terça-feira, 28 de abril de 2015

"Tô ouvindo alguém me chamar": música dos Racionais MC's vira curta metragem


Cavaleiro São Jorge, de Rogério Cathalá, foi selecionado pelo Cilect, considerado o Oscar do cinema universitário e será exibido em mais de 60 países que fazem parte do circuito do festival.
"...Eu andarei vestido e armado com vossas armas
para que meus inimigos, tendo pés, não me alcancem; tendo mãos,
não me peguem; tendo olhos, não me enxerguem;
nem pensamentos possam ter para me fazerem mal

Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, flechas e lanças se quebrarão
sem a meu corpo chegar, cordas e correntes se arrebentarão
sem o meu corpo amarrar"                                                   (uma das versões da Oração de São Jorge)


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A ideia de possuir corpo fechado é comum no mundo dos ladrões. A "categoria" também utiliza o santo católico/sincrético como espécie de padroeiro para se blindar espiritualmente, na esperança de que o efeito das rezas e pedidos ajam nos próprios corpos ao empunharem armas de fogo durante assaltos. Querem que as balas se percam na rota até seus peitos ao serem disparadas pelo cão do revólver.

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Dia 23 de abril é dedicado a São Jorge, cruzado cristão que atua na dimensão bélica dos conflitos e é símbolo do arquétipo do guerreiro tão necessário nas periferias do Brasil. Mais precisamente em São Paulo, onde a história do curta metragem se passa e narra a trajetória em flash back de Paulo, bandido que agoniza ao lembrar sua vida no crime ao lado de seu parceiro.

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"Dois moleques caminharam em minha direção
Não vou correr, eu sei do que se trata
Se é isso que eles querem
Então vem, me mata
Disse algum barato pra mim que eu não escutei
Eu conhecia aquela arma, é do Guina, eu sei
Uma 380 prateada, que eu mesmo dei
Um moleque novato com a cara assustada
"Aí mano, o Guina mandou isso aqui pra você"
Mas depois do quarto tiro eu não vi mais nada
Sinto a roupa grudada no corpo
Eu quero viver, não posso estar morto
Mas se eu sair daqui eu vou mudar
Eu tô ouvindo alguém me chamar"


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"Tô ouvindo alguém me chamar" é a quarta faixa do disco "Sobrevivendo no Inferno" dos Racionais MC's, lançado em 1997. Na opinião do diretor do filme, Rogério Cathalá, é o melhor disco dos anos 1990 do país. Cathalá comprou a fita cassete do álbum ainda adolescente, quando via clipes de rap na Mtv com palha de aço grudada na antena, e aquilo mudou sua concepção de mundo.

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Não estamos dando spoilers ao contar que o protagonista está à beira da morte no fim do filme porque a própria letra da música que inspirou a produção revela isso. Cathalá migrou de Vitória da Conquista, Bahia, cidade do cineasta Glauber Rocha, para o centro de São Paulo durante a infância e estudou em escola pública. Lá presenciou com proximidade as histórias contadas nas músicas dos Racionais se concretizando com amigos e colegas de carteira que engravidaram cedo demais ou se enveredaram pelo crime e acabaram pagando por isso.

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Cathalá em diária de gravação
"O disco fala sobre o fascismo que impera na cidade de São Paulo e apresenta, pela primeira vez, narrativas de dentro do Carandiru", analisa o roteirista e diretor que produziu o filme por meio da Escola de Comunicação e Artes da USP e por financiamento próprio. O thriller policial/político é livremente baseado na composição do rapper Mano Brown e conta com a aprovação do grupo. Filmado nas periferias de Brasilândia e Parada de Taipas, em São Paulo, o filme tem como protagonista o irmão da cantora Negra Li, Gilson de Carvalho, que tragicamente faleceu em Brasilândia. Em abril de 2014, ele foi vítima de execução com dois tiros na cabeça por motivos ainda não esclarecidos.

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Gilson de Carvalho ensanguentado ao gravar cena para Cavaleiro São Jorge
O filme começou a ser rodado em 2005 e depois de uma década será lançado internacionalmente para depois circular pelo Brasil em agosto, no Curta Kinoforum – 26º Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo. "Levou tanto tempo para ficar pronto que quase virou o Château dos filmes universitários", brincou o diretor que classificou o filme como uma tentativa de desumbigocentrizar a visão de vida que a classe média tem a respeito da cidade de São Paulo.

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Curiosos prestam atenção às filmagens do curta
O longa de 2013 "Faroeste Caboclo" já se propunha a adaptar uma canção comprida para o cinema, no caso uma de Renato Russo, em função das características audiovisuais presentes no conteúdo da letra. A temática da música dos Racionais tem vários pontos em comum em termos da morte do protagonista, da situação de exclusão e criminalidade. A diferença é que o filme de Cathalá, ao qual vimos em primeira mão, foi feito como as músicas dos Racionais: na base da guerrilha.

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