terça-feira, 4 de setembro de 2018

#Referenciana - Quebrada Queer, chega quebrando tudo em "Pra quem duvidou"


Quebrada Queer chamou atenção no mês de junho, pelo clipe maravilhoso que lançaram pelo canal RapBox, a produção de Vibox levando a gente, e as linhas pesadas de cada integrante deixou um gostinho de quero mais em todas e todos que ouviram, gostando ou não, foi um desabafo, pesado, que deixou muita gente "atenta" hahaha pois bateram 1 milhão e meio de visualizações em menos de 3 meses. 

E ontem, dia 3 de setembro, foi dia de lançamento, o novo single “Pra quem duvidou” é uma mistura de críticas, com  resposta aos críticos e a ideia de continuidade do primeiro trabalho. Ouça abaixo: 


Formado por Guigo, Harlley, Lucas Boombeat, Murillo Zyess e Tchelo Gomez, além da DJ e produtora musical Apuke, que assina a produção do novo single, Quebrada Queer me impressiona e cativa bastante pela forma que a interpretação e presença de cada integrante toma proporções fodas. Quando saiu o som eu ouvi, e sem o clipe ficou aquela sensação de faltava algo, embora tivesse curtido bastante. Mas ontem percebi que a imagem, a expressão tranquila de nem fazer careta pra variar nas técnicas de flow, isso cativa e ao mesmo tempo mostra força e qualidade. 


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Está no ar mais um #ReferenciAna, e nele você vai ler um pouco da minhas percepções do som Pra quem duvidou, além de conhecer um pouco mais sobre as referências utilizadas pelo Quebrada Queer. Confira a letra aqui.


Sempre bom lembrar, essas são minhas impressões pessoais e minha forma de entender a música e as informações dela, pode não ser a intenção das e dos artistas.

O primeiro a rimar é Murillo Zyess. Nas primeiras linhas dele, após parecer responder as tantas pessoas que deram opiniões que ninguém pediu sobre o último som "mais respeito pra falar das bixa, conserve seus dente", ele se auto referencia. A linha "réu inocentado da condenação dos crente" dialoga com o verso dele no primeiro som, onde ele diz "desvio de alguns crentes que dizem que eu vou pro inferno". 


A próxima linha, me parece referenciar Racionais, em Expresso da meia noite, o verso "tô de role na quebrada" me remeteu ao Edi Rock (confira a entrevista do Murillo pro Bocada Forte, onde ele diz que o primeiro contato com o Rap foi através de Racionais), e a questão de referenciar grandes clássicos do rap, vem no sentido de também de dialogar com o verso do primeiro som, "subestimado desde o meu primeiro verso", porque acredito que esses grandes clássicos dos anos 90, 2000, foram produzidos em uma época de pouquíssimos avanços na questão de gênero e sexualidade. Referenciar esses sons, além de ser um pisão classudo de "cala boca que eu vim do mesmo lugar que você", ainda é uma quebra dessa ligação do rap noventista com a heteronormatividade. 



O segundo a rimar é Guigo (confira a entrevista dele pro Bocada Forte), apesar de todos terem sido de alguma forma desrespeitados no último som, imagino que a referência de Guigo ao som Deus é travesti, de Alice Guél, no álbum Alice no País Que Mais Mata Travestis, foi a que mais recebeu críticas. Pessoas que não entendem a chamada a reflexão sobre a questão da violência, trazida no som original, o que importa é não usar o nome 'deus' em vão. Justamente se usando disso, Guigo inicia seus versos dando a ideia "Verdades sejam ditas, e hoje eu vim pra questionar". E na sequência ele dialoga com sua participação no outro som, "chamam de bíblia os versos da primeira cypher gay, Guigo virou papisa e hoje eu me canonizei". Retomando novamente a questão das violencias de gênero e sexualidade que são exorbitantes no Brasil, que se diz um país cristão, apesar de laico na constituição. A conta não fecha né? Ou pelo menos a ideia é que não deveria. Também lembrando que em 2015, a atriz transexual Viviany Beleboni fez um ato na Parada LGBTQs. Um ato de denúncia, justamente contra a violência contra LGBTQs, depois do ato Viviany foi esfaqueada e ameaçada por pessoas que não gostaram da encenação e nem entenderam a crítica rs. O Brasil é um país laico, com N religiões ou falta delas, mas ainda sim muitos dizem ser um país cristão pelo número de adeptos e pela confusão errônea que fazem entre política, relações sociais, liberdades individuais e respeito. Acredito ser um tanto quanto contraditório e hipócrita, dizerem ser um país cristão, com um argumento forte de que um homem por amor se sacrificou pra salvar todo o mundo sem distinção, ser também o país que mais assassina LGBTs no mundo, de forma violenta e odiosa.


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A Papisa Joana foi uma "lenda", de uma mulher que teria governado como papa durante a idade média, teria sido a única mulher a ocupar o posto mais alto da igreja Católica. Quando ele diz que virou papisa e se canonizou, ele fala sobre ser reconhecido e "santificado" como representativo e um marco na história. E no último verso ele provoca a questão que muita gente do meio do rap, além de só considerar rap feito por homens héteros como bons e com qualidade, ainda cria uma categoria pra enquadrar o trabalho feito pelo Quebrada Queer, pra dizer que é tudo menos rap, Guigo lembra, que com a qualidade na letra e as técnicas apresentadas, ele é rei. 

A música volta pra Murillo, em forma de conclusão da ideia dele, ele traz "cês pira, mas no dia a dia me oprime", trazendo o fato de quem por exemplo compartilha o som do Quebrada num dia, no outro tá compartilhando "piada" de futebol homofóbica, ou mesmo algum rap que tenha conotação homofóbica, entre outras. E conversando com a ideia trazida por Guigo, ele manda "Percebe como é contraditório aquele que mata em nome de Deus?" pra finalizar sua participação. 

O som também volta pra Guigo, e ele finaliza sua participação com o verso "Me queimam na estaca, mesmo sem saber rezar". Esse verso remete a questão da Inquisição, essa instituição era formada pelos tribunais da Igreja Católica que perseguiam, julgavam e puniam pessoas acusadas de se desviar de suas normas de conduta. Quando ele diz que é queimado sem saber rezar, ele traz essa questão da imposição de culto, como pode alguém julgar que o outro está desviando da conduta, se ele sequer acredita na mesma conduta? 


Tchelo - vem - pesado pronto pra tumultuar! O terceiro a rimar no som é Tchelo Gomez. (Atenção pra virada no vídeo-clipe, que é maravilhosa). Para além da letra, Tchelo (confira a entrevista dele pro Bocada Forte) mostra sua versatilidade no flow, diferente do primeiro som, ele traz a questão de como Quebrada Queer incomoda mas ao mesmo tempo esse coletivo se protege, "Aqui são 6 facadas perfurando sua escrotidão" e "Aqui não apavora, não! Nas mana não encosta, não!". E finaliza sua participação referenciando HAAHHAHAH TRILHA SONORA DO GUETO! Pra quem conhece Trilha Sonora, e os fãs do grupo, sabe como essa sacada foi genial!


(Cara, isso aqui diz tanta coisa que não tem nem como explicar muito). Ele reconfigura o verso de Favela Sinistra, adaptando a questão da violência sofrida. "Favela sinistra, na madrugada filho da puta assassino de trava, se nois te ver nem tenta correr, que seja no inferno nois acha você! Cuzão!"


O penúltimo a rimar é Lucas Boombeat, o rapper que chamou a atenção no primeiro som, por ser uma mistura de bicha com maloqueira (definição usada na entrevista dele ao Bocada Forte).

Vestido ao estilo Xerxes, em 300, poderoso e cirúrgico, e com momentos de speedflow sem nem fazer careta, Lucas começa seus versos chamando a atenção pra questão da desvalorização por parte de quem se incomodou, "Eles reduzem as notas, eu canto e ele chora", aqui, sendo notas no sentido financeiro, ou notas de avaliação, podem ser diminuídas, eles vão continuar cantando. Posteriormente, ele toca em pontos como o assédio masculino para com eles, versos como "Guarda esse amendoim que faz mal pra mim", "Macho coça pau, Se achando uau, Pensa que é o tal, Cérebro sem sal, Quer biscoito, Toma!".


O último a rimar é Harlley, além de questionar a atitude de quem falou bastante sobre Quebrada Queer e não ofereceu jobs, (get ma money gente!), ele também retoma partes das suas rimas no último som. "Se emocionou com o meu pai mas é tua irmã que sofre, Não contestou a atitude escrota do teu parça", é uma chamada de atenção que dialoga com o verso "Esse é só o primeiro desabafo que tá entrando pra história, e com certeza, o meu pai não ia se orgulhar", destinado as pessoas que muitas vezes postam, defendem, assumem posturas bonitas com pessoas públicas, e não da conta de se posicionar da mesma forma com pessoas próximas, as vezes uma amiga ou um amigo que sofre violências das mais diverasas. E o verso seguinte "Riu da minha cara mas olha onde eu tô, onde tu sempre sonhou, mas tu desacreditou", dialoga com o verso "Agora eu quero ver quem tá somando por mim, tomou meu destino, quem constrói os degraus, sabe que não vai cair!".

O som volta pra Lucas, e ele finaliza sua participação em um speedflow, mencionando fatos da sua história pessoal, "Cada verso eu canto além do palco, descalço, no asfalto, aprende o que é ser rua numa que não seja a sua", além de mandar o recado pra quem tenta delimitar o rap, "Aprende o que é rap depois bate no peito
Se não soma some, que se foda seu vulgo ou nome, não pago pau pra nenhum homem, vai vendo".

O som volta pra Harlley, e ele finaliza sua participação reafirmando a ideia do coletivo "Nossa união fez força, quero ver quebrar" e dando caminho pra parte que geral canta, referenciando também o clássico Us mano Pow, as mina pá, do rapper Xis, mas reconfigurado também, "Minas gritando hey, monas gritam ho, pra quem duvidou, quebrada chega".

É isso, espero que tenham chego até aqui. Lembrando mais uma vez que essas são piras pessoais minhas, e que pode não ter uma vírgula a ver com o que a ou o autor quis dizer. 
Qualquer duvida ou mal entendido me chamem que a gente troca uma idéia. 
Homofobia é coisa de pilantra, e no rap não tem que ter espaço pra pilantra. Deixem sugestões para os próximos #ReferenciAna, até mais!