quinta-feira, 14 de março de 2019

Dizem que só falo das mesmas coisas, é a prova que nada mudou, nem eu nem o mundo !

Essa é uma espécie de #ReferênciAna, aquela seção do NP, onde você encontra algumas de minhas percepções e discussões sobre referências históricas e sociais utilizadas em letras de músicas, não vou falar sobre todas, mas algumas que me chamaram a atenção no álbum Ladrão, do Djonga. Ladrão é o terceiro álbum solo do artista que segue uma tradição dos últimos dois,  Heresia, de 2017, e O Menino que Queria Ser Deus, de 2018, de serem lançados no dia 13 de março. 


Confesso que a primeira vez que ouvi, não gostei. Talvez por ter muitas coisas pra prestar atenção, eu priorizei o todo e acabei não dando atenção pras letras como deveria. Alguns beats eu não gostei, pois pareciam o mesmo disco, mas depois compreendi a proposta da tritriologi e HatTriavk nos diz muito. Alguns versos achei que ficaram soltos no meio do som, algo que parecia mais com uma auto-reflexão pensando alto pra que nos escutássemos. Mas foi a minha percepção, não prejudicaram o disco como um todo, é algo subjetivo meu e não prejudica a sonoridade e mensagem do disco. Seguindo o que fez em O menino que queria ser Deus, o disco começa seco, sem uma introdução ou finalização da última faixa que nos prepara para ouvir. Achei isso massa, porque é basicamente uma representação de TENHO MUITAS COISAS PRA FALAR, NÃO DÁ TEMPO DE AMACIAR A MENSAGEM, o que também conversa com a capa, que ganhou as redes na última semana e dizia muitas coisas sem nem dar play nas músicas. Por fim, o disco pra mim tem um caráter de denúncia, mas não aos moldes gangsta rap clássico, que era algo mais coletivo, mas algo mais individualista que se aplica ao todo. Se enxergar como homem preto no mundo branco, (nome da mixtape do Delatorvi), é fazer também com que muitos meninos se enxerguem nas letras, uma nova roupagem das narrativas que ganharam a gente em 1990.
Amei as letras, alguns beats não, mas no todo, é importante que a mensagem esteja aí. Não foi um disco escrito pra outro MC, falando de como é difícil ser ele e ser invejado por todos, é sobre dia a dia, sobre a vivência de muitos jovens negros, portanto, bom disco. 



Mas vamos lá, vou discutir sobre as referências com cunho histórico e social que eu percebi utilizadas nos versos do rapper, lembrando que são minhas percepções como ouvinte, pode não ser a intenção real do rapper. Vocês podem conferir as letras completas do sons aqui, enquanto ouvem aos sons abaixo:


Como eu disse anteriormente, não tem uma introdução no álbum nos moldes clássicos, mas o som que abre o disco, Hat-Trick, funciona como essa Introdução. Como diz o início da música, ele justifica o porque de conceber música como o faz, "Pronto pra morrer de pé, Pro meu filho não viver de joelho". Além de lembrar seus ouvintes no verso "Cê não sabe o que é acordar com a responsa, que pros menor daqui eu sou espelho". 


Quando ele menciona "o que me fez chorar, num foi a morte do Mufasa", lembra o clássico filme da Disney, Rei Leão, considerado um dos melhores filmes infantis que também tem uma das cenas mais impactantes da história do cinema, a morte de Mufasa (pai do Simba), e é famoso por arrancar lágrimas de muitas pessoas. Djonga traz a comparação, da realidade de muitas crianças (público do filme), inclusive ele, que choram por reais motivos diversos que são expostos no dia a dia. 

