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domingo, 30 de setembro de 2018


O #ReferênciAna, assim como explica o nome, é uma seção do NP, aonde você vai encontrar algumas de minhas percepções e discussões sobre letras de músicas. Nesse caso, é mais uma interpretação e reflexões despertadas em mim, com algumas contribuições do próprio Kamau sobre as linhas de "Próximo".
#ReferênciAna - Próximo

A imagem pode conter: céu, nuvem e atividades ao ar livre
Foto por David Freiberg, arte por Muzzike

É sempre muito engraçado ver os comentários quando o Kamau lança algo, porque toda vez vem o clássico "voltou pesado", como se em algum momento desde o primeiro trabalho na música ele tivesse parado de produzir conteúdo.
A sensação de necessidade de um EP, álbum, é entendível, porém não se justifica, quando ao invés de consumir e refletir sobre o que acabou de ser lançado, as pessoas ficam pensando no Próximo.


O terceiro som da sequência de músicas avulsas que vem sendo trabalhadas nos últimos anos ('Contra', 2016 e 'Tudo é uma questão de...', 2017), se chama 'Próximo' e foi lançado no último dia 28 de setembro. Com produção do beat inicial por Della Beats, e a produção final de Kamau, adicionando o baixo por Júlio Mossil, guitarra por Toca Mamberti, Scratchs e colagens por DJ Nyack e vozes adicionais de Coruja BC1 e Muzzike. (Ficha completa na descrição do vídeo), Próximo conta também com uma espécie de lyric vídeo, gravado e editado por Rodrigo de Andrade e com cartazes feitos por Raynan Sanchez, aka Sanx. Acompanhe a letra aqui, e confira o videoclipe abaixo: 

Clique aqui para ter acesso à todas as plataformas digitais disponíveis. 

"Essa política sem lógica, sem nexo,
Essa política do próprio paradoxo,
Essa política larica mais que tóxico,
Essa política do fight bem no plexo,
Essa política que não respeita sexo,
Essa política perdida em circunflexo,
Essa política mentiras em anexo,
Essa política do choque heterodoxo"

Durante a execução de Próximo, a gente tem uma sensação de já ter ouvido algo sonoramente parecido, e isso se dá pela escolha dos tipos de palavras que iriam construir a música. Em 1995, Athaliba e a Firma fizeram algo nesse sentido, na música Política, a letra é assim como Próximo, cheia de palavras proparoxítonas (inclusive evidenciadas no lyric vídeo). Palavras proparoxítonas são as palavras que acentuamos, ou seja, colocamos mais ênfase sonoramente, na antepenúltima sílaba. Por isso então esse tipo de estrutura faz a gente lembrar de algumas referências sonoras que temos.

"A vida não dá boi, já disseram meus manos do Pentágono". A música começa fazendo referência ao refrão do som É o moio, do grupo Pentágono (2008). 



Seguindo, a linha "Sua rima é espetáculo ou diálogo?", parece ser algo que pode e deve ser direcionado a terceiros, o pertinente questionamento se a pessoa faz música pra impressionar, entreter, ou pra dialogar e estabelecer uma comunicação com quem ouve. Porém, a sequência, "Desde antes do Prólogo, tento ser meu próprio psicólogo, sei que não somo nada se o que escrevo for monólogo", nos leva a pensar também que pode ser algo mais intimista do próprio Kamau, funcionando como reflexão pessoal externalizada pra que as pessoas que se identificam se apropriem daquela autoreflexão. Prólogo (ouça aqui) é o EP do grupo Consequência, formado por Kamau, André Sagat e DJ Ajamu, lançado em 2002. Quando ele diz que antes do Prólogo, entendendo como sendo esse primeiro trabalho, ele já tentava ser o seu próprio psicólogo, traz essa ideia de que a reflexão era mais pessoal do que direcionada a outras pessoas. E aí o verso seguinte responde a reflexão, dizendo que se ele ficar no monólogo, fazendo um discurso pra si próprio, sem externar isso, não vai somar em nada pra quem ouve.

Capa do Avulso #02 - É tudo uma questão de...

Acredito que essa linha "Fugir do monótono, rimador autônomo, Fora do quantize, e coração como metrônomo" foi uma das interpretações mais pessoais desse texto, porque obviamente, não entendo o mínimo sobre essas paradas de manipulação e produção musical, então tive que procurar definições genéricas dos termos pra entender. Monótono por definição, é algo que indica uma ausência de variedade, diversidade, algo que tem uma uniformidade, e dialogando com isso, a capa do Avulso #02 - 'Tudo uma questão de...', tem uma placa de Proibido Estacionar. O objetivo da quantização é fornecer as notas criadas um tempo preciso de batida, não sei se correto dizer mas é uma espécie de  ajuste, de alinhamento das notas dentro de um tempo. Já o metrônomo, é o que vai marcar o BPM, que vai dar de uma forma geral, precisão rítmica pra música. Juntando tudo isso, com a questão de ser um rimador autônomo, que tem autonomia pra determinar o que faz ou não, sem imposições de outrem, entendo que estar fora do quantize e ter o coração como metrônomo, significa essa não limitação pra caber em algo, mas a liberdade de fazer música de uma forma essencial, que o movimente.

O verso "Experimento lírico, sem cunho político (porém), meu senso crítico cumpre seu dever cívico" acredito que principalmente esse ano, tem sido algo visível em todos os grupos sociais, em todos os espaços, por conta do momento político que o país se encontra, com polarizações partidárias (nem tão polarizadas rs), combinada com a  falta de autonomia de pensamento das pessoas. Esse cenário cria essas pressões pra que os e as artistas se posicionem politicamente a todo momento, em tudo que fazem, e as vezes o mesmo só quer fazer sua música, seu experimento lírico, de forma livre, sem essa necessidade de direcionar todo trabalho pra questões políticas de posicionamento sobre algo. Isso é uma parada muito forte no rap feito no Brasil, de forma que algumas pessoas até criaram o infeliz marcador do que é rap ou não é rap de acordo com o conteúdo das letras e tudo mais. E a segunda linha, ao meu ver traz um pouco sobre isso, as vezes o que importa, o dever cívico, está implícito e isso que importa. Cuide do seu rabo já, já diria meu RPW de lei. (Esse não é uma reflexão que não acha importante alguns posicionamentos em determinados momentos, necessários, mas é algo que vai na direção dos guardinhas, que ficam ali a todo momento querendo limitar o que as e os artistas tem que cantar).  

