terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Relato - "Me chamaram de macaco fedido do caralho e disseram que iriam cortar os meus dreads"




RELATO: O Racismo Diário e a Síndrome do Pequeno Poder por Ibu Lucas


Salve rapa, só agradece a compreensão, a paciência e principalmente a preocupação com a minha integridade diante do ocorrido de ontem. 

Queria comunicar que estou bem, vivo e em casa, é isso que importa acima de tudo. Ontem foi o II Grande Ato Unificado onde a polícia demonstrava o tempo todo que a ordem explicita, vindo do nosso excelentissimo Geraldo Alckimin, era de repreensão e violência total aos apoiadores, pais, mães, crianças e secundaristas. As ameaças da tropa de choque no decorrer do ato foram constantes, comentários como "vocês tão fudido", "bando de macacos" eram presentes. 

Não sedendo as provocações, permanecemos focados na segurança do ato e no decorrer do mesmo, que acabaria por se encerrar de uma forma um tanto quanto cruel e trágica. O ato em seu final foi se dispersando naturalmente, algumas pessoas ficaram e decidimos em conjunto discutir qual seria o andamento do ato, se iriamos encerrar ou se iriamos todos juntos em direção ao metrô. A segunda opção foi a escolhida, fizemos um jogral com um cordão de segurança e fomos todos em direção ao metro, já que a poucos metros de nós haviam mais de 300 policiais militares juntamente com a Tropa de Choque, um número extremamente absurdo comparado ao numero de jovens que se encontravam no final daquele ato.

Após a execução do catracasso, vi materializada, em carne e osso, em padrões estéticos eurocêntricos e exaltados pelas grandes mídias burguesas, a síndrome do pequeno poder. Os guardas bonitões metidos a policiais começaram a instintivamente bater em quem surgisse pela frente, presenciei mulheres e crianças sendo agredidas em um descontrole total. Em especifico me revoltei quando vi uma garota que eu não daria mais de 15 anos de idade apanhando de um desses bonitões, foi quando parti pra cima do mesmo e tentei coagi-los com mais alguns caras, infelizmente acabei por escorregar e fui arrastado pra uma sala estranha dentro da sé da qual eu nem me recordo como fui parar lá, foi quando a Policia Militar chegou dentro da Estação e o caos se estabeleceu de vez, dois policiais e dois guardas começaram a sessão de torturas psicologicas e até mesmo fisicas dentro da sala. Não me atuaram em nada, não me deram voz de prisão, só gozavam prazerosamente do prazer da Sindrome do Pequeno Poder e do Racismo Diário. 

Me chamaram de "macaco fedido do caralho", disseram que iriam cortar os meus dreads e que iriam me matar, que minha mãe iria chorar no meu enterro, jogaram spray de pimenta e me falaram pra ficar com a cabeça baixa. Nesse momento mais um motim começou, eu me mantive de cabeça baixa pois tentava de forma escondida postar alguma coisa no facebook, (até consegui, mas a mensagem só viera a ser publicada quando meu celular conectou-se ao primeiro Wifi livre, só em Jabaquara, quando estava bem e solto, mas sem bateria nenhuma pra avisar). Um dos guardas pegaram meu RG, começou a anotar meus dados e entregou para um PM que saiu, o outro, que estava visivelmente alterado,, começou a me enforcar com o cassetete com extrema força porque eu havia dito que não falaria nada e que a minha advogada já estava a caminho. O PM só parou o enforcamento após eu fingir desmaio e saiu balbuciando algumas coisas racistas da sala. Os dois guardas ficaram me vigiando, mas estavam dístraidos conversando no rádio, pois a confusão continuava lá fora, foi o momento que tive o impeto de sair correndo pela porta com uma força que eu nem imaginava ter, um dos guardas me perseguiu e felizmente consegui entrar no metro após um dos estudantes segurar a porta pra mim, depois disso o trem parou diversas vezes para vistoria, mas graças a deus consegui chegar em Jabaquara com cobertura e ajuda de uma familia que nem tive tempo de agradecer. 

Me encontro em casa, quieto e tentando digerir isso tudo, agradeço e peço ainda mais o apoio de todos voces, principalmente pelo triste fato de me encontrar meio que de mãos atadas, já que não houve registro algum das agressões.

A luta segue e não tem arrego, a periferia vai sobreviver!

*Nenhum deles estavam devidamente identificados
*Só decidi postar os informes aqui porque me vi acoado e não to afim de morrer com isso engasgado, os próximos passos serão para além dessa plataforma e se tiver como haver justiça nessa fita, estaremos a buscar por ela.


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