O próximo verso que me chamou atenção foi "Olha os playboy gritando, que o Djonga é o mais OG. Poupe Me. Me desculpe aí, mas não compro seu processo de embranquecimento de MC, sigo falando o que vejo, tem irmão que tá falando o que essa mídia quer ouvir!", creio que aqui ele resume e responde a todas as possíveis críticas que podem vir ao álbum, sobre a continuidade da pauta, que pasmem, ele vivencia, e se prezamos tanto por cantarem o que vivem, porque dizer que é o mesmo assunto? Também ele define sua linha do disco. Por isso o refrão crava, “Abram alas pro rei, ei, oooo, me considero assim, pois só ando entre reis e rainhas”. 
O final, a poesia declamada por ele, parece nos deixar a sós com ele, e ele sintetizar a introdução proposta, o porque ele rima, como ele enxerga as situações, quem tá por ele, e o porque do nome do disco ser LADRÃO


Bené (Jonathan Haagensen) da Cidade de Deus dizendo “Virei Playboy”.
Seguindo pro segundo som, Bené. A referência que talvez comece no título do som. Bené foi um personagem coadjuvante no filme Cidade de Deus, uma das marcas  mais importantes da narrativa é a sua morte. Ela dita a passagem de um Zé Pequeno mais brando para um homem enfurecido. 



A letra que narra também a vida de uma pessoa que está no meio do tráfico, começa questionando "O que vale mais, um jovem negro ou uma grama de pó, por enquanto ninguém responde e morre uma pá". Creio que nessa parte, Djonga quis levantar a questão do debate acerca da discriminalização das drogas. Enquanto tratamos como tabu, como um caso de segurança e não de saúde pública, continuamos com a falsa guerra as drogas que segue matando aos nossos jovens, e que também corrobora e explica estatísticas como "Em SP, 64% das pessoas mortas pela PM no ano passado eram pretas ou pardas". Abaixo deixo a perspectiva do dr. Carl Hart, primeiro professor titular de neurociência negro da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, que desafia o senso comum e oferece um novo olhar sobre as drogas, pra que comecemos a pensar um pouco sobre a perspectiva proibicionista que alimenta essa guerra que tem um alvo específico.





Ele segue descrevendo a vida dele e também trazendo a vivência pras pessoas. Versos como "Passar os quilo não te deixa mais leve, pesa a alma ... falar em palma na sua mão vai ser só dinheiro sujo, é que quem lucra é o capitão vai com calma marujo", alerta sobre uma das grandes críticas da política anti-drogas, que prende, mata e dizima jovens linha de frente das ruas, e deixa solto quem financia, quem traz armas, quem lucra com a morte dessas vidas que ficam expostas na guerra. 

Quando ele menciona o rei da vida eterna de Thundercats, em "Aqui não tem quem vive muito, igual Mun Rá" ele faz uma comparação sobre a idade que muitos jovens são vítimas, onde a grande parte não chega aos 27, em que Brown contraria as estatísticas. 

O verso que faz o trocadilho com aviõezinhos, se referindo ao nome dado aos jovens que estão no tráfico, e menciona o atentado de 2001, também foi mais uma marcação da vida breve. "São aviõezinhos, mas tão a caminho do world trade center, todo mundo sabe que vai dar merda".

Continuando, o verso "Reis africanos no império errado, UooooÔ, mal sabem que tem um império herdado! Yeah!" nos diz muito, perpassa sobre nossa história apagada, sobre como o processo de colonização/escravização do Brasil colabora também pra situação toda. Se afastarmos a visão do foco, conseguimos enxergar a maioria negra nas estatísticas, sendo produto de uma história recente que tem mais de 500 anos de opressão. Deixo o vídeo abaixo, é bem simples mas fala um pouco da origem africana e sua formação na identidade brasileira.


No penúltimo verso, Djonga relembra pra quem está dando o salve, "To suando na bic, pra te salvar da police, pra seguro de vida, Não adianta apólice!", assegurando que a mensagem é de cuidado, de preoucupação. 