"Menino, máximo respeito é o mínimo, se o rap é religião, separa o do dízimo" a princípio, a minha interpretação foi num sentido mais ligado a questão do dízimo, mas de uma forma pessoal, então seria a devolução da prosperidade do artista pro rap, numa forma de investimento na própria melhora da qualidade das músicas apresentadas. Porém perguntando pro próprio Kamau e re-significando as impressões, é algo mais ligado ao contexto todo. Se as pessoas bradam que o rap é religião, que foram salvas pelo rap, que devem muito ao rap, porque não o consumir?Porque não essa retribuição pro "templo" que a gente frequenta? Pra estruturar, pra manter a única preocupação sendo "rezar", no caso, fazer música. As vezes as pessoas reclamam de pagar a entrada num rolê de amigo, não compram álbuns, não compram produtos, não exercem a sua "fé" como é esperado, e depois acaba reclamando que tem religiosos distorcendo a religião. Mas só é possível distorcer a religião com estrutura pra isso, então só é possível que se criem personagens "em laboratório" pra interpretar um espetáculo que não nos agrada, porque o público desses personagens tem gerado 'condi$$ões' pra isso. (Aqui não falo do consumo sendo só através de diretamente grana, mas também por muitas vezes as pessoas gastam energia e tempo pra falar mal do que não gostam, ao invés de divulgar e exaltar coisas que gostam).

"Muito mais que rótulo, gênero, título, SOU,
Glóbulo, cérebro, tímpano, VOU
Além do estereótipo, ótimo, 
no mínimo, máximo,
PRÓXIMO"

A primeira linha do refrão pra mim são as coisas que vem de fora pra dentro, então, rótulos, gêneros e títulos são coisas colocadas pra gente por terceiros, por isso que ele diz ser muito mais que isso. Já glóbulo, cérebro e tímpano, são nossos sentidos, nosso corpo em movimento percebendo o mundo. A biologia que nos ajuda a sentir o mundo e processar nossas percepções sobre ele, por isso é além do estereótipo colocado, é o que a gente consegue absorver do mundo. E aí, de forma bem extremamente pessoal também, penso que finalizar com "PRÓXIMO", indica que a gente só pode pensar no próximo, no que tem por vir, depois de perceber e absorver o que estamos vivenciando, sentindo, assistindo, ouvindo, agora. 

"E ainda faço por amor, talvez eu seja um dos últimos românticoscreio que ele não está literalmente falando sobre ser um dos últimos, mas nessa diminuição de pessoas fazendo música, além de POR, mas principalmente COM amor, e com todo o cuidado e responsabilidade que amar exige. Penso isso, por conta do possível diálogo que essa declaração de fazer por amor, faz com os versos antes do refrão, "Mas pra quem entra de olho na cédulas, saiba que nem todo grão de areia vira pérola, requisito básico, expandir o círculo, e tirar seu pensamento do cubículo". 


"Meu cântico, é por quem cruzou à força o atlântico, botando pânico em quem prefere me ver pacífico, típico, de quem teme meu pessoal prolífico" Trazendo a questão da ancestralidade, e dos desenrolares atuais do que aconteceu no passado, cantar por quem cruzou à força o Atlântico, é cantar por todos nossos antepassados que foram escravizados, violentados e cerceados do direito básico a vida. Quando Kamau fala sobre botar pânico em quem prefere ver ele pacífico, creio que seja também conversando com o verso anterior, já que cantar pelos antepassados envolve principalmente denunciar o processo histórico e os impactos atuais desse processo. 
A questão do meu pessoal prolífico (por definição é que gera prole, mas é também utilizado pra dar nome a quem cria muitas coisas, muitas obras), logo, EU entendi como sendo o povo negro criador de muitas coisas que foram sendo apropriadas ao longo do tempo, numa tentativa de apagar a história negra. As pessoas entram em pânico, porque  pensar sobre isso, envolve também responder sobre uma série de privilégios atuais conseguidos com a exploração desse grupo de pessoas  negras. Emicida, em Inácio da Catingueira (2018), tem uma rima que diz "Eles vão fazer de tudo para que você reaja, se você responder a um palavrão com outro palavrão, eles só vão ouvir o seu, ouse responder a um soco com outro, eles vão dizer: Ó lá, o neguinho perdeu a cabeça!"

Continuando nesse sentido de cobrança, de conhecimento de lugar na história, "Para cobrar os séculos e séculos de dívidas, nossa cota é revidar, melanina vívida, lágrimas, sangue, suor e pólvora líquida", séculos e séculos de vida se referem ao período escravocrata (declaradamente racista, já que hoje existe uma tentativa de velar esse racismo), e aí o pedido de revide vem quando ele caracteriza o que negros e negras escravizados passam nessa época, então, lágrimas, sangue, suor e as palavras cuspidas, que tem tanto potencial de destruição quanto a pólvora.

"Manda esse verso para análise balística, basta de estatística, sejamos símbolos, não mártires, ícones vivos, não ídolos frívolos" é importante e essencial que pensemos na questão de nos manter vivos, fisicamente. Ser um mártir, envolve ter um legado, uma causa defendida, mas estar morto. A estatística que tem que acabar, envolve talvez a questão dos números estatísticos de violência associados as pessoas negras em maioria, mas as pessoas como um todo. Quando ele canta que sejamos ícones vivos, e não ídolos frívolos, creio nesse apelo, pra que sejamos notórios enquanto ideias, seguros de posicionamentos, ideias e tudo mais, diferente do que a definição de frívolos traz. 




Caminhando pro fim do som, o verso "Flores em vida, menos homenagens póstumas, quantos já se foram na corrida pela fórmula, da imortalidade, da felicidade rápida" é marcado no vídeo pela imagem do DJ Primo com a mensagem "pra sempre". No último dia 8 de setembro, completaram-se 10 anos da perda irreparável do DJ Primo.  Alexandre Muzzillo Lopes era figura ativa no Hip Hop brasileiro, como DJ e produtor de eventos, ele atuou ao lado de vários nomes da música, e é lembrado por todos com muito carinho e admiração. O Kamau sempre menciona ele em diversos espaços, mantém mesmo viva as memória que tem com ele, e sempre emociona o carinho e respeito com que ele faz isso.

Foto por @jozzuphoto
Utilizando-se da última frase do som, como vocês puderam ver, o efeito foi realmente psicotrópico. Eu gosto muito de músicas que além de falar "eita" eu consigo ficar tempos pensando sobre, e refletindo, então, esse é mais um desses sons.

Bom, é isso, muito obrigada pra quem chegou até aqui, lembrando sempre que são minhas reflexões como ouvinte, pode não condizer com a intenção do autor. Deixem suas contribuições nos comentários também.

terça-feira, 4 de setembro de 2018


Quebrada Queer chamou atenção no mês de junho, pelo clipe maravilhoso que lançaram pelo canal RapBox, a produção de Vibox levando a gente, e as linhas pesadas de cada integrante deixou um gostinho de quero mais em todas e todos que ouviram, gostando ou não, foi um desabafo, pesado, que deixou muita gente "atenta" hahaha pois bateram 1 milhão e meio de visualizações em menos de 3 meses. 

