domingo, 28 de dezembro de 2008

Entrevista com o rapper MV Bill


MV Bill leva arte para a periferia e luta contra a crise da indústria musical



Entrevista - Angela Antunes

Em meio à crise da indústria fonográfica, que procura novos meios de arrecadar fundos com base na arte da música, MV Bill tem outro desafio: dialogar com pessoas de baixa renda e ter dinheiro para levar em frente estes trabalhos, hoje pagos pelo rapper.

Segundo o músico, que toca em Curitiba nesta quarta-feira (10) no Yankee American Bar, a culpa pela crise fonográfica é não só das próprias gravadoras, mas também dos artistas. “As gravadoras têm o olho grande de querer ganhar muito dinheiro. Já a culpa dos artistas é pela apatia. Eles se tornaram ‘maria-vai-com-as-outras’, um bando de ‘vaca de presépio’ só porque a gravadora dava um carro, uma cobertura, e colocava a música na rádio”, disse o músico.

Por outro lado, MV Bill acredita que a Internet garantiu uma democratização da arte musical. “A música na rádio não significa muita vendagem. Esta disputa acabou tornando a competição mais leal para os que não têm apadrinhamento midiático como eu e outros”, completou.

O show desta quarta-feira vai contar não só com o hip hop e rap, mas também com um flerte de MV Bill com o rock – tema do DVD Despacho Urbano, que será lançado ainda este ano. “Eu propus um encontro inusitado entre o rap e uma banda de rock chamada Ralé. Eles são meus vizinhos na Cidade de Deus”, explicou o músico.

Segundo ele, este DVD representa o racismo das gravadoras com relação aos ritmos musicais. “O ‘preto’ tem que ser duas vezes melhor, não basta ser bom. A indústria, infelizmente, é muito racista”, disse MV Bill, que demorou um ano para conseguir lançar o trabalho por problemas financeiros. “Foi uma condição. Ao mesmo tempo em que temos liberdade ao fazer um trabalho independente, perdemos mobilidade por conta do lado financeiro.”

Sobre sua vida, que deve ser biografada ao lado do parceiro Celso Athayde em um livro e filme, MV Bill diz que o sentimento é de inquietação e indignação. “Temos a capacidade de se indignar e se mobilizar para tentar modificar a vida que estávamos tendo. É a briga para nos transformarmos em uma exceção dentro de uma regra que nunca nos favoreceu”, explicou.

MV Bill contou ainda a respeito de outros projetos como o seu primeiro papel de ator no cinema, a tentativa de se aventurar pela literatura, além de adiantar detalhes sobre seu próximo CD, que sai em 2009. Confira a íntegra da entrevista:

Você está em fase de pré-lançamento do DVD ‘Despacho Urbano’. Qual é o objetivo deste trabalho?
O objetivo foi quebrar as algemas que as gravadoras, principalmente as grandes, colocam em determinados artistas. Especialmente os que têm segmentos, que é o caso do hip hop. É uma coisa muito específica. Para mim, é uma forma de me desprender da gravadora e reunir toda a minha videografia. Muitos videoclipes não tiveram uma exibição de expressão por causa da falta de coragem das emissoras. Além dessa reunião, eu propus um encontro inusitado entre o rap que eu faço e uma banda de rock, que são meus vizinhos aqui da Cidade de Deus. Eles se chamam Ralé. Fizemos um set misturando o rap com rock. Vamos lançar esse DVD agora no fim do ano.

Você acredita que esta questão do rock ser “dominado” por brancos e o hip hop “dominado” por negros é uma imposição das gravadoras?

Acho que foi uma coisa da indústria. A indústria, infelizmente, é muito racista. Foi necessário aparecer o Elvis Presley para darem moral para este tipo de som que outros já faziam. A história diz que quando um preto pega em uma guitarra, como Jimi Hendrix e B.B. King, “arrebetam demais”. Só que eles não têm os mesmos espaços. O preto tem que ser duas vezes melhor, não basta ser bom. Isso fez com que os pretos fossem banidos do rock ‘n’ roll, e seguiram para o blues e jazz. O hip hop feito por renegados e marginalizados caiu como uma luva para a luta contra a marginalização e exclusão dos pretos.


O trabalho foi gravado há um ano. Por que você optou por este processo antes de finalmente

lançar o DVD?

Na verdade não foi uma opção, e sim uma condição. Ao mesmo tempo em que temos liberdade ao fazer um trabalho independente, nós perdemos um pouco de mobilidade por conta do lado financeiro. A grana depende de outros shows, de outras apresentações. Aos pouquinhos, nós vamos conseguindo.


