terça-feira, 30 de junho de 2015

Cascão diz: "Polícia é bandido de carteirinha."

Djalma Santos Rios, o Cascão, é o líder de um dos grupos mais relevantes do rap nacional, o Trilha Sonora do Gueto, ou apenas T$G. Recentemente, o rapper lançou uma música encomendada pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), que repercutiu nas redes sociais  e já beira as 300 mil visualizações no youtube. Através de um dossiê recebido pelo artista com denúncias de violações aos direitos humanos dentro dos presídios, o som surgiu em um momento político delicado. A proposta de redução da maioridade penal tramita no Congresso Nacional.



Vaidapé: Em 1993, o PCC foi fundado. De que forma a facção conseguiu se impor em um sistema penal que sofria com estupros, extorsões e assassinatos?
Cascão: Isso é mentira, cadeia é igual na rua. Só acontece alguma coisa quando tem que acontecer. Isso é conversa fiada que o poder capitalista e a televisão impõe, no intuito de denegrir a imagem do preso. Eles não querem recuperar ninguém, eles querem afundar mais. Isso aí de estupro é mentira, só relaciona com outro homem quem gosta.
O que mudou dentro das cadeias pós PCC?
Na minha opinião, a única coisa que mudou foi que se criou uma resistência. Antes os funcionários oprimiam, agora eles são obrigados a respeitar. Tanto é, que criaram o GIR (Grupo de Intervenção Rápida) porque os funcionários sozinhos não estavam dando conta.
Você acha que essa forma mais digna de se tratar o preso se deve à força que a facção alcançou nas ruas?
Com certeza. Antigamente se oprimia muito mais o preso. Agora, o funcionário sabe, que se oprimir e ficar moscando na rua, ele vai morrer.
“AGORA, O FUNCIONÁRIO SABE QUE SE ELE OPRIMIR E FICAR MOSCANDO NA RUA, ELE VAI MORRER”



O PCC é um grupo revolucionário?
Depende da interpretação. Eles são revolucionários no sentido que eles mudaram alguma coisa. Eu considero revolução porque mudou, pelo menos nas vilas não se morre igual antigamente. Na minha opinião, se perde a legalidade porque pratica crime. Mas não deixa de ser um ato revolucionário.
Você acredita que o governo do Estado de São Paulo se apropriou dessa redução de homicídios como se ele fosse o responsável por isso?
O estado democrático de direito, como sempre, se aproveita de tudo. Eles aproveitaram que foi o poder paralelo que pacificou as periferias e vão para mídia se promover. Só que é o seguinte, ninguém mais está de chapéu. Ninguém está ludibriado.
O PCC já tentou eleger deputado, e, recentemente, começa a estudar junto com advogados da facção uma forma de pleitear direito a voto. Como você analisa esse PCC mais político?
Eu não sei para onde o PCC caminha. Mas eu acho que se for para a política perdeu o amor. Aí morreu para mim. A revolução morre quando vira política [institucional]. Se virar política perdeu o encanto de máfia, de qualquer situação revolucionária.
Você acompanhou a mudança na liderança da facção em 2002, quando o Geleião sai e o Marcola assume o posto de principal líder. Você percebeu alguma diferença no comando?
Com certeza! Eu tirei cadeia com o Geleião. O Geleião e a tropa dele era só extorsão. Aí sim chegou a acontecer estupro, extorsão, tudo o que você havia na falado na primeira pergunta. Não era um entendimento geral, mas já aconteceu. O Geleião foi para a cadeia no estelionato, ele foi para cadeia tirar quatro anos. Aí, por causa de umas mortes, está preso há 30 anos. Então, o perfil dele não é de ladrão, que gosta de vaidade de dinheiro, o perfil dele é de verme.

“O PERFIL DELE NÃO É DE LADRÃO, QUE GOSTA DE VAIDADE DE DINHEIRO, PERFIL DELE [GELEIÃO] É DE VERME”

Qual é o perfil do Marcola?
É um cara revolucionário, que gosta de dinheiro. Um cara que é mente pensante. Se estivesse [solto]  na rua, pode ter certeza que estaria atrás dos milhões, porque a filosofia do Marcola é dinheiro. Foi preso em assalto a banco.
O preso, quando entra no sistema penal dominado pelo PCC, fica mais vulnerável à ação do grupo, e acaba entrando para facção?
Não, eu acho que não. Entra quem se identifica, quem tem a finalidade de continuar nessa vida e quer fazer parte de uma organização que tem a finalidade de mudar. Mas eu não sei te responder com clareza, por que faz muitos anos que eu não sou envolvido com nada.
Nos anos em que você esteve no cárcere, os presos filiados à facção tinham alguma regalia nos presídios?
Privilégio nenhum. Na verdade, só é um membro, mas não tem privilégio não. Pelo contrário, tem “desprivilégio”. A responsabilidade é maior, a cobrança é maior por fazer parte, saber como funciona.
Você considera o combate da polícia ao crime organizado eficiente?
Minha opinião, de verdade, o que eu vejo na vila hoje: os PMs é tudo nóia, tudo cheirador de cocaína que fica rodando as biqueiras para tomar papelote de farinha para cheirar. Polícia Civil está mais vendida que tudo, faz tempo. Qual combate esses caras têm? A sociedade é trouxa, é trouxa que investe nessa policia desbaratada de São Paulo e de todo lugar. Polícia é bandido de carteirinha.

“OS PMS É TUDO NÓIA, TUDO CHEIRADOR DE COCAÍNA”

Qual é a sua opinião sobre o plano de fuga do Marcola?
Não dá para saber, é muito pessoal, é muito interno. Mas também, a única maneira de mandar o Marcola para tranca [regime disciplinar diferenciado], seria ele falando no telefone e faz muito tempo que ele não fala no telefone. Então, vai saber se não foi armação para trancar ele, porque a segurança pública pode achar que a mente dele é o bloco de pensamento que sai as ações. Então, de repente, eles tentaram de várias formas e não conseguiram, e então armaram essa, vai saber.
Qual é o seu prognóstico para o PCC em 10 anos?
Olha, eu falo isso há uns cinco anos: São Paulo vai ficar igual o Rio Janeiro, vai nascer outros comandos, milícias, vai ser território demarcado.

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A entrevista do rapper abre uma série de entrevistas sobre o PCC, que irão compor a versão oficial do livro “PCC: dias melhores não virão”. Você pode baixar gratuitamente o compacto do livro clicando aqui.


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