E ontem, dia 3 de setembro, foi dia de lançamento, o novo single “Pra quem duvidou” é uma mistura de críticas, com  resposta aos críticos e a ideia de continuidade do primeiro trabalho. Ouça abaixo: 


Formado por Guigo, Harlley, Lucas Boombeat, Murillo Zyess e Tchelo Gomez, além da DJ e produtora musical Apuke, que assina a produção do novo single, Quebrada Queer me impressiona e cativa bastante pela forma que a interpretação e presença de cada integrante toma proporções fodas. Quando saiu o som eu ouvi, e sem o clipe ficou aquela sensação de faltava algo, embora tivesse curtido bastante. Mas ontem percebi que a imagem, a expressão tranquila de nem fazer careta pra variar nas técnicas de flow, isso cativa e ao mesmo tempo mostra força e qualidade. 


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Está no ar mais um #ReferenciAna, e nele você vai ler um pouco da minhas percepções do som Pra quem duvidou, além de conhecer um pouco mais sobre as referências utilizadas pelo Quebrada Queer. Confira a letra aqui.


Sempre bom lembrar, essas são minhas impressões pessoais e minha forma de entender a música e as informações dela, pode não ser a intenção das e dos artistas.

O primeiro a rimar é Murillo Zyess. Nas primeiras linhas dele, após parecer responder as tantas pessoas que deram opiniões que ninguém pediu sobre o último som "mais respeito pra falar das bixa, conserve seus dente", ele se auto referencia. A linha "réu inocentado da condenação dos crente" dialoga com o verso dele no primeiro som, onde ele diz "desvio de alguns crentes que dizem que eu vou pro inferno". 


A próxima linha, me parece referenciar Racionais, em Expresso da meia noite, o verso "tô de role na quebrada" me remeteu ao Edi Rock (confira a entrevista do Murillo pro Bocada Forte, onde ele diz que o primeiro contato com o Rap foi através de Racionais), e a questão de referenciar grandes clássicos do rap, vem no sentido de também de dialogar com o verso do primeiro som, "subestimado desde o meu primeiro verso", porque acredito que esses grandes clássicos dos anos 90, 2000, foram produzidos em uma época de pouquíssimos avanços na questão de gênero e sexualidade. Referenciar esses sons, além de ser um pisão classudo de "cala boca que eu vim do mesmo lugar que você", ainda é uma quebra dessa ligação do rap noventista com a heteronormatividade. 



O segundo a rimar é Guigo (confira a entrevista dele pro Bocada Forte), apesar de todos terem sido de alguma forma desrespeitados no último som, imagino que a referência de Guigo ao som Deus é travesti, de Alice Guél, no álbum Alice no País Que Mais Mata Travestis, foi a que mais recebeu críticas. Pessoas que não entendem a chamada a reflexão sobre a questão da violência, trazida no som original, o que importa é não usar o nome 'deus' em vão. Justamente se usando disso, Guigo inicia seus versos dando a ideia "Verdades sejam ditas, e hoje eu vim pra questionar". E na sequência ele dialoga com sua participação no outro som, "chamam de bíblia os versos da primeira cypher gay, Guigo virou papisa e hoje eu me canonizei". Retomando novamente a questão das violencias de gênero e sexualidade que são exorbitantes no Brasil, que se diz um país cristão, apesar de laico na constituição. A conta não fecha né? Ou pelo menos a ideia é que não deveria. Também lembrando que em 2015, a atriz transexual Viviany Beleboni fez um ato na Parada LGBTQs. Um ato de denúncia, justamente contra a violência contra LGBTQs, depois do ato Viviany foi esfaqueada e ameaçada por pessoas que não gostaram da encenação e nem entenderam a crítica rs. O Brasil é um país laico, com N religiões ou falta delas, mas ainda sim muitos dizem ser um país cristão pelo número de adeptos e pela confusão errônea que fazem entre política, relações sociais, liberdades individuais e respeito. Acredito ser um tanto quanto contraditório e hipócrita, dizerem ser um país cristão, com um argumento forte de que um homem por amor se sacrificou pra salvar todo o mundo sem distinção, ser também o país que mais assassina LGBTs no mundo, de forma violenta e odiosa.


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A Papisa Joana foi uma "lenda", de uma mulher que teria governado como papa durante a idade média, teria sido a única mulher a ocupar o posto mais alto da igreja Católica. Quando ele diz que virou papisa e se canonizou, ele fala sobre ser reconhecido e "santificado" como representativo e um marco na história. E no último verso ele provoca a questão que muita gente do meio do rap, além de só considerar rap feito por homens héteros como bons e com qualidade, ainda cria uma categoria pra enquadrar o trabalho feito pelo Quebrada Queer, pra dizer que é tudo menos rap, Guigo lembra, que com a qualidade na letra e as técnicas apresentadas, ele é rei. 

A música volta pra Murillo, em forma de conclusão da ideia dele, ele traz "cês pira, mas no dia a dia me oprime", trazendo o fato de quem por exemplo compartilha o som do Quebrada num dia, no outro tá compartilhando "piada" de futebol homofóbica, ou mesmo algum rap que tenha conotação homofóbica, entre outras. E conversando com a ideia trazida por Guigo, ele manda "Percebe como é contraditório aquele que mata em nome de Deus?" pra finalizar sua participação. 

O som também volta pra Guigo, e ele finaliza sua participação com o verso "Me queimam na estaca, mesmo sem saber rezar". Esse verso remete a questão da Inquisição, essa instituição era formada pelos tribunais da Igreja Católica que perseguiam, julgavam e puniam pessoas acusadas de se desviar de suas normas de conduta. Quando ele diz que é queimado sem saber rezar, ele traz essa questão da imposição de culto, como pode alguém julgar que o outro está desviando da conduta, se ele sequer acredita na mesma conduta? 


Tchelo - vem - pesado pronto pra tumultuar! O terceiro a rimar no som é Tchelo Gomez. (Atenção pra virada no vídeo-clipe, que é maravilhosa). Para além da letra, Tchelo (confira a entrevista dele pro Bocada Forte) mostra sua versatilidade no flow, diferente do primeiro som, ele traz a questão de como Quebrada Queer incomoda mas ao mesmo tempo esse coletivo se protege, "Aqui são 6 facadas perfurando sua escrotidão" e "Aqui não apavora, não! Nas mana não encosta, não!". E finaliza sua participação referenciando HAAHHAHAH TRILHA SONORA DO GUETO! Pra quem conhece Trilha Sonora, e os fãs do grupo, sabe como essa sacada foi genial!


(Cara, isso aqui diz tanta coisa que não tem nem como explicar muito). Ele reconfigura o verso de Favela Sinistra, adaptando a questão da violência sofrida. "Favela sinistra, na madrugada filho da puta assassino de trava, se nois te ver nem tenta correr, que seja no inferno nois acha você! Cuzão!"


