quarta-feira, 27 de março de 2019

Funk de bandido? Já vimos isso antes!!


A criminalização do funk é só uma continuidade do que foi feito com a capoeira, com o samba e com o rap. No início do século passado o samba e a capoeira passaram por um processo de marginalização igual ao que passou o rap e recentemente tem passado o funk. 

Ser sambista era sinônimo de vadiagem e criminalidade, diversos sambistas foram presos por simplesmente estarem na rua com seus pandeiros. Parece até que estamos falando dos dias de hoje não é? Pois é, inclusive o samba por ser considerado vadiagem, "macumba" e "som de preto" (como se isso fosse ruim), não podia ser cantando em qualquer lugar. E muitos terreiros de Candomblé, também criminalizados, abriram espaço para festas de samba acontecerem. A criminalização durou até a presidência de Getúlio Vargas, que passou a valorizar elementos da cultura brasileira para reforçar o nacionalismo, uma de suas bandeiras. Mas isso não quer dizer que alguns sambistas não tenham sofrido com a censura. 

Hoje a capoeira é símbolo da cultura afro-brasileira, mas no século 19, era considerada crime. Os governantes da época morriam de medo que a dança misturada com luta, gerasse uma revolta dos negros escravizados. Portanto as autoridades enquadravam rodas de capoeira como vadiagemMesmo depois da Lei Áurea assinada em 1888, a capoeira continuou sendo discriminada, bem como o racismo continuou a existir. 
O código penal de 1890 dizia que a punição para quem praticasse capoeira era: prisão por dois a seis meses. A capoeira só deixou de ser crime também, durante a presidência de Getúlio Vargas, que enxergava na capoeira uma representação da cultura brasileira, e decidiu "valorizar" a prática. 

Com o Hip Hop no Brasil, desde o lifestyle, até mesmo o Rap, uma das suas maiores expressões por aqui, não foi diferente. Os pioneiros na São Bento eram abordados pela polícia pelo mesmo motivo, vadiagem. Sim nos anos 80 ainda se prendiam pessoas por simplesmente não terem uma carteira assinada e estarem na rua. Nos anos 90, e meados de 2000, não foi muito diferente. Racionais Mc’s, Facção Central, Consciência Humana, De menos Crime e vários grupos e MC's sofreram perseguições policiais, a ponto de terem shows interrompidos, e músicas censuradas.

Um dos casos mais famosos, o caso do clipe “Isso aqui é uma guerra” do Facção Central censurado, o clipe “Soldado do morro” do Mv Bill também censurado por conter representações da criminalidade, e apologia a violência. Pasmem, que anos depois elegeriam um presidente que faz apologia em cima de carros de som. 

Enfim, vamos pro funk! 


Pra falar do funk carioca tenho que falar um pouco sobre o Movimento Black Rio, que eram bailes blacks que aconteciam no subúrbio e nas favelas do Rio de Janeiro. O que conhecemos hoje como “Funk Carioca”, só tem esse nome por conta do Funk norte americano que tocava nos bailes blacks do Rio de Janeiro. 

Por exemplo, a equipe de baile Furacão 2000 que hoje é conhecida por popularizar o funk carioca no Brasil, começou no tempo do Movimento Black Rio. Pois o Funk Carioca era nada mais, nada menos que uma especie de “Miami Bass brasileiro”. Claro que com o tempo veio sua identidade própria, mas no começo a batida era muito similar o Miami Bass. 

Foto: Divulgação

Para resumir basicamente que o foi o Movimento Black Rio. Podemos pensar, que  foi um movimento vindo dos subúrbios do Rio de Janeiro inspirando muito no movimento “Black is Beatiful”. Não era só a dança, o som, tinha um lado político de valorização da beleza negra

O movimento Black Rio surge por volta de 1976, época de Ditadura Militar, época em que o governo controlava tudo, inclusive a música vinda de fora. O movimento surge então quando a indústria fonográfica começa a circular músicas estrangeirasO samba já estava sendo menos mal visto pela mídia e pela sociedade brasileira, com isso começaram as elitizações dos espaços. Os bailes cresceram rápido e absurdamente, pois os bailes eram na rua ou em casas de show de fácil acesso. 


Agora imaginem, milhares blacks e browns dizendo que preto é lindo, poder ao povo preto, criando auto estima, empoderando-se e criando articulações sociais e movimentos com pautas raciais! Sabe o que aconteceu? As autoridades passaram a investigar o que era este movimento! 

No livro “1976, Movimento Black Rio” de Luiz Felipe de Lima Peixoto e Zé Octávio Sebadelhe, tem um capítulo chamado: COMISSÃO DA VERDADE DO SOUL. Neste capitulo é contado algumas histórias sobre a repressão policial da época. Mas quero reproduzir aqui um trecho do livro que conta com uma história que está em um dos muitos arquivos obscuros do DOPS. 
Essa questão que vai ser citada em seguida, não foi paranoia (já que ainda não existia o termo mimimi), tanto que foi muito bem elucidada na Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro, publicada em 10 de agosto de 2015. O relatório de pesquisa “Colorindo memórias e redefinindo olhares: Ditadura militar e Racismo no Rio de Janeiro” expõe diversos documentos do Departamento Geral de Investigações Especiais (DGIE). 


A perseguição nessa época se tornou evidente, quando alguns dos principais produtores e DJ's das equipes de maior visibilidade, começaram a ser convocados para averiguação policial. Paulão Black Power foi detido algumas vezes por agente especial do DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de Defesa Interna), pois insistiram que o nome da equipe Black Power teria ligação direta com o partido estadunidense dos Panteras NegrasCom a abertura dos arquivos do DOPS, teria sido recuperada uma pasta especial intitulada Black Power, que comprovava uma busca sem noção: a busca por agentes da CIA (Agência Central de Inteligência) ou representantes dos Black Panther Party  que estariam infiltrados nos grupos ligados ao Black Rio. 

