quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Entrevista - Trocamos uma ideia com a grafiteira/artista urbana Becart

Foto por: Gabriel Oliveira

Abrindo os trabalhos de 2019, trocamos uma ideia com a jovem grafiteira/artista urbana do interior de SP, Rebeca vulgo Becart.
Becart representa a cena de grafiteiras e artistas urbanas de Limeira, interior de São Paulo.

"Simbora" pra entrevista!

Mó prazer em te entrevistar, de verdade!

Se apresenta pra galera, quem é a Becart?

R: Eu diria, que é uma pessoa que está em fase de aprendizado, e descobertas dentro da arte. E apesar de ainda estar se descobrindo, já sabe exatamente o que quer. Levar cores para todos os lugares.

Sabemos que Beca vem de Rebeca, mas o que significa o RT no seu vulgo?

R: O “rt” era pra ser junto com “Beca”, para ser uma junção de Beca+art= “Becart”. No entanto, já tinha um usuário do instagram com esse nome, então o que me restou foi acrescentar um ponto final no meio hahahah

Como a arte entrou na sua vida?

R: Eu acho que sempre esteve presente, não só em mim, mas em você que está lendo isso, e em todas as pessoas. Todos tem uma forma de se expressar a gente só precisa se encontrar. Eu passei minha infância fazendo ballet clássico, minha adolescência atuando, até que cheguei nas artes plásticas e me encontrei verdadeiramente.

Numa troca de ideia rápida, você disse que faz pintura de tela desde 2015, mas só em 2018 começou na arte urbana. Como ou quem te introduziu na arte de pintar na rua?

R: Eu sempre admirei mas nunca tive iniciativa sozinha, até que no ínicio do ano passado, eu vi que teria uma oficina de técnicas de graffiti, então não pensei duas vezes, e me inscrevi. Com incentivo próprio e com orientação do artista Wesler Machado (Alma), comecei a produzir.

Nesta mesma troca de ideia, eu perguntei se você se considera grafiteira e você responde algo que muita gente não sabe, mas é bem polêmico para alguns.

Você poderia explicar o que sobre: O que é considerado graffiti, grafiteiro e tal.

R: Sem sombra de dúvidas é um assunto bem polêmico mesmo, e existem diversas teorias.

A mais conhecida, e que eu considero bastante, é:

“O graffiti não é autorizado”.

As pessoas que não são desse meio costumam dizer: “Graffiti é arte, e pichação é vandalismo”, mas na realidade a única coisa que diferencia uma coisa da outra é a estética, pois o graffiti contém mais cores e formas. Mas as intenções e as atitudes são as mesmas. É uma forma de se expressar, de incomodar e dizer “esse espaço também é meu”.

Quando um trabalho é feito usando as técnicas do graffiti, mas com autorização, podemos chamar de muralismo, intervenção urbana e por ai vai.

Nos dias de hoje, alguns artistas discordam dessa teoria, e acreditam que as coisas não são como antigamente. Logo, consideram “graffiti” até mesmo as artes autorizadas, ou em espaços fechados.


Particularmente você se considera grafiteira?

R: Eu prefiro dizer “Artista urbana, que trabalha com técnicas de graffiti”, pois a maioria dos meus trabalhos são autorizados. Mas ser chamada de grafiteira não é algo que me incomode. Lá no fundo eu até gosto viu hahahah

Fale-nos sobre a “Ninfas Crews” que você participa. Porque deste nome?

R: “Ninfas” na mitologia grega significa “espíritos naturais femininos”. A crew existe como uma forma de incentivar umas às outras, e reconhecer nossos valores enquanto mulheres.

Quem sãos as integrantes e que tipo de trampo vocês fazem nas ruas?

R: Atualmente estamos em oito mulheres, Beca, Dama, Luly, Mana, Nega, Peace, Psicka, Reset.

Cada uma tem seu estilo, algumas focam mais em pichação/vandalismo, outras focam em muralismo. Mas pode crer, que a gente se entende super.

Como seus conceitos ideológicos e políticos influenciam em sua arte?

R: Querendo trazer autoestima pra minha gente. Mostrar que podemos fazer e conquistar qualquer coisa. Se eu tivesse a oportunidade, gostaria de mostrar a arte para todos os “excluídos”, para que eles possam se sentir libertos, assim como hoje eu me sinto. 