O penúltimo a rimar é Lucas Boombeat, o rapper que chamou a atenção no primeiro som, por ser uma mistura de bicha com maloqueira (definição usada na entrevista dele ao Bocada Forte).

Vestido ao estilo Xerxes, em 300, poderoso e cirúrgico, e com momentos de speedflow sem nem fazer careta, Lucas começa seus versos chamando a atenção pra questão da desvalorização por parte de quem se incomodou, "Eles reduzem as notas, eu canto e ele chora", aqui, sendo notas no sentido financeiro, ou notas de avaliação, podem ser diminuídas, eles vão continuar cantando. Posteriormente, ele toca em pontos como o assédio masculino para com eles, versos como "Guarda esse amendoim que faz mal pra mim", "Macho coça pau, Se achando uau, Pensa que é o tal, Cérebro sem sal, Quer biscoito, Toma!".


O último a rimar é Harlley, além de questionar a atitude de quem falou bastante sobre Quebrada Queer e não ofereceu jobs, (get ma money gente!), ele também retoma partes das suas rimas no último som. "Se emocionou com o meu pai mas é tua irmã que sofre, Não contestou a atitude escrota do teu parça", é uma chamada de atenção que dialoga com o verso "Esse é só o primeiro desabafo que tá entrando pra história, e com certeza, o meu pai não ia se orgulhar", destinado as pessoas que muitas vezes postam, defendem, assumem posturas bonitas com pessoas públicas, e não da conta de se posicionar da mesma forma com pessoas próximas, as vezes uma amiga ou um amigo que sofre violências das mais diverasas. E o verso seguinte "Riu da minha cara mas olha onde eu tô, onde tu sempre sonhou, mas tu desacreditou", dialoga com o verso "Agora eu quero ver quem tá somando por mim, tomou meu destino, quem constrói os degraus, sabe que não vai cair!".

O som volta pra Lucas, e ele finaliza sua participação em um speedflow, mencionando fatos da sua história pessoal, "Cada verso eu canto além do palco, descalço, no asfalto, aprende o que é ser rua numa que não seja a sua", além de mandar o recado pra quem tenta delimitar o rap, "Aprende o que é rap depois bate no peito
Se não soma some, que se foda seu vulgo ou nome, não pago pau pra nenhum homem, vai vendo".

O som volta pra Harlley, e ele finaliza sua participação reafirmando a ideia do coletivo "Nossa união fez força, quero ver quebrar" e dando caminho pra parte que geral canta, referenciando também o clássico Us mano Pow, as mina pá, do rapper Xis, mas reconfigurado também, "Minas gritando hey, monas gritam ho, pra quem duvidou, quebrada chega".

É isso, espero que tenham chego até aqui. Lembrando mais uma vez que essas são piras pessoais minhas, e que pode não ter uma vírgula a ver com o que a ou o autor quis dizer. 
Qualquer duvida ou mal entendido me chamem que a gente troca uma idéia. 
Homofobia é coisa de pilantra, e no rap não tem que ter espaço pra pilantra. Deixem sugestões para os próximos #ReferenciAna, até mais!

terça-feira, 31 de julho de 2018


Emicida lança “Selvagem” com Drik Barbosa, Dory, Stefanie, Souto MC e Fióti
Desfile de lançamento da Coleção C&A. Foto: Marcelo Soubhia/ FOTOSITE


A produção da faixa é do mestre DJ Duh e além de Emicida, conta com as colaborações de Emicida, de Dory de Oliveira, Souto MC, Stefanie, Drik Barbosa e Fióti. “Selvagem” foi um single inédito lançado no desfile da C&A apresenta LAB, coleção "A Rua É Nóiz". 

Está no ar mais um #ReferenciAna, e nele você vai ler um pouco da minhas percepções do som Selvagem, além de conhecer um pouco mais sobre as referências utilizadas pelos artistas. Confira a letra na descrição do vídeo no YouTube, e ouça a música aqui:

De maneira rápida, é essencial contextualizar o momento em que a música foi lançada. A música foi mostrada no desfile de julho, da parceria da marca LAB (idealizada pelo Emicida e seu irmão Fióti), e a C&A. Segundo revistas de moda, que tem muito mais propriedade pra falar sobre do que eu, a coleção "A rua é nóis" tem referências de streetwear e foi baseada na trajetória dos irmãos. 

"A rua é a verdade, a vida,  as  veias  e  artérias  de  um  mundo  confuso  e  em  processo  de  auto  destruição  contínuo,  porém  nós  estamos  nas  ruas  e  cabe  a  nós  pensarmos  e  agirmos  para  contribuir  de  forma  expressiva  a favor  da  mudança  e  melhoria  de  nossas  vidas". Texto que norteou a coleção, segundo a Revista Glamour 

Sabemos a tempos, que "preto e dinheiro são palavras rivais", então já era esperado que qualquer ascenção e tomada de espaços que eram impossíveis de imaginar gente preta tomando (como a SPFW por exemplo), seria de alguma forma criticado, ou criado buxixos. Mas esse não é um texto de defesa, é de referências, então, o contexto pareceu promover um grito de MC's com trajetórias únicas, mas que se conversam, olhando pro mesmo norte, e se colocando como agente da sua própria história e sucesso. Esse grito coletivo se traduz no refrão, cantado por todas e todos os artistas envolvidos. 

"É barulho de moto, estouro de 12" O refrão me fez pirar em várias subjetividades nas palavras que o compõem. Ao mesmo tempo que parece ambientar todo mundo no mesmo local de origem, lembrando a questão de periferia ser periferia, traz o lance de mostrar que mesmo com qualquer ascenção ou possível ascenção através do rap, da música, da moda, o ambiente hostil da cidade formou indíviduos que não perdem a essência e não dão sustentação as críticas que recebem. Cenas comuns descritas, alternando a diversão dos "desfiles de moto" no dia a dia, e possivelmente a questão subliminar da violência próxima, dos barulhos das armas. Lembrando também que as armas de calibre 12 também pode ter mais a ver com a questão do som como auto-defesa, já que as armas de calibre 12 são utilizadas a curta distância, e também são utilizadas com munição não letal, como as balas de borracha, utilizadas pra dispersar multidões (entendam multidões no contexto, como curiosos, buxixeiros, ou mesmo os boca de lata, citados posteriormente).

"Clique pra foto, para na pose, é o prêmio da loto, gata, num devo nada pros oto, cata, canta liberdade, ganho a cidade toda, trava os boca de lata" A sequência, complementa a primeira frase da música, dá pra se refletir que ao mesmo tempo que parecem gritarem o orgulho dos corres, das caminhadas, é importante se colocarem como agentes da própria história, e travar os boca de lata (pra quem não tem a vivência hahahaha, boca de lata é fofoqueiro, histórinha), afinal, embora toda a situação de prestígio que estão vivendo, ou buscando viver, nada tira a essência de quem cresceu na selva, buscando permanecer vivo e viva.

