quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Precisamos falar sobre Chimamanda Ngozi Adichie #NovembroNegro


Chimamanda chegou na literatura metendo os dois pés na porta, pois Hibisco Roxo (2003) é simplesmente uma obra prima (não, eu não estou exagerando). O livro fala sobre a jovem Kambili, uma garotinha tentando se encontrar num país politicamente desestruturado e cheio de sequelas coloniais. O romance mais recente da escritora nigeriana é Americanah (2013), que trata da questão dos imigrantes e de suas raízes culturais. Meio Sol Amarelo (2006) é uma obra monumental sobre a guerra Nigéria/Biafra, que começou em 1967 e terminou em 1970. Os três livros foram publicados aqui no Brasil pela editora Companhia das Letras.
Mais do que um relato contundente sobre o conflito, Meio Sol Amarelo é uma homenagem às pessoas que viveram aquele horror. Ao dar uma dimensão muito mais humana à história, em detrimento da ação que supostamente seria esperada deste tipo de narrativa, Chimamanda, mesmo que por vias ficcionais, consegue traçar um painel tão real quanto comovente de uma guerra que ceifou milhares de vidas.
A Nigéria tornou-se independente do Reino Unido no início dos anos 1960. É nesse clima de relativa prosperidade que somos apresentados aos cinco personagens principais que acompanharemos ao longo das 500 páginas do romanção: Ugwu, um jovem que cresceu numa aldeia muito pobre e que vai para a cidade para trabalhar na casa de Odenigbo, um professor com fortes inclinações revolucionárias. Ele namora Olanna, uma bela acadêmica que vem de uma família abastada e com boas relações políticas. Sua irmã gêmea, Kainene, uma figura irônica e bastante pragmática diante dos conflitos que levam o país ao declínio, envolve-se com Richard, um inglês interessando em estudar a cultura nigeriana.
Chimamanda, mesmo que por vias ficcionais, consegue traçar um painel tão real quanto comovente de uma guerra que ceifou milhares de vidas.
Todos estes personagens são desenvolvidos de modo a nos apresentar um painel muito amplo da gênese do conflito e, principalmente, do impacto de sua violência. Ao utilizar elementos clássicos da estrutura de um romance, com reviravoltas e triângulos amorosos, fazendo-nos até lamentar não termos uma vizinha pra perguntar “menina, você viu que absurdo o que aconteceu no capítulo de ontem?”,  Chimamanda não apenas nos entretém, como também estabelece uma relação de cumplicidade entre o leitor e os personagens: agora sabemos muitas coisas sobre elas, então a partir dali é praticamente impossível não se importar com o que pode acontecer àquelas pessoas.
E aí as bombas começam a cair.
Naquela época, o norte do país era predominantemente muçulmano e o restante do território era cristão. O petróleo, principal fonte de renda, ficava ao sul. Fora isso, toda a população era formada por grupos étnicos distintos: hauças, fulanis e os igbos. Portanto a instabilidade sempre esteve presente, tanto quanto o preconceito entre os grupos, mas tudo vira uma merda de vez quando oficiais muçulmanos tentam um golpe de estado e os igbos reagem formando uma resistência ao sul, criando então a República do Biafra (o meio sol amarelo está no centro de sua bandeira vermelha, preta e verde).
Os constantes ataques fazem com que os personagens deixem tudo para trás e tenham que superar seus problemas pessoais, pois estão no meio de uma nação que desmorona dia após dia. Se outrora acompanhamos o cotidiano próspero da classe média nigeriana, agora estamos diante de um abismo cheio de miséria e desespero.
“A fome ajudou a carreira de alguns fotógrafos”, escreve um dos personagens. Seguindo uma linha oposta, Chimamanda não tenta embelezar o horror de tudo aquilo com poesia, mas também não nos poupa da realidade. Está tudo lá: a brutalidade dos militares, as humilhações por um pouco de comida, padres pedófilos, crianças com barrigas enormes, as moscas, os corpos nas ruas, a dignidade se esvaindo, os tiros, as explosão, a falta de esperança.
A escritora dá uma aula de como fazer literatura, não só pelo pleno domínio da linguagem ficcional, mas também por desenvolver o arco narrativo de cada um dos cinco personagens, de modo a apresentar de forma consistente e perturbadora todas as mudanças pelas quais eles passaram. Nenhum deles é herói, nenhum deles é perfeito, pois todos passaram por dificuldades e também fizeram coisas das quais não se orgulham. O personagem mais interessante do livro, Ugwu, é o que passa pela maior transformação. Acompanhar a sua trajetória desde o início, desde quando ele viu uma geladeira pela primeira vez e guardou pedaços de frango assado nos bolsos para levar para a família, até o desfecho de sua jornada, quase uma década depois, é um negócio de triturar o coração.
Creio que seja bobagem afirmar que determinada leitura é obrigatória, mas posso garantir que a obra de Chimamanda Ngozi Adichie é essencial para quem é apaixonado por livros ou que simplesmente pretende conhecer um pouco mais sobre a Nigéria ou sobre a literatura contemporânea. Antes de emitir qualquer tipo de opinião definitiva ou apocalíptica sobre um suposto fim do romance, sugiro que você leia o que essa moça tem a dizer. Isso aqui é literatura de gente grande, meu amigo.

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