terça-feira, 31 de julho de 2018

#ReferenciAna - confira as linhas de Selvagem, de Emicida, Drik Barbosa, Dory, Stefanie, Souto MC e Fióti


Emicida lança “Selvagem” com Drik Barbosa, Dory, Stefanie, Souto MC e Fióti
Desfile de lançamento da Coleção C&A. Foto: Marcelo Soubhia/ FOTOSITE


A produção da faixa é do mestre DJ Duh e além de Emicida, conta com as colaborações de Emicida, de Dory de Oliveira, Souto MC, Stefanie, Drik Barbosa e Fióti. “Selvagem” foi um single inédito lançado no desfile da C&A apresenta LAB, coleção "A Rua É Nóiz". 

Está no ar mais um #ReferenciAna, e nele você vai ler um pouco da minhas percepções do som Selvagem, além de conhecer um pouco mais sobre as referências utilizadas pelos artistas. Confira a letra na descrição do vídeo no YouTube, e ouça a música aqui:

De maneira rápida, é essencial contextualizar o momento em que a música foi lançada. A música foi mostrada no desfile de julho, da parceria da marca LAB (idealizada pelo Emicida e seu irmão Fióti), e a C&A. Segundo revistas de moda, que tem muito mais propriedade pra falar sobre do que eu, a coleção "A rua é nóis" tem referências de streetwear e foi baseada na trajetória dos irmãos. 

"A rua é a verdade, a vida,  as  veias  e  artérias  de  um  mundo  confuso  e  em  processo  de  auto  destruição  contínuo,  porém  nós  estamos  nas  ruas  e  cabe  a  nós  pensarmos  e  agirmos  para  contribuir  de  forma  expressiva  a favor  da  mudança  e  melhoria  de  nossas  vidas". Texto que norteou a coleção, segundo a Revista Glamour 

Sabemos a tempos, que "preto e dinheiro são palavras rivais", então já era esperado que qualquer ascenção e tomada de espaços que eram impossíveis de imaginar gente preta tomando (como a SPFW por exemplo), seria de alguma forma criticado, ou criado buxixos. Mas esse não é um texto de defesa, é de referências, então, o contexto pareceu promover um grito de MC's com trajetórias únicas, mas que se conversam, olhando pro mesmo norte, e se colocando como agente da sua própria história e sucesso. Esse grito coletivo se traduz no refrão, cantado por todas e todos os artistas envolvidos. 

"É barulho de moto, estouro de 12" O refrão me fez pirar em várias subjetividades nas palavras que o compõem. Ao mesmo tempo que parece ambientar todo mundo no mesmo local de origem, lembrando a questão de periferia ser periferia, traz o lance de mostrar que mesmo com qualquer ascenção ou possível ascenção através do rap, da música, da moda, o ambiente hostil da cidade formou indíviduos que não perdem a essência e não dão sustentação as críticas que recebem. Cenas comuns descritas, alternando a diversão dos "desfiles de moto" no dia a dia, e possivelmente a questão subliminar da violência próxima, dos barulhos das armas. Lembrando também que as armas de calibre 12 também pode ter mais a ver com a questão do som como auto-defesa, já que as armas de calibre 12 são utilizadas a curta distância, e também são utilizadas com munição não letal, como as balas de borracha, utilizadas pra dispersar multidões (entendam multidões no contexto, como curiosos, buxixeiros, ou mesmo os boca de lata, citados posteriormente).

"Clique pra foto, para na pose, é o prêmio da loto, gata, num devo nada pros oto, cata, canta liberdade, ganho a cidade toda, trava os boca de lata" A sequência, complementa a primeira frase da música, dá pra se refletir que ao mesmo tempo que parecem gritarem o orgulho dos corres, das caminhadas, é importante se colocarem como agentes da própria história, e travar os boca de lata (pra quem não tem a vivência hahahaha, boca de lata é fofoqueiro, histórinha), afinal, embora toda a situação de prestígio que estão vivendo, ou buscando viver, nada tira a essência de quem cresceu na selva, buscando permanecer vivo e viva.

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A primeira a rimar é a Dory de Oliveira, braba como sempre. "Isso é kalakuta igual Fela Kuti". A república Kalakuta foi uma moradia criada pelo ativista e músico Fela Kuti. As casas pintadas de amarelo, cercadas por arame farpado, foram criadas pelo músico nigeriano, abrigava um estúdio musical, sua família e sua banda, a Africa 70. Apesar do fim trágico da república, durante sua época, foi responsável pela concentração dos músicos e desenvolvimento do Afrobeat. Fazendo a analogia ao momento do rap, Dory coloca o encontro dos artistas em questão como sendo esse espaço, onde é um ato político se organizar, desenvolver a música.  