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A primeira a rimar é a Dory de Oliveira, braba como sempre. "Isso é kalakuta igual Fela Kuti". A república Kalakuta foi uma moradia criada pelo ativista e músico Fela Kuti. As casas pintadas de amarelo, cercadas por arame farpado, foram criadas pelo músico nigeriano, abrigava um estúdio musical, sua família e sua banda, a Africa 70. Apesar do fim trágico da república, durante sua época, foi responsável pela concentração dos músicos e desenvolvimento do Afrobeat. Fazendo a analogia ao momento do rap, Dory coloca o encontro dos artistas em questão como sendo esse espaço, onde é um ato político se organizar, desenvolver a música.  

"Maloka na luta, favela curte, o corre diz tudo, é pelas bolsa de estudo e pelas bolsa Gucci", ao descrever que favela curte quem tá na luta, é justamente esse orgulho de ver os nossos, os próximos, do nosso meio de convivência ou não, vencendo ou ao menos driblando a situação de violência que são impostas a nós. Seja pelas bolsas de estudo, pela educação, as universidades (pra quem acredita no potencial da educação para transformação social), seja mesmo pelas bolsas da Gucci, fazendo menção as bolsas de grife, ao acesso aos artigos de grife. 

"Se é roleta russa, eu viro Putin", roleta russa é um jogo de azar, onde deixa-se uma bala só no tambor de um revólver e o faz girar até se desconhecer a posição exata da bala, e apertar o gatilho. Putin, é o atual presidente da Rússia. Acredito que o ser roleta russa que a Dory se refere, seria o lance de poucas pessoas conseguirem oportunidades. Sempre é uma desonestidade a questão da meritocracia, utilizada por gente mal intencionada, quando diz que todo mundo tem oportunidades. Mas quando ela se declara Putin, ela se coloca como dona do que escreve, faz jus ao seu corre, ao comando da sua história. 


"De rua igual Lupe na Kick n’ Push", faz menção ao som do rapper americano Lupe Fiasco, que ele retrata como cresceu sendo um skatista negro, gravado nas ruas de rolê. 

"Respondo massacre, tomando 40 acre" eu achei essa linha sensacional, acre é uma unidade de medida utilizada para medir terras, não é mais utilizada (e também uma música do rapper Pusha T). Eu achei a analogia com a gente enquanto povo, enquanto negro, enquanto marginalizado, tomar tudo, todos os espaços. Terra é sinônimo de poder, por isso nos foi negado historicamente, então tomar 40 acres, é tomar de assalto todos os espaços que nos foram negados. "Num é macri, isso é King Push" Macri é um empresário e político argentino, uma de suas decisões políticas tem a ver com a abertura para privatizações de terras para a produção de soja. King Push é o álbum, do rapper Pusha T, produzido por Kanye West, e também o nome de um som do mesmo. Quando Dory diz que é tipo Pusha T e não Macri, ela critica a questão de se utilizar de meios para fortalecer determinadas pessoas, como empresários, donos de terra, ou pra própria ascenção e fortalecimento dos seus.   


"Sinhá quita a conta, é uma afronta" se refere ao verso da rapper Nabrisa no Perfil #54 da marca do abacaxi, entitulada Pasarin, ela diz após dizer que inferno, cadeia e favela é pra branco e preto, que o preço já foi pago. Sinhá vocês já devem saber, porque esse ano infelizmente usamos muitas vezes o termo no rap. 

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"Pros Kunta isso é guti guti". Kunta Kinte é o personagem central do romance "Raízes: A Saga de uma Família Americana" escrito pelo autor norte-americano Alex Haley. Ele foi sequestrado e despertou prisioneiro do caçador de escravos, Garderner, a serviço dos traficantes Slater e Davis. Ele e dezenas de africanos escravizados foram colocados em um navio negreiro para a viagem de três meses para a América do Norte. Eu entendi que pra que pra nós, negros, esses comentários a gente tem ouvido, engolido (guti guti é uma onomatopéia utilizada por gente como eu pra falar com crianças, pra beber água ou algo do tipo), mas o foco é nos nossos, em transmitir nosso legado através de gerações, já que Kunta Kinte é retratado de forma heroica, inteligente, talentosa, introspectivo, e corajoso, um guerreiro mandinga. "Suor e sangue no bangue, os bico vem como?, Tá bem loco de Yakult, eu junto quem trampa no bonde. Tipo isso? Onde cê via? Cut?, Só idéia quente no pente, Na leste se a rima esfria é mute" Dory finaliza sua participação no som, falando sobre estarem trabalhando (fazendo menção a CUT - Central Única dos Trabalhadores), e também as metida de louco proporcionadas pela molecada que tem chego na cena (quando faz menção ao Yakult - bebida associada a crianças rsrs), e acaba dizendo, que da onde a gente vem, som fraco não pega, se não tiver ideia pra passar, jamais vai ser tocado. Me lembrou a entrevista do Mano Brown, que ele diz, a favela é o maior teste de qualidade dos sons. 

A segunda a rimar, é a Souto MC. "Tipo uma sequela, mano; viela, mano, vem ela e a rima cabocla" Souto fala sobre si, como sequela, como consequência, como produto das vielas, das ruas. Rima cabocla faz referência a sua ancestralidade indígena. "Sintetiza tudo, estilo buchla", Donald Don Buchla foi um pioneiro americano no campo dos sintetizadores de som. 


"A meta é Los Angeles, tipo UCLA", a Universidade da California, Los Angeles, é uma das faculdades mais prestigiadas nos Estados Unidos. Los Angeles é um dos grandes polos de artistas incríveis do Hip Hop da chamada West Coast. A meta é ser uma das prestigiadas, o corre é pra isso. "Brotando na Forbes, pique a Oprah", a Forbes é uma revista estadunidense de negócios e economia. Oprah é uma apresentadora e empresária, que nasceu em um contexto de pobreza e se tornou a primeira afro descendente bilionária dos EUA. É também uma das mulheres mais influentes do mundo. Mais uma vez, olhando pro corre dos artistas envolvidos e as críticas que recebem, Souto nos traz que almeja de fato o conforto pra si, pra poder avançar também os seus. "Respeito só rola se for mão dupla, se roubar minha brisa a ideia é outra".

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"Sou Marta no ataque, meu nível? Ultra" referência a atleta de futebol, 5 vezes melhor do mundo que arrasta títulos e listagens entre as melhores do mundo. "Iansã me guia se o vento sopra" é a orixá dos ventos e tempestades, Souto sempre faz menção a sua espiritualidade e ancestralidade. "Tem filho da puta aplaudindo Ustra", faz menção as declarações do embuste Jair Bolsonaro, candidato a presidente, que declara homenagens ao coronel Brilhante Ustra, ex-chefe do DOI-CODI do II Exército, um dos órgãos atuantes na repressão política, durante o período do ditadura militar no Brasil, reconhecido pela Justiça como torturador e comandante de uma delegacia de polícia acusada de ser palco de mais de 40 assassinatos e de, pelo menos, 500 casos de torturas.  