Foto por: Gabriel Oliveira

Quem são suas referências dentro do graffiti ou fora?

R: Meus dois professores Gilio Mialichi e Lea Moraes (pintura a óleo e aquarela), o aprendizado que tive com eles me ajudou muito quando comecei pintar na rua, e os dois me incentivaram bastante, são pessoa incríveis. E dentro do graffiti, a artista Panmela Castro, que representa muito bem as mulheres da cena (pesquisem sobre ela).

Você tem um estilo de arte definido?

R: Não exatamente. Brinco que estou na fase de me descobrir, quero fazer de tudo um pouco. Desde elementos da natureza, a personagens, até bomb’s (letras), e por ai vai.

Nossa sociedade é bem machista e o Hip Hop não seria diferente.

Como você lida com o machismo dentro de nossa cultura? Você expõe isto de algum modo em suas artes?

R: Eu tento me impor sempre que posso, mostrar que eu posso conquistar meu espaço. MUITA gente duvida de mim, muita gente torce para que eu desista. Pois afinal de contas, uma mulher que se impõe, costuma incomodar. Eles esperavam que eu ficasse na sombra, mas eu estou conseguindo aos poucos tapar o sol. E eu sei que vou conseguir, e compartilhar força com as outras mulheres da cena. Uma incentiva a outra, e isso é a revolução mais linda de todas.

Fiz poucos trabalhos abordando o assunto, mas já estou com vários esboços prontos pra passar pra parede em 2019, aguardem.

Pegando o gancho no assunto. Você é uma jovem de 20 anos, feminista e se posiciona contra o presidente eleito. Qual seu anseio ou medo para estes 4 anos de governo?

R: Ficar calada não é uma opção. Se eu já incomodava antes, agora vou incomodar ainda mais. Quem é do movimento hip-hop PRECISA se posicionar mais do que nunca. Bolsonaro não é mais um meme, ele está lá de verdade. O hip-hop precisa fazer a diferença, as pessoas do movimento precisam se unir contra esse sistema que promove a desigualdade social. E sim, eu tenho medo, medo por mim, medo pelos meus irmãos, eu sei que não será fácil. Na real nunca foi, mas agora vamos precisar ser mais fortes que nunca.

Eu sempre soube que existe um respeito entre grafiteiros e pixadores. Mas de certo modo o Graffiti já é bem visto por muitos, o pixo nem tanto. E muitas vezes o Graffiti é usado como um combate ao pixo. Como você vê esta questão? Ainda existe este respeito?

R: Entre as pessoas do movimento, existe sim. Quem tem essa visão de “combate” é a sociedade. Mas na rua, existe um certo respeito sim, ou pelo menos deveria.

Na cidade onde você mora tem muitos eventos de Hip Hop que integra todos os elementos?

R: Eu acredito que sim, tanto que a dois meses atrás, eu participei de um. Mas com certeza, poderia ter mais, com certeza são os melhores eventos.


O que você gosta de ouvir quando está grafitando ou desenhando?

R: Eu ouço tudo que der na telha (menos sertanejo universitário, ninguém merece) mas recomendo um rap, um blues, um black (quem sabe um funk? equilíbrio é tudo hahahahah)

Como você acha que poder dar mais visibilidade para a cena do Graffiti?

R: Fazendo cada vez mais. Afinal de contas, o preconceito sempre vai existir. Quer as pessoas gostem ou não, quanto mais fizermos, mais visibilidade vai ter.

Teve alguma pergunta que eu não fiz? Se teve, qual é a pergunta e a resposta, claro.

R: Uma dica pra quem está começando?

NÃO DESISTA! Gente pra desanimar sempre vai ter, mas passe por cima dessas pessoas e continue fazendo o que você gosta.

Quero agradecer por aceitar nosso convite. Em 11 anos de site ainda não tínhamos entrevistado alguém da cena do graffiti ou da arte urbana. Muito obrigado mesmo, luz na sua caminhada.

Deixe suas considerações finais, agradecimento, mensagem e seus contatos e redes sociais.

R: Gratidão!! Obrigada pela oportunidade, o hip-hop não para! Quero agradecer todos os meus amigos e as pessoas que torcem por mim e me incentivam a continuar. E pra quem quiser acompanhar um pouco mais do meu trabalho pode acessar o meu instagram: “@beca.rt” ou enviar um email para: “rebecadspereira@gmail.com”

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