sexta-feira, 19 de junho de 2020

Wesley Barbosa: "É lindo quando um preto periférico faz do livro sua melhor arma"


Quando eu tinha 11 anos escutava o CD "sobrevivendo no inferno" e aquilo fazia com que eu viajasse um pouco e me reconhecesse nas letras de Rap dos Racionais MC's. Naquela época nós não tínhamos televisão em casa, apenas um rádio velho onde minha mãe ouvia o programa "CARTA DA SAUDADE" do Elli Correa em que as pessoas enviavam cartas e ele lia no meio da programação dizendo no final QUE SAUDADE DE VOCÊ. 

Eu achava legal o ar misterioso do programa. Depois saía pra a rua e ia soltar pipa com os moleques da vizinhança ou brincar de carrinho de rolimã. Naquela época já havia uns caras encostados na viela vendendo uns "bagulhos" estranhos e olhando para os lados. Sempre que a policia baixava na favela os caras saíam correndo, deixando de lado alguma trouxinha com drogas ou dinheiro dentro. Uma vez vi o corpo de um homem estendido no chão da rua todo ensanguentado e com a boca inchada de tanto apanhar. Era o Neguinho que tinha vacilado com o "corre" e levou um "salve" da bandidagem. Os trombadinhas de varal vira e mexe eram encontrados mortos lá perto do campão onde a rapaziada costumava jogar bola. Eu tinha medo de um dia minha mãe me encontrar daquele jeito, com a boca cheia de formiga sem nem ter completado 15 anos! 

O rap era música de bandido — diziam — e "Formula magica da paz" se escutava em todos os barracos da favela. As ruas de terra foram sendo asfaltadas e sempre tinha esse ou aquele espertinho, a fim de se candidatar a vereador. Os postos de saúde não funcionavam direito: se você ficasse doente precisava ir de ônibus até a cidade e lá esperar uma, duas, três, às vezes até seis horas para ser atendido. Comecei a pichar nas paredes com a molecada do bairro. Fazíamos gangues e tocávamos o terror, embora nessa época nenhum de nós usasse drogas pesadas, gostávamos de tomar "corote" de sabor atrás da escola e mexer com as minas que davam mole. 

Muitos desses amigos morreram cheirando cocaína, outros arranjaram um trabalho, constituíram família, ou apenas não tive mais noticias deles. Na memória fica a minha roupa remendada, talvez ganhada do patrão da minha mãe, ou comprada em algum brechó local. Era foda ir sempre com a mesma roupa para a escola. Lá um dia eu disse à professora que ia ao banheiro, mas a verdade é que eu estava de saco cheio da aula de matemática. Quando vi a porta da biblioteca entreaberta dei o meu jeito de entrar ali. Livros por toda parte. 

Eu nunca havia visto aquilo. A dona Glória vivia falando pra a gente que sem estudo nós não seríamos nada. No entanto, ela só sabia passar aquelas matérias chatas, escrevendo números complicados na lousa. Coloquei um livro dentro da calça e saí dali rapidamente sem que ninguém percebesse. A odisseia de Homero, assim como as letras de Sobrevivendo no inferno, me fazia esquecer um pouco a realidade morando em frente a um lixão, vários traficantes em volta, jovens morrendo por nada, mulheres engravidando antes da hora e sei lá eu mais o quê. Aquilo se tornara um vício na minha vida e todas às vezes eu dava um jeito de ir naquele lugar mágico, conversar com as almas antigas dos escritores. As pessoas insistem em me perguntar como eu comecei a escrever e a ler. Eu acho que as paredes, fazendo pichação, foram os meus primeiros cadernos, aqueles programas do rádio, a música e o esbarrão com a biblioteca minhas maiores influências. 

(Wesley Barbosa) 


Redes sociais 

Insta: Barbosaescritor 

Facebook: Wesley Barbosa

Nenhum comentário:

Postar um comentário