quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

ENTREVISTA - Opinião Periférica com jovem MC Delatorvi


O entrevistado de hoje é com o jovem mc mineiro Vitor Hugo, nesta entrevista o mano fala de sua influencia e visão sobre o Funk, sobre os problemas étnicos e políticos de nosso pais e outras fitas.
Resumindo a entrevista "A Juventude negra ainda tem voz e mente ativa"


Se apresente parça, quem é o Vitor Hugo ..?

Vitor Hugo Teixeira, na pista Vitu/Vitão, no mic Delatorvi, rs. 
Satisfação guerreiro, sou de Nova Lima-Mg, tenho 21 anos, trabalho numa padaria e sou Mc.

Como foi sua infância mano ..?

Moro numa cidade de interior, bastante elitizada, onde as periferias (literalmente), são os condomínios... mas no centrão é outra fita.
Cidade rica, com desigualdade nos bairros.
Minha infância foi tranquila, graças a Deus e aos meus pais super heróis, tenho 5 irmãos entre 40 e 21 anos, todos crescemos bem, apesar da dificuldade no começo, lá atrás mesmo, quando eu ainda nem tinha nascido. Nunca faltou nada dentro de casa e eu, como caçula, tive oportunidade até de estudar em colégio particular. Um privilégio perto do que meus primeiros irmãos não viveram. 
Gerações... rs

A musica esta presente na sua vida desde cedo..?

Sim. Tive muita influência dos meus irmãos, que eram muito envolvidos em conceitos e estudos sociais sobre a musica negra, pelo fato do meu pai, falar bastante sobre isso e literalmente nos socializar com música.
Ouvíamos bastante músicas que empoderavam, do tipo Jorge Ben Jor, Cassiano, Milton Nascimento. 
Família grande que sempre gostou de música, por influencia do pai que também era um ouvinte militante, vamos dizer assim. 
Mas em questão de instrumentos ou algo do tipo, não eramos próximos não, apenas apreciávamos.

Quando que você começou a enxergar, o racismo "nosso" de cada dia..?

Como disse, estudei em colégio particular, logo, um negro num colégio de classe média alta é minoria extrema. Era praticamente impossível não sofrer racismo, é duro de falar, mas essa é a verdade. 
De piadinhas a padronizações de estética.
Era explícito a forma como os seus colegas de classe olhavam pra você, não acostumados a ver alguém de "cabelo duro", mesmo a gente morando no Brasil, mano... Brasil! Ou seja: O convívio social deles é outro, a elite fez com que os próprios moleques já crescessem racistas, porque eles absorvem aquela ausência de representatividade no cotidiano delas.
Elas não entendem que "somos todos iguais", porque não somos! 
Ou seja: Conviver com o racismo desde criança foi torturante, mas até muito importante dentro da visão que tenho hoje sobre ele. Diário.

Porque você acha que o Funk sofre tanto preconceito, pelo publico do rap..?

Na verdade, creio que seja uma espécie de pós-conceito e não um preconceito. 
Muitas pessoas que "chegaram no rap agora" tendem a forçar esse discurso moralista musicalmente falando, das limitações sociais dos anos 90 (que obviamente são existente entre nós hoje), mas poucos perceberam que ao mesmo tempo que repudiam o funk ostentação, por exemplo, aqui no Brasil, ouvem Trap gringo que falam coisas muito mais consumistas e sem um contexto social coerente, quanto aqui. 
Acho que o quesito "Musica" acaba sendo esquecido quando moralizamos os "valores", sendo que é uma baite hipocrisia.
Tupac cantou em 1996 "I Get Around" numa piscina cheia de garotas e a sua banca curtindo a festa, bebendo, fumando e gastando dinheiro. Porque aqui não podemos falar?
Devemos repensar nossos conceitos musicais, pois o funk até quando retrata a realidade (como no funk consciente), acaba sendo mais real do que o rap.
Vemos hoje tantos grupos falando de crime aqui, sem vive-lo realmente. Enquanto vários que já estiveram no crime, preferem falar de algo que almejam mais positivamente, dentro do funk. 
Tenho um amigo assim, pesquisem por "Documentário do MC Bruno da Bomba", um ex-presidiário que explica bem o "porque" do funk tentar sempre afastar o sofrimento.
A periferia também quer lazer e isso não nos torna acéfalos sociais. Extremismo demais é ruim para qualquer coisa.