"Sou hidra: se mata, o perigo dobra" a Hidra, é um ser da mitologia grega, que tinha corpo de dragão de cabeças de serpente, segundo a lenda, as cabeças da hidra podiam se regenerar, e quando cortava-se uma, cresciam duas. Mas também, existe a Hidra organização fictícia da Marvel Comics, mas essa tem uma subjetividade ruim, de anulação da individualidade, e massificação de soldados. Souto finaliza sua participação, sistematizando o objetivo dos trabalhos. "Proteja os meus do bote das cobra, nem lycra, nem like, hoje sou lucra, o dever me chama, então mãos à obra".
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DJ Nyack, Fióti, Emicida e Rael, na foto postada pelo estilista Ricardo Almeida e criticada pelo MBL.

O terceiro a rimar no som é o Emicida. Construiu seus versos no deboche. "Sinceramente eu gosto assim, miss, os verme em choque, nóiz em Paris", miss é um pronome de tratamento em países de lingua inglesa. Essa linha é uma resposta a senhora (miss) crítica, que tanto aparece em qualquer coisa que o artista faça. E enquanto falam, ele tá correndo, garantindo seus trabalhos e evoluindo em suas produções, pra isso ele usa a sequência de descrições de coisas que viveu, que jamais seriam pensadas pra pretos, periféricos, e do rap. "Meti um G-Shock e pá, voltei no voo com a Gisele" G-Shock é uma marca de relógios. Gisele se refere a pegar um avião com gente famosa, reconhecida intercionalmente (Gisele Bündchen). "Com um terno que custa a propina deles, hashtag chora MBL" Esse verso, faz menção a 2017, quando o grupo divulgou uma imagem em que chama o rapper de “hipócrita” simplesmente por usar um terno de R$15 mil, como se negros de origem humilde não pudessem usufruir do dinheiro que conquistaram.

"Minha pira é criança com cor de chocolate, a fazer selfie em iate" aqui ele sintetiza toda a questão maior que envolve esse reforçar da questão econômica pra nós negros. Proporcionar futuramente que nossas crianças sejam associadas ao lazer, ao conforto, e não a miséria, a violência.


"Com a mente da Lisa e a maloqueragem do Bart", Emicida faz referência a personalidade dos personagens de Os Simpsons, que parecem simplificar a todos e todas das periferias. Mentes inteligentes, focadas, com a sagacidade, a malandragem para lidar com situações. "Ó meu curriculum lattes, em qualquer ano dos últimos dez, há uma revolução que o zica fez" dando a famosa carteirada do bem haha, Emicida menciona e exalta sua trajetória e caminhos trilhados nos últimos anos (o Currículo Lattes se caracteriza como uma base de dados que comporta as experiências profissionais de alguém),  desde o lançamento da sua mixtape Pra quem já Mordeu um Cachorro por Comida, até que eu Cheguei Longe...


Emicida finaliza sua participação falando sobre como enxerga sua correria, sobre não ter pensamentos ruins, a chamada má-sorte. "No meu dicionário não tem revés, 
Botei trinta dia, cinco em cada mês" (Essa dos dias eu tô quebrando a cabeça, mas não cheguei em algo satisfatório), entendi que ele usou o famoso "põe pra 30 dias" quando alguém passa um cheque, 5 em cada mês, falando sobre padrão de consumo, mas depois vi que era uma pira a mais, e sai do sol que tava sentada.

A quarta MC a rimar é a maravilhosa Stefanie, que chega em breve com o clipe Mulher MC. Na sua participação ela resume a caminhada de muitos, ao melhor estilo "onde cês tava, que cês fizeram por mim, agora tão de olho no dinheiro que eu ganho", ela manda seus versos. "E tem mais, o asfalto era palco, tomamo de assalto sagaz, toda mão pro alto, em cor e luz como vitrais" falando sobre os shows na rua, que todo mundo em começo de carreira fez ou faz, constrastando com as mãos pro alto dos shows com mais público que são cada vez mais frequentes.


"Nova era de Hórus" O deus Hórus é o deus solar dos céus e um dos mais importantes da mitologia egípcia. A imagem de Hórus está associada ao firmamento, e portanto, ele representa a luz, o poder e a realeza. O olho de Hórus é utilizado como símbolo da chamada Nova Era. E representa a tomada de uma nova consciência pautada na espiritualidade, no humanismo e nas religiões. Esse movimento vigorou principalmente, nas décadas de 60 e 70, o qual buscava o renascimento, por meio do despertar da consciência e da evolução espiritual. Sendo assim, o próximo verso "Onde rainhas são como orixás" (Os orixás são deuses africanos que correspondem a pontos de força da Natureza e os seus arquétipos estão relacionados às manifestações dessas forças), parece nos dizer que sejam as rainhas egípcias, sejam os orixás, estão relacionados a nossa história enquanto concepção de mundo, e que esse lugar, de deusas e deuses é que nos é destinado, somos lindos, com histórias, valores, passado.
Stefanie finaliza sua participação enfatizando o sonhos dos que vieram antes de nós, "Esse é o anseio dos meus ancestrais" diz não só sobre o conforto e saída das condições adversas, mas sobre esse reecontro com a ancestralidade através do espiritual.

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Os últimos a rimarem são Drik Barbosa e o Fióti. "A cena tava um desmanche, Tive que pegar o manche" Manche (aviação), um controle apropriado para pilotar aviões, embarcações e outros dirigíveis, ele se refere ao desmanche, a desorganização da cena, que a gente costuma chamar quem está em evidência na mídia.

"Lutar estilo comanche, Hoje meu nome é revanche"
Comanche é o nome de uma tribo indígena, Nermernuh, norte-americana, de nômades. O nome derivado da palavra Ute, significa "qualquer um que queira lutar comigo o tempo todo". Em 1865 os Comanches e seus aliados Kiowa assinaram um tratado com os Estados Unidos , que lhes concedia o que hoje é o oeste de Oklahoma. Após o fracasso dos Estados Unidos em cumprir os termos do tratado, as hostilidades recomeçaram, os Comanche, Kiowa e Kiowa Apache se comprometeram a fazer uma reserva em Oklahoma. O governo foi incapaz de manter posseiros das terras prometidas às tribos, e foi depois desta data que alguns dos mais violentos encontros entre as forças dos EUA e os Comanche aconteceram.

Eles terminam o verso enfatizando, "Sempre é a última chance, isso é a selva, então, avance!"

