sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Precisamos falar de machismo no rap.

Nós do noticiário periférico apoiamos a luta das mina no feminismo, sei que é um texto escrito por um homem, mas achei pertinente compartilhar por causa dos últimos acontecimentos. Fique com o texto do rapper paulistano Marcelo Gugu.



Depois de centenas de mensagens (parei de contar na número 102) de páginas me marcando, de gente me perguntando, resolvi escrever algo sobre e começo dizendo:

Precisamos falar sobre o machismo no rap.

Esses dias, como centenas de milhares de pessoas já viram, aconteceu um fato que mobilizou todo rap nacional: um Mc foi acusado de agredir sua ex mulher. A algumas semanas atrás, o escritor de um site foi acusado de abusar de uma menina. A alguns meses atrás, um b.boy foi acusado de abusar de uma b.girl. Não vou entrar no mérito de cada caso, nesse texto pretendo me atentar a falar sobre o todo.
Li centenas de publicações compartilhadas e em todos os casos a maioria delas dizia coisas como: "nada novo sob o sol" ou "qual é a novidade?" E me peguei pensando em quão problemática e, infelizmente reais, são essas afirmações dentro de um movimento que tem, em teoria, sua essência cunhada na liberdade de expressão e na arte.
Tudo o que eu escrever daqui pra baixo não é nada novo, são coisas que são ditas pelas mulheres do nosso movimento (e não só do nosso movimento) a muito tempo mas já aproveito pra elucidar que, por causa do machismo intrínseco em nós mesmos, vc vai ler e talvez dar outro peso, pois é um homem falando. Assustadoramente isso soa natural e é aqui que começo dizendo que PRECISAMOS OUVIR AS MINAS!!!
Gostaria de iniciar essa nossa conversa pela seguinte provocação: que tipo de liberdade existe dentro do Hip Hop? Não pregamos que o Hip Hop é a voz das minorias? O emponderamento dos excluídos? O resgate da auto estima através da arte? Não falamos exaustivamente a frase: o Hip Hop salvou minha vida?
Pois bem, A ideia desse texto é propor uma reeducação e talvez um aprendizado. Primeiro, precisamos entender que sim, nós, homens,  continuamos, ano após ano, nos beneficiando através das ferramentas que o machismo tem para nos mantermos em um lugar privilegiado. Posso elucidar exemplos banais ou podemos ir na raiz das coisas, mas pra se ter um entendimento simples: faça ou pegue uma lista com os "Mcs do ano de 2016" e conte quantas são mulheres. Claro, numa lista dessa entra gosto pessoal, preferência e mais centenas de coisas, mas repare bem em sites, matérias, espaços. Deu pra perceber algo?
Se ainda está difícil podemos nos aprofundar e falar de feminicídio e dos números crescentes e assustadores de assassinatos e indicies de agressão. Se entrarmos no mérito de drones passionais teremos uma porcentagem assustadora de quantas mulheres morrem por dia por motivos banais. Podemos falar tb dos milhares (sim, milhares) de relatos de abusos que recebo em meu e-mail por causa do texto Milagres ou das histórias que ouço dentro da fundação casa, por exemplo.
Mas números não sentem. Pessoas sim. Portanto, voltemos a nós, principalmente homens, que como números, não sentimos esse tipo de opressão e que mantemos, através de um simples psiu, uma cultura que mata, que perpetua o medo e que é responsável por invalidar falas, argumentos, lutas, e vidas. Precisamos trabalhar nossa empatia, precisamos "começar" a entender a raiz das coisas e o por quê das coisas, ao invés de reproduzir discursos que ouvimos desde de crianças. PRECISAMOS OUVIR AS MINAS. PRECISAMOS ENTENDER QUE NÃO SOMOS O CENTRO DO UNIVERSO. PRECISAMOS ESTAR DISPOSTOS A MUDAR NOSSO COMPORTAMENTO. PRECISAMOS DAR UM SALVE NO AMIGO QUE INSISTE EM VAZAR FOTOS. PRECISAMOS DAR BRONCA, PRECISAMOS LARGAR OS MELINDRES E ASSUMIR ERROS. PRECISAMOS PARAR DE TENTAR JUSTIFICAR NOSSOS ERROS. PRECISAMOS RESPEITAR E RECONHCER NOSSOS PRIVILÉGIOS.
E digo que isso não é uma indireta, alfinetada ou algo direcionado a fulano, ciclano, ou beltrano, mas a todos nós, homens, que consciente ou inconsciente reproduzimos atitudes e falas que oprimem, ferem e matam todos os dias. Os dados estão aí, mas números não contam traumas, não contam sequelas e não contam histórias. As mulheres, representadas tristemente por esses numeros, além de contarem, carregam as marcas pro resto da vida.
Alguns vão falar que é exagero, mas eu, Marcello, posso te garantir, com base nas histórias que ouço das meninas que estão na fundação casa ou no que recebo diariamente, que não mano, A gente não tem ideia do Q é isso. Não passa na nossa cabeça o que é ser abusado. Nós não temos nem ideia do que é segurar uma chave entre os dedos como se fosse um soco inglês só por que um homem vem andando em nossa direção à noite. Nós nunca vamos ter esse medo.
Caso vc ainda não acredite, Pergunte pra alguma mulher da sua família o que ela ouve ou o medo que ela sente em determinadas situações e passe a se por no lugar com uma pergunta simples: e se fosse eu?
Não é fácil, eu sei, muitas das coisas soam e parecem tão naturais que não percebemos essa reprodução e é por isso que insisto: o exercício de perceber é diário. Nós não nascemos sabendo e não vamos aprender com homens sobre as mulheres, portanto: PERGUNTE A SUA COMPANHEIRA, A SUA AMIGA, A SUA MÃE, IRMÃ, AS SUAS COLEGAS E ATÉ NAS SUAS REDES SOCIAIS. BUSCAR O CONHECIMENTO SIGNIFICA TER A OPORTUNIDADE DE SAIR DA IGNORÂNCIA. NÃO PODEMOS MAIS ACEITAR QUE UM HOMEM MATE A EX MULHER E SEU FILHO E MAis NÃO SEI QUANTAS PESSOAS POR CAUSA DE EGO FERIDO. Aliás, só pra deixar registrado: não existe nada mais frágil que o ego masculino. Se existe algo como sexo frágil, nós somos. O "mimimi" é nosso.
Homens, precisamos trabalhar isso. PERGUNTE A ELAS MAS O MAIS IMPORTANTe: OUÇA!! ESTEJA ABERTO PRA APRENDER. Não estou colocando em cheque caráter de ninguém até por que isso independe de gênero, mas sim elucidando oq eu acredito ser base fundamental do Hip Hop: o RESPEITO.
Resolvi escrever sobre isso por que estou longe de ser um exemplo, estou, como todos os homens que se propuseram, aprendendo tb, mas fiz esse texto por que um dia escrevi algo chamado Milagres e me comprometi a ouvir, a perguntar, a tentar errar menos e pra isso, meus amigos, eu passei a ouvir mais do que falar, portanto, encerro minha participação por aqui, desculpe o textão e pra quem quiser continuar: OUÇAM O QUE AS MINAS TÊM A DIZER, ELAS FALAM MELHOR, COM PROPRIEDADE E A MUITO MAIS TEMPO SOBRE ISSO.

Paz.
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