terça-feira, 29 de março de 2011

Música Negro Drama é tema de análise da Revista Língua portuguesa



Não é de hoje que Hip Hop se transformou em objeto de estudo para teses de graduações, especializações, mestrados e até doutorados.  O tema Hip Hop passou a ser visto além das linhas que antes delimitavam e marginalizam esta cultura tão popular.
As variadas vertentes dos quatro principais elementos do Hip Hop deram a possibilidade de especialistas descobrirem algo que os pertencentes à cultura já conheciam de longa data, como por exemplo, o poder transformador no Hip Hop, a rica linguagem expressada nas letras e melodias do Rap, os passos criados e perpetuados pelos B. Boys, a importância  e os ótimos resultados da incorporação do Hip Hop nas salas de aula.
Neste mês o Rap foi o objeto de estudo da Revista Língua portuguesa, na coluna Obra aberta a música Negro Drama do grupo Racionais Mc’s  ganhou a percepção e observação de Edgar Murano que destrinchou cada estrofe para entender a ideia que o Racionais Mc’s tentou passar na canção
Crime Futebol e Música
Em Negro Drama, o gênero rap ganha contornos épicos
É com a tríade “crime, futebol, música” que o vocalista Mano Brown, do Racionais MC’s, inicia Negro Drama, tratado na forma de rap sobre a condição social do negro. Na quinta faixa do disco “Nada Como Um Dia Após o Outro”, vencedor do Prêmio Hutúz de melhor álbum em 2002, Edy Rock e Brown se revezam nos vocais para narrar o estigma e os caminhos perigosos que aos negros são dados trilhar.
Versos como “Negro drama, entre o sucesso e a lama / dinheiro, problemas, inveja, luxo, fama…” resumem os extremos da existência dessa população, cuja falta de perspectivas reduz suas chances ao crime, ao esporte ou à música – o fatídico tripé no qual se apoia a composição.
Na primeira metade, Edy canta os traços característicos desse “complexo”: “o trauma que eu carrego pra não ser mais um preto fodido / o drama da cadeia e favela / túmulo, sirene, choros e velas”. A regularidade do ritmo e das rimas dessa parte servirá para aprofundar o contraste com a métrica complexa, os versos longos e as imagens grandiosas de Mano Brown na segunda parte (objeto de análise neste artigo), marcada pelo tom de testemunho.
Com recursos cinemato­gráficos e literários, embalados pelo “cantofalado” do rap, a dicção de Brown se faz sentir em expressões lapidares e num potencial dramático que não se contenta em só descrever ou aludir. “Eu não li, eu não assisti, eu vivo o negro drama, eu sou o negro drama”.
Crime, futebol, música… Caraio,
Eu também não consegui fugi disso aí.
Eu so mais um. Forrest Gump é mato.
Eu prefiro contar uma história real,
Vou contar a minha…
O trecho é apresentado sob a entonação da fala comum, sem a modulação peculiar do rap. Daí em diante o relato vai adquirindo um tom mais inflamado, mais cantado, numa crescente retórica cada vez mais agressiva e contundente. Brown se vale da alusão ao filme Forrest Gump: O Contador de Histórias para ironizar a ficção, à qual seu relato se opõe.
Daria um filme!
Uma negra e uma criança nos braços,
Solitária na floresta
De concreto e aço.
Veja, olhe outra vez,
O rosto na multidão,
A expressão “Daria um filme!” delimita o início da ação, funcionando como uma claque de cinema. Em seguida o rapper descreve uma cena que, a julgar pelo caráter autobiográfico da letra, corresponde à sua chegada a São Paulo nos braços da mãe. A cidade ganha contornos dantescos, feéricos, como se ambos estivessem perdidos numa selva escura (“solitária na floresta de concreto e aço”).
A multidão é um monstro,
Sem rosto e coração.
Hey, São Paulo,
Terra de arranha-céu,
A garoa rasga a carne,
É a torre de Babel,
Famíla brasileira,
Dois contra o mundo,
Mãe solteira
De um promissor
Vagabundo.
O mito de Babel é uma metáfora da falta de comunicação entre os habitantes da metrópole. A sensação da garoa no rosto torna o retrato mais pungente, aumentando o sentimento de desamparo.
Luz, câmera e ação,
Gravando a cena vai,
Um bastardo,
Mais um filho pardo,
Sem pai.
uma vez a remissão à linguagem do cinema reitera a semelhança do relato a uma obra cinematográfica, ao drama de “mais um filho pardo sem pai”, uma história como a de muitos outros.
Ei, senhor de engenho,
Eu sei bem quem você é,
Com “senhor de engenho” (personificação da elite branca), Brown assinala o abismo entre as classes. Ao mesmo tempo, considera-se um ser anacrônico, aquém das novidades tecnológicas. Para isso, vale-se da metáfora do leão, selvagem e indomável, grande demais para o quintal da elite.
Análise completa no site da revista
Fonte: Revista Lingua Portuguesa
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