terça-feira, 26 de junho de 2012

Álbum inédito, documentário e filme resgatam o legado do Sabotage

Divulgação
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Apesar de muito afeito aos amigos, Sabotage sempre foi de andar sozinho. Mas, no início de 2003, radicalizou. Andava estranho, taciturno, afastado. Não queria ninguém por perto. Recusava até mesmo as tradicionais caronas que o levavam de regiões ‘do lado rico da cidade’, onde circulava com desenvoltura, de volta à violenta comunidade do Canão, na zona sul paulistana, onde morava. Parecia prever algo. Talvez por isso, aproveitou para descarregar em estúdio todas as letras que comporiam seu novo disco, sucessor do seminal Rap é Compromisso, colocando voz guia e algumas bases em quase todas elas.
No dia 24 de janeiro, terminou tragicamente assassinado a tiros – e com isso a MPB perdia um dos maiores (o maior?) MCs que já viu surgir. Agora, esse material inédito integra o projeto Maestro do Canão, título do CD que vem sendo produzido por um time de amigos e ex-parceiros – o trabalho será lançado ainda em 2012. O culto ao rapper não para aí: um documentário e um longa-metragem, este dirigido por Walter Carvalho, de Raul – O Início, o Fim e o Meio, também ajudarão a entender sua obra e carreira meteórica que pregou como nenhum outro a responsabilidade do rapper em seu ofício, mas que transcendeu a marra sisuda do gênero ao dialogar com outras frentes, inclusive com o rock. E que, com participações carismáticas em filmes como O Invasor, de Beto Brant, e Carandiru, de Hector Babenco, tornou-se conhecido por um público maior, fora do casulo musical.
Material inédito
Sabotage já tinha esse apelido de rua quando, ainda nos anos 90, ao final de um show em São Paulo, procurou o rapper Sandrão, do grupo RZO, e lhe entregou uma fita cassete com o registro de suas rimas. Quando ouviu, Sandrão ficou impressionado. Quis achá-lo, mas Sabotage sumira. Tentou localizá-lo – em vão, ninguém o conhecia. Um ano depois, uma pista dada por um camelô da Rua 24 de Maio, no centro, conduziu-o a um certo Maurinho Sabotage, da favela do Canão.
Certo dia, ele e o amigo Rappin Hood, também impressionado com a cassete, chegaram à favela às 10h e esperaram até 18h, quando Sabotage apareceu. A dupla o resgatou da barra pesadíssima e o iniciou no caminho do rap. "A partir dali, ele entrou pra família RZO e teve o apoio não só nosso e do Hood, mas dos Racionais também. E acabou sendo uma peça fundamental para a evolução do rap naquele momento", recorda Sandrão. Em meados de 2001 veio à luz seu primeiro e único registro, Rap É Compromisso, um marco no hip hop nacional. Pedradas como a faixa-título – cujo refrão "rap é compromisso, não é viagem" – viraria sinônimo de seu autor. Respeito É Pra Quem Tem, Um Bom Lugar (o clipe bombou na MTV) e No Brooklin atestavam o frescor de um artista original, intuitivo, com a grife da rua, que deixou fluir para o disco a seiva criativa acumulada nas quebradas da zona sul.
Na época, Rap É Compromisso teve produção de Daniel Ganjaman (Planet Hemp, Racionais Criolo), que agora, juntamente com os produtores Rica Amabis e Tejo Damasceno (Coletivo Instituto), mais o DJ Cia (RZO), esmerilham as cerca de 14 faixas nas quais o rapper colocou voz – algumas delas, sem título. "Essas bases surgiram quando começamos a preparar o segundo disco dele", diz Ganjaman. "Com sua morte, foram muitos os percalços para chegar até aqui. Agora, tudo está tomando forma."
Uma das músicas, Sai da Frente, já está na web. Muitas das participações de Rap É Compromisso se repetem em Maestro do Canão, casos de RZO, Sombra e Rappin Hood, que divide os vocais em Maloca É Maré. Otto já gravou sua parte, Chorão (Charlie Brown Jr.) deve gravar a sua em breve. DJ Cia já mixou nova versão para País da Fome, Parte 2, extraída do primeiro disco. Há ainda a provável participação, não confirmada, de Mano Brown. O trabalho desenvolve-se em caráter independente, mas o produtor Ganjaman adianta a flexibilidade da empreitada no esquema de lançamento. "Já conversamos com algumas gravadoras. O principal para divulgar o trabalho nós temos: o nome dele, que ainda é muito forte." Lembra que toda a renda será destinada à família (a ex-mulher Vanda e os filhos Tamires e Anderson). Conhecido desde criança como Sabotinha, Anderson, 19 anos, já dá os primeiros passos nas rimas, tendo gravado com o grupo regueiro Planta e Raiz.
"Ele era um monstro. O vejo muito à frente de seu tempo", diz Rappin Hood. "Ao contrário do que se pensa, era uma pessoa muito positiva, alegre, paizão de família." Paulo Miklos, dos Titãs, é outro a render-se a Sabotage. Os dois contracenaram e ficaram amigos no set de O Invasor. "Sonhávamos com uma participação dele com os Titãs, não deu tempo", lamenta. "Com ele, tudo era possível. Convivi com sua musicalidade nata, ele até me ensinou a fazer beatbox. Seu fazer poético tinha um grande barato pela palavra". Miklos chama atenção também para o olhar crítico de Sabota. "Ao dizer que o rap é compromisso, ele se colocou por inteiro, já que o rap é a crítica da realidade como um todo. Eu vejo a música assim, essa é a definição do compromisso do músico."
Mas talvez a grande qualidade de Sabotage tenha sido o destemor em tabelar com outros estilos. Ao associar-se ao Charlie Brown Jr. e ao Sepultura, ganhou olhares enviesados de setores do hip hop, mas carimbou um atestado anticaretice que fez o rap chegar a circuitos onde ainda não chegara, contribuindo a longo prazo para uma atitude menos sisuda. Era gangsta na real, mas não era estereótipo.
No cinema
Diretor de clipes de MV Bill e DJ Hum, entre outros rappers, o paulista Ivan Ferreira, da 13 Produções, finaliza um documentário sobre Sabotage. Com lançamento previsto para janeiro de 2013, coincidindo com os 10 anos de ausência do rapper, a obra, como o CD, também deverá chamar-se Maestro do Canão. Amigo do músico, Ferreira já acumula mais de 100 horas de material filmado. "Esse projeto começou em 2002, antes do Sabotage morrer. Há muitas entrevistas dele e de amigos como o Hood, Otto, Racionais, Dexter e Chorão, e também muita música, com trechos de shows e de videoclipes", diz. No material, os cineastas Hector Babenco e Beto Brant também rendem suas homenagens.
"Na última entrevista, dois meses antes de morrer, Sabotage comenta que a mãe era doméstica e trabalhava em casas de ricos e lamenta que ela tenha falecido antes de vê-lo fazer sucesso." O cineasta Walter Carvalho foi convidado e aceitou dirigir um longa ainda em fase de captação, cujo roteiro provavelmente ficcionalizará vida e obra de Sabotage. Carvalho conheceu e trabalhou com o músico em Carandiru, filme do qual fez a direção de fotografia. "Ele era bom no rap e bom ator, mas é difícil saber até onde poderia chegar no cinema, se estivesse vivo."



By Estado de SP

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