quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Tem uma guerra aí fora pra quem tem a pele como a minha e pra quem vem da onde eu venho, ta ligado..?




Truta eu nem sei o que falar sobre este moleque no bom sentido da palavra claro, pois suas ideias e atitudes são de homem, sabe aqueles moleque que a vida e a mãe do lado faz virar homem cedo..? este o é Ibu Lucas
Serio mesmo me falta adjetivo pra descreve-lo, mas eu posso dizer que o Lucas é o moleque que eu queria ser com 18 anos, e não é inveja a palavra é orgulho que eu tenho deste moleque,simplesmente conheça um pouco lucas,dos seus corres pela quebrada,nosso povo e sua mãe.


Mano eu ja te entrevistei, portanto não vou pedir para se apresentar ou fala de sua infância..rsrs vamos direto. Porque largou Sampa pelo Rio de Janeiro ..?

R: Eu tenho uma mãe que foi diagnosticada com esquizofrenia quando eu era muito moleque, ta ligado? Isso se deu após o processo de separação onde ela foi muito violentada pelo patriarcado que se expressa e se materializa na figura masculina, sem contar o racismo em meio a isso tudo, já que meu pai é branco. Tudo nasceu daí, ta ligado? Minha mãe sofreu muito com isso e eu também, por consequência descobri um trabalho no Hospital Psiquiátrico Pedro II, no Rio de Janeiro, onde há uma ocupação artística a mais de 2 anos da Universidade Popular de Arte e Ciência chamada Hotel e Spa da Loucura , a ideia era ocupar o Hospício e produzir um jornal pela luta antimanicomial... Não deu outra! Recebi o convite de uma amiga muito especial pra ocupar lá dentro e fui na hora, era a chance de lutar pela minha mãe, de entender mais a psique humana e de denunciar os manicômios que não são nada mais e nada menos do que o que há debaixo do tapete dessa sociedade nojenta e o que há debaixo desse tapete é a realidade triste: Pessoas negras e periféricas em sua gritante maioria. A favela ta ali, esquecida, jogada...varrida!

Foi difícil a adaptação e tem algum diferença cultural entre sampa e rio..?

R: A adaptação ta no meu dna! a gente que é pobre vive se mudando de lá pra cá o tempo todo, acaba por pegar as manhas e de certa forma até se acostumar, mas não posso negar que foi difícil. Principalmente politicamente falando, aqui é em SP é uma coisa só, lá tem que se tomar muito cuidado pois os poderes paralelos são muitos. A diferença cultural existe sim, tive a oportunidade de presenciar como o funk e o samba é influente nas comunidades cariocas e como isso ainda mantém os laços bem firmes perante a tanta ação estatal de cunho divisório e genocida.

Quando você sentiu a necessidade de ser útil pra quebrada e pro nosso povo..?

R: Desde quando tive que contar moeda de 1 centavo pra comprar pão pra mim e pra minha mãe, ta ligado? Desde quando tomei um enquadro a noite vendo um fuzil atravessado na minha direção sabendo que eu poderia morrer por simplesmente ser quem eu sou, ta ligado? O sofrimento te trás a ânsia pela alegria! Já perdi muitos parceiros e parceiras na caminhada, já vi muito truta meu que estava no front e na luta perecer, ir pelas ideia errada, esses bagulhos e o atual cenário político dessa guerra civil não-declarada ao povo periférico me faz ter essa necessidade de ser útil. Tem uma guerra aí fora pra quem tem a pele como a minha e pra quem vem da onde eu venho, ta ligado? Não posso moscar, preciso ser útil pra qualquer quebrada que eu pise meu pé, o pensamento é sempre de guerrilheiro pra quem nasceu na trincheira como eu nasci. O bagulho ta ficando cada vez mais louco, ta ligado, mano? Os números de violência estatal direcionada as favelas que já era extremamente alto superando até mesmo guerra civis declaradas e marcadas na história só vem aumentando gradativamente, entende? A água vem sendo cada vez mais um grande problema, principalmente nas favelas, ta ligado? Não vai demorar muito e a gente vai ter que empunhar um fuzil pra brigar por água, o bagulho tá muito louco... A higienização do nosso povo ta a mil, precisamos ser uteis e necessários pro ventre que nos concebeu. A favela precisa de mim e de você, ta ligado mano?

Você participa de um coletivo que faz trabalho dahora em um manicômio, como funciona e como anda este trabalho antimanicomial ..?

R: Sim, faço parte do Jornal Reorganize. Nos encontramos atualmente na construção da 4ª Edição do nosso Jornal, a temática dessa vez é o Feminismo e as questões de gênero, então as mina do coletivo tão a mil e tentando se organizar pra construir e por as ideia pra fora, o que não deve ser nada fácil. O trabalho funciona na base do cooperativismo e no apoio mútuo, passamos por diversos caminhos espinhosos, afinal não é nada fácil desenvolver um trabalho como esse sem dano algum na sua própria psique, mas seguimos firmes e esperançosos de que esse jornal irá sair. Em breve estaremos lançando a campanha para arrecadação de fundos e voltando a fritar na divulgação. Como MC e Jornalista, enxergo a luta antimanicomial como essencial, mas aos meus olhos observo que o movimento pela luta antimanicomial é totalmente invisibilizado pelas lutas ditas de Esquerda, o que me soa um tanto quanto racista, visto que a maioria das pessoas que compõe esses ambientes insalubres são pessoas negras. A psiquiatria atual que só serve a indústria e segue uma metodologia de dopar e de encarcerar essas pessoas, agravando ainda mais assim o seus respectivos estados, continua firme e forte. É duro lidar com isso e bater de frente com uma estrutura tão grande, mas é por pessoas como a Luciene Adão Colunista fixa do nosso Jornal Reorganise  e o nosso querido ator Paulo Eduardo que seguimos firme.