É isso, espero que tenham chego até aqui. Lembrando mais uma vez que essas são piras pessoais minhas, e que pode não ter uma vírgula a ver com o que as e os autores quiseram dizer.
Qualquer duvida ou mal entendido me chamem que a gente troca uma idéia. 

Deixem sugestões para os próximos #ReferenciAna, até mais!

sexta-feira, 6 de julho de 2018



Do rap da formiga no quintal de casa em São Carlos, interior de São Paulo, a voz forte que ecoa nas ruas paulistanas, Julio Cezar Ghetto dominador de palácio, fazendo rap a muito mais de 5 mil dias, fazendo o coração de mais de 5 mil filhas bater, lança mais uma pedrada sonora, com endereço e muita coisa pra falar. 



Jota Ghetto - foto: Laboratório Fantasma


Saiba mais sobre Jota Ghetto aqui, e confira outras aparições dele aqui no Noticiário Periférico. Siga a página oficial do artista e o canal oficial no Youtube.

Gravado por Lincoln Rossi no estúdio Correra Records em São Carlos, o som Missiva à Casa Grande não é resposta pra nada, mas uma mensagem necessária, com endereço e destinatário certo. Se liga nas minhas reflexões sobre o som, e ouça o som abaixo.  

Essa semana, assim como toda semana, assim como todo ano, assim como toda década, o racismo se fez presente no cotidiano das pessoas. Seja em comentários de youtubers, em torcedores sendo chamados de macacosem crianças tendo o cabelo alisado contra a vontadematérias de portais com manchete racista e sexista, seja na morte do menino Marcos Vinícius de apenas 14 anos no Rio, e de tantos outros pretos mortos, o racismo à brasileira gritou forte, mas pra algumas pessoas ainda foi surpresa. Pra ajudar com que a Casa Grande, representação do local de morada, de concentração de senhores de engenho, colonizadores, racistas, entenda a mensagem de forma mais didática e não se faça de sonsa quando denunciarem casos racistas em 2018, Jota Ghetto envia uma missiva, de forma objetiva e direta. 

Foto por Birao Ramin

O som inicia com a contextualização da carta, fazendo uma comparação de como era a vida do negro brasileiro no período das casas grandes, no Brasil colônia, e como é hoje. Já foi mais difícil, já foi mais suplício, muito mais sacrifício, não deixar que seus projéteis me causassem orifícios, e conseguir que dois ou três não fossem pro sacrifício Suplícios, são castigos corporais, Jota faz a comparação, que antes era mais difícil, por cona das violências corporais, e da falta de possibilidade de sair daquela situação vivo, hoje, os castigos foram substituídos por balas (projéteis), e embora um plano genocida em curso, conseguimos que alguns de nós continuemos vivos. 



Mas cada menosprezo é chibata que arde, liberdade pro meu povo eu quero em level hard, aqui ele evidencia a sequência de analogias que fará no restante do som, com a a história do negro no Brasil. Desejar a liberdade em level hard, é desejar liberdade real, 130 anos depois da conquista da liberdade da escravidão, continuamos sendo perseguidos, menosprezados, submetidos a trabalhos exaustivos e mal pagos, mortos e com justiça seletiva, entre outras coisas. Também é possível entender, que não é a liberdade proposta pela casa grande que queremos, é justamente a que é difícil pra ela aceitar, a liberdade de rever privilégios, reparações históricas causadas por sistemas que a casa grande se aproveitou durante mais de 350 anos de história brasileira. Essa liberdade é hard se ter, é difícil. 


Nelson Mandela. Foto: Internet.


Viva a favela, perdão Mandela, sou até pacífico, mas se acusar doméstica foda-se e ja era. 
Mandela foi um dos grandes homens de nosso tempo, e tornou-se líder da luta pacífica que levou ao fim do Apartheid, sistema opressivo e iníquo que vingou na Africa do Sul.  Jota Ghetto contrapõe a situação de ser pacífico, mas ter situações que é impossível ser. Numa pesquisa básica utilize as palavras "patroa/patrão acusa doméstica" e vejam o tanto de notícias de patrões acusando de roubo empregadas domésticas, em sua maioria mulheres negras. Esse trecho dialoga com o próximo, que ele retoma a questão da casa grande, Caras bonitinhas, espíritos de sinhás, continuam com fetiches de nos dar nas cozinhas, e seus irmãos nos acusar de roubo, reciclando pros meus irmãos calabouços, os irmãos que acusam de roubo, os negros e recriam calabouços, se referindo ao sistema carcerário abarrotado de corpo preto, e na maioria das vezes sem sequer ter direito a julgamento. As caras bonitinhas que tem fetiche de dar na cozinha, remete a questão de mulheres brancas que não questionam seus privilégios, hipersexualizarem homens negros. Podemos também usar o exemplo do que aconteceu com as MC's Lívia Cruz e Bárbara Sweet no início desse ano, associando os MC's pretos a corpos sexuais e ao mesmo tempo a criminalidade. 

Rafael Braga. Fonte: UOL.

Seus laboratórios criam pragas, pra que se viciem e prendam Rafaeis Braga. Rafael Braga, é um jovem negro, pobre, criminalizado e preso. Que até junho de 2013 trabalhava catando material para reciclagem nas ruas do Centro do Rio de Janeiro,foi detido quando chegava a um casarão abandonado, onde por vezes dormia. Rafael foi preso novamente e condenado há 11 anos de prisão, por tráfico e associação tráfico, por portar em um flagrante forjado de 0,6 gramas de Maconha e 9,6 gramas de Cocaína. Além dele mencionar de forma subjetiva a seletividade da justiça, que ignora jovens brancos de classe alta que consomem drogas aos montes e inclusive são os donos dos grandes centros distribuidores de drogas, como por exemplo os helicópteros do Aécio Neves cheios de cocaína, Jota Ghetto traz a tona a questão da história das substâncias como a cocaína, e o crack, que tem desde seu surgimento, uma dimensão político-social de extermínio de não-brancos, mascarada pela chamada "guerra às drogas".  A ideologia de guerra às drogas, propostas por Richard Nixon nos EUA, e adotada ao redor do mundo, em questão de pouco tempo, começou a tratar vendedores de plantas e compostos químicos como terroristas em ameaça à segurança e à saúde pública. Juntamente com as substâncias, foram também enquadrados seus portadores e consumidores, aumentando exponencialmente a lotação dos presídios: só nos Estados Unidos, a população carcerária aumentaria mais de 140% só nos primeiros 10 anos de aplicação da política.




Seus pais me dizem não há vaga. O vídeo acima dá forma aos "pais que dizem não ter vaga", o racismo institucional foi definido pelos ativistas integrantes do grupo Panteras Negras, Stokely Carmichael e Charles Hamilton em 1967, para especificar como se manifesta o racismo nas estruturas de organização da sociedade e nas instituições, o racismo empresarial pode ser entendido como parte desse esquema que impede negros e negras de acessarem espaços de trabalho.  