Então mano, um tema mega discutido ultimamente, é sobre os menores cantando funk de conteúdo sexual,muitos são contra a Hiper sensualização dos menores.. o que você acha parça ..?

Eu gosto de funk putaria (rs), assim como gosto de r&b putaria gringo... quem nunca ouviu Chris Brown na adolescência? Vamos até mais longe... quem nunca ouviu James Brown? Os nossos pais, com certeza o ouviram e nós, com certeza, já reproduzimos falas sexistas dos Chris Brown musicalmente. E isso não faz dele um cantor ruim.
Eu acredito na liberdade lírica de cada um, desde que as coisas negativas que são reproduzidas (afinal, somos machistas e o próprio sistema patriarcal nos cria assim.
Nossa cara é usar um pouco do separatismo e bom senso. No Brasil temos um grande exemplo de um ótimo musico, que canta um funk com conteúdo sexual (não hipersexualiza menores) e tem uma melodia incrível: O MC Livinho, sou fã. Rs
Sem mais delongas, a minha opinião é: A normalização do sexo é importante, pois sexo não é definição de mal caratismo, porém que devemos ter bom senso no que reproduzimos.
Novinhas e novinhos, homens e mulheres. É isso.

Vamos falar um pouco sobre apropriação cultural, no rap a industria musical, ja faz isto de sempre divulgar,exaltar e dar destaque a artistas brancos, no funk  acontece..? ou você não acredita em apropriação cultural..?

Acredito bastante. 
Vou usar dois exemplos, um no funk e outro no rap
No funk, dos 4 conhecidos musicalmente, 3 são brancos. Vejamos: MC Gui, Mc Guimê, "MC" Biel e Nego do Borel 
Os mais talentosos? Pra mim, Mc Nego Blue, MC Kelvinho e Mc Caçula, Mc's que agradam o público do funk musicalmente (sem músicas apelativas, pelo contrário, muito bem elaboradas e compostas em suas propostas) mas que não estouram, porque não tem a estética que a mídia gosta de impor nas pessoas.
Acontece o mesmo com o Rap, vamos lá, 4 grupos de rap em destaque atualmente? Oriente, ConeCrew, Haikaiss, Costa Gold 
Eu gosto de Haikaiss, acho os manos talentosos e originais, ConeCrew também não há como negar, um dos melhores beatmakers do Brasil... mas não acha estranho, termos tantos MC's negros que mereciam a mesma visibilidade e o fato não acontecer?
Vejamos... Sombra SNJ com anos de trabalho, um álbum incrível, não tem espaço na mídia... e isso acontece em todos os estados. Chega a ser incrível, o rap cada vez mais brancos, das pesquisas do youtube até a estética. 
E ai se encaixa a apropriação cultural: Vários desses artistas brancos, tendem a se trajarem "como negros" para conseguirem a empatia midiática que identifica os ritmos Rap e Funk, abrindo uma brecha ao sistema de embranquecer nossos encartes. É foda, mas é a realidade. 
O país mais racista do mundo, é racista até na escolha dos seus ídolos da nova geração

Como você define a musica que você canta, a musica que você faz.. funk rap.. ??

Eu canto rap, tenho influência de R&B e de Funk, os dois ritmos estão na veia. 
Trabalhei como produtor de funk e convivo com vários amigos que são MC's do ritmo na quebrada, logo a ideologia já está na minha mente. É um ritmo mais libertário.
Na questão do rap, eu enfatizo muito a militância, pois o diálogo é mais "entendível" vamos dizer assim... define meu som como som de preto, isso sim, rs.
2016 minha primeira ep intitulada "Aprendiz" estará nas pistas e vocês poderão conferir melhor.

Que tipo de temas costuma abordar..?

Reparação social, racismo, fascismo, sonhos de ascensão, revolta, consumismo (eu compro, eu compro rs), valorização da estética e liricamente indicar referências musicais de outros ritmos. Esses são meus pontos. 
Olhando da ótica eurocentrista você é o tipico neguin de favela, como diz no rap do Gregory "Suspeito Tradicional", você já sofreu alguma represaria policial..? 