Vamos falar um pouco das ocupações nas escolas em São Paulo que protestam contra esta reorganização das escolas, eu confesso que fiquei surpreso eu não esperava ver jovens menores de idade tocando o terror contra o fascista do Geraldo, como você analisa esta situação e isto foi um surpresa pra você..? Porque acha que estão combatendo um protesto por educação com violência..?

R: Volto a repetir: A periferia da aula, em todos os sentidos! A molecada fez em dez dias o que a esquerda não fez em 10 anos. Eu me sinto extremamente emocionado e arrepiado da cabeça aos pés com essa aula de auto-gestão e horizontalidade que a molecada vem dando, quer prova mais viva do que essa que a coletividade e o apoio mútuo funciona? É na prática que se evidencia a tão sonhada utopia. O estado age da mesma forma com qualquer movimento que incomode a metodologia burguesa: MUITA REPREENSÃO. Não me sinto surpreso e ainda acho que a polícia pode se superar no quesito truculência. Minha preocupação mesmo fica com a molecada... mas espero que a racionalidade permaneça em equilíbrio com suas emoções e que por fim, continuem resistindo e dando uma aula de cidadania mostrando o quão falho é esse sistema educacional.

Vamos falar um pouco de rap também, o rap nacional anda num momento de muita tretinha,briga de ego e muito boy no movimento ditando regras, alem de ter dado uma grande embranquecida no movimento, juntamente com as panelas dentro do rap, como você analisa a cena atual

R: A cena pra mim é quem ta fazendo algo pela quebrada, ta ligado? é quem fala de empoderamento étnico-racial, resgate da identidade, é quem leva a informação, o conhecimento, quem estabelece o diálogo num país onde a classe mais abatida é bombardeada por uma mídia que só dissemina princípios da violência com seus valores capitalistas, saca? Pra mim a cena é quem faz jus a história, ao que é um griot, ao que é um MC. A real é que como diz o Neto do Sintese, o Hip Hop virou produto! E infelizmente tudo que vira produto é embranquecido pra vender melhor. É estratégia de colonizador! Foi assim com os índios, foi assim com qualquer herança cultural de povos oprimidos ao longo da história. Tira-se coisas de seu contexto e de sua essência para inseri-las em um padrão mercantil que servirá a interesses de uma estrutura branca que dá as cartas ao redor do globo, é isso o que aconteceu com o Hip Hop e por consequência com o Rap, entendeu? O bagulho é louco! Mas a minha felicidade é ver que pessoas como a Sara Donato, Issa Paz, Souto MC, Bê O e Omnira continuam resistindo e remando contra a maré, ta ligado?

Você comentou comigo que anda sofrendo um boicote no rap. Que tipo de boicote é este..?

R: O boicote é não poder ter na minha mão uma arma que é herança do meu povo por que esse ou aquele fulano é que ta "portano", ta ligado? É você ver que não só eu, mas tantos outros moleques nas periferias que fazem um som fudido, com letras de outro plano, sendo ignorados e silenciados, ta ligado? É muito rap branco de classe média falando o que não sofreu...


Pelo que reparei você é um jovem bastante ativo e engajado como funciona este projeto "Atelie Kabana" ..? em quantos vocês trabalham.. etc..

R: O espaço Ateliê Kabana é um projeto de residência artística desenvolvido dentro da periferia da Zona Norte carioca.
A ideia é gerir de forma não hierarquizada um espaço de criação livre, voltado para os moradores e desenvolvendo acesso à arte e à possibilidade de cura através dela.
A Kabana juntamente com o olhar das crianças, visa buscar novas formas de relações, baseando-se no conhecimento da permacultura, na consciência de nossa natureza.
Nosso ateliê é um convite para descobertas do cotidiano, para a colaboração e para a vida em toda sua magnitude.
Aqui todas as pessoas são professoras e aprendizes. Quem sabe, ensina. Quem não sabe, aprende.
A gente trabalha em 4 pessoas, que são residentes por necessidade de moradia e tem mais alguns colaboradores que transitam pelo espaço.

A comunidade em volta do projeto participa deste projeto..? como eles veem esta ação de vocês..?

R: A comunidade participa. As crianças são os maiores frequentantes e é com eles que o trabalho é desenvolvido de forma mais profunda. As mães aparecem de vez em quando e a comunidade esta sempre transitando pelo terreno ou sabendo das atividades que desenvolvemos ao decorrer do tempo. Temos uma espiral de ervas e buscamos através dessa espiral e de outras plantações no terreno, atingir as pessoas mais velhas da comunidade, é o resgate da medicina tradicional, do contato com a terra, do contato com a vida. Acreditamos que essa relação é de extrema necessidade para o resgaste da identidade cultural e existência dessas pessoas. Essa residência artística proporcional não só pra eles, como pra nós, uma verdadeira mudança em todos os âmbitos da vida.

Segue algumas imagens do projeto:





Para doações e maiores informações, entre em contato com o projeto:
Email: ateliekabana@riseup.net
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