terça-feira, 7 de novembro de 2017

Artistas, militantes e comunicadores do hip hop discutem o papel do rap no combate à violência contra a juventude negra

Nas letras de rap, muitos fazem referências ao crime para demonstrar força em suas linhas, mas a realidade mostra que são as pessoas negras as maiores vítimas da violência POR CCCa Foto: The Source Magazine
Quinze anos após o assassinato de  Jason Mizell, mais conhecido como Jam Master Jay (foto), DJ do grupo RUN DMC, ícone do hip hop dos anos 1980, o caso continua sem solução. Naquela noite de 30 de outubro de 2002, Jam Master Jay estava em um salão no segundo andar de seu estúdio, no bairro do Queens, quando dois homens entraram, por volta das 19h30, e dispararam contra a cabeça de Mizell, que morreu no local.
Recente reportagem da revista Time afirma que existem especulações sobre o endividamento Jam Master Jay e que ele pode ter sido morto por alguém a quem devia muito dinheiro. Ainda de acordo com a Time, a polícia de Nova York- que em 2002 tentou descobrir se o assassinado de Jay foi resultado da rivalidade entre rappers da costa leste e da costa oeste dos Estados Unidos- disse que havia pelo menos quatro outras pessoas no estúdio na época. “Mas nenhuma forneceu detalhes suficientes para produzir pistas consistentes”. Ryan Thompson, primo de Jam Master Jay, disse que a câmera de segurança do estúdio estava quebrada.


Como nas periferias brasileiras, a violência das ruas sempre atingiu os mais pobres e, principalmente, a juventude negra. No dia do assassinato de Jam Master Jay, 50 Cent, com 27 anos e prestes a alcançar destaque no mainstream do rap nos EUA, estava na sala ao lado do local do crime. Cent- que levou nove tiros em 2000- chegou a ser detido como suspeito. Em 2003, o rapper nascido no Queens, em Nova York, lançou seu primeiro álbum de estúdio, "Get Rich or Die Trying".


Em 2015, um estudo divulgado pelo site HipHopDX, mostrou que o hip hop tem mais artistas mortos por assassinato do que qualquer outro gênero musical. A professora de psicologia, Dianna Theadora Kenny, responsável pela pesquisa, compartilhou suas descobertas depois de examinar as mortes de mais de 13 mil artistas do mundo da música.  “Pessoas que entram no mundo da música rap ou punk estão em uma profissão de risco”, disse Kenny ao jornal Washington Post. A reportagem do Post registra que mais da metade dos artistas do rap foram assassinados. 'Homicídio representou 6,0% das mortes na amostra, mas foi a causa de 51% das mortes em músicos de rap e 51,5% das mortes por músicos do hip hop (nos EUA existe essa separação: cantor de rap e de hip hop), até o momento', escreveu Kenny.


O assassinato de ícones do rap como Tupac Shakur, Notorious B.I.G.,  Big L e dos brasileiros Sabotage, Gato Preto e DJ Lah continuam na memória da comunidade negra e dos amantes do hip hop, e a violência continuou ultrapassando as rimas e atingindo mais artistas. O site Hip Hop Lifted identificou que 35 dos 40 rappers falecidos em 2016 morreram de maneira violenta.


O estudo de Kenny também foi tema da reportagem do site The Conversation. O portal demonstra como o gênero musical afeta a expectativa de vida dos músicos populares. Numa tabela que apresenta a causa da morte dos artistas de diferentes estilos musicais, homicídio representa 51% entre os rappers.



O DEBATE
Ainda hoje, nas letras de rap, artistas de diferentes etnias fazem referências ao crime e ao mundo da rua para demonstrar força em suas linhas. De acordo com o estudo de Kenny, ser rapper é exercer a "profissão perigo", principalmente nos EUA. No Brasil, pesquisas mostram que são pessoas negras as maiores vítimas da real violência que o rap relata. Sabemos que a interpretação parcial do estudo da professora Dianna Theadora Kenny sobre a morte dos artistas do hip hop pode colocar o rap como causa da violência, criminalizando assim o gênero, algo recorrente quando o assunto é música negra.


Para discutir o tema de maneira mais profunda, o Noticiário Periférico firmou parceria com os sites Alma Preta, ZonaSuburbana, Bocada Forte e a agência CCCa. Durante o mês de novembro, vamos compartilhar conteúdos relacionados aos assuntos: rap, violência, juventude negra e combate ao racismo.






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