segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Laísa Gabriela conversou conosco sobre: rap, intolerância religiosa, representatividade, sua caminhada na comunicação e muito mais.


Jornalista, produtora, assessora de imprensa e doceira de mão cheia, Laísa Gabriela conversou conosco sobre: rap, intolerância religiosa, representatividade, sua caminhada na comunicação e muito mais




A primeira participante do nosso quadro de entrevista especial "Mês da Consciência Negra", é a Laísa Gabriela.
Laísa é uma mulher forte, decidida e muito competente no que faz. Soa bem clichê, mas é bem real. 
Na vou fazer uma apresentação, pois ela já fez como você vai ler abaixo.
Laísa nesta entrevista fala sobre como ela inicia seu corre na comunicação, sobre quem é referencia em sua vida pessoal e profissional, sobre suas 2 empresas na qual ela põe a mão na massa e administra. A Laísa também fala sobre intolerância religiosa, racismo, representatividade preta e sobre seu papel no lançamento do álbum Esù do Baco Exu do Blues.

Se apresente, quem é a Laísa Gabriela e de onde exatamente ela é?

R: Haha! Doceira de mão cheia, Jornalista, 27 anos, atuo na área de comunicação há 10 anos, diretamente de Salvador/Bahia para o mundo, filha de Oyá, quente como ela e preparada pra tudo! Essa sou eu, sempre forte e determinada, uma mulher que nunca desiste dos sonhos que tem, por mais simples que sejam. 


Como e quando você decide trabalhar na área de comunicação?

R: Eu tinha 17 anos quando decidi que queria trabalhar com comunicação, na época fazia parte do grupo de "mídia" da iurd, sim, da iurd. Kkk Comecei apresentando um programa de rádio ao lado do ex vereador Jean Madeira e algum tempo depois, dividi a direção do programa com outros jovens de lá. Passei a dar aulas de informática e edição de vídeo também, após dois anos lá dentro e passando por diversas áreas, fui convidada a assessorar a Deputada Tia Eron, na época vereadora. Trabalhei com ela por dois anos, inicialmente com foco em social media, produção de conteúdo, produção de relatórios etc. Sempre escrevi muito bem, segundo os meus professores, haha, fui aprendendo assessoria de imprensa na prática e com dicas de alguns colegas jornalistas (Gratidão, Erick Issa ♥). Pedi demissão em 2013 porque queria cursar publicidade, mas troquei por jornalismo porque percebi que era minha paixão! De lá pra cá, muitas experiências!

Quem seria a pessoa que você tem como referência? Seja em sua profissão ou fora.

R: Maíra Azevedo, minha conterrânea, a queridíssima Tia Má, que mulher!!! É uma das minhas referências pela força que representa e nos passa como mulher negra, tal como ela é Nerie Bento, um exemplo de profissional. Admiro e muito! ♥ Outro jornalista que gosto é Ricardo Boechat, cresci ouvindo o programa dele graças a minha mãe, que é outra pessoa que também tenho como referência. Ele, pelo profissional que é, por sua postura e por ser exemplo para mim e mais alguns outros colegas de profissão. Minha mãe, porque ela é guerreira, determinada e esse meu jeito é graças a ela, que me ensinou a nunca desistir dos meus objetivos.


Certa vez o Froid, ficou surpreso ao saber que um site de rap tem uma jornalista negra em sua equipe, e parabenizou o RND por isto. Eu concordo com ele, a primeira vez que vi também, tive o sentimento de me sentir representado, como pretendo seguir na área de comunicação com certeza você é e será referência pra mim, assim como tantos outros são. Mesmo em se tratando de rap, pretos nesta área não são maioria, qual a importância de pretos trabalhando na área de comunicação dentro do rap ou da musica negra em geral?

