sexta-feira, 29 de março de 2019

Entenda o abraço fraterno de "Onde morrem os elefantes?", novo som de Marcello Gugu.

Madrugada dessa sexta feira, eis que Marcello Gugu nos serve com um dos sons mais lindos que podemos já ter ouvido. Ao ouvir o nome do som, e apreciar a arte de Doug Lira, facilmente pode ter vindo a mente a previsão de um love song, ao estilo romântico, daqueles que batem forte e fazem a gente parar e olhar pra nós em relação a outrém. 
Não podemos descartar que esse é um som de amor, tampouco podemos negar que ele bate bem forte, e faz a gente terminar de ouvir boquiaberto, desde que percebe sobre o que ele se trata. 

"Onde morrem os elefantes?" é uma mistura da história real da vó e da tia de Gugu, bem como das observações das histórias das pessoas próximas a elas, que desenvolveram mal de Alzheimer. O som tem participação de Wesley Camilo, produção, gravação e mixagem de DJ Duh (Groove Arts), masterização de Maurício Gargel, e animação por César Maciel. Você pode conferir a letra no comentário do vídeo no YouTube, e antes de comentar alguns pontos, vamos entender primeiro o que é a doença. 

Resultado de imagem para mal de alzheimerPra que consigamos entender o quão gigante é um som como esse, e como ao mesmo tempo que ele é empático com quem sofre da doença, ele também abraça as pessoas próximas, que cuidam, convivem e amam; é necessário que a gente compreenda alguns conceitos e como a doença age. 
Usei como base um artigo que usei na minha graduação, "Parkinson's disease and Alzheimer disease: environmental risk factors", que visa conhecer um pouco mais e entender como  agem no sistema nervoso as  doenças de Parkinson e Alzheimer, e também observar os dados e relacionar os fatores de risco ambiental que contribuem para as doenças. 

A figura abaixo representa o nosso sistema nervoso central, que é responsável pela recepção de estímulos, de comandos e desencadeadora de respostas. Ou seja, basicamente nossa central de comando corporal. 
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Disponível em : ‘http://neurociencia-educacao.pbworks.com/f/sist_nervoso_central.jpg’
Os neurônios são as principais células do sistema nervoso, sendo responsáveis pela condução, recepção e transmissão dos impulsos nervosos. Eles realizam a transmissão das informações pras células, inclusive as musculares, através dos neurotransmissores. A dopamina é um neurotransmissor que atua, especialmente, no controle do movimento, memória, e sensação do prazer. 

A doença de Alzheimer é uma doença degenerativa progressiva do cérebro, o que acontece é que a proteína TAU (proteína que estabiliza os microtúbulos, abundantes nos neurônios do sistema nervoso central e menos comuns em outros locais) que existe em quantidades normais em cérebros saudáveis, aumenta de forma descontrolada no Alzheimer, formando uma placa que dificulta a transmissão de informação entre os neurônios. Devido a essa deterioração, o cérebro doente encolhe. E caracteriza a maciça perda sináptica e morte neuronal observada nas regiões cerebrais responsáveis pelas funções cognitivas. 

De forma objetiva, fragmentos não funcionais acabam impedindo as sinalizações dos neurônios, é a mesma coisa que você mandar uma mensagem e ela não chegar no destinatário porque tem algo no meio do caminho. A doença tem alguns estágios, sendo o inicial as alterações de memória, personalidade, passando pela dificuldade para falar, realizar tarefas simples, até as formas mais graves, caracterizadas pela incontinência urinária e fecal, dificuldade para se locomover, dores, restrição ao leito e o óbito. 


Cérebro com Alzheimer
Os sintomas da doença devem-se as mudanças nas terminações nervosas e nas células cerebrais que interferem nas funções cognitivas, no entanto, é desconhecido o motivo direto e principal. O artigo trabalha com 3 grandes grupos, a genética, a infecciosa e a tóxica.  A grande maioria dos casos de Alzheimer são atribuídas a ação e interação de diversos fatores genéticos e influências ambientais atuando como fatores de susceptibilidade ou desencadeadores. Os maus hábitos pra quem já tem uma pré disposição genética pode servir como potencializador da doença. 

Não se sabe ainda a causa ou as causas, não se tem ainda um diagnóstico preciso ou uma previsão que a pessoa possa ter no futuro doenças neurodegenerativas. Nem mesmo há um tratamento curativo ou que previna. Os medicamentos e tratamentos podem melhorar um pouco comportamento e memória, e que já é um grande feito para quem convive com esses males.  

O som "Onde morrem os elefantes?" é empático, é poético, é vivência! Não tem como ser mais Hip Hop que isso, muitas vezes ouvimos música, com o ouvido moldado a um padrão estético, e quando as e os artistas surpreendem a gente assim é tão bom. 



