terça-feira, 9 de abril de 2019

'Da classe de 97 e o hype ignora!' confira "Tempo Dirá", novo som de Kamau em mais um #ReferenciAna


No último dia 21 de março, Kamau soltou mais um dos seus sons, daqueles que a gente só ouve e fala "é isso!". 

A produção ficou por conta dele próprio, contando com o time de peso, Júlio Mossil no baixo, Toca Mamberti na guitarra, Valentina Facury na percussão, scratches de DJ RM e DJ Erick Jay, e nos vocais DCazz, Wesley Camilo e Srta. Paola, além dele próprio. O vídeo ficou por conta da direção de Gabi Jacob e produção de Pedro Bruno. Mais informações técnicas na descrição do vídeo no YouTube. Abaixo deixo algumas reflexões sobre como percebi a música. Confira o som abaixo, e a letra aqui


Existem diversas coisas que eu amo no processo artístico do Kamau. A primeira delas é como ele entende a própria arte, respeitando o tempo dele, e o tempo que levar todas as lapidações necessárias pra que ele coloque um trampo na rua. 



Desde seus primeiros trabalhos, passando pelos versos de Logo com "Se tão lançando esboço, espero um pouco mais, se tão poupando esforço, me esmero um pouco mais", até o recente single "A propósito" com Rashid e SPVic, lançado em fevereiro desse ano, onde Kamau deixa isso bem explícito nas linhas, "No meu tempo, sem a pressa de pegar no tranco, tranquilo, pisando firme em campo minado", "Palavras pairam pelos ares, malabarismos, será que é melhor pra mim focar em algarismos?" e "Sinto que minto se faço que o vende-se, lança todo mês, plays um milhão de vez, sei ... que amor não paga conta, e às vez é tanta! Que pra garantir a janta, a gente faz igual o que outro fez?". Em todos esses versos, e em muitos outros, conhecendo minimamente seus trabalhos, é possível perceber essa relação dele em respeitar o tempo/arte muito forte.


Outra coisa que gosto, é como os sons dele não são escritos pra outras pessoas. Não que ele não se importe com seu público, mas não é algo 'vou escrever algo pra x pessoa', me parece muito mais um tipo de reflexão em voz alta e ritmada, que nos chama pra perto, pra ouvir, pra entender e absorver o que nos couber de forma natural.  

A música "Tempo Dirá" se inicia com colagens de sons do KL Jay, Racionais e do próprio Kamau, que versam sobre o passar do tempo. O clipe da música começa numa relojoaria, e os relógios são bem marcantes durante todo o clipe, já que é a simbologia clássica para "tempo"




Durante o decorrer da música,  no videoclipe acompanhamos os takes, um homem mais velho saindo do trabalho, passando por alguns lugares de lazer, como uma loja de discos, futebol e balanço, e o ator vai mudando, e rejuvenescendo, até chegar na figura de um criança. No fim do vídeo, o homem mais velho chega em casa, e vê a criança dormindo, e a olha com um semblante de satisfação.

Entendi essas mudanças, junto com o refrão da música que diz "Tô entre o que foi e o que pode ser, entre o que é e o que será, se vai chegar, vai saber, deixa ser, tempo dirá"; como sendo as passagens da nossa vida, cada ator representando uma faixa etária. Basicamente dizendo que nós somos produtos de vivências, do que foi no passado, na figura da criança, do que pode ser no futuro, na figura do adulto mais velho, e do que somos no presente, na figura dos jovens. Ao fim, quando o adulto mais velho retorna pra casa, e vê a criança dormindo, eu entendo como sendo essa relação harmoniosa que a pessoa estabelece com o tempo, entendendo as coisas que aprendeu, que vivenciou,  e que somos produtos disso, por isso a satisfação de ver "o passado" tranquilo. Com certeza existe um conceito estético pra escolha da construção do clipe, essa é apenas a minha interpretação e uma possível perspectiva, vamos discutir um pouco sobre a letra. 





O começo da letra "Meu tempo é agora, e o mundo lá fora diz que já passa da hora, e vinho com o tempo melhora", já chama atenção pra algo que já disse nesse texto, sobre respeitar o seu tempo como artista, e o quanto for necessário pra ficar satisfeito com o que você produz. Também é possível traçar outro paralelo, tomando um pouco do que escrevi dia desses sobre a parada do Sant no rap, "Repensem a forma com que vocês se tornaram zumbis querendo som, som, som, hype, swag, próximo álbum, e tudo mais. Creio que o sucesso de um artista, não seja views, nem sequer um monte de gente sem senso atrás, mas recptores pro som que fazem, pessoas que ouçam a música, e não só apertem o play". Acho que isso diz um pouco sobre essa dualidade de dizer que já passa da hora de sair música nova, e ao mesmo tempo a rapidez de colocar um carimbo nos trabalhos como sendo do ano ou lixo de forma muito imediata. Ou seja, a exigência de um padrão de qualidade, e o imediatismo de consumo acabam não olhando pra mesma direção. 



