terça-feira, 20 de junho de 2017

8 anos de Batalha Central - as contribuições do movimento.

A tradicional Batalha Central, da cidade de Piracicaba, comemorou 8 anos de existência e resistência nesse fim de semana, e o Noticiário Periférico foi conferir as festividades e desenrolar papo sobre a importância desse elemento pra movimentação do Hip Hop nas cidades do interior. 


As batalhas de rimas são movimentações de grande importância dentro da cultura Hip Hop. Arrisco dizer, que gradualmente a potencialidade de se organizar enquanto movimento de resistência cultural pela população, foi transferida dos bailes Blacks tradicionais para as batalhas de rimas. 

A cena do Hip Hop nas cidades do interior em geral sempre foram ativas, podemos citar, com o olhar focado para grupos de referência no Rap Nacional, Sistema Negro, Consciência X Atual, Sara Donato, os próprios Daniel Garnet e Peqnoh, entre outros nomes do Rap. Mas por estar atuando e vivenciando mais diretamente a apenas alguns anos, é sobre essa cena que vou tentar discorrer, quais as potencialidades das batalhas na cena do interior paulista, tomando como plano de fundo as festividades do 8º aniversário da Batalha Central em Piracicaba. 


Primeiramente é importante contextualizar historicamente que o corre em Piracicaba já existia muito antes do início da batalha em 2009. Se utilizando de transcrições das falas dos organizadores presente no documentário “Poética da Ruas – A história da Batalha Central” que foi lançado na última sexta feira (17) e logo menos divulgaremos o lançamento online, vamos entender o que é a batalha em Piracicaba.

"A batalha central é uma batalha de MC`s que tem interesse em difundir a cultura do Hip Hop na sociedade como um todo, nossa ideia foi plantar o Hip Hop no centro, e mostrar pras pessoas que existe um movimento organizado e que trata com respeito todas as pessoas, que não é nada daquilo que as pessoas costumam pensar do Hip Hop a nove anos atrás. " - Robson Peqnoh, organizador.

Eu Ana, moro em Araras, cerca de 65 km de Piracicaba, e foi interessante observar que o que as e os envolvidos na organização relataram nesse documentário, se repete em partes no movimento que iniciamos por aqui. A ideia de fazer o corre dar certo enquanto coletivo e não apenas individual, as dificuldades pra fazer dar certo, desinteresse inicial que posteriormente vira um abraço coletivo do público ao evento, tudo isso os torna um exemplo e referência para as cidades próximas.


Outra parada que chama atenção sobre as batalhas que vivencio no interior, são como elas se tornam multiplicadoras de cultura, para muito além do Rap, da rima. A construção coletiva de exposições, espaços de formação, discussões sobre temas, tudo isso tem enorme importância social e de formação pessoal, não só pros MC`s que vão participar mas pra sociedade em geral, que tende a olhar pra aquela movimentação com um olhar diferenciado, caso não olhe, tem que engolir seco porque a gente gosta de tomar os espaços mesmo, rs. 

Partindo dessa expansão do objetivo das batalhas, aconteceram alguns workshops. Dentre esses workshops realizados durante os três dias festivos, que abordavam temas como postura, música, plataformas digitais, o mercado do rap nacional, direitos autorais, construção do rap e oficinas de maquiagem, conseguimos estar presentes em dois deles. 


A construção do Rap - onde o rapper, produtor cultural e mestre em Ciências da Motricidade pela Unesp, Daniel Garnet discutiu sobre os conhecimentos dele sobre a construção do Rap. Material que pode ser inclusive visto por quem não pode estar presente na web série Consultor de Rima, e também no recém lançado Webnário "Dramaturgia do improviso", que pode ser conferido abaixo.




Rima que fala, corpo que não cala - onde o também rapper, produtor cultural e videomaker Robson Peqnoh conduziu uma conversa sobre importância da postura dos comunicadores em geral, mas principalmente dos MC's, utilizando suas vivências como referências.

Foto: Evelyn Albuquerque. 


É muito louco como um movimento coletivo leva vários consigo. Durante esses espaços de formação tinham pessoas que nem sonhavam em ser MC um dia, e na vida dessas pessoas o Hip Hop também chega. Um grande exemplo disso podemos ver na fala a seguir. Trocando ideia com um dos organizadores e apresentador da Batalha, Aleph Leite, ele destacou a importância pessoal da batalha, “Conheci a batalha central em 2012 e foi meio que um amor a primeira vista, assim que conheci quis me envolver de algum jeito. E o jeito de me envolver foi na organização. A batalha teve muita influência em tudo, desde a minha educação até eu me formar como homem. Me fez perceber que queira ou não queira a gente é criado de uma forma machista e começar a mudar, além de ser onde eu conheci meu trabalho, o que eu faço hoje de arte gráfica e uma confecção de camisetas, além da loja USCT . Na época eu não tinha perspectiva, e hoje sou microempreendedor individual”.