Você acha que o papel de músico faz com que você tenha a obrigação de oferecer algo para a comunidade ao seu redor, ou se trata apenas de uma opção?

Eu não coloco isso como regra. Eu vejo como uma coisa bastante minha, bem particular. Preciso fazer isso para que minha obra seja completa. Preciso ter a minha música, a parte da literatura, que é muito legal. É um audiovisual através de um documentário de filmes. Já estamos começando a pensar nisso, a roteirizar algumas histórias. Tenho os meus afazeres com relação à área social. Estar envolvido neste emaranhado de coisas forma a minha luta.


Você falou que o trabalho independente faz com que haja maior dificuldade em lançar os projetos. No entanto, o seu nome já tem certa notoriedade, que faz com que as porta se abram com mais facilidade. Você acha que sem esse nome você conseguiria fazer o que faz, e conquistar o apoio que você conquistou?

Quando você tem nome e prestígio, algumas coisas se tornam menos difíceis. Mas vale a pena lembrar que o prestígio e a respeitabilidade também são conquistas. Posso estar aparecendo agora em alguns lugares, mas é uma luta que vem desde os anos 90. Isso mostra mais ou menos o tamanho da luta, pois duas décadas depois eu consegui entrar um pouco mais.


Você teve um breve encontro com o presidente Lula nesta semana. Qual a sua opinião sobre o seu governo?

Ainda é um governo cheio de decepções. Por se tratar de um governo esquerdista, a gente não imaginava que tivesse tanta corrupção, tantos erros, tantos desencontros. Mas existe outro lado que acaba sendo um contraponto que são os paradigmas que estão sendo quebrados. Por exemplo, o crescimento da classe C e D, a divisão de renda e projetos sociais que conseguiram sair do assistencialismo, que conseguiram atender de forma melhor. Um governo que dialoga mais com as cidades, que tem mais abertura para as pessoas de baixa renda. Existe diálogo com os movimentos sociais. Então, existe o lado negativo da crítica e da decepção, mas também há aplausos pelos êxitos e momentos nunca antes alcançados pelo país.


Você precisa viver de música e da arte, sendo que boa parte das pessoas com as quais você dialoga são pessoas de baixa renda. Como é possível para um músico viver hoje em dia desta profissão?

Isso também é uma coisa que trouxe dois lados, o positivo e o negativo. O negativo é que a indústria da música está em crise. É muito ruim o que está acontecendo. Só que parte do que está acontecendo hoje é uma coisa que as próprias gravadoras ajudaram a criar. As gravadoras têm o olho grande de querer ganhar muito dinheiro. Elas fazem um produto que tem um custo muito barato; o custo de um CD é muito barato para ter um preço exorbitante de R$ 30. Nada justificaria um preço desse. E a culpa dos artistas, em minha opinião, é pela apatia. Eles se tornaram “Maria-vai com-as-outras”, um bando de “vaca de presépio”, só porque a gravadora dava um carro, uma cobertura, colocava a música na rádio e na novela. Todo mundo se contentava com isso. Hoje, isso deixou de ser sinônimo de vendas. A música da rádio não significa mais muita vendagem. Tocar música na rádio não significa mais ter um show “bombado”. As pessoas passaram a gostar e se identificar com estes artistas por outras mídias. Nada ainda substitui o rádio e a televisão, mas existem outras mídias que estão disputando, e a Internet é uma delas. Tem muitos artistas que com a crise musical não sabem nem por onde começar para trabalhar com a Internet. Nunca ligaram para esta mídia. É uma coisa muito acomodada. Esta disputa acabou tornando a competição mais leal para os que não têm apadrinhamento midiático como eu e outros. Começamos a criar caminhos alternativos.


Você vê alguma alternativa para isso?

Eu particularmente estou fazendo uma pesquisa, sobre a qual ainda não posso falar, mas que é de um projeto no qual eu vou poder lançar o DVD e o CD a um preço bem mais acessível e sem depender de lojas de discos.


Isso ainda este ano?

Nesse ano o DVD e o CD no início do ano que vem. Eu tenho muitos amigos músicos e DJs, e a maioria deles não vai a uma loja de discos há mais de um ano. Ou seja, precisa-se encontrar outra maneira de fazer a música chegar às pessoas.


Você acabou de terminar as filmagens do longa “Sonhos Roubados”. O que o trabalho como ator representou para sua carreira?