Seguindo, "Da safra de 7 6 e o som revigora, da classe de 9 7 e o hype ignora, lá onde o naipe vigora, minha nossa senhora!". A safra de 76 se refere ao ano do nascimento do Kamau, e 97 porque ele começou a rimar em 1997 no grupo Consequência junto com Sagat e DJ Ajamu. No sentido figurado, naipe significa condição visual, ou seja, a categoria, a representação visual de algo. Quando ele diz sobre a classe 97 ignorada pelo hype, diz muito sobre seu estilo de fazer rap em contraste com o que é consumido pelo mainstream. O naipe vigorar pra mim tem muito mais a ver com a questão do consumo estar estreitamente ligado a questão visual e estética das e dos artistas, e não a qualidade ou estilo da música feita. 


O minha nossa senhora no fim, vem como uma expressão de preocupação, ou momento difícil, mas também já linka com os versos seguintes, onde Kamau aconselha a ter fé, pensar sobre o que vai fazer, mas sem deixar de agir, não adianta pensar muito e não colocar os corres, na medida do possível, pra acontecerem. E pra isso ele usa o atleta Usain Bolt como exemplo, o verso "Por um segundo, Bolt nem segundo era", nos faz pensar na questão de não nos acomodarmos com as situações. Se Bolt não tivesse insistido, treinado, e colocado o corpo pra disputa, não seria o atleta que é hoje. 

O técnico de Bolt achava mais adequado que ele corresse 200m e 400m, mas ele insistia muito para que pudesse disputar os 100m em provas de nível internacional. Em 2007, após quebrar o recorde mundial da Jamaica nos 200m, o treinador o inscreveu nos 100m em Creta, na Grécia, onde ele venceu com o tempo de 10s03. Em maio de 2008, o técnico de Bolt o inscreveu nos 100m do Kingstown Invitational, na capital jamaicana, e correndo apenas pela segunda vez a distância num torneio profissional ele marcou 9s76, a segunda melhor marca do mundo, atrás apenas do recorde mundial de Asafa Powell, e depois daí não parou de quebrar seus próprios recordes. Ou seja, por milésimos de segundos, até disputar as provas, Bolt não era nem o segundo do mundo, quem dirá o campeão e recordista mundial que se tornou.

Foto: Cameron Spencer
A continuação da música me remete ao auto-cuidado, tanto pessoal, quanto profissional nas diversas buscas de cada um. "Mas pressa não traz ingresso pro pódio, quem acelera na curva não vai culpar o relógio", viver correndo, sem pensar no como agir, sem estruturar os objetivos, as formas de alcançar, não ajuda pra que nós alcancemos tais objetivos, na verdade a falta de atenção pra fazer as coisas rápido demais faz com que deixemos detalhes passarem, que quase sempre são importantes. Quando a gente acelera numa curva, acabamos passando direto nela, causando acidentes e afins, pra fazer uma curva fechada principalmente, dando a ideia de passar por um momento mais complicado, nem podemos freiar bruscamente pra que a tração dos pneus não nos jogue pra fora da pista. O ideal é só parar de acelerar ou levemente freiar, que já ajuda muito. Sendo assim, o verso nos leva a pensar, que não adianta passarmos correndo por tudo, nem parar de andar que com certeza vamos nos prejudicar de alguma forma. 


O verso seguinte complementa a ideia, "E como se respira na corrida é o que vai te cansar", na real o domínio da respiração facilita a prática da corrida, aumenta a resistência à fadiga, ajuda na recuperação e no alongamento após o exercício físico. Deve-se correr respirando o tempo todo pelo abdômen e não pela parte superior do peito. Dessa maneira, acontece a oxigenação do cérebro, protegendo a coluna e aumentando o condicionamento físico. Trazendo pra ideia da música, a forma como a gente se comporta, planeja, pensa pra agir durante a caminhada, é o que nos faz chegar nos objetivos de forma mais tranquila, menos desgastado. 

A segunda parte da música sintetiza as ideias dadas na primeira, por exemplo o verso "Tempo traz, perdas e prendas, traumas e aprendizados, vitórias e derrotados, prazeres e machucados" é um pouco de tudo discutido até aqui, de como o tempo organiza as coisas, seja da forma que esperamos, bem, ou de outras formas. 

Os versos finais antes do refrão eu quis deixar em caps lock e apenas deixar, é um trecho auto-explicativo e essencial pra que observemos mais, aprendamos mais, vivamos mais a nossa vida sem desejar, copiar e tentar viver uma vida imaginária de outra pessoa. Não é pro naipe vigorar, muito menos ditar regras sobre como a música deve ser feita pra alcançar pessoas, ou pior ainda, que vivamos sempre na sombra de alguém, sem nossa identidade, emancipação e história.

"HISTÓRIA É VIDA DE ALGUNS PRA QUEM ASSISTE A LIÇÃO, MAS SÓ PRA TER UMA NOÇÃO, NÃO VAI FAZER TUDO IGUAL, PORQUE NÃO FUNCIONA LEGAL, E É CADA UM CADA UM, MESMO COM ALGO EM COMUM, NADA TE GARANTIRÁ, SE FOR PRA SER, NA HORA CERTA VIRÁ, E QUEM VAI DIZER É O TEMPO!"

Muito obrigada pra quem chegou até aqui, lembrando sempre que são minhas reflexões como ouvinte, pode não condizer com a intenção do autor. Ouçam novamente o som, e vejam se criam novas reflexões.


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