Sim, sim. Várias vezes. Como disse, minha cidade é muito elitizada, apesar da desigualdade já estar se tornando gritante. 
Se você for negro aqui e andar com um kenner no pé, sua chance de tomar 2, 3 enquadros por dia é muito grande e caso você seja usuário camarada, pode deixar os 6 meses encarcerados no seu currículo, porque vai acontecer... ou eles te forjam, ou te agridem se não encontrarem nada. Essa é a real da Polícia de MG (num contexto geral)
Detalhe: Estou dizendo isso e posso acabar sendo ameaçado novamente, como já fui em redes sociais até.

Como você ver a situação politica do pais, atualmente, falo dos escândalos do "lava a jato".. sobre o fato do cara (Eduardo Cunha) que quer o impeachment da Dilma , também esta envolvido até o pescoço na mesma corrupção.. você vê algum saída ?

Sinceramente? Não vejo, porque os pretos ainda não se politizaram totalmente. Não estudamos sobre Mariguella, não pensamos no levante, jovens negros são fuzilados por "aparentarem" ser bandidos e enquanto isso fazemos campanha pra passar pano pra Europa, lá na França, onde os próprio pretos sofrem tanto racismo, quanto aqui. 
Penso que estamos perdidos nessa parte, o nosso pensamento político é acéfalo. O governo que se diz esquerdista assina papéis para sancionar leis que só nos atrasam socialmente e ainda temos que assistir prefeitos e governadores batendo palma pras Upp's, que matam não só um, mas vários Amarildos e Cláudias por dia
Começa daí: O estudo independente, porque enquanto dependermos do governo para estudarmos nossa política, ela não chegará até nois. Anarquismo... quem sabe?
Revolta? quem sabe... mas não a seletiva, como tem acontecido. É um jogo onde o sistema nos domina... por enquanto.
E sobre o Eduardo Cunha: É o exemplo da "Família Tradicional Brasileira". O tipico cristão que aponta os erros dos outros, utiliza de suas leis divinas para julgar, mas peca como o satanás quando vê um dinheiro a mais chegando perto, rs. A bancada evangélica é muito mais terrorista do que o estado islâmico

O rapper Eduardo diz em seu livro "A guerra não declarada na visão de um favela", que as drogas devem ser liberadas,descriminalizadas você concorda..? qual sua visão ..

Concordo. Descriminalizadas, sim. Não é necessário andar muito longe pra saber que tem preto trabalhador ficando preso 1, 2 anos na cadeia por causa de meia dolinha de maconha e acabando se formando na faculdade do ódio lá dentro.
É embaçado, são eles que nos levam até o crime com esses argumentos de culpabilização. Não é só uma guerra de playboys em pról da legalização pra poder plantar seu baseadinho no apartamento. É uma luta séria, que pode ajudar os pretos a se libertarem um pouco mais do risco de morte, que é diário.

Porque ser a favor das cotas raciais parça..?

Porque eles nos devem até a alma, porque não temos professores negros o suficiente, porque não temos juízes negros o suficiente... porque falta representatividade e ela só vira com a reparação histórica, dessa dívida histórica. Isabel pagou de loka e o "somos todos iguais" surgiu como argumento para racistas reproduzirem racismo o minimizando. 

Pra finalizar,teve alguma pergunta que não fiz que você gostaria que eu perguntasse..? se teve qual é a pergunta e as resposta..
"Tem algum trabalho para lançar?"

Sim, em 2016 - Ep "O Aprendiz", dois ou três videoclipes. Um falando sobre a redução da maioridade penal (num trap), outro falando sobre uma mina (mary) e outro falando sobre o genocídio do homem negro (diário). São três trunfos na vida. Necessário e em breve. O rap mineiro vive! 

Deixe um salve,uma mensagem aos leitores..

Um salve a todas as quebradas, que os orixás acompanhem vocês aonde estiverem. We gonne be alrigh... right? rs. 
Obrigado pela oportunidade, meu chapa. Estamos ai, pelos preto e pelas preta. Só força! #RapMG #DelatorviNaVoz

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