segunda-feira, 25 de maio de 2015

Confira a 3º edição do Jornal (RE) OrgaNISE

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EDITORIAL
Antes de me soltar totalmente das correntes que me prendiam sinto a força da última chicotada bater em minhas costas, sem pensar corro para mata mais próxima, procuro pedras, galhos, qualquer tipo de arma para me defender caso consigam me alcançar, penetro mais a fundo na escuridão, escuto passos próximos e antes de conseguir fugir novamente sinto uma bala perfurar meu peito esquerdo, com a força do tiro caio por cima do que resta do meu velho vestido, batendo a cabeça em uma pedra e apagando instantaneamente, essa cena passa de maneira rápida e confusa e de repente não sei mais onde estou, se fiquei muito tempo desacordada, abro os olhos e sinto o vento fresco soprar minha pele, estou calma e não sinto dores em meu corpo, percebo que estou deitada em uma rede bordada e delicada, lembro da rede feita por minha avó e quase esqueço que não sei como vim parar aqui, com dificuldade tento ficar em pé, sinto uma mão macia tocar em meu ombro me ajudando a ter equilíbrio, me estabilizo e procuro o rosto para agradecer
mas só vejo as mãos no ar me segurando, aceito naturalmente essa magia e só ai descubro todas as cenas utópicas que estão diante dos meus olhos, vejo ao longe mulheres negras com potes de barro na beira de um rio lavando roupa e cantarolando, próximo de mim crianças correm dando gargalhadas e gritos contagiantes, começo a rir junto delas mesmo sem saber o porque estão rindo, suas risadas formam um fundo musical dos mais belos que já tinha imaginado, vejo ao fundo homens cortando e cozinhando bacias de legumes em enormes fogões a lenha, conheço aquela gente, conheço esses sonhos, essa simplicidade, é a minha gente, meus parentes, meus amigos, meus ancestrais, tudo parece negro por aqui, e é por isso que me sinto tão bem, não consegui fugir daquele mundo cruel de momentos atrás, onde me chicotearam e me deram tiros, esse mundo me matou, como sempre fazem com nossa gente, mas ressuscitei como uma mulher livre em um novo mundo. Encantada e respirando liberdade, começo a andar e observar a multidão negra que sorri, comprovo que mesmo com a demora em achar a sociedade sem preconceitos ela realmente existe. Escuto um tambor ao longe começar a tocar, meu coração começa a acelerar e saio correndo seguindo as batidas, abro os olhos percebendo que o som do tambor se transforma em uma música que identifico com muita dificuldade ser a música chata do meu celular velho, fui arrancada do mundo mágico pelo desespertador, ainda demoro alguns segundos para entender que nada era real e que toda essa gente não estava aqui no quarto vivendo em uma comunidade sem racismo. Acho graça da minha própria frustração em ter acordado antes de ver mais coisas daquele lugar, decepcionada com a realidade me resta tentar voltar a dormir, quem sabe sonhar novamente.”

Esse sonho podia ser de Conceição, Edna, Luciene, Tia Ciata, Rosangela, Eliete, Karol, no Brasil ou na África, com chicotes ou com o choque, nos manicômios ou na perifa. As dores que sentimos são dores antigas, lembranças de um tempo que vivemos muito antes de nascidas. Histórias de lutas. Pra continuar, nos agarramos à esperança da potencialidade dos projetos atuais e do trabalho de base que tanto acreditamos. A busca pela comunidade enegrecida e colaborativa é desejada po todos nós, o grito de paz que vem dos subúrbios e favelas se torna cada vez mais forte.
Nesse editorial trazemos em imagem o rosto dos que realmente ocupam oInstituto Nise da Silveira, as pessoa pra quem esse jornal quer ser importante, os clientes-internos que sobrevivem ao sistema manicomial, resistindo em sorrir, receber e distribuir afeto.
É pra esses tantos em cárcere no andar de cima que persistimos em fazer, sem estruturas básicas, a terceira edição do JORNAL REORGANISE.

É nós por nós.
Nós vamos reagir!
A revolução será negra!
Não vivamos mais como escravas!

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