quinta-feira, 25 de maio de 2017

#ReferênciAna - Afrontar/Ascender - ATTICA!

Assim como explica o nome, nessa seção do NP, você vai encontrar algumas de minhas percepções e discussões sobre referências históricas e sociais utilizadas em letras de músicas. 




O lançamento do grupo Attica!, parte do selo Carranca Records, traz uma reflexão sobre a luta diária contra o racismo e o embranquecimento do povo preto, e é também uma homenagem a memória dos nossos antepassados e uma celebração da nossa história.

Vou discutir sobre as referências com cunho histórico e social que eu percebi utilizadas nos versos de cada um dos rappers, lembrando que são minhas percepções como ouvinte, pode não ser a intenção real do autor. Vocês podem conferir a letra completa do som aqui, enquanto assistem ao clipe:
            

As primeiras linhas do som já nos trazem uma referência espetacular, Cassius Clay é o nome, antes da conversão para o islamismo, da lenda do boxe Muhammad Ali. Ali tem uma história espetacular, que merece uma atenção especial. Sua carreira teve destaque em tempos de fortes tensões raciais nos EUA, e ele tendo vivenciado o racismo desde criança, utilizava sua fama para desafiar as normas racistas de seu país. O verso referencia a entrevista abaixo, concedida em 1971, onde Ali questiona o racismo nos ícones de representatividade, “Eu sempre perguntava para a minha mãe: ‘mãe, por que é tudo branco?'”, “Os anjos são brancos. Maria, os anjos. Perguntei: ‘mãe, depois de morrer vamos par ao céu?’ Ela disse: ‘claro que vamos para o céu.’ Eu respondi: ‘então, o que aconteceu com todos os anjos negros?’"  (Saiba mais)

            

Seguindo, a letra menciona alguns pontos com importantes atletas negros. Jordans nos pés dos racistas, zero conceito, porque a história do famoso tênis Air Jordan, da Nike, embora se tenha interesses monetários por parte da marca, está diretamente associada e foi produzido pela primeira vez exclusivamente para o lendário Michael Jordan em 1984, além de uma imagem de 2015 ter viralizado na internet. 
Em 2015, viralizou uma foto de um integrante da Ku Klux Klan calçando um par de Jordan Retro. 
Posteriormente, traz a necessidade de ser um MVP (Most Valuable Player), que é um prêmio dado anualmente pela NBA ao jogador considerado o mais importante, ou mais valioso da liga - interessante destacar que a lista dos ganhadores do prêmio é disparada dominada por negros - e o prêmio da temporada 2004 ficou com o jogador Kevin Garnnet.

O som continua, denunciando o projeto de embranquecimento do país. Não apenas demográfico pós abolição, mas na questão de embranquecer negras e negros que tiveram histórias importantes, como citam Machado de Assis, Mano Brown, Marighella, todos nomes negros que tiveram/têm contribuições em seus determinados segmentos, mas vira e mexe são representados como brancos.

Machado de Assis como geralmente é estampado.
Figura de Machado de Assis não tão conhecida.



O próximo assunto a ser tratado é a questão da própria abordagem das músicas e como ela alcança o público. Expandindo para a questão do entretenimento em geral. No cinema, na música, nas mídias, o público gosta de determinado artista desde que ele não aponte os privilégios e status confortável que algumas pessoas vivem. Isso acontece no cinema, quando artistas negros denunciam o racismo do Oscar e são chamados de vitimistas, acontece na música, quando um rapper é questionado ou ofendido por mencionar o 'embranquecimento' do Rap, acontece quando uma série que denuncia o racismo é lançada na Netflix e a plataforma perde assinantes por 'boicote'. Todos exemplos de como as pessoas se incomodam com o ascender de questões como essas.

o existe ninguém melhor para representar a diversidade cultural e inventiva da África do que o músico revolucionário e ativista nigeriano Fela Kuti. Os trocadilhos com o nome do artista no próximo verso remetem a diversidade e a quebra da imagem estereotipada do negro, "Pra quem acha que preto é só feijoada" entre outras imagens a serem expandidas sobre o negro no Brasil.

Fela Kuti - (Saiba mais)
O refrão do som remete a passagens referentes a vivência marcada na vida de pessoas negras, sejam nas mazelas e violência que atingem o povo negro desde sempre, "Mercado de carne barata, eu não vejo vocês, da Senzala, a chibata, eu não vejo vocês, a Marca de ferro na alma, eu não vejo vocês" ou nas alegrias e lazeres compartilhados pela imensa maioria do povo negro periférico " Curtindo um pagode na praça, eu não vejo vocês, churrasco na laje com os parça, eu não vejo vocês, dando rolê na quebrada, eu não vejo vocês!" passagens que embora pessoas não negras vivenciem, existe uma significação e memória, boas ou ruins sobre cada uma das passagens.


          

Referência à música “A Carne” escrita por Wilson Capellette, Marcelo Yuka e Seu Jorge e interpretada por Elza Soares.  

Seguindo a linha de referenciar suas figuras históricas, o grupo cita Abdias do Nascimento, certamente importante figura entre as personagens de grande importância na luta histórica dos negros no Brasil, desde o final dos anos 1940 ele manteve contato com militantes negros, ou simpatizantes da luta antirracista dos EUA, França, países caribenhos e africanos, contato que se estreitou e se intensificou a partir de 1968 quando iniciou seu (auto)exílio nos EUA e sua militância pan-africanista, movimento intelectual que propunha a união e unidade política entre as nações africanas e as culturas decorrentes da diáspora deste continente, explicando a menção da letra "Que preto não é só Brasil, preto é um continente!".


