domingo, 23 de fevereiro de 2020

The Dozen | Batalha de MC's, História e o poder da Palavra



Não é novidade que há muitos excessos em batalhas de rimas, eu (Hebreu) mesmo já presenciei rima racista numa batalha aqui na zona sul de São Paulo, e se você for no Youtube vai achar também. Porque vira e mexe um MC branco sempre aponta características que o eurocentrismo acha feio em pessoas pretas como falar do cabelo, nariz e aparência física. 

E se for mina? Vixiiii os caras abusam do machismo! 

Se você assistir a batalha (GASTAÇÃO X IDEOLOGIA) Mike e Buddy Poke x Black e Winnit | 172ª Batalha da Aldeia; vai ver que o Mike e o Buddy Poke não fazem um ataque ao Black, ambos atacam a Winni T falando que ela é feia, tem DST e a comparam ela a Vera Verão. Porque todo homem negro retinto parece com Jorge Lafon vulgo Vera Verão. Assim que MC branco ou alguns “pretos” fazem para tentar ganhar essas batalhas. 

Obs: Winni T é lésbica, logo os mc’s fizeram essa comparação. 

Muito tem se falado sobre a batalha do Buddy Poke X Noventa, nós escrevemos uma carta de repúdio e nosso parceiro Geysson Santos nos agraciou com um belo texto. 
Mesmo com tantas opiniões resolvemos publicar mais um texto sobre. Porém esse texto é algum mais profundo. 

Se tem uma coisa que eu aprendi com anos vivendo e estudando o Hip Hop, é que ele é ANSCESTRAL
Se é algo criador por pretos com energia de pessoas pretas, brancos em nossa cultura tem que ter muito respeito quando forem fazer algo. Chega no sapato, escuta, aprende e repassa o que aprendeu. A energia do Hip Hop não é diferente da roda de samba, da capoeira e etc. 

Em 2017, entrevistamos Nayê vulgo Anarka para falar sobre preconceito religioso dentro do Hip Hop, e a resposta de Anarka se encaixa perfeitamente neste contexto, confira: 
"O hip hop é de matriz africana, as batidas, a ideologia. as mesmas forças que regem nossos terreiros, regem o movimento.
Eu acho muito contraditório fazer parte de uma cultura preta e não defendê-la, não estudá-la, não respeitá-la.
Eu acho importante o posicionamento dos rappers diante de tanto ódio e intolerância com a nossa espiritualidade, porque essa é uma questão social, racial, pra ser mais específica, e o hip hop é uma luta social anti racista." 

A essência das rodas de freestyles/batalhas de rimas são só “gastação”? Como e quando surgiu? 

O mano Pablo de Moraes fez uma Thread no Twitter sobre. Confira: 


Batalha de MC's, História e o poder da Palavra 

As batalhas de MC segundo KRS-ONE têm origem em uma antiga brincadeira feita pelos negros escravizados, nas colônias do sul dos EUA, chamada: The Dozen. 
Os negros que devido ao transporte transatlântico ou devido aos maus tratados de seus senhores possuíssem algum tipo de deficiência eram vendidos em grupos de 12. 
Daí o nome "The Dozen" e também o objetivo da brincadeira que é atacar defeitos físicos ou de caráter que a pessoa possua de modo a desestabilizá-la. Há fortes indícios de que o The Dozen seja uma forma de um jogo nigeriano chamado: Ikocha Nkocha. 
Geralmente o The Dozen era jogado diante de uma platéia formada pelos companheiros de senzala, que incentivavam os participantes a responder com insultos cada vez mais flagrantes, a fim de aumentar a tensão e, consequentemente, tornar a disputa mais interessante de assistir. 
Uma referência recorrente era a Mãe. Lembra do clássico "A sua mãe é tão gorda, mas tão gorda que..." de o Professor Aloprado? Só que a figura materna na verdade não era a mãe biológica e sim uma metáfora para o Senhor de Escravos. Os pretos sempre foram geniais, na moral! 
Para alguns povos africanos as palavras carregam as qualidades físicas daí o fato de muitas religiões africanas abominarem os xingamentos. Entre os povos Dogon do Mali é dito que elas possuem Kutun uma energia que permeia todas as coisas. 
Para alguns povos africanos a habilidade mental era tão importante quanto a física já que afetar a mente é afetar o corpo. Um cara que parece ter entendido isso muito bem foi o boxeador Muhammad Ali, que costumava usar o The Dozens em brincadeiras com os oponentes, confundindo ou irritando-os quando o fazia para os desestabilizar antes das lutas. 

"Tá, então você quer dizer que esse tal The Dozen era uma pura e simples troca de ofensas gratuitas?" 

Não! Os participantes do The Dozen eram obrigados a exibir acuidade mental e proficiência com palavras. 

Livros para se aprofundarem na pesquisa de vocês

Em suas memórias Die Nigger Die! (1969), H. Rap Brown escreve que as crianças com quem ele cresceu empregaram o The Dozen para matar o tempo e evitar o tédio, da maneira que os brancos jogavam Palavras-Cruzadas. Brown afirma que jogar era uma forma de exercício mental. 
Segundo Lefever, em um sentido mais profundo, a essência do The Dozen não está nos insultos, mas na capacidade de responder a eles que a vítima possuí. 
Tomar algo dito como ofensa é ser considerado infantil. Maturidade e sofisticação trazem a capacidade de aguentar os insultos com calma pelo menos e, esperançosamente, com graça e inteligência ser capaz de responder a eles. 

O sociólogo Harry Lefever afirma que a habilidade verbal e a inteligência são tão valorizadas entre os afro-americanos quanto a força física: "A habilidade verbal é, portanto, um critério usado para separar os homens dos meninos". 
Rosa Parks antes de seu gesto icônico, que daria início a luta pelos direitos-civis, passou por um treino que envolvia se sentar calmamente e ouvir múltiplos insultos de modo a se manter calma em situações de confronto com a polícia ou com brancos racistas. 

A capacidade de manter o autocontrole e não se abalar por qualquer coisa sempre foi apreciada entre os povos africanos. Tanto que o título do rei da Nigéria no século XV era Ewuare algo como "Ele é inabalável." 
Apesar do que vem acontecendo recentemente em algumas Batalhas de MC's. Gostaria de salientar que as Batalhas de MC's não são algo vazio de significado como pura e simples ofensa e desrespeito, mas parte do importante legado de nossos ancestrais que aqui foram escravizados. 

Transformar ofensa em resistência, violência em autocontrole são princípios fundamentais do Hip-Hop. 

Faço minhas as palavras de Amiri nos versos de Mandume: "[...] mano, sem identidade somos objeto da História que endeusa "herói" e forja, esconde os retos na história..." 

Então antes de sair por aí pra pegar um mic e ficar falando besteira, aprenda com o outro costume africano que é sentar pra escutar e aprender com os que vieram antes de você. 
Paz! 

Fontes: Dollard. The Dozens: Dialectic of Insult.
Jordan. "Social Construction as Tradition: A Review and Reconceptualization of the Dozens" 

Lefever, Harry. Playing the Dozens A Mechanism for Social Control 

James, Dweck, and Monteria Ivey, Snaps: The Original Yo' Mama Joke Book 


Pablo de Moraes é de Juiz de Fora, Minas Gerais, 27 anos e tem alguns trabalhos com o ex-integrante do grupo Otra Soma Crew e atualmente lançou alguns sons com o vulgo Akill 379. Pablo já foi editor do Rap Genius BR e estuda história do Hip Hop desde 2013. Atualmente Pablo desenvolve trabalhos que visam conciliar o Hip Hop e o Ensino de literatura. 





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