Para mim representou mais conhecimento e novas experiências. Ainda não sei como a Sandra Werneck vai montar isso, não sei qual o olhar que ela vai ter e qual ponto esta discussão vai tomar. Mas acho que vai trazer uma discussão que não é nova, mas que traz um olhar novo. Vamos trazer a temática da violência, da infância perdida, da prostituição e drogas. Porém, é uma visão feminilizada. Todos os filmes dentro desta questão trazem um retrato masculinizado. Pela primeira vez vai ter o recorte de gêneros. Eu acho que já chama a atenção de uma forma bem legal. O papel que eu fiz foi um papel bem bacana que trouxe muita experiência para minha vida pessoal. Agora eu quero ser mesmo é roteirista e diretor, é mais legal do que ser ator.


Você já tem algum projeto em mente?

Tenho. Nosso projeto inicial, meu e do Celso (Athayde), é contar nossas histórias num livro, que será escrito em conjunto, e paralelo a isso estamos escrevendo um roteiro destas histórias.


É este o projeto chamado “Os Invisíveis”?

Isso, este mesmo.


Qual será o teor deste trabalho: tristeza, sentimento de missão cumprida, felicidade, frustração?

Eu acho que a primeira coisa, que é o sentimento aparente, é a inquietação. A indignação com a vida que tínhamos. A capacidade de se indignar e se mobilizar para tentar modificar de alguma forma a vida que estávamos tendo. Outro ponto importante é a briga para nos transformamos em uma exceção dentro de uma regra que nunca nos favoreceu. Tem uma série de coisas e contrapontos, momentos muito tristes e também momentos de muita alegria e inspiração.


As pessoas criticam bastante que o Brasil é sempre representado no exterior por filmes como “Cidade de Deus”, “Última Parada 147”, ou seja, filmes com a mesma temática de violência no Rio de Janeiro. Você acha que isso é realmente uma coisa negativa ou há outros pontos do Brasil que deveriam ser exaltados?

Não sou muito fã de quando o asfalto retrata a favela. Todas essas opções foram dirigidas por pessoas do asfalto. Nunca houve uma produção deste porte com o olhar do próprio favelado. Porém, estes filmes ajudam a quebrar outro marasmo que existia antes destas produções. Eram geralmente filmes com atores brancos, de novela, contando histórias sobre esta realidade. Também não era bom de ver. Eu acho que esses filmes trazem novas histórias. Mostram que a gente é um povo miscigenado. Existem muitos pretos no Brasil. Eu acho que os filmes acabam demonstrando este tipo de condição, as injustiças sociais, e quebra um pouco o marasmo e a mesmice do cinema nacional que há pouco tempo só mostrava as mesmas histórias com os mesmos atores.


Como surgiu a idéia do projeto Favela Tour?

Foi uma atitude pioneira e, como muitas outras, bancada do próprio bolso. A intenção foi invadir alguns lugares, comunidades pobres, lugares que não têm condição de bancar um show, com pessoas que não teriam condições de comprar ingresso para alguma determinada boate. A gente chega dentro desses lugares com muita música, fazendo um som no meio da rua, interagindo com a comunidade. Deixamos as pessoas participarem, tirarem fotos. Às vezes artistas locais participam também, levamos brindes de algumas marcas de roupa. É um projeto que eu comecei aqui no Rio de Janeiro, consegui fazer em Salvador, mas tudo bancado do próprio bolso. Eu não consegui ter forças para dar continuidade. O ideal é que a gente pudesse fazer isso com o maior número de pessoas possível.


Você acredita que a música pode mudar o rumo da vida das crianças de comunidades carentes?

Acho que ela pode ser uma pitada dentro desta mudança. A mudança é uma série de coisas. Uma delas é deixar esse ambiente mais animado e mais alegre.

Como está o trabalho para o seu próximo CD?

O CD já está pronto, e eu só não lancei ainda porque quero lançar o DVD primeiro. É um CD de rap. Como eu já fiz uma mistura de rap com rock no DVD, eu quis fazer um CD de rap mesmo. Chama-se “Causa e Efeito”, e na apresentação que vamos fazer na quarta-feira, em Curitiba, devemos fazer um ou dois sons inéditos deste CD.

O show daqui vai ter um pouco de tudo, rap e também a mistura de rock?

Sim, vai ter um pouco de tudo, mas sem perder a minha essência.



Fonte:
Gazeta do Povo/Rapnacional

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