E por fim, ele menciona "É que quem roda como O.J, não ri como em Simpsons". Em 1994, o ex astro do futebol americano O.J Simpson foi acusado de matar a ex-esposa  e o amigo, após ser detido e preso, começara um longo julgamento que ocasionou um grande debate entre os norte-americanos, não só pela brutalidade do crime e pela celebridade do acusado, mas por se tratar de um negro acusado de matar duas vítimas brancas. A defesa do ex-jogador, de forma muito habilidosa, levou a discussão para a questão racial, negando totalmente a autoria do delito. Mesmo tendo sido absolvido pelo Tribunal, pela prática do duplo homicídio em desfavor de sua ex-mulher e de seu amigo, O. J. Simpson é mundialmente conhecido pelo fatídico incidente, o caso O. J Simpson é um caso clássico de condenação pela mídia. Embora O. J. Simpson tenha sido absolvido pelo Tribunal do Júri no âmbito penal, o astro não escapou de uma condenação no juízo civil para pagar uma dívida superior a U$ 30 milhões para as famílias das vítimas. Referidas condenações fizeram com que o restante do patrimônio de Simpson escoasse, o carregando ainda mais para o fundo do poço. Em 4 de outubro de 2008, O. J Simpson foi condenado pela prática de diversos crimes, como roubo à mão armada, sequestro e associação criminosa, tendo que encarar uma pena de 33 anos de prisão. Fugindo da especulação sobre ser culpado ou inocente, o caso envolve muitos aspectos, Djonga o utiliza por ser o julgamento de uma pessoa negra, que teve a vida mudada após a acusação e a prisão, e utiliza o seriado de comédia Os Simpsons para explicar que por mais bem sucedido que seja, ou que pareça ser estar em uma boa condição financeira advinda do tráfico, o caso é de tristeza e não para sorrir.

Sobre algo que não podemos deixar de destacar, "Homens maus destroem perspectivas, perplexo só fica quem crê em conto de fada, no país onde a facada que não aleja, elege. Atire em mim que eu mudo tudo e conversa encerrada", só tenho uma coisa a dizer.




Seguindo, o terceiro som chamado Leal, é um love song. Ao melhor estilo Gangsta Love, ele descreve como se apaixonou pela garota a quem se refere, e como é o dia a dia. Mais uma vez exaltando as mulheres negras, como faz em suas obras, Djonga descreve "Minha queen Latifah, o trono é seu se lembre, tá na pele que Katy Perry não se compara!".

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A sequência, Deus e o Diabo na terra do Sol tem participação de Filipe Ret, e consta o verso que dá título a essa matéria.

"Garota não tema o novo, deixa eu bagunçar seu lençol, seremos Deus e o Diabo na terra do Sol, na terra do Sol, livres na terra do Sol!”, o que parece uma declaração de amor filosófica, faz menção ao filme de Glauber Rocha, "Deus e o diabo na Terra do Sol". O filme foi realizado em meio a ditadura de 1964, e conta a história de Manuel, um peão, homem duro, que vive do que o sertão lhe oferece. Manuel durante a trama acaba assassinando o fazendeiro para quem trabalhava e tal atitude não se dará sem consequência, e então ele se vê sem casa, nem laços, apenas com a mulher ao seu lado rumo ao deserto sem fim. E será nessa Terra do Sol intermitente que ele se verá, literalmente, entre Deus e o Diabo. Podem ler mais sobre a crítica escrita por Robledo Milani aqui.

Djonga faz uma reflexão sobre a carreira e as mudanças que a fama traz, dizendo "Dispenso fama, like, e o que vem com poder do mic, relações tão sinceras quanto à existência do Mickey". E também critica as falsas vivências que muitos artistas vendem em "Nessa cena todo mundo é bandido, mas quase ninguém pegou num revólver, de fã base aqueles menor que paga na net, querem ser tekashi, mas nunca fizeram um 6meia 9nove", no trocadilho final Djonga faz referência ao rapper 6ix9ine, que é também conhecido como Tekashi.

No próximo verso "Eu vou renascer Canudos, exércitos rivais se curvarão, quando querem novas ideias me procuram então, me chamem Antônio conselheiro, ando reto, não na curva varão", ele menciona o conflito ocorrido no sertão baiano, entre as tropas do governo federal e um grupo de sertanejos liderados por um líder religioso, Antônio Conselheiro. Aos olhos dos governantes, Canudos começou a ser visto não só como um arraial de fanáticos religiosos, mas também como um ninho de rebeldes monarquistas e perigosos, que precisavam ser eliminados, o que dialoga também com o filme citado. Djonga exalta a ação do beato Antonio, e compara com a caminhada de muitos que se entitulam "varões" da igreja e não tem o mesmo caráter popular.

