terça-feira, 17 de outubro de 2017

Coluna do Leitor - Tragédias ou Gente Inocente por Monahyr Campos




Começo este pequeno ensaio para uma crônica ainda comovido com a notícia de uma tragédia. Mais uma tragédia. Permaneço me comovendo, apesar de sermos movidos pelo mesmo princípio que amortece o dedo depois de algumas pancadas. Fico imaginando se a Grécia do período clássico tivesse produzido as famosas tragédias gregas na mesma proporção com que nossa sociedade produz...
Desta vez, o advento denominado tragédia foi um ataque solitário de um homem em surto “psicótico”, sem que haja, aparentemente, elementos causadores externos, ou seja, um caso isolado de loucura temporária vitimando “gente inocente”. Até que se prove o contrário, é diferente da imensa maioria das tragédias com as quais nos acostumamos de tal forma que o amortecido do dedo anestesia o impacto das marteladas. Esta situação é nova, diriam alguns desavisados...
Pensando em tragédias, impossível não pensar e refletir sobre o Rei Édipo, de Sófocles. O que o grande poeta trágico diria sobre os acontecimentos que insistem em se repetir sem que haja, aparentemente um componente social por trás? Lembrando que, o que nos impacta como algo novo, é quase cotidiano na sociedade que impõe seus modelos de comportamento ao mundo inteiro, vendendo caro seus hábitos e sua cultura, mesmo que seja necessário cometer atrocidades em nome do americandreamou americanwayoflive.
De sua tragédia mais famosa Freud recolheu elementos sobre as relações humanas que lhe permitiram construir as bases epistemológicas de uma ciência: a psicologia. Dali também, Aristóteles coletou informações importantíssimas para compor sua Poética, eternizando os elementos estruturais das artes dramáticas que formam autores e diretores 2500 anos depois de sua composição. Vou falar de outra questão: o conceito de tragédia.
Os estudantes sempre se questionam o que diferencia as tragédias de Shakespeare das gregas? Por que o mais brilhante dramaturgo compôs obras fadadas à eterna atualidade, abordando conflitos humanos tão intensos, mas sempre tendo como pano de fundo a reverência aos gregos? Afinal de contas, pode-se considerar tragédia qualquer “obra” humana que tenha como ponto comum um banho de sangue? Não querendo fazer humor, mas qualquer filme policial roliudiano termina com sangue escorrendo das telas, numa proporção infinitamente maior que o do “herói” que arranca os próprios olhos como autoflagelo, condenando-se a vida infame de pedinte...
Mas nestes filmes, o “herói” está mais para vencedor de BBB do que para o deputado federal que luta pelo direito à vida psíquica das pessoas LGBTTTs. Aqueles que causam o banho de sangue nos filmes, são ovacionados, tratados como os salvadores, mesmo quando são movidos exclusivamente por vingança – aproximadamente metade dos longa metragens. Nas tragédias clássicas gregos, os heróis são homens de carne e osso, dispostos a grandes feitos, por isso mesmo, dispostos a grandes erros. São dotados de consciência e de uma complexidade existencial gigantescas. Algo impensável nos dias atuais.
Só pra relembrar: os pais de Édipo consultaram o oráculo e souberam que estava previsto queo garotofaria coisas horríveis durante sua vida, sendo o causador de desgraças enormes. Deixado na floresta para ser devorado por animais selvagens, foi salvo, posto num cesto e jogado a um rio. Depois foi encontrado em outro reino e criado como se fosse o príncipe, filho do casal real. Depois de adulto, peregrinando, matou seu pai biológico, decifrou o enigma da esfinge, salvando a cidade e casou-se com a rainha, sua mãe.
Obras como esta deram à palavra tragédia, o peso que ela possui até hoje. O que caracteriza a tragédia em Édipo é a inevitabilidade, é o fato de que não havia como impedir a previsão do oráculo. Os pais tentaram, condenando o fedelho à morte, com isso, viabilizando toda a série de mazelas subsequentes, uma vez que ele só matou o próprio pai por não ter sido criado por ele. O mesmo pode-se dizer de sua mãe, com quem se casou também por não terem convivido.
Teríamos como evitar a “tragédia” em Minas Gerais? E as chacinas que ocorrem diariamente Brasil afora? Quantas delas estavam previstas no oráculo? Até quando vamos aceitar que “gente inocente” pague por nossas escolhas erradas? Até quando vamos cultivar heróis vingadores e sem consciência, sem humanidade? Até que ponto continuaremos deixando nosso futuro na floresta para ser devorado por animais selvagens, ou por motosserras?

Monahyr Campos
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