Posterior aos workshops, o domingo foi finalizado com a tradicional batalha de sangue, na praça central da cidade de Piracicaba. Uma coisa importante a se salientar são as regras. É comum nas batalhas se orientar que não poder citar mãe e pai, orientação sexual, racismo, machismo e coisas do tipo, porém a regra que impera na batalha central é o “falou o que quer, ouve o que não quer”, onde basicamente, o MC que solta alguma rima que foge a essas regras, não é interrompido, mas quase sempre a resposta do segundo MC a rimar é destruidora, defendendo seu posicionamento e se impondo, sendo uma maneira didática de mostrar o erro ao MC que por algum motivo soltou alguma rima ‘estranha’.

Além da organização, conversei com alguns MC's presentes. Transcrevi algumas falas que achei interessante sobre a importância da batalha na vida deles, pra construção pessoal e profissional e procurei mostrar o trampo de cada um, dá um confere abaixo.

O primeiro com quem eu troquei ideia foi o Matheus Silva, vulgo Gordão, da dupla Graime e Gordão


Estou na Batalha Central desde 2010, fazendo Rap desde 2008, e a basicamente um ano com o Graime. Tinha 16 anos quando comecei, ainda na escola, formando meus pontos de vista, caráter, e acredito que a batalha me ajudou muito em questão de respeito, união, se portar frente ao público, tudo isso. O rap não é só o momento de estar ali fazendo rima, tem todas as dificuldades por trás, no meu caso a falta de apoio da minha família, mas hoje consigo mostrar o que o Rap é pra mim, e o que ele pode me dar.”


Ainda conversando com os MC`s presentes, aproveitei pra trocar uma idéia com o rapper que se apresentou durante o intervalo da batalha, Spixo. Ele que inclusive lançou seu EP na última semana.

Comecei em 2013 com um grupo chamado SBC, depois em 2014 vim pra caminhada solo, e desde então tô na caminhada do Spixo. Nunca batalhei aqui na Central, sempre vim me apresentar, ou poesia, só batalhei na Cena do Louco, mas acredito que as batalhas são a base pra vida do MC. A batalha é o que faz ele aflorar no Rap, ganhar mais conhecimento, pegar mais arestas do que ele faz. É importante que se preparem lendo, conhecendo o máximo de palavras possíveis,   conhecendo a história não só do Rap, mas do Brasil e do mundo, tudo que puder buscar culturalmente é importante ter a seu favor pra se falar na batalha.



Seguindo ainda conversando com os MC`s influenciados pela batalha, troquei ideia com o Teu, que inclusive já tem visão de produzir seus próprios sons. 


Batalho há 3 anos, comecei na escola rimando. Ai fiquei observando, e decidi me jogar. Acredito que a batalha tem importância pra caramba, porque é tipo uma escola, na batalha você aprende o básico, sobre a plateia, os produtores, quem são os MC`s, pega uma noção de tudo, e principalmente faz amizades, que é importante nesse meio.”


João Pedro Moura e Augusto Moraes, do grupo Mente Marginal também trocaram uma idéia com o Noticiário Periférico. 

O grupo é um sonho de pequeno, poder viver da arte, do Rap, poder fazer as pessoas ouvirem como a gente pensa, evoluir. A batalha teve importância, a galera representa pra caramba, e também toda as palestras, informações que a galera traz, é importante. A gente assiste bastante vídeo, se inspira em MC`s que já tem uma caminhada, estuda bastante pra poder passar pro pessoal. Tô lendo um livro de filosofia, eu penso que se você vai fazer uma parada, tem que ser algo diferenciado, você vai ser visto e vai conseguir levar sua informação pra mais pessoas".

E pra finalizar, conversei com Jonão, mais uma vez campeão da batalha central, numa final pesada com o MC Menor, que vocês podem conferir lá no canal da Batalha Central no YouTube.


Faz uns 9 meses que tô batalhando, estou feliz por estar batalhando, desde a primeira vez que vim aqui eu fiquei encantado, e achei que não posso mais parar. Como MC a batalha tem me influenciado a melhorar, a galera incentiva, apoia sempre, e na minha vida pessoal, tô aprendendo bastante sobre respeito ao próximo, aprender a interagir com outras pessoas, tem me ajudado bastante nesse aspecto. Eu gosto de ler bastante, livros, poesias, gosto de ouvir música clássica brasileira, Tim Maia, Chico Buarque, Cazuza, e tenho visto vídeos pra me preparar melhor pras batalhas, não tenho pretensão por enquanto de ir pra música, quero ficar batalhando, mas isso só o tempo dirá né”. 

Diante de tudo isso, fica fácil mensurar o tamanho desses corres, tanto pro desenvolvimento pessoal de cada envolvido, quanto pra cultura da cidade. É isso, o Noticiário Periférico agradece a todas e todos de Piracicaba pela colaboração, quisemos trazer um pouco das nossas impressões, espero que gostem.


NA MORAL, ISSO É A BATALHA CENTRAL! 
A HUMILDADE É A ESSÊNCIA E O RESPEITO FUNDAMENTAL!
Foto: Divulgação/Página Batalha Central.
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