domingo, 6 de outubro de 2019

Artigo + Playlist | Rapper e sambista unido resposta que cala o ridículo



Essa é pra você que diz que samba com rap não tem nada haver 


“O rap é o novo Partido" como já dizia Leci Brandão na música "Sou Negrão" em que ela participa com Rappin Hood. (Partido ou Partido-Alto ou Samba de Partido-Alto é um subgênero do Samba) 

Uma coisa que o rap e o samba de partido-alto tem em comum é que sua origem vem da improvisação.
O rap e o samba são ritmos de origem africana criados em lugares diferentes, mas que em algum momento se uniram por sua proximidade ancestral.

O rap tem sua origem na Jamaica, na cultura de rua dos “Sound System” onde os Toasters mandavam poesias improvisadas em cima de um instrumental. Quando ele chega no Estados Unidos, um MC rima improvisadamente em cima de um beat “Break Beat” feito por um DJ. 



O Samba de Partido-Alto tem suas origens nas umbigadas africanas e é a forma de samba que mais se aproxima da origem do batuque angolano, do Congo e regiões próximas. 

Segundo o etnólogo português José Redinha, os primeiros estudiosos que efetivamente se debruçaram sobre a música africana perceberam que "as canções bantas, mesmo que insistindo num determinado tema, eram todas de improvisação" (1984). 

Um detalhe muito importante que precisa ser frisado: Pagode é uma derivação do Partido-Alto. 

Antes, pagode era o nome dado no Brasil, pelo menos desde o século XIX, a habituais reuniões festivas, regadas a música, comida e bebida. E nos pagodes, a música tocada era o samba, especialmente a vertente partido-alto. Mas com o passar do tempo, estes encontros ganharam outra feição. No início da década de 1980, os pagodes eram febres no Rio de Janeiro e o termo logo compreenderia um novo estilo de samba, rapidamente transformado em produto comercial pela indústria fonográfica. 


DOCUMENTÁRIO | PARTIDO ALTO - PARTE 1 | PARTE 2

O que os gêneros tem em comum além de terem sido criado por pretos na diáspora? A improvisação, a habilidade de contar uma história através de versos rimados, falar de amor e dos problemas sociais da favela. O rap é o novo partido não só por isso tudo, mas porque assim como o samba, o rap é um som que sempre ecoou muito nas quebradas. (Já foi mais, mas ainda representa). 

Mas não vou me aprofundar nisso, porque não sou etnólogo, nem historiador, sou só um entusiasta. Até porque o intuito desse texto é mostrar o quão próximo o rap é do samba e do pagode. 

CORRE NEGUIN | EDI ROCK E XANDE DE PILARES

No Brasil por muito tempo se perpetuou a ideia de que o rap não é música ou que ele é algo mais que música. Os que diziam que rap não era música, era por preconceito e os que diziam que o rap é mais que música, é por conta de ele fazer parte da cultura Hip Hop. Muita gente do rap entre mc’s e público tinha a ideia de que o rap não podia ir na TV. Se misturar com outro ritmo era considerado blasfêmia por alguns. Papo de vendido e os carai... 



Mas o rap sempre esteve ao lado do samba, muita gente gostando ou não. Quem é de quebrada e viveu os anos 90/00 das quermesses, os rolês, o samba sempre esteve nas quebradas de São Paulo ou Rio de Janeiro, nunca vi o samba como algo distante de nossa realidade. Não existe um faccionário que não se renda ao Raça Negra, ExaltaSamba, Negritude Junior, Bezerra da Silva, Beth Carvalho, Pixote, Leci Brandão e por aí vai. 


Em tempos em que o “trapper” Matuê diz que o R&B é primo do Trap, eu posso dizer que o Samba é pai do Rap...rsrs Zuera, mas são ritmos que tem muita coisa em comum e que funcionam muito bem juntos. 

Quando tive a ideia de escrever sobre essa proximidade eu estava ouvindo o som “Contramão" do cantor Belo. Nesse som, o Belo deita num beat de rap bem moderno... E eu logo fui pensando em todas as vezes em que o rap e o samba se fundiram ou quando seus respectivos artistas saíram de sua zona de conforto e fizeram uma parceria. 

Os nomes do mais lembrado são Rappin Hood e Marcelo D2. Do samba são Péricles, Bezerra da Silva, Leci Brandão e Arlindo Cruz.

Mas a primeira lembrança que tenho de um crossover entre rap e samba é na música "Gente da Gente”, do Negritude Jr com participação do Mano Brown. 
A música "Gente da Gente” foi lançada em 1995, junto com o álbum que leva o mesmo nome. 

Este som é um grande clássico! Esse som representa muito o sentimento de autocuidado, ta ligado? O sentimento de correr com os nossos, pelos nossos e para os nossos! 


Essa gente é na gente que crê

Negritude é lição de viver

Juventude drogada pra quê?
Ai meu Deus, o que posso fazer?
Essa gente já sofre demais
São tratados como animais
E só querem um pouquinho de paz
E precisam ouvir racionais.






“Sou Negrão" que conta com a participação da Leci Brandão faz parte do álbum "Sujeito Homem" do paulista Rappin Hood. 
Esse som e essa parceria é uma das mais foda e clássica quando se pensa na união do rap com samba. 


Subi o morro pra cantar (o rap ahh, o rap ahh)

Que é pra malando se ligar (o rap ahh, o rap ahh)

Que malandragem é trabalhar (o rap ahh, o rap ahh)
E a pivetada estudar




O grupo Expressão Ativa tem um dos grandes "hinos" do rap brasileiro, a música "Pacto". Grande sucesso nos principais programas de rap do Brasil, principalmente nas rádios “pirata” que depois se tornaram comunitária. O som “Pacto” faz parte do álbum Dinastia lançado em 2000. Porém algum tempo depois o grupo em parceria com o grande Péricles do Exalta Samba lançou uma versão orgânica/acústica do grande sucesso Pacto, o que manteve o som durante anos entre as mais pedidas no programa Espaço Rap da radio 105 fm. 


Um isqueiro um cachimbo e uma pedra o menino acendeu

Lá se vai sua inocência a delinquência agora o dominou

Amigo eu não acreditei, ao te ver assim
Você é só mais um dos muitos que morrem em vão
Pensando em ser ladrão, um tiro no coração
Volta, lembra da nossa infância
Lembra de Deus






Em quanto o rapper carioca Marcelo D2 estava à procura da batida perfeita, fez algumas (muitas) parcerias com sambistas. 



Uma das que eu mais gosto é a "Dor de verdade", do álbum "Meu Samba é assim" lançando em 2006, música que conta com a participação de Zeca Pagodinho e Arlindo Cruz. 



Esse beat aqui oh!
Dá pra rimar sobre tudo
Sobre rap, samba, passado, futuro
Sobre amor ou até sobre maldade,
Mas nesse aqui vamos falar é de saudade.
Eu disse vamos porque eu não tô sozinho
Tá comigo Arlindo Cruz e Zeca Pagodinho. 







Abaixo você confere uma playlist com 40 músicas que mostra essa proximidade entre o rap e o samba ou entre os rappers e os sambistas. 

A playlist é colaborativa, ou seja, qualquer um pode adicionar música. Se faltou alguma fique a vontade de adicionar.

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