A parte do Felipe Ret não me agradou, no melhor estilo Xamãverse, ele soltou um monte de verso avulso falando sobre si que me desagradaram. Mas gosto do final do som, onde ele retoma a ideia do filme, do sertão, onde dizem o mundo é o sertão, retomo a ideia de estar entre a figura de Deus e o Diabo, representando a dualidade do bem e do mal a todo momento. E no fim manda "Foda-se o capitão e o general, o amor é o mais alto grau da inteligência humana!", achei lindo o foda-se aos que representam o que há de mais abominável, o ódio, a ignorância, a falta de empatia.


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O quinto som, chamado Tipo, tem participação de MC Kaio e também é um love song. Além dos versos de declaração, selecionei alguns. "Meu medo é ser mais um cara, que morre lutando pra virar blusa de boy, naipe Che Guevara", aqui tem tanto a se dizer. Olhem pro lado, pros Marielles presentes e pra quem tá vociferando isso, pra quem tá fazendo festa com o nome Marielle vive!, acho que essa reportagem do portal Alma Preta com a família dela diz um pouco sobre. Como mortes simbólicas viram adereços ao invés de virarem pautas e mudanças.


Família de Marielle Franco, Foto: Solon Neto
O sexto som, que leva o nome do álbum, Ladrão, ele comenta um pouco sobre a perspectiva de roubar, no sentido de tomar de volta. Mais uma vez remetendo aos grandes reinos africanos, ele lembra que hoje ele toma dos boy, o que era do nosso povo

Acho legal que ele diz em um dos versos, "Correndo essa maratona, e conforme for uso a mão Santa Maradona", fazendo menção ao polêmico gol feito por Diego Maradona com a mão nas quartas de final da Copa de 1986 contra a seleção da Inglaterra, ele entende que seja qual for a forma, ele vai vencer. 

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Eu acho algo engraçado e interessante sobre o Djonga. Ele canta muitas coisas direcionado a um grupo de pessoas, que mais pra frente vai tá na beira do palco cantando as indiretas ácidas pra si mesmos. É preciso ser grande pra proporcionar esses momentos. Quando ele diz "Me diz a fórmula pro tal sucesso, já que talento não garante view, ao menos seja verdadeiro, o mais perto que cês chegaram do morro é no palco favela do rock in rio", isso tem direção, tem propósito, e muita gente que devia ser atingida e refletir, acaba cantando sem absorver o gosto da linha. O que ele complementa no verso "Roubei dos playba o destaque na cena, num é atoa que até os cara hoje é meu fã, e as mina clara privilegiada, pra roubar o lugar da minha quer tirar o sutiã! ... Dei Voadora na cultura branca, corda no pescoço, eles passam e eu rasgo o pano!". E ainda complementa na próxima estrofe, "Tem gente que nem entendeu o primeiro inteiro! Arte é pra incomodar causar indigestão, antes de tu engolir, te trago um prato cheio, cagando potes pra classe média culpada, que agora quer colar com nois", acho que aqui ele sintetiza o que estou dizendo. Por muitas vezes algumas pessoas entendem os versos dele como revolucionários, mas sequer olham pra própria conduta, e revê seus privilégios, acabam cantando versos, que se fossem balas poderia ser considerado suicídio. 

Ladrão é sobre a caminhada de Djonga, mas também um breque pra gente analisar o que tem vivido até aqui. Sucesso econômico não é tudo, e por isso pensar os fiel da nossa área falando espanhol e as irmã de cabelo sarará criolo sem ser estranha, também é necessário. 

A faixa sete, Bença, é uma das mais lindas do álbum na minha opinião. Djonga canta uma mensagem direcionada a avó. Famílias negras em geral, tem como base o matriarcado herdado da ancestralidade africana, e a resistência das mulheres negras é sempre algo destacado. Seja pras sempre referências de homens negros as mães como rainhas, seja pelas barras enfrentadas por garantir a existência da família. Nesse som ele dialoga primeiro com essa representação feminina que segurou as pontas, mas também chega na orelhada pra quem acaba esquecendo disso. 

