sexta-feira, 4 de agosto de 2017

O álbum “Deusa do Rio Níger” da Luciana Oliveira é um convite à conexão com nossas verdades e vontades


O fato do novo álbum de Luciana Oliveira ter o mesmo título da faixa de Elza Soares, lançada em 1974, não é uma coincidência – e como haveria de ser, né? É uma homenagem e culto à rainha da música que inspirou Luciana neste projeto.
Foi em uma audição despretensiosa do disco “Negra” de Elza que Luciana teve a ideia e passou trabalhá-la e desenvolvê-la, mas ainda sem imaginar o quão grande se tornaria seu plano. “Sempre que ouvia essa música, eu pensava que poderia funcionar com uma pegada meio ska e rocksteady. A partir daí fui desenhando algumas idéias. Juntando músicas, ouvindo, pesquisando...”, conta Luciana sobre o inicio da produção de seu novo trabalho.
A ideia da cantora foi ministrada por Caê Rolfsen que teve papel fundamental na produção musical do disco.

O álbum é aberto por “Lance”, faixa autoral e um soul com uma formação enxuta e uma letra que fala de entrega ao amor e ao momento. Esta foi a primeira canção a ser lançada, escolhida como prévia ao público e, como carta de apresentação do álbum, a mensagem é de amor e conexão com a verdade, exatamente como Luciana deseja que seja todo o trabalho.

”Deusa do Rio Níger”, faixa título, é uma regravação da faixa de Elza Soares, em uma versão mais rocksteady, exatamente como ela imaginou no começo.  A letra misteriosa faz uma referência a Oyá, “No final a gente vai ali pro Mali, traz referências de Multau Astaké, Tilahu Gessessé. É uma das músicas com maior instrumentação do disco, conta a artista.


Em seguida Neide Candolina. "Achei a releitura maravilhosa. Em todos os sentidos. Fico honradíssimo com a escolha dessa minha música por uma cantora tão boa. Principalmente me assombro com a coincidência de eu estar pensando muito nessa canção recentemente. Aí vem essa gravação deslumbrante, com Luciana cantando divinamente, num relaxamento perfeito, amparada por produção contemporânea, com a presença de Fióti, da lindíssima Xênia França. Isso me encantou e me animou a procurar mesmo o caminho composicional que ando buscando dentro de minha cabeça. Foi quase miraculoso, quase um caso de sincronicidade", ressalta Caetano Veloso, compositor da faixa  que homenageou, em 1991, sua professora. Luciana, cantora, negra, mulher - e também educadora - identifica-se muito com a letra.
“O Tempo é Mais” tem uma música forte e autoral, composta em um momento difícil para Luciana. A faixa traz uma carga emocional tão forte e sincera que sua voz guia se tornou a versão do disco e comemora também a parceria entre a cantora e Eduardo Brechó, da Aláfia.
O álbum também conta com uma música de Luiz Melodia“Veleiro Azul” que compõe o disco “Maravilhas Contemporâneas”. Ela abre alas para “Bora Pra Praia”, despojada e desconstruída com uma vibe mais conceitual. Nela, Luciana se deu a liberdade de falar quase em tom de brincadeira sobre a ida para praia e postergação de compromissos em referências de dancehall e funk.
“O Mar e Amar” fecha o disco com uma participação de Guilherme Arantes e transmite a natureza calma, “Essa música parece que  tem o meu ritmo interno. Quando canto me sinto em casa e completamente dentro de mim”, confessa.



SOBRE LUCIANA OLIVEIRA

Depois da mãe a presentear com um tecladinho, Luciana Oliveira, ainda pequena, começou a descobrir-se dentro do cenário artístico. Nascida em Brasília, no Distrito Federal, cresceu em meio aos vinis e rodas de música organizadas pela família. Na adolescência, começou a cantar na escola e, em pouco tempo, estava na "Mal de Família" - banda, de ska e reggae, composta por alguns amigos. Com uma demo gravada e muitos shows pela cidade, ali deu o pontapé inicial para o que, em 2000, a faria seguir uma carreira solo de cantora, estruturando "Cântico Negro", seu primeiro show. 
Nesta altura, já reconhecia seu amor e lugar na arte. “Quando canto, sinto que minha vida ganha mais sentido. O cantar propriamente dito me deixa mais em contato comigo e completa a expressão do que eu sou. É uma entrega verdadeira”, ressalta.
Apoiada pelos pais, fãs de samba, soul e disco, também recebeu incentivo de dois primos músicos: Marcelo Mira, vocalista do Alma Djem, e Alexandre Carlo, vocalista do Natiruts, onde Luciana Oliveira participou das gravações de  'Natiruts Reggae Power' e 'Raçaman', acompanhando o grupo em turnês nacionais e internacionais por quatro anos. 
No mesmo período, dedicou-se à gravação do seu primeiro álbum "O Verde do Mar", de 2008, com produção musical de João Ferreira. Em 2013, a cantora iniciou uma parceria com o lendário Mad Professor, referência mundial do reggae e dub. Juntos, deram vida à diversas faixas nos estúdios Ariwa, em Londres, na Inglaterra. Uma delas, África Samba, está no "Samba Dub Experience', lançado em outubro do mesmo ano. Logo na sequência, estreou "PURA", seu segundo trabalho autoral. Neste, o single "Samba em Pliet" foi escolhido para integrar a trilha sonora do game EA Sports. 
"No meu primeiro disco, eu estava em um momento de descoberta da minha negritude. Tinha necessidade de buscar referências afro-brasileiras. No segundo, estava grávida do meu segundo filho, cheia de novos desafios, medos e desejos. Agora, estou me preparando para divulgar 'Deusa do Rio Níger'. O material todo chega em um tom mais pessoal. Fala de amor, perdas, solidão. O que eu busco disseminar é a vontade de fazer o que se gosta, de acreditar, de construir uma caminhada no passo a passo, de valorizar a música negra, os artistas negros, e fazer um trabalho com nossa verdade", explica.
Parte essencial do cotidiano de Luciana, a carreira musical divide espaço, de forma serena, com seu papel de mãe, educadora e atriz. Parceira de nomes que muito admira, a artista faz questão de agradecer ícones como Elza SoaresAltamiro CarrilhoGogGuilherme Arantes e muitos outros que, além de dividirem palco com ela, contribuíram para que vivesse uma lista de momentos memoráveis com o microfone em punhos. 
Ainda falando de suas grandes influências e referências musicais, assume que muitas vezes só quis sair da estrada, correr para casa, ouvir e fazer anotações sobre Clara NunesMaria BetâniaGilberto Gil, Caetano Veloso e Clementina de Jesus. Depois, começou estudar e se aproximar, mais e mais, da música africana, seguida pela jamaicana e, atualmente, pop americana. "Todos contribuíram para que hoje eu pudesse me estabelecer da maneira que sou, defendendo as causas que defendo", finaliza.
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