Antes de deixar vocês a sós com essa poesia, gostaria de fazer alguns destaques na letra, bem básico, porque ela é explicativa, linda e aconchega.

"Em seus olhos via-se aquele tipo de paixão que faz seu coração bater tão rápido quanto da primeira vez que você apertou uma campainha e saiu correndo ou melhor, via-se aquele tipo de paixão que você sabe que não vai te salvar do apocalipse mas que vai te garantir um novo gênesis". O mal de Alzheimer pode ser acelerado por doenças como pressão alta e batimentos cardíacos irregulares, segundo estudo publicado pela revista Neurology. Acredito que além de associar os sintomas, ele também associa o lance infantil de tocar a campainha e correr, dando a entender que a pessoa doente acaba voltando a ter comportamentos que tínhamos quando éramos crianças. Já a segunda parte do verso, é colocado que a doença não vai mudar a situação que o corpo da pessoa vai viver, mas que a história dela vai começar denovo, garantir um gênese, uma origem. 

Em seguida, Gugu descreve sintomas da fase inicial da doença, as confusões, perdas de memória, e o diagnóstico. Antes do lindo refrão, ele termina com o verso "Quando minha mãe disse que minha vó estava 'abraçando o alemão', percebi em seus olhos os portões de Auxvitz. Só quem viveu atrás deles sabe o quanto é difícil se lembrar da própria história!". Aloysius Alzheimer foi o psiquiatra alemão que primeiro reconheceu a doença neurodegenerativa, por isso a avó estaria namorando o alemão. Desde que no final da segunda guerra mundial foram reveladas ao mundo as atrocidades cometidas pelos nazistas alemães, Auschwitz entrou para o dicionário como sinônimo de terror. O local foi escolhido para a edificação de um dos seis principais campos de morte para aplicação da “Solução Final” por Hitler, funcionavam os campos de trabalho forçado e extermínio onde morreram mais de 1 milhão de pessoas. Gugu faz a analogia entre a dificuldade da avó de se lembrar da história dela, por conta da doença, e também a dor de pessoas que sofreram nos campos de concentração, de se recordarem do que vivenciaram.

Fonte: http://diariogenesis.net/2019/01/27/recordando-los-tiempos-del-holocausto/
Na segunda parte da música, ele basicamente explica o funcionamento da doença de forma análoga. "Quando os neurônios da minha vó começaram a brincar de telefone sem fio, seus verbos de ligação começaram a cair na caixa postal e se lembrar da senha do correio de voz das suas recordações era quase como resolver palavras cruzadas só usando consoantes". Quando os neurônios perdem então a capacidade de se comunicar, os impulsos nervosos não chegam ao destino final, e as funções cognitivas são prejudicadas. 

E na última parte da música ele retoma a ideia do título. O ditado popular da memória de elefante tem a ver com o fato deles possuírem grande capacidade de armazenar informações. Já que por questão de sobrevivência, caminham vários quilômetros em busca de água e comida e precisam memorizar exatamente os locais onde conseguiram seus suprimentos. Também o fato do cérebro deles ser mais denso do que o dos humanos, com mais lóbulos, o que faz com que tenham maior capacidade de guardar informações. Alzheimer é onde morrem os elefantes, porque acaba com a capacidade de memória do corpo, necessária pra tudo. 

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Fonte: https://blog.giulianaflores.com.br/jardinagem/historia-curiosidades-baoba/
Por fim, ao comparar as características da árvore Baobá, que tem um dos troncos mais grossos do mundo, e é uma das árvores mais antigas da terra, podendo viver até 6 mil anos, seu tronco é oco. "A primeira é que ela era tão forte quanto um baobá e a segunda é que baobás, apesar de serem fortes, são ocos por dentro". Mas também, a árvore é tida como a árvore do esquecimento. A história diz que alguns africanos escravizados saídos da Costa Ocidental do continente eram obrigados por seus raptores a dar voltas entorno do Baobá, a ideia era forçar os africanos a se esquecerem de suas culturas e da vida livre que levavam em suas terras natais. Mas, assim como esta árvore, a cultura africana resiste no Brasil. Na África imemorial, histórias e lendas foram contadas e vividas em torno dos baobás. E assim também são as pessoas que tem Alzheimer, apesar da memória comprometida, eles ainda resistem. 

Lembro nesse momento em lágrimas, do dia que minha vó estava em um leito de hospital sem conhecer a nós, e ele disse "ela pode não saber quem somos, mas nós sabemos exatamente quem ela é!". 

Com muito amor, ouçam a música, prestem atenção, consumam com calma. Só obrigada Marcello Gugu. 



Fonte: Campdelacreu, J. "Parkinson's disease and Alzheimer disease: environmental risk factors." Neurología (English Edition) 29.9 (2014): 541-549.

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