terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Racionais é influência e inspiração para admiradores de todas as gerações

'Aprendi a não abaixar a cabeça' - amanda Deizielli, 19 anos (Beto Magalhães/EM/D.A Press)

Amanda Deizieli Santos de Jesus tem 19 anos. Aos 12, quando A vida é desafio tocava em um bar, ela descobriu o Racionais MCs. Adolescente, perdeu vários amigos em brigas de gangues e acertos de contas com traficantes. “Dá para contar nos dedos quem sobrou”, entristece-se a atendente de um café no Bairro Funcionários, mãe de um bebê de sete meses.

O rap do Racionais, diz Amanda, é lição de vida. Sobretudo quando a tratam mal por ser negra. “Aprendi a não abaixar a cabeça”, conta. Ela recitaletras que incentivam o jovem a não ceder às tentações do crime ou expressam a dor da mãe obrigada a enterrar o filho. Certa vez, quando Amanda era bem pequena, os rappers paulistas foram à sua escola, em Ribeirão das Neves. Conversaram com a garotada sobre a realidade da periferia – onde eles também se criaram. “No fim, todo mundo chorou: a gente, eles, as professoras e a diretora”, conta.

Dono da Livraria Quixote, na Savassi, Alencar Perdigão, de 49, não se esquece do dia em que ouviu pela primeira vez Pânico na Zona Sul na Boate Broadway, em Santa Tereza, em meados dos anos 1990. O universitário “colou” no Racionais, embora tivesse certa dificuldade de decifrar o dialeto do gueto e se intrigasse com a contradição entre versos que denunciavam a violência e fotos de armas nos encartes dos discos do quarteto. “Aquele rap com soul mexeu muito comigo”, revela o ex-estudante de letras, ressaltando a legitimidade e o vigor dos versos do Racionais.

ESTÉTICA Integrante do Família de Rua, coletivo que promove o Duelo de MCs em BH, PDR Valentim, de 30, conheceu a música do Racionais aos 15. Ele destaca a estética do rap feito pelo grupo: brasileiro e conectado às batidas internacionais, ao funk, ao soul e à MPB de Jorge Benjor. PDR aprova as últimas criações do projeto solo de Mano Brown, que experimenta sonoridades mais livres.

“Quebrar paradigmas é complicado para eles”, observa, lembrando que o processo de flexibilização do grupo envolve música e atitude – da ida de Edi Rock à Globo para divulgar seu CD solo aos temas abordados nas letras. PDR discorda de quem acusa o quarteto de pregar a violência: “É o contrário. Eles trabalham pela autoestima, em favor da reflexão e da resistência. Eles trabalham pela periferia do Brasil”.

O MC Shabê, que participa de projetos de arte-educação na Grande BH, faz oficinas com a molecada de 9 a 14 anos. Mais ligada no funk carioca, boa parte dos garotos conhece o Racionais. Shabê lembra que, até há alguns anos, nove de 10 rappers imitavam o quarteto paulistano. Hoje, a cena é outra e ele não vê contradição no fato de o grupo evoluir, adotando posturas diferentes e até antagônicas às de 20 anos atrás. “Quem não muda?”, pergunta. 

Por várias vezes, o arte-educador e rapper Iceband acompanhou o Racionais em suas visitas a BH. “Mude a sua rua, assim você consegue mudar o mundo”, dizia Brown ao mano mineiro. Homem na estrada está entre as preferidas de Iceband, que conheceu de perto o mundo do crime. É sobrevivente, ao contrário do personagem dos versos de Brown.

“Eles nos mostraram que existe violência, mas também o diálogo por meio da cultura. A representatividade deles na periferia é imensa. O Racionais no ensinou que é possível melhorar sem trocar tiro, mas por meio da palavra”, diz. Mudar não compromete a essência do grupo, defende. “Enquanto o Brasil não melhorar, o rap não vai amaciar”, garante Iceband.

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