Em depoimento prestado à Comissão Estadual da Verdade do Rio, em 2 de junho de 2015, Dom Filó conta sobre seu sequestro (DOI-CODI), em 1976: 

"Saindo do Baile, quando eu ia entrar no carro, meteram o capuz na minha cabeça e eu só vi estrelas. Me levaram dentro do camburão, dei algumas voltas. Pelo cheiro, pela umidade, mais tarde eu vim saber que era aquele quartel da polícia do Exército , na Barão de Mesquita. Chegando lá me botaram em uma cadeira, tiraram o capuz, tinha muita luz, muita luz. Eles perguntavam onde estava o US$ 1 milhão, se eu era comunista. Aí apagaram toda a luz e falaram: agora você vai ver. Aí eu falei: se eu sumir, imagina o que vai ter aí na porta. Se um baile tem quinze mil, multiplica isso aí por quatrocentos bailes que acontecem. Aí eles pararam, fizeram uma reflexão, me deixaram por um bom tempo. Aí me botaram no carro e me largaram em Lins."
___________________________ 
Trecho presente em: Relatório de pesquisa da Comissão da Verdade “Colorindo memórias e redefinindo olhares: Ditadura Militar e Racismo no Rio de Janeiro”, p.43, Rio de Janeiro, 10 de agosto de 2015. 

A perseguição ao funk surge nos anos 90 por conta da burguesia carioca. Chegou-se a criar uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito), para tentar vincular o funk ao tráfico de drogas e a exploração sexual. Mas vamos avançar para 2017! 


Em 2017, quase 100 anos depois do termino da criminalização do samba, eis que o cidadão de nome: Marcelo Alonso de 47 anos, morador da zona norte de São Paulo, conseguiu exatamente: 21.985 assinaturas para criminalizar o funkPra quem não sabe, qualquer cidadão brasileiro pode criar um projeto de lei, desde que consiga no mínimo vinte mil assinaturas. O projeto foi ao Senado, e foi debatido na Comissão dos Direitos Humanos com a presença de ativistas, produtores culturais e MC’s do funk. A proposta de criminalização do funk foi unanimem-te condenada por convidados e senadores. 

Chegamos em 2019! Eis que o DJ Rennan da Penha, que é organizador do Baile da Gaiola foi condenado pelo TJ (Tribunal de Justiça) do Rio de Janeiro, A MAIS DE 6 ANOS DE PRISÃO por associação ao tráfico de drogas

O Baile da Gaiola é um dos bailes mais famosos do Brasil, é citado no “Hoje eu vou parar na Gaiola”, sucesso de MC Livinho e no som do Mc Kevin "Tu tá na gaiola", que soma mais de 50 milhões de visualizações no Youtube. O evento reúne semanalmente entre 20 e 25 mil pessoas, espalhadas pelas ruas de acesso ao Complexo da Penha

Diversas personalidades do funk, do rap e da política tem se solidarizado com o DJ Rennan, pois todos sabemos que o cara está sendo preso simplesmente por fomentar uma cultura marginalizada, NUM ESPAÇO MARGINALIZADO! Inclusive a Vice soltou uma matéria mostrando que o Governador do Rio deu ordens para acabar com os Bailes Funk. Pro governo do RJ, o funk é igual o crime.


Mas e aí você vai dizer: marginalizada? O funk toca em baile de boy, na TV, diversos artistas ganham dinheiro e etc. Pois é! Mas aí eu te pergunto: onde estão todos estes boys? E famosos? Onde estão todas as pessoas que usufruem da cultura para defender a cultura dessa marginalização escancarada? Sumiram! Estas pragas só sugam nossa cultura e não é de hoje! 

O que está acontecendo com o DJ Rennan, não é diferente do que aconteceu com capoeiristas, não é diferente do que aconteceu com os sambistas, não é diferente do que aconteceu com o DJ Paulão Black Power ou com o Dom Filó. O nome disto é racismo! O sistema sempre vai criminalizar o que é preto! 

Sabe por que é racismo? Não investigam organizadores de rave, DJ's que organizam festivais de música eletrônica e por aí vai. Todos sabemos que nesses ambientes as tais drogas que o governo diz combater rola solta. 
Porque nos rolês de boy não prendem os organizadores também? Sabe por que? 
Além dos organizadores e os traficantes serem brancos, os consumidores também são! A polícia não vai prender filho de boy por uso de droga, o sistema não quer isso. O máximo é virar meme na internet em algum vídeo de  facebook, ou ser tratado como coitado. A criminalização, e demonização só sobra pra um lado, pro lado preto!

E não venha me dizer nessa porra que estou passando pano pra preto se drogar! Estou dizendo que: pau que arregaça com Xico, sequer rela em Nicolau! Sendo mais didático ainda: o peso do martelo só cai sobre o preto! 

O sistema é racista e cruel! A estrutura é racista! E mobilizações e pressões do povo preto tem dado, ainda que poucas, algumas conquistas pra nós. E aí, você gosta de balançar a raba em rolê, vai ficar olhando o projeto de acabar com a cultura acontecer? Nós não.

Nós do Noticiário Periférico, que somos cria de quebrada, nos solidarizamos com contra a tentativa de criminalizar o funk e repudiamos a prisão do DJ Rennan. Querendo ou não, o funk é um primo do rap. Vieram e vivem no mesmo lugar, dividem palco e etc. 

Funk também é cultura!!

Texto: Anderson Hebreu
Revisão: Ana Rosa

Um comentário:

  1. http://www.noticiario-periferico.com/2008/05/albuns-e-mixtapes.html?m=1consegue arruma o link desse mano

    ResponderExcluir