O verso "Onde mães fortes e generosas se criaram, o que é do zotro não é meu, mas o que é meu tá aí pro zotro. (Se precisar)" me emocionou muito, porque é bem comum se pensarmos um pouco nas nossas infâncias, alguma situação do tipo, como a solidariedade entre nós é algo a ser exaltado sempre. 

Outro verso que chama atenção nesse som é "Que num é em blog de hippie boy que se aprende sobre ancestralidade", TIVE UMA PEQUENA EXALTAÇÃO QUANDO OUVI, creio que essa é uma crítica tão pertinente, que já vem sendo cantada a tempos. Não só o fato da ancestralidade virtual que muita gente sustenta, ou das manchetes de descobrir qual orixá parece mais com seu signo. Mas é olhar pra dentro de casa, pra figura dos mais velhos, e lembrar quanta troca devíamos ter até aqui, mas muitas vezes desconsideramos seus ensinamentos, vivências, perspectivas. Muitos paradigmas se superam conforme a sociedade muda, mas tem coisas que nunca mudam, já que ser negro por aqui ainda é ser negro por aqui.
E ele complementa no verso "Que você é dono do agora mas o antes é mais importante que isso!".

O ponto alto é a voz de sua avó no final do som que abençoa a caminhada de Gustavo, Djonga, seu trabalho, e o caminho de todos. Em entrevista a Vice, Djonga salienta que "É um disco que eu gravei na casa da minha avó, que é um lance que faz toda a diferença. É onde minha avó criou minha mãe e minhas três tias numa situação bem adversa. Construímos um estúdio nesse lugar e eu decidi que queria gravar meu disco lá. Foi a melhor decisão que eu fiz na minha vida. Estava lá sentindo tudo o que eu senti na minha vida inteira, no lugar que eu fui criado, perto das pessoas que eu mais amo no mundo". declara.

A oitava faixa do disco, Voz, tem participação de Doug Now e Chris MC. O som começa com Doug Now, destaquei o verso "Gente igual a gente morre, a mídia omite, de acordo com as pesquisa, era pra esse som ser só o beat", porque é também marcante Djonga falar que canta a mesma coisa porque nada mudou, já que em meados de 90, os 4 pretos icônicos do rap, também eram a imagem e semelhança das pessoas marginalizadas, dos que morrem simplesmente por serem quem são. 2019, e ainda é de grande valia cantar que a imagem de Doug é a imagem comum do grande número de vítimas da violência
E também acho importante levantar como esse questionamento de "porque não eu? porque nunca me deram tiro?" tem se tornado cotidiano aos nossos jovens negros e periféricos, levantando a bola da diferença de cotidiano entre negros e brancos que muitas pessoas ignoram, esse verso também dialoga com o que Djonga disse, sobre não ter chorado pela morte de Mufasa. Continuando ainda a retratar a especificidade de ser um jovem negro, Doug Now relembra os 5 jovens negros assassinados em 2015. Wilton, Wesley, Cleiton, Carlos Eduardo e Roberto, tiveram o Pálio que estavam alvejado por 111 tiros, contrapondo a chacina do Costa Barros, como ficou conhecido o episódio, Doug traz a situação do foro privilegiado. Não só o que é dado a políticos, mas também o que é dado diariamente pra playboys que saem impunes das mais diversas atrocidades.


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Vítimas da Chacina de Costa Barros.
Djonga escreve seu verso contemplando a participação de Doug, e mais uma vez retoma a questão do privilégio branco e também marca vitórias pessoais. O verso "O bang não é apenas cor, interpretem, parece que ainda estão no ano lírico", faz menção ao ano de 2017, que disseram ser o ano lírico do rap, lírico é algo sentimental, quando ele diz pra que as pessoas interpretem, parece dizer pra acordarem e não acharem que tudo é pra si enquanto pessoas, mas sobre um sistema branco, construído ao passar dos anos. Ele parece complementar esse pensamento em: "Eles passam na faculdade sem estudar, postam contrariando as estatísticas, aqui, contrariar é passar dos 18 sem ser preso, e sem ser só mais um caso de algum cu da balística", comparando a situação mais uma vez do jovem branco com o jovem negro. 