"Maloka na luta, favela curte, o corre diz tudo, é pelas bolsa de estudo e pelas bolsa Gucci", ao descrever que favela curte quem tá na luta, é justamente esse orgulho de ver os nossos, os próximos, do nosso meio de convivência ou não, vencendo ou ao menos driblando a situação de violência que são impostas a nós. Seja pelas bolsas de estudo, pela educação, as universidades (pra quem acredita no potencial da educação para transformação social), seja mesmo pelas bolsas da Gucci, fazendo menção as bolsas de grife, ao acesso aos artigos de grife. 

"Se é roleta russa, eu viro Putin", roleta russa é um jogo de azar, onde deixa-se uma bala só no tambor de um revólver e o faz girar até se desconhecer a posição exata da bala, e apertar o gatilho. Putin, é o atual presidente da Rússia. Acredito que o ser roleta russa que a Dory se refere, seria o lance de poucas pessoas conseguirem oportunidades. Sempre é uma desonestidade a questão da meritocracia, utilizada por gente mal intencionada, quando diz que todo mundo tem oportunidades. Mas quando ela se declara Putin, ela se coloca como dona do que escreve, faz jus ao seu corre, ao comando da sua história. 


"De rua igual Lupe na Kick n’ Push", faz menção ao som do rapper americano Lupe Fiasco, que ele retrata como cresceu sendo um skatista negro, gravado nas ruas de rolê. 

"Respondo massacre, tomando 40 acre" eu achei essa linha sensacional, acre é uma unidade de medida utilizada para medir terras, não é mais utilizada (e também uma música do rapper Pusha T). Eu achei a analogia com a gente enquanto povo, enquanto negro, enquanto marginalizado, tomar tudo, todos os espaços. Terra é sinônimo de poder, por isso nos foi negado historicamente, então tomar 40 acres, é tomar de assalto todos os espaços que nos foram negados. "Num é macri, isso é King Push" Macri é um empresário e político argentino, uma de suas decisões políticas tem a ver com a abertura para privatizações de terras para a produção de soja. King Push é o álbum, do rapper Pusha T, produzido por Kanye West, e também o nome de um som do mesmo. Quando Dory diz que é tipo Pusha T e não Macri, ela critica a questão de se utilizar de meios para fortalecer determinadas pessoas, como empresários, donos de terra, ou pra própria ascenção e fortalecimento dos seus.   


"Sinhá quita a conta, é uma afronta" se refere ao verso da rapper Nabrisa no Perfil #54 da marca do abacaxi, entitulada Pasarin, ela diz após dizer que inferno, cadeia e favela é pra branco e preto, que o preço já foi pago. Sinhá vocês já devem saber, porque esse ano infelizmente usamos muitas vezes o termo no rap. 

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"Pros Kunta isso é guti guti". Kunta Kinte é o personagem central do romance "Raízes: A Saga de uma Família Americana" escrito pelo autor norte-americano Alex Haley. Ele foi sequestrado e despertou prisioneiro do caçador de escravos, Garderner, a serviço dos traficantes Slater e Davis. Ele e dezenas de africanos escravizados foram colocados em um navio negreiro para a viagem de três meses para a América do Norte. Eu entendi que pra que pra nós, negros, esses comentários a gente tem ouvido, engolido (guti guti é uma onomatopéia utilizada por gente como eu pra falar com crianças, pra beber água ou algo do tipo), mas o foco é nos nossos, em transmitir nosso legado através de gerações, já que Kunta Kinte é retratado de forma heroica, inteligente, talentosa, introspectivo, e corajoso, um guerreiro mandinga. "Suor e sangue no bangue, os bico vem como?, Tá bem loco de Yakult, eu junto quem trampa no bonde. Tipo isso? Onde cê via? Cut?, Só idéia quente no pente, Na leste se a rima esfria é mute" Dory finaliza sua participação no som, falando sobre estarem trabalhando (fazendo menção a CUT - Central Única dos Trabalhadores), e também as metida de louco proporcionadas pela molecada que tem chego na cena (quando faz menção ao Yakult - bebida associada a crianças rsrs), e acaba dizendo, que da onde a gente vem, som fraco não pega, se não tiver ideia pra passar, jamais vai ser tocado. Me lembrou a entrevista do Mano Brown, que ele diz, a favela é o maior teste de qualidade dos sons. 

A segunda a rimar, é a Souto MC. "Tipo uma sequela, mano; viela, mano, vem ela e a rima cabocla" Souto fala sobre si, como sequela, como consequência, como produto das vielas, das ruas. Rima cabocla faz referência a sua ancestralidade indígena. "Sintetiza tudo, estilo buchla", Donald Don Buchla foi um pioneiro americano no campo dos sintetizadores de som. 


"A meta é Los Angeles, tipo UCLA", a Universidade da California, Los Angeles, é uma das faculdades mais prestigiadas nos Estados Unidos. Los Angeles é um dos grandes polos de artistas incríveis do Hip Hop da chamada West Coast. A meta é ser uma das prestigiadas, o corre é pra isso. "Brotando na Forbes, pique a Oprah", a Forbes é uma revista estadunidense de negócios e economia. Oprah é uma apresentadora e empresária, que nasceu em um contexto de pobreza e se tornou a primeira afro descendente bilionária dos EUA. É também uma das mulheres mais influentes do mundo. Mais uma vez, olhando pro corre dos artistas envolvidos e as críticas que recebem, Souto nos traz que almeja de fato o conforto pra si, pra poder avançar também os seus. "Respeito só rola se for mão dupla, se roubar minha brisa a ideia é outra".

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"Sou Marta no ataque, meu nível? Ultra" referência a atleta de futebol, 5 vezes melhor do mundo que arrasta títulos e listagens entre as melhores do mundo. "Iansã me guia se o vento sopra" é a orixá dos ventos e tempestades, Souto sempre faz menção a sua espiritualidade e ancestralidade. "Tem filho da puta aplaudindo Ustra", faz menção as declarações do embuste Jair Bolsonaro, candidato a presidente, que declara homenagens ao coronel Brilhante Ustra, ex-chefe do DOI-CODI do II Exército, um dos órgãos atuantes na repressão política, durante o período do ditadura militar no Brasil, reconhecido pela Justiça como torturador e comandante de uma delegacia de polícia acusada de ser palco de mais de 40 assassinatos e de, pelo menos, 500 casos de torturas.  





"Sou hidra: se mata, o perigo dobra" a Hidra, é um ser da mitologia grega, que tinha corpo de dragão de cabeças de serpente, segundo a lenda, as cabeças da hidra podiam se regenerar, e quando cortava-se uma, cresciam duas. Mas também, existe a Hidra organização fictícia da Marvel Comics, mas essa tem uma subjetividade ruim, de anulação da individualidade, e massificação de soldados. Souto finaliza sua participação, sistematizando o objetivo dos trabalhos. "Proteja os meus do bote das cobra, nem lycra, nem like, hoje sou lucra, o dever me chama, então mãos à obra".
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DJ Nyack, Fióti, Emicida e Rael, na foto postada pelo estilista Ricardo Almeida e criticada pelo MBL.

O terceiro a rimar no som é o Emicida. Construiu seus versos no deboche. "Sinceramente eu gosto assim, miss, os verme em choque, nóiz em Paris", miss é um pronome de tratamento em países de lingua inglesa. Essa linha é uma resposta a senhora (miss) crítica, que tanto aparece em qualquer coisa que o artista faça. E enquanto falam, ele tá correndo, garantindo seus trabalhos e evoluindo em suas produções, pra isso ele usa a sequência de descrições de coisas que viveu, que jamais seriam pensadas pra pretos, periféricos, e do rap. "Meti um G-Shock e pá, voltei no voo com a Gisele" G-Shock é uma marca de relógios. Gisele se refere a pegar um avião com gente famosa, reconhecida intercionalmente (Gisele Bündchen). "Com um terno que custa a propina deles, hashtag chora MBL" Esse verso, faz menção a 2017, quando o grupo divulgou uma imagem em que chama o rapper de “hipócrita” simplesmente por usar um terno de R$15 mil, como se negros de origem humilde não pudessem usufruir do dinheiro que conquistaram.

"Minha pira é criança com cor de chocolate, a fazer selfie em iate" aqui ele sintetiza toda a questão maior que envolve esse reforçar da questão econômica pra nós negros. Proporcionar futuramente que nossas crianças sejam associadas ao lazer, ao conforto, e não a miséria, a violência.


