segunda-feira, 22 de julho de 2019

Yannick Hara homenageia livro de Philip K.Dick em seu novo single, 'Androides sonham com ovelhas elétricas?'


Los Angeles, 2019 e São Paulo, 2019: a primeira, o cenário de um filme de ficção científica de 1982. Já a segunda, um futuro-presente que pertence a realidade de muitos brasileiros. São Paulo é, sem dúvidas, uma cidade cyberpunk onde drones são utilizados para fins policiais ao passo que mais de 2 milhões de pessoas vivem na dependência de uma droga criada há quase quarenta anos. A baixa tecnologia e a alta qualidade de vida é um resumo fatídico dos dias atuais e serve de substância para a nova música de Yannick Hara.

A terceira faixa do disco “O Caçador de Androides” conta com as participações de Moah da banda Lumière, Rike do NDK e Keops & Raony é uma referência direta ao livro de Philip K.Dick “Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?” que também deu origem a saga de filmes “Blade Runner” (1982) de Ridley Scott e de “Blade Runner 2049“ (2017) do diretor Denis Villeneuve. O disco que tem o lançamento marcado para novembro faz um paralelo entre o universo do livro e dos filmes com assuntos como o cenário político brasileiro, a escravidão tecnológica, a libertação animal, a vida e a morte.

No romance de Philip K.Dick, o mundo distópico surgiu por meio de uma “explosão/ a poeira” comandada pela Guerra Mundial Terminus. O autor resume como uma terra de ninguém onde ninguém lembrava o motivo da guerra ou o que ou quem havia vencido. Yannick Hara explora aqui o abismo onde se compreende o fim e o começo de um processo civilizatório. Na história, a estranha morte das corujas que caíram dos céus marca o início do falecimento do velho mundo. Esses animais que apareciam somente após o crepúsculo não tiveram o seu desaparecimento inicialmente notado. Assim, o disco se apropria de uma forte narrativa política e se agarra na metáfora da coruja que enxerga na escuridão enquanto os outros animais dormem. Entretanto, a coruja também carrega o agouro da morte na cultura romana: um símbolo sobre o definhamento intelectual da nossa sociedade, onde o pensamento crítico dá lugar a figura do fascistóide que “cunham nossas orelhas com falsas métricas”.

O livro coloca a mídia como o braço de um estado fascista ao mesmo tempo em que ajuda a preencher o silêncio dos lares. Há a personificação do infotenimento sensacionalista simbolizada pelo programa Buster Gente Fina e seus Amigos Gente Boa. O apresentador escarnico nem existe de verdade, no entanto, apela para uma fala “higienista, alienada, manipulada” conforme pontua a letra da música. O “ismo”, sufixo utilizado para determinar um sistema político, religião ou crença parte de um holograma como são os telejornais e as novelas. Nesse mar das certezas midiáticas algo rompe com o entendimento sobre nós mesmos: os replicantes que matam seus patrões e fogem de uma vida de exploração. Afinal, androides também sonham?

OUÇA O SINGLE NO SPOTIFY: ANDROIDES SONHAM COM OVELHAS ELÉTRICAS?

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