terça-feira, 23 de maio de 2017

COLUNA DO LEITOR - Vale tudo, só não vale ser mal acostumado

Vale tudo, só não vale ser mal acostumado

Fala galera, eu sou Vinícius de Castro e depois de 8 anos juntando uma grana, larguei meu trampo para viajar um ano pela Europa só de mochila nas costas. Durante a minha viagem, conheci minha atual esposa, me tornei papai e me mudei pra Grécia, onde moro há um ano.

Esse é um pequeno resumo pra tu saber de onde tiro minhas conclusões - afinal, não sou particularmente estudado em sociologia nem nada, sou só mais um guarulhense que gastava 4 horas todos os dias no transporte público de São Paulo e agora vive cercado de estrangeiro.

Caso queira saber mais sobre minha caminhada, acesse minha página do facebook (Nego Vai Longe) ou confere meu blog.

“Tem gringo que vive chorando de barriga cheia”

Minha mulher é grega, morou a vida inteira na europa e é comunista. Por conta dessa inusitada combinação, rolam várias tretas filosóficas aqui. Não me entenda mal, eu me identifico muito com a “esquerda” porém as reclamações que escuto dos gringos, apesar de parecerem válidas, são absurdas quando se analisa o contexto. Vou dar uns exemplos:

Não tem “emprego bom”
Uma das principais reclamações que escuto é que não tem emprego bom pra todo mundo. Num primeiro momento, essa reclamação parece válida e justa, principalmente porque a mídia cobriu exaustivamente a “crise na Grécia”.

E de fato “Acabei de me formar e não consigo arrumar um emprego” é algo que cansei de ouvir da galera jovem que conheci na Grécia. Analisando o contexto em termos práticos, o país oferece faculdade de graça para todo mundo - isso mesmo, ensino superior de qualidade gratuito para todo mundo - e de acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, a Grécia tem 40% dos jovens formados! Proporcionalmente, o Brasil tem quatro vez menos formados que a Grécia.

Não fica difícil acompanhar a lógica: num país com muito engenheiro, quem vai querer trabalhar de peão?

Os “empregos ruins” exploram
Outro argumento que escuto bastante é que país possui uma alta taxa de desemprego (a maior da União Européia) os donos das empresas aproveitam o momento para pagar menos do que deveriam, esse é
Eu moro em uma cidade turística e de fato, muitos dos empregadores aqui pagam menos e exigem mais. O problema é quando você analisa o contexto todo:

Para os padrões gregos, “exploração” é ser forçado a trabalhar 6~8 horas por dia com 1 folga por semana ganhando 400 euros (R$ 1.200,00). Sem contar que, caso esse “trabalho abusivo” tenha contato direto com turistas, esse montante pode chegar a até 700 euros (R$2.100) por conta das gorjetas.

Não sei para vocês, mas por grande parte da minha vida eu trabalhei nessas condições  citadas feliz e contente sem achar que estava sendo explorado!

Salário Baixo
Esse é um tema complicado porque o custo de vida aqui é diferente, mas sem dúvida esse é outro tópico que me emputece. Ela e muitos de seus compatriotas  dizem que o salário mínimo da Grécia é ridículo e argumentam que não é possível manter uma vida digna. Nota: o salário mínimo aqui é R$ 1.800 (600 euros)! Após viver um ano aqui, eu te garanto que dá pra viver perfeitamente bem com esse dinheiro!

A lógica desta reclamação vem do seguinte argumento: “Com esse salário não dá pra pagar um aluguel no centro, comprar e manter um carro, comer em restaurantes de vez em quando e viajar uma vez por mês”.

Eles realmente não percebem o quão privilegiados são e eu fico doido da vida com isso. Ao meu ver, o salário mínimo deve ser o suficiente para cobrir todas as necessidades básicas de um ser humano sem que ele tenha que ficar contando moeda. Agora, não é necessidade básica possuir um carro, morar no centro da cidade e comer em restaurante 4 vezes por mês.

Manifestações

Eu apoio a maioria das manifestações do povo contra o governo, porém de novo, os gregos me parecem muito mal acostumados. Não se passa 3 meses aqui sem uma grande greve!

Em dezembro mesmo, estávamos em Atenas visitando o cardiologista da nossa bebê quando ocorreu um grande protesto, que depois eu fiquei sabendo que é anual.


Aparentemente, todo ano no dia 06 de dezembro, a galera faz protesto pesado contra a polícia por eles terem matado um jovem inocente no centro de Atenas em 2006. Se liga nas fotos de como é pesado a parada.


Eu estava trabalhando em um bar quando a polícia arremessou uma granada de gás lacrimogêneo nas redondezas e pela primeira vez eu senti o cheiro daquela merda. É horrível.

Meu pensamento no final do dia foi: “Que frescura, a polícia matou um jovem inocente há 6 anos e todo 06 de dezembro eles protestam assim? Se fosse assim no brasil, todo dia a gente ia quebrar tudo”

Nesse momento a minha ficha caiu. No meu “pensamento brasileiro”, um policial assassinar um jovem inocente é uma coisa normal/natural. Afinal de contas, faz parte do nosso cotidiano, certo?


Mas que linha de pensamento mais imbecil, não?
É comum, quando um protesto/manifestação se torna muito grande, que pequenos grupos vandalizem a cidade, e nos dias seguintes à manifestação é possível encontrar algumas banquinhas de jornal queimadas e depredadas e isso é uma bosta.

Porém, após refletir sobre o assunto, esse protesto anual é fundamental! Todo dia 06 de dezembro a nação grega mostra que não irá tolerar o assassinato de jovens inocentes. Somente o fato de dos policiais que são truculentos saberem -ou melhor, serem lembrados- disso, já representa um ganho absurdo pra toda nação.

Bom, era essa reflexão que eu queria deixar aqui, algumas coisas que aprendi pensando sobre esse assunto:
  • Assim como os gregos, temos que lutar com mais afinco pelos nossos direitos e por condições melhor para toda população.
  • Diferente dos gregos, devemos entender que, apesar de falho, diversos pontos do nosso sistema funcionam. Antes de ficar reclamar do INSS, do aumento dos preços e da criminalidade procure saber mais sobre o sistema de saúde pública americano, a inflação da Coreia do Norte e a criminalidade da Venezuela.
  • Não esquecer um fator básico, a morte de um jovem inocente não deve ser jamais vista como algo natural e normal sendo quase um dever do cidadão se manifestar frente a esses incidentes.

Acho que a principal mensagem que eu quero passar com tudo isso é: apesar de morar fora do Brasil faz com que eu e família recém criada não sofra diretamente com os problemas da nação, meu sonho é escutar minha filha dizendo: “O Brasil já foi muito ruim porém pouco a pouco a população foi acordando e percebendo sua força”.

Claro, minha véia ainda mora no Brasil, e só isso já seria o suficiente para me motivar a melhorar o cenário e não tacar o “foda-se” para essa situação que parece um tunel sem luz no final.

Abraços e paz

(queria deixar uma salve aqui pra alguns amigos que me contribuíram para esse post: Báarbara Serafim, Bruno Gimenes e Caio Mesquita)
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