"Com a mente da Lisa e a maloqueragem do Bart", Emicida faz referência a personalidade dos personagens de Os Simpsons, que parecem simplificar a todos e todas das periferias. Mentes inteligentes, focadas, com a sagacidade, a malandragem para lidar com situações. "Ó meu curriculum lattes, em qualquer ano dos últimos dez, há uma revolução que o zica fez" dando a famosa carteirada do bem haha, Emicida menciona e exalta sua trajetória e caminhos trilhados nos últimos anos (o Currículo Lattes se caracteriza como uma base de dados que comporta as experiências profissionais de alguém),  desde o lançamento da sua mixtape Pra quem já Mordeu um Cachorro por Comida, até que eu Cheguei Longe...


Emicida finaliza sua participação falando sobre como enxerga sua correria, sobre não ter pensamentos ruins, a chamada má-sorte. "No meu dicionário não tem revés, 
Botei trinta dia, cinco em cada mês" (Essa dos dias eu tô quebrando a cabeça, mas não cheguei em algo satisfatório), entendi que ele usou o famoso "põe pra 30 dias" quando alguém passa um cheque, 5 em cada mês, falando sobre padrão de consumo, mas depois vi que era uma pira a mais, e sai do sol que tava sentada.

A quarta MC a rimar é a maravilhosa Stefanie, que chega em breve com o clipe Mulher MC. Na sua participação ela resume a caminhada de muitos, ao melhor estilo "onde cês tava, que cês fizeram por mim, agora tão de olho no dinheiro que eu ganho", ela manda seus versos. "E tem mais, o asfalto era palco, tomamo de assalto sagaz, toda mão pro alto, em cor e luz como vitrais" falando sobre os shows na rua, que todo mundo em começo de carreira fez ou faz, constrastando com as mãos pro alto dos shows com mais público que são cada vez mais frequentes.


"Nova era de Hórus" O deus Hórus é o deus solar dos céus e um dos mais importantes da mitologia egípcia. A imagem de Hórus está associada ao firmamento, e portanto, ele representa a luz, o poder e a realeza. O olho de Hórus é utilizado como símbolo da chamada Nova Era. E representa a tomada de uma nova consciência pautada na espiritualidade, no humanismo e nas religiões. Esse movimento vigorou principalmente, nas décadas de 60 e 70, o qual buscava o renascimento, por meio do despertar da consciência e da evolução espiritual. Sendo assim, o próximo verso "Onde rainhas são como orixás" (Os orixás são deuses africanos que correspondem a pontos de força da Natureza e os seus arquétipos estão relacionados às manifestações dessas forças), parece nos dizer que sejam as rainhas egípcias, sejam os orixás, estão relacionados a nossa história enquanto concepção de mundo, e que esse lugar, de deusas e deuses é que nos é destinado, somos lindos, com histórias, valores, passado.
Stefanie finaliza sua participação enfatizando o sonhos dos que vieram antes de nós, "Esse é o anseio dos meus ancestrais" diz não só sobre o conforto e saída das condições adversas, mas sobre esse reecontro com a ancestralidade através do espiritual.

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Os últimos a rimarem são Drik Barbosa e o Fióti. "A cena tava um desmanche, Tive que pegar o manche" Manche (aviação), um controle apropriado para pilotar aviões, embarcações e outros dirigíveis, ele se refere ao desmanche, a desorganização da cena, que a gente costuma chamar quem está em evidência na mídia.

"Lutar estilo comanche, Hoje meu nome é revanche"
Comanche é o nome de uma tribo indígena, Nermernuh, norte-americana, de nômades. O nome derivado da palavra Ute, significa "qualquer um que queira lutar comigo o tempo todo". Em 1865 os Comanches e seus aliados Kiowa assinaram um tratado com os Estados Unidos , que lhes concedia o que hoje é o oeste de Oklahoma. Após o fracasso dos Estados Unidos em cumprir os termos do tratado, as hostilidades recomeçaram, os Comanche, Kiowa e Kiowa Apache se comprometeram a fazer uma reserva em Oklahoma. O governo foi incapaz de manter posseiros das terras prometidas às tribos, e foi depois desta data que alguns dos mais violentos encontros entre as forças dos EUA e os Comanche aconteceram.

Eles terminam o verso enfatizando, "Sempre é a última chance, isso é a selva, então, avance!"

É isso, espero que tenham chego até aqui. Lembrando mais uma vez que essas são piras pessoais minhas, e que pode não ter uma vírgula a ver com o que as e os autores quiseram dizer.
Qualquer duvida ou mal entendido me chamem que a gente troca uma idéia. 

Deixem sugestões para os próximos #ReferenciAna, até mais!