fácil, a gente sabe que tudo tem mais peso e é mais difícil pra gente. Mas é daora ir caminhando pelas brechas, trazendo mais gente pra alcançar espaços com a gente. Peixinhos é um som sobre satisfação própria, necessário. 

Ainda na calmaria, Susuave, produção de Bolintem um beat jazzeiro, com flow molhado como ela própria descreve. De fato, essa faixa destaca o flow de Bivolt, criando sons diferentes pra diversas palavras, nessa combinação classuda com o jazz. 

Óbvio que não podia faltar aquele som pra ouvir com o companheiro, companheira, ou qualquer pessoa, coisa, objeto que te faça bem. Sigilo, produção de Nave e Fejuca, é um lovesong, é sobre amor, como ele deve ser, livre, leve, gostoso de sentir. O amor vem pra libertar, como diz o refrão. Com a participação linda de Xênia França, Sigilo é aquele respiro sobre acreditar, um amor romântico leve, como deve ser.
Na sequência, ainda na leveza de levar a vida, Nome e Sobrenome é algo bem intimista, Bivolt, "Uma máquina afiada que te faz carinho" nos traz nesse som versos sobre si, mas sobre si na interação com o outro. É um complemento de Sigilo, sobre cuidar, sobre viver.

Já nos preparando pros ápices finais, Freestyle é um dancehall com participação de Dada Yute e produção musical de Nave e Tropkillaz, bem pra cima, daqueles que só mesmo "quem tem" joga. Música pra dançar com a galera, MÚSICA PRA DANÇAR, LIVRE PRA GRITAR SE EU QUERO EU POSSO, EU DEVO, NÃO APONTE O DEDO. Gosto de músicas assim, me remetem a coletividade da quebrada, as coletividades  diárias e intímas das relações sociais que boy nenhum tem acesso.

Lucas Boombeat e Bivolt. Foto: CREDITAR / Divulgação Som Livre

Em Hipnose, mais uma produção de  Vibox, Bivolt convida Lucas Boombeat (Quebrada Queer), que mais uma vez chega chutando tudo nas rimas, o som vai encaminhando pro fechamento do álbum, depois de passar pela cremosidade, pela dança de rolê, pelas reflexões, Hipnose lembra o estilo e a força da dupla. O refrão "cê é tão frágil boy, e eu tão ágil boy", nos prende pra ouvir cada vírgula que ambos tem pra nos falar, de fato hipnótico.

Por fim, o fechamento, 220v, destacamos o verso Highlights flash pose, quem vê o close não vê o corre. Esse verso da música representa bem a experiência de ouvir esse som junto ou após o som 110v, ou mesmo após ouvir o álbum. As duas voltagens de Bivolt, as diferentes experiências do dia a dia. O som fecha o álbum oficial, porque ele traz a sensação de SOU ISSO, E MESMO DEPOIS DE UM ÁLBUM INTEIRO VOCÊ AINDA NÃO SABE NADA DE MIM. 

Bom, é isso, gostei muito, não gostamos de dar selos de melhor do ano porque cada pessoa tem um jeito de receber o trabalho de alguém, alguns com o ouvido e coração, outros com a mente, outros só com os olhos; mas podemos dizer com toda certeza o álbum está muito bem produzido, cuidadoso em vários detalhes, e eu ouvirei por muito tempo.

Até mais!

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