Abdias do Nascimento - (Saiba mais
Retornando a questão do embranquecimento e não reconhecimento dos negros e negras com destaque na história, a letra nos leva para a questão do Egito. Onde acredito ser a maior demonstração de embranquecimento possível, sendo viável até uma conspiração para acreditar que os grandes monumentos históricos como a esfinge de Gizé, e todas as contribuições nos diversos campos de astronomia, matemática, medicina, arquitetura, fossem criada por alienígenas, do que reconhecer a tecnologia e estudos do povo não branco. 
Presume-se que o perfil da esfinge, tipicamente tinha traços negros representando o faraó Quéfren (cerca de -2600, IV dinastia). O perfil não é nem helênico nem semita: é bantu.
Pegando uma das definições de substantivo do dicionário,  substantivo - tudo o que existe é ser e cada ser tem um nome, o som tenta construir uma visão do negro, como sendo uma essência, ser um nome que designa quem é, quem sente, quem vive. Não a visão de negro como adjetivo, que apenas classifica o homem. Mas como vivência, mesmo que pessoas brancas se aproximem ao máximo da empatia, nunca terão pele negra.

Finalizando a letra, tem uma sequência de referências importantes. 
"Eu não to pra sua semântica, minha Africa é romântica, Minha transa transatlântica, meu berço, minha Aruanda", essas primeiras linhas tratam sobre a África como berço, uma áfrica mãe, gloriosa, mítica e harmônica, romantizada no sentido de enxergar toda a história geral e fortalecer e construir nos espaços essa imagem de África que amamos, desconsiderando ou achando irrelevante todas as problematizações que algumas pessoas fazem ao olhar para a história africana. Aruanda sendo, em linhas gerais, o paraíso, percebe-se a relação romântica que o artista estabelece com o continente africano. 



" Um viva ao sincretismo, um viva a nossa fé, se ontem plantou café, hoje só se colhe axé"

Sincretismo é a reunião de doutrinas diferentes, com a manutenção embora de traços perceptíveis das doutrinas originais. As religiões de matriz africana no Brasil, embora muito próximas do que se pratica na África, possuem características mínimas da regionalização. Após exaltar a alegria em se vivenciar o axé, a religião, o rapper traça um paralelo entre a situação do negro nas fazendas de café durante o período colonial, e atualmente.

Os versos seguintes retratam a não novidade da violência desproporcional dirigida a pessoas negras e não negras. A forma de tratamento e o racismo estrutural das instituições de segurança pública do país. Como uma frase popular retrata bem, não existe bala de borracha na favela e nem disparo acidental em bairros nobres. A letra traz um paralelo entre a ação das forças de segurança para com pessoas negras, e o horror e tortura retratado no livro e filme Hellraiser - renascido do inferno, e que embora toda a violência a qual é exposto o corpo negro, seguimos resistindo igual Joe Fraizer.
Joe Fraizer foi um dos maiores pugilistas ao lado de Ali, Fraizer que inclusive tirou a invencibilidade de Ali, no combate chamado "Luta do século" (Saiba mais), A luta chegou ao fim apenas na mudança entre o 14º e 15º rounds, por decisão do próprio árbitro, que alegou nocaute técnico temendo que o pior pudesse acontecer com Joe Frazier, que já havia tomado sérios golpes de Ali nos dois rounds anteriores e estava gravemente machucado. 

Joe Fraizer (Saiba mais)
O paralelo criado entre a situação de violência e a resistência do boxeador é muito atual e muito tem a ver com o próximo verso. Amandla é uma palavra Zulu que significa "poder". A palavra era um clamor popular dos dias de resistência contra o Apartheid, era utilizada pelo Congresso Nacional Africano e seus aliados. Quando utiliza-se a figura de Mandela, nos chamando a ser fortes, está nos chamando a nos reencontrar com nossa negritude, afrontar o racismo em qualquer uma de suas faces e ascender a força do povo negro. 


Mandela (Saiba Mais)
A frase de finalização do som é autoexplicativa, "Quando timbram os tambores, racistas fecham o cu!". Tanto nos dizem sobre a crença, os costumes, a cultura, o modo de vida. Tanto explicitam seus N preconceitos e explicações horrendas sobre tais preconceitos. Tanto se fala sobre superioridade de culturas hegemônicas, e principalmente sobre a fé das religiões de matriz africana, mas muito se teme. O que não faz sentido, afinal se você desacredita de algo, não faz sentido temer. Racistas não fazem sentido, mas faz sentido temer o afrontar e o ascender de 53,6% da população do país. Faz sentido não querer que ocupemos os espaços de poder e representatividade. 
Imagem ilustrativa de "um tambor timbrando" e consequentemente, um racista .... 
É sempre bom ouvir Raps como esse. Bom lembrar que o movimento Hip Hop sempre foi esse espaço de visibilidade e participação negra.  
Bom, novamente, mais um finalizado. É isso, minhas percepções como ouvinte de algumas referências utilizadas, pode não condizer com a intenção do autor. Deixem sugestões de músicas nos comentários, e críticas também.




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