Tão bagunçando meu terreiro, não entendo a Casa Grande achar que o quilombo é rave meu parceiro. As imagens das manchetes acima são auto explicativas, na dúvida, cliquem nelas e as matérias estão na íntegra.

Nós somos reis meu parceiro, discordo que o camburão seja um navio negreiro. Ele é o barco de Hades com os meus olhos sem moedas, é o nosso Bentley pro inferno, essa que é a merda. Negreiro é o busão que só te leva pra trampar

nunca pra passear. De sábados e domingo fique na sua senzala. Músicas do O Rappa, Realidade Cruel, e outros, fizeram a analogia do camburão de polícia ser o novo navio negreiro, por transportar negros. Na mitologia grega, o barco de Hades, deus do mundo inferior e dos mortos, carrega as almas dos recém-mortos sobre as águas do rio Estige e Aqueronte,  para pagá-lo pelo trajeto, colocava-se uma moeda sobre os cadáveres. Os Bentleys, são carros de luxo, geralmente associados a veículos oficiais de políticos. Jota associa o camburão ao barco, porque os negros ali tem suas mortes, seja de imediato, ou seja no caminho pro inferno no sistema carcerário, ou pós saída do mesmo. Fato também denunciado num verso que aparecerá mais a frente, Sei quanta tinta preta tá colorindo cela.



Eu sei da cara dos soldados que marcaram minha cara, eu sei a cara dos racistas que riram na minha cara. Sei o nome e a data de quem roubou meu jazz, o carro a placa e a casa desses infiéis. Segundo o documento As raízes do Jazz, "Quando se fala nas origens do Jazz o cenário que se depara é obscuro e um pouco incerto. Sabe-se que os elementos que influenciaram o seu nascimento foram trazidos da África pelos escravos, que intervieram de forma significativa ao nível cultural, vindo a criar um novo modo de comunicação e expressão de sentimentos.Estamos falando de um ritmo popular de origem negra e escrava e que se desenvolveram basicamente no final do século XIX.  O início do jazz e do blues, remete a ao período histórico e social, anos posteriores à problemática inserção do negro na sociedade de classes. É importante ressaltar que o fim da escravidão fez nascer um novo nicho de mercado no universo do entretenimento, visto que os negros, agora na condição de assalariados, passavam a ter poder aquisitivo para consumir. Em outras palavras, o negro estava livre para fazer e consumir o seu próprio entretenimento. Toda essa história de cultura, é suprimida pelo embraquecimento, não só do jazz, mas de outros elementos culturais, que sequer são colocados na história negra. E não esquecemos, não vamos deixar de pontuar sempre que são elementos culturais negros, e que devem ser reconhecidos assim.

Podendo acordar tarde com papaicard, loucos de bacardi terça-feira a tarde, nos chamam de neguinho tendo quarenta. Ce sabe quem tem md? Isso nos violenta. Fazendo uma crítica ao modo de vida da playbozada herdeira da casa grande, que se referem a homens negros como neguinho, criando uma intimidade que só eles enxergam, pra poder pedir mais fácil pelas drogas que eles procuram e associam o homem negro a esse meio de conseguir. 

Orô não é festa, vaza, filha da puta, não puxe a peça pra minha raça, filho da puta! Orô é uma divindade masculina que representa a ancestralidade dos homens, é considerado como o portal para a ressurreição. É um dos cultos mais secretos dos yorubá, mais uma vez Jota pontua a questão do respeito as matrizes africanas religiosas, tratadas como banalidades e modismo pela Casa Grande. NÃO PUXE A PEÇA PRA MINHA RAÇA, FILHA DA PUTA. Parem de nos matar! Parem de matar nossos meninos ainda dentro da barriga das mães, no caminho da escola, na juventude! PAREM, FILHOS DA PUTA!

Respeite quem deixou de dar o peito pro próprio filho, pra que o seu crescesse com saúde até pular num trilho. Achando que podia zoar de subalterno o dono preto do bar. Esse verso me trouxe várias interpretações, mas a principal eu acho, é a questão das amas-de-leite, que eram mulheres negras ou indígenas, que amamentavam os filhos das sinhás. Hoje, isso se configura nas mulheres que deixam seus filhos na periferia, para ir trabalhar nas casas grandes modernas. E na sequência, entendi que ele quis colocar atitudes tomadas pelos "jovens brancos de classe média inconsequentes" que jamais são responsabilizados por suas atitudes, onde se criam Thors Batistas ou Brenos Borges.

Eu quis saber e olhei pra trás, cê quis viver e olhou pra frente. Tá osso achar que vai me avaliar pelos dente. Aqui ele fundamenta o contexto total da música. Se olhar como negro no Brasil hoje, precisa estar atrelado a história, ao passado, pra que possamos reconhecer o racismo e os obstáculos ligados a ele no nosso processo histórico que reflete em nós até hoje. Quem quer viver, olha pra frente, no sentido de mais uma vez não reconhecer seus privilégios na sociedade, deixar pra trás o que aconteceu na escravidão, porque afinal, ela já foi abolida, por pasmem, uma mulher branca. Seu café caro foi meu pé rachado, Sua roupa cara? algodão. Olhando mais uma vez pro passado, ele menciona os trabalhos que eram colocados os negros no período escravocrata, e associa ao que os privilegiados usufruem hoje em dia, e esquecem de onde estão fundamentados esses privilégios.


Não sou vilão porque eu quis, você é cuzão porque quer. Não ser vilão porque quer, tem ligação com o verso anterior, de olhar pra trás, descobrir na história de onde vem todas as mazelas que nos atingem hoje em dia enquanto corpos pretos. Seja no estouro ou sem ouro, sou preto onde eu tiver.  Achei interessante esse verso, porque muitas vezes tentam deslegitimar racismo com negros e negras que tem uma certa ascensão financeira, como se esses estivessem livres. E o verso seguinte, É natural pucê frequentemente, criticar minhas correntes, mas se for algema ce fica contente, acredito ser essencial aos dias de hoje. SEMPRE que um negro ou negra começa a ganhar dinheiro, são de todas as formas acusados ou criminalizados por ganharem dinheiro, vide Emicida, Racionais e outros negros e negras que são acusados de falhas morais por saírem do veneno. 




Ao melhor estilo Django, Não nasci pra te servir, eu vim pra virar a mesa! finaliza a mensagem que Jota Ghetto tinha pra passar.


Lembrando mais uma vez que essas são piras pessoais minhas, e que pode não ter uma vírgula a ver com o que o autor quis dizer.

Qualquer duvida ou mal entendido me chamem que a gente troca uma idéia.

Deixem sugestões para os próximos #ReferenciAna, como o Jota diz, VOLTA PRA RUA RAP e até mais!