Por fim, Djonga lança a linha "Porra, nesse disco queria escrever hit, mas não 'guento mais ler as lápides escrito "R.I.P."", justificando o porque dos trabalhos serem no estilo que são. Há quem fique buscando uma inovação musical em tudo, e isso nos fez discutir muito ano passado sobre os tais álbuns do ano eleitos por uma galera hipster que sequer ouve rap, sequer consome rap, sequer vivencia o rap; e talvez essa busca por inovação faz com que julguemos um trabalho essencialmente rap, sendo considerado mais do mesmo, quando tudo que esperamos que um disco de rap tenha, seja RAP, ritmo e poesia. Pra finalizar, Djonga chama no verso "Acha que tem que tá enterrado pra ser rap de raiz", e finaliza essa discussão, ou só abre portas pra que ela venha a tona. A frase foi dita por FBC, na entrevista que o coletivo D.V Tribo deu pro canal Rap Box. 



O nono som, Mlk 4tr3v1d0, é uma versão do som Moleque Atrevido de Jorge Aragão, o nome alterado pra esse jeito estranho que a juventude escreve, com números no lugar de letras, nos remete a ideia da história repaginada. Djonga adapta a música a sua vivência, e a música também parece dialogar com a contra-capa do disco, onde aparece Dona Nadir e Seu Aparício, fundadores da velha guarda da Mocidade, fazendo-nos lembrar do samba

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Foto/Edição: @serralhinha @assis176 , @alvinhocaverna


O som que fecha o disco, Falcão, Djonga parece mais uma vez refletir sobre si próprio e sua trajetória, de maneira que nós nos identifiquemos. 

"A vida batendo minha porta, e eu com medo da morte, é o mal que assombra eternamente quem não tem suporte, temos pouco, não que os ancestrais não tenham tentado, ainda que o muito seja só o vazio disfarçado", Djonga parece mencionar a questão da saúde mental de todas e todos nós. A depressão que assombra o mundo, muitas vezes é intensa e potencializada pelo racismo. Ele finaliza o verso dizendo que o muito seja vazio disfarçado, mais uma vez retomando que sucesso econômico não sana os problemas que ele relata. 

"Daí formamo um pelotão de 50 mil mano, que só serve pra confirmar que os cara tá ganhando" creio que aqui ele faz referência ao som Capítulo 4, versículo 3, onde Brown canta, "Seu carro e sua grana já não me seduz, e nem a sua puta de olhos azuis, eu sou apenas um rapaz latino-americano, apoiado por mais de 50 mil manos", quando ele diz que esse pelotão foi formado e que só serviu pra confirmar que os caras tão ganhando, creio que é mais uma crítica a como o consumo bem como a forma de fazer rap mudou, a sequência que fala "Porra, no que os irmão se transformaram? Essa merda no começo era só pelo hip-hop, hoje quem era falido é o mais falado, acertando por obrigação e errando por esporte" corrobora com isso, na medida que quanto mais merda, mais destaque, e muitas vezes se faz mais barulho por pautas rasas do que por mensagens sólidas. Talvez os 50 mil manos tenham sido seduzidos pelo carro, pela grana, e ...

"Eu sigo naquela fé, que talvez não mova montanhas, mas arrasta multidões, esvazia camburões, preenche salas de aula e corações vazios", creio que ele queira contrapor a fé cristã de simbologias, com a ação diária que socialmente transforma as pessoas que o ouvem. 

O som fecha com a voz de Elis Regina, cantando Romaria, que fecha o som com esse sentimento da fé cristã criticada em alguns pontos sendo lembrada novamente.  


Bom, é isso, minhas percepções como ouvinte de algumas referências utilizadas, pode não condizer com a intenção do autor. Abraços!

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