R: Ah, a representatividade, claro! Quando você vê pessoas iguais a você, você se sente bem de estar em determinado local. Você, talvez, se enxergue ali e se sinta feliz por isso. Já trabalhei em uma grande empresa de comunicação e além de mim, só tinha mais uma colega negra. No meu horário, que era o da tarde, às vezes eu me sentia perdida. Passei algumas situações incomodas, mas que me fizeram entender melhor como o racismo nos afeta e como, para algumas pessoas brancas, é considerado algo normal e que "não ofende". Sobre a questão musical, no rap, especificamente, tenho visto uma "barca" de rappers brancos, um bando de descarados, diga-se de passagem, que não respeitam a nossa história e ficam afirmando que ‘rap não tem cor’. Caras que além de racistas, são machistas, homofóbicos e mesmo assim seguem crescendo, tendo ego alimentado por um público burro, em sua maioria adolescente que tem ameba na cabeça (só pode). Isso me preocupa, nós, pretos, precisamos nos fortalecer.



E qual a importância da representatividade pra você?

R: Acho que respondi sobre na questão anterior, mas sendo um pouco mais detalhista, o fato de ser "representada" pelo meu igual, por uma pessoa negra, no caso, é algo que me fortalece e faz com que eu tenha em mente que: "um dia posso chegar lá". Entende?

Mais pra frente falaremos da sua assessoria, você fazia parte do "Rima Assessoria", que era, alias ainda é formado por mulheres de diferentes lugares do país. Como vocês se conheceram e como surgiu a ideia?

R: Sim! A empresa é da Rebbeca Vilaça, de Recife e da Déborah Diniz, de São Paulo. Como éramos próximas e cada uma tinha experiência, me juntei ao time. Nos conhecemos através do RND. Foi um período bacana, de aprendizado e troca de experiências, mas decidi seguir meu caminho sozinha, vi a necessidade de expandir meus horizontes. As meninas seguem trabalhando juntas e também fazem um excelente trabalho de assessoria.

Desde quando você trabalha no RND? Atualmente qual sua função no maior portal de rap brasileiro?

R: Entrei no RND dia 11 de janeiro deste ano. Meu irmão, Hebert Amorim (a quem sou muito grata), apertava muitoooo minha mente para entrevistar rappers, desde o ano passado, mas a minha vida andava muito corrida. Mil e um projetos, coisas de casa, trabalho, estágio, freelas, tcc etc. Comecei a fazer pesquisa com alguns grupos e coletivos do subúrbio de Salvador, a exemplo do NaCalada, que tem Christian Dactes a frente e é um cara que me ajudou muito a chegar em uma galera daqui. Além dele, Morris Diova, um irmão que também ajudou em diversos corres de entrevista por aqui, sem contar a troca de conhecimento. Conheci também Francini Ramos, agora amiga pessoal e que tem sido uma pessoa essencial na minha jornada nessa cena, sou aprendiz da Fran e tenho um carinho e respeito enorme por ela. Mas continuando, haha, foi então que em novembro de 2016 decidi entrevistar Mobb (que coincidentemente hoje é meu assessorado) e fiz a minha primeira matéria para o RND, que só saiu em janeiro deste ano. kkkkkkkk. Entrei em contato com o pessoal do site, demonstrando interesse em ser colunista, e me chamaram! Comecei apenas postando as matérias, com o passar do tempo fui crescendo. Passei a ser editora/revisora, social media e produtora executiva. Fui responsável pelo RND Freeverse e diversos outros projetos dentro do site. No momento, continuo escrevendo, mas no meu tempo, devido as correrias que me encontro. Sou muito grata a Daniel Morais, dono do site, por todo o suporte que me deu.

Sendo mulher e preta, quais dificuldades você encontra trabalhando num "universo" predominantemente masculino?

R: Racismo, Machismo, a não aceitação da minha capacidade... poxa, tanta coisa! Têm caras que simplesmente não aceitam. Já passei por situação de um cara que não é jornalista, não tem a experiência que tenho, querer questionar o que fiz e não aceitar que eu o colocasse em seu devido lugar. Sou muito ousada, não como reggae de ninguém e bato de frente mesmo! Geralmente, quando me vejo em situações de preconceito, afronto! Quero ver até onde o preconceituoso vai, não aceito mesmo e corro na frente pelos meus direitos. É horrível ser mulher e lidar com isso sempre, é como se tivesse que provar 100x mais do que sou capaz, sei que várias mulheres passam pelo mesmo, conheço exemplos.

Ao sair do "Rima Assessoria", você criou sua própria empresa de assessoria, fique a vontade de falar sobre ela, de como funciona, quais artistas você assessora, fique "avonts".

R: Como falei anteriormente, montei minha empresa de assessoria porque queria algo meu, criado a partir do meu conhecimento em assessoria. Gostei muito da experiência em grupo com as meninas, mas ter a minha própria empresa de assessoria foi um desafio. Já tenho a Choccolatier Doces, minha empresa de doces e trufas, então, fui além e montei a LG Assessoria. Organizei tudo sozinha, fiz todo o planejamento, busquei artistas e, felizmente, tudo continua dando certo. Trabalhei com Áurea Maria, Janaina Noblah, Incardido, entre outros. Atualmente o trampo segue com Baco Exu do Blues e Mobbzilla. Quem quiser orçamento de release e demais serviços, basta entrar em contato por e-mail laisagabriela@gmail.com ou mandar mensagem na página. https://www.facebook.com/laisaassessoria

O álbum de rap brasileiro mais badalado foi o Esú, do Baco Exu do Blues. Alguns amigos dizem que você é a grande responsável pelo álbum do Baco ter tido toda esta repercussão. Qual seu papel neste lindo trampo do Baco?

R: Siiim! Fiz minha parte como assessora, claro, mas, para além disso, o David Campbell e Leonardo Duque montaram o release, dei os retoques e então, iniciei a divulgação. Foi um corre contra o tempo, na real, peguei o trampo faltando três dias para lançar. Uma loucura que deu MUITO certo! A mídia recebeu super bem, Diogo saiu no "Globo", Correio Braziliense, Correio da Bahia, Agenda Preta, Revista Quilombo, em diveeeersos sites e essa semana vai sair na Revista Muito, do Jornal A Tarde. É um trabalho que mesmo após um mês e 12 dias de lançado, ainda colhemos frutos. Conseguimos alcançar mídias grandes, ainda queremos mais! Em breve, Diogo na televisão. haha Fiquei feliz demais por toda a repercussão, me dediquei, como me dedico em todos os trabalhos que faço, a diferença é que Diogo já é conhecido então, "Esú" é um assunto relevante. Me orgulho e muito de todo o corre, valeu a pena! Ainda tem muita coisa por vir, vocês não perdem por esperar. hahahaha

O que este álbum representa pra você? E qual a sensação de fazer parte de um projeto que vem sendo apontado entre os melhores álbuns de rap do ano.
R: Lembra do que falei sobre força? Pois bem! "Esú" foi um tapa na cara de muita gente, até na minha, acredite. Fiquei surpresa com a qualidade do disco. As letras me fizeram refletir e muito, "Oração a Vitória" foi a música que mais abracei. Tenho um apego enorme pelo Orixá Èṣù e quando ouvi os versos de Xarope MC, a saudação a Ele, fiquei emocionada demais e fui escrever sobre, claro, não podia deixar passar. No álbum, Diogo colocou tudo o que estava dentro dele, anseios, vontades, preocupações, noias, ele cuspiu toda a pressão que passou após "Sulicídio" e o resultado foi incrível!


+ Leia o artigo em que a Laísa fala sobre a música "Oração a Vitória"

Foto: Milena Abreu

Vamos dar uma engrossada no papo. Diante desta onda de intolerância religiosa para com as religiões de matriz africana, qual a importância de pessoas do rap se posicionarem diante destes fatos..? 
Falei de pessoas do rap devido ao fato do rapper Douglas do Realidade cruel que virou evangélico, e fez um vídeo apoiando os traficantes do rio, dizendo que eles eram "Conhecedