terça-feira, 23 de setembro de 2014

ENTREVISTA - Opinião Periférica com o Douglas Henrique



Hoje o entrevistado é o Mano Douglas Henrique Neves Domingos,morador de piracicaba interior de são paulo.

Veja a Opinião do Douglas sobre vários assuntos.

Fale um pouco sobre o Douglas Henrique..

R: Eu não sou muito bom pra falar de mim. Nem me conheço direito, ainda, e, talvez, nunca conheça...
Mas tenho 21 anos, moro em Piracicaba, interior de sampa, escrevo uns versos às vezes... Faço faculdade de Filosofia,  sou integrante da banda Sub Sistem aqui do interior.

Como e quando você conheceu o Rap .?

R: A lembrança mais antiga que tenho de contato com o Rap, foi de quando eu ouvia Racionais com meu pai no quintal de casa. Era época de vinil ainda. Ele fazia churrasco de domingo, punha a caixa no quintal e a gente passava a tarde lá. Faz mó cota.

E a poesia quando teve contato com ela..?

R: A poesia eu não lembro. Acho que foi na escola. Onde aprendi sobre as 'técnicas poéticas', métricas, eu-lírico... onde me foram apresentados algumas poesias, conheci alguns autores.  Mas antes disso eu já curtia a poesia presente nas letras de música. Não só do rap, né, mas de uns sambas tipo Adoniram, Cartola... sempre tocava em casa.

Quando e porque resolver escrever.?

R: Eu escrevia umas letras de Rap quando era pivete. Mas era tipo 'paródias não cômicas'... Eu pegava o ritmo de um rap e criava minha rima em cima. Acho que foi o primeiro contato com a escrita poética mesmo. 
Aí depois de um tempo, comecei escrever uns pensamentos meus, acho que pra não surtar. Estas têm um teor bem pessoal mesmo. Mas em cima disso eu comecei a escrever umas paradas que tinham algo em comum com as pessoas, não era tão pessoal assim. Aí mais pra frente vieram as com mais críticas, que nasceram à partir de umas reflexões minhas sobre as relações entre nós humanos com nós mesmos e com o mundo, com tudo o que via à meu redor, das coisas que julgo injustas. O porque acho qe se encontra em tentar passar algo que acredito a diante. Palavras mudam muita coisa... E escrever, independente do número de pessoas que as ideias  alcancem, exige muita responsabilidade. E temos que tomar muito cuidado também pra não haver brecha pra má interpretação. 

O que a poesia representa pra você ..? e como você a definiria..?

R: Pra mim, no principio, era tipo uma forma de eu me libertar... Escrevia pra me manter de pé, me manter, digamos, lúcido... Aí depois eu vi que o diálogo transmitido na poesia é bem louco... As palavras são mágicas, mano.  E a poesia toca a alma, mexe com o emocional... Expressão muito louca da linguagem fria, no papel, que aquece e revira muito dentro do peito e na cabeça. 
Então, hoje, além de ainda me manter de pé, representa, pra mim, uma forma de ajudar outras pessoas, informa-las, subverter mesmo... Tocar o coração com o sentimento transmitido. Escrever em prol do outro, e me ver também nesse outro... O eu lírico do que eu escrevo, também me ensina muito, me toca muito.  
E é uma arte. E, como toda arte, é um meio de comunicação,  transmite informação e passa um sentimento... emociona.
Necessidade humana mesmo. Pragmatismo demais sufoca... A poesia quebra esse pragmatismo. Curto muito uma do Drummond: Se procurar bem, você acaba encontrando não a explicação (duvidosa) da vida, mas a poesia (inexplicável) da vida.

Qual o ultimo livro que você leu..? e fale um poco sobre ele.

R:  Não me lembro direito, tô sem muito tempo pra ler por causa da faculdade.
Mas acho que foi Os Miseráveis, romance de Victor Hugo. É um livro incrível!
Fala sobre vários personagens, mas o foco maior é em Jean Vayean, um cara que foi condenado a trabalhos forçados por roubar um pão... A história se passa na França nos finais do século XVIII até meados do século XIX.
Tem uma crítica social e análise psicologia muito rica. Muito bem escrito. Vale muito a pena ler. Aprendi muito com ele. E deste livro tem uma frase que nunca esqueço: "Morrer é quase nada; o horrível é não viver." Que remete à uma do Síntese 'Pior não é morrer, é não viver e ter que respirar. Já que viver é transpirar. Foda é viver sem ter nada pra inspirar."

Como é o rap e a cultura Hip Hop na região onde você mora..?

R: Aqui é bem forte, mano. Tanto a cultura hip hop, como o rap isoladamente... Mas sempre tudo se interliga nos rolês
Temos várias crews de B.Boys/B. Girls que fazem um trampo louco. Oscar Rosa é um ótimo professor.
Os irmãos e irmãs do grafite também representam muito a cena, e sempre agraciam nossos olhos com as artes. Um salve pro meus manos Nico e Rdgo
Os Dj's então nem se fala! Tem o Short beakmaker, o Sampa do Barraco Records, Zocks Foxx, o Leonardo Manchion (violinista da De Buenas Crew) que tá começando agora também. Os caras fazem um trampo profissa.
E os Mc's, né, que são muito talentosos também... Daniel Garnet e Peqnoh (autores do som Serviço de Preto) o grupo Tom da Realidade, De Buenas Crew, GabMc, Mc Gang, Peste Mc, Mc Gordão, Mc Junin,Mc Gandhi, minha banda também que todos os integrantes mandam muito bem. 
Toda a galera dos quatro elementos trampam muito pra manter a chama acesa. E o principal: com muito amor à cultura.
sempre tem eventos aqui. Toda segunda sexta-feira do mês ocorre a Batalha Central, e na sexta seguinte a Cena do Louco...
Vários eventos na Casa do Hip Hop (que tem como organizadores o Igor Serra e Bira Pper), a galera cola em peso, contribui com as paradas que precisa, porque a Casa tem uma função social muito boa pra tirar a molecada da rua, promovendo várias oficinas... A Casa têm o apoio de todos os que amam a cultura aqui. É um coletivo mesmo. Muito lindo.


Oração, oração , toda santa noite,
pra você poder durar o infinito
Minha ação, minha ação é pra matar o açoite
e te dar o sorriso mais bonito
Você é, você é toda a harmonia
Que cabe dentro do meu universo
É pra mim, é pra mim a mais bela poesia
Que carrego escrita em sangue nos meus verso
(dou meu sangue por ti, mãe)



O que você acha desta tal "Democracia Racial" que dizem existir no brasil..?

R: Democracia aqui é utopia. E democracia em todos os sentidos... Quem manda e têm privilégios é a elite branca. Só isso já quebra qualquer outro tipo de "democracia" que dizem existir. Os piores empregos são nossos -Negros, pardos, índios- (salvo alguns diante te tantos). Os piores tratamentos são pra nós (mesmo que muitas vezes camuflados, e muitas vezes alguns negros, pardos, indígenas, serem tolerados por alguns motivos, principalmente o monetário.). "Democracia onde?"


Falando em democracia, pra você qual a chance do brasil eleger um presidente negro..? e porque.?

R:Acho  bem difícil um negro conseguir chegar à candidatura à presidência, quem dirá ao mandato de fato. Talvez se chegasse e tivesse uma boa campanha, até seria eleito... Mas há muita fita por trás que impede a chegada. Não é questão de estudo ou esforço próprio, é questão de poderes dentro da politica, de "panelinhas" que barram muita coisa. E muitos dos que formam essa panelinha são burgueses racistas. É tipo monarquia hereditária isso aqui.

Cotas tu é contra ou a favor ..? porque..?

R: Sou meio neutro nessa questão. Ainda não parei muito pra pensar. AS cotas raciais são pelos 500 anos de atraso, né?
Talvez esteja certo, por que é claro que a reclusão lá atrás, trás aqui um retardo...
Mas também muita coisa mudou... Muitos negros têm boas condições, filhos em escolas particulares.
E se tratando das cotas sociais, acho justo, pois nem se compara a maioria das escolas públicas com as particulares... livros são caros também, muitos têm que estudar e trabalhar pra ajudar os pais, isso prejudica muito.
Mas tudo é questão de esforço, de querer e correr atrás independente das adversidades. Mas uma ajuda pra tentar "suprir" a desigualdade gritante já é uma boa pra não ficar tão desigual até na graduação.


O Programa Esquenta da Regina Casé é muito criticado, por racistas e também por negros,principalmente os ligados a algum movimento social negro.Recentemente o Mano Brown disse que o esquenta é um dos melhores programas da tv, porque ele se vê nas pessoas que participam do programa (disse isto porque o programa é recheado por negro). Qual sua opinião sobre o programa, acha que ele denigre ou aumenta algum tipo de esteriótipo para com o negro..?



R: Então, eu nem assisto esse programa, na real, nem vejo muito televisão, mas já vi uns trechinhos... Eles vendem aquilo como a cultura negra, a cultura da favela. Aquilo não é a cultura. Aquilo é algo enlatado pra se vender, é comercialização... A cultura negra se fez há muito tempo, na África, nos Quilombos, onde eles usaram de algo criado por eles pra transmitir conhecimento, pra sobreviver, pra viver. Funk ostentação não é cultura negra. Alguns tipos de rap, não são da cultura negra. São frutos do comércio, do capital. A cultura nasce da necessidade, trabalho, modo de vida, conhecimentos de mundo transmitidos daquele determinado grupo... É patifaria eles venderam aquilo como cultura negra, e o foda é os negros que estão lá, não pararem pra pensar. Mas muitas vezes é falta de informação, ou sede pelo cifrão, né. Eles estão auto-afirmando uma fita que criaram para nos ridicularizar. E querendo ou não, aquela fita reforça, ou faz as pessoas crerem que aquilo é a cultura negra. Que aquilo diz muito sobre o nosso passado e presente. Se seguir assim o futuro será lamentável.


Qual seu grau de interação com as eleições deste ano..? tem algum candidato que vai te fazer votar.. e porque..?

R: Não tô ligado muito nas eleições porque não vou poder votar esse ano.



Pessoas que tem pele escura já sofrem com piadas e com racismo e quem tem um cabelo crespo black power, unido ao tom de pele geralmente sofre mais, você já passou por uma situação assim..? se sofreu como lidou..? se não sofreu.. saberia lidar com o fato..?

R: Eu lembro que na escola era mais explicito... Era pelos 'coleguinhas de classe', mas criança não nasce assim, né... Aquilo vinha de casa, era absorvida pela criança em sua interação com o mundo e tal. Na esfera adulta, a coisa é mais complicada, pois tem a necessidade de camuflar isso, não pode ser tão explicito porque o ser humano se preocupa com sua imagem. Tem que manter a máscara. E além disso, diferente da criança, vem mais na maldade mesmo, porque temos capacidade pra poder pensar além, além desse condicionamento pelo qual somos submetidos. É só querer e buscar aprender e sentir que, no fim, somos iguais... negros, brancos, pardos, amarelos, índios, mulher, homem, criança, lésbica, gay... Humanos.
 Acho que uma situação que eu lembro, foi de um senhor olhando pra mim e minha namorada (branca), e depois fazendo um sinal pra ela de negação. Não foi nada tão agressivo. Eu ri do senhor, foi bem ridículo mesmo. 
E sobre o cabelo é direto, até pelo grupo familiar falando pra eu cortar porque tá feio. Cito uma do Emicida: "Artista mudando o nariz, de cabelo alisado, reforça essa merda de que ter cabelo crespo é pecado."


Eu sempre pergunto isto aos entrevistados.. Digamos que você fosse eleito presidente e presidente no pais realmente mandasse, qual seria seu ou seus primeiros atos..?

R: Se realmente mandasse, acho que as primeiras coisas seriam: Aumentar o imposto do caviar e diminuir o do feijão, ou seja, aumentar os impostos sobre o que a elite consome, sobre os importados, e diminuir o do que tá no prato do favelado. Rever a função social da terra, para que a terra seja usada por quem realmente precisa e quem realmente vai fazer algo com ela, além de acúmulo de capital. Há muitas famílias sem terras e poucas famílias com muitas terras sem uso, ou pra construir shoppings. Aumentar as punições para crimes ambientais e contra animais (às vezes parece hipocrisia essa de crimes contra animais, né, visto que muitos são mantidos em cativeiros pra engorda e ninguém se importa porque tem que ter o bife no prato... Mas isso é questão do Capitalismo se pá). Tornar hediondo o crime de corrupção, os crimes de farda e os crimes de estelionato praticados em nome de igrejas/Deus. Tirar a isenção de impostos das igrejas e legalizar as drogas... porque isso é um problema de saúde, não de lei. 


Para terminar Indique 2 musicas ou álbuns, e 2 livros..pra geral.

R: Pode ser mais de 2 de cada?

Sim

Álbuns: 
Sem cortesia -Síntese; 
Direto do campo de extermínio - Facção Central;
Para além do capital - Sarakasmo & Choco;
Alucinação - Belchior;
Nada como um dia após o outro dia - Racionais;
Da lama ao caos - Nação Zumbi;
Renascendo das cinzas - Sistema Negro.

Músicas: 
Serviço de Preto - Daniel Garnet & Peqnoh;
Mil fita - O Tref;
Face oculta do crime - Trilha Sonora do Gueto; 
Guerreiras de fé - Tom da realidade;
Nego negô - Inquérito.
Livros: 
Quando Nietzsche Chorou - Irvin D. Yalom;
Capitães da Areia -Jorge Amado;
Manifesto do partido comunista - Karl Marx e Friedrich Engels;
Admirável mundo novo - ldous Huxley;
A república - Platão;
Os miseráveis - Victor Hugo;
Livro do desassossego - Fernando Pessoa no semi-heterónimo Bernardo Soares;
#PoucasPalavras - Renan (Inquérito).


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R: Salve, salve, rapa!
Não vamos deixar morrer o hip hop, nem o amor à cultura... Levar a fita a diante com muita responsa. Lembrando que rap é compromisso, não viagem! Muito amor e muita responsabilidade!
Se informar sempre, e sempre buscar além do que já se sabe, ou do que dizem!
Olhar o outro como irmão e viver, conviver em comunhão
Paz pra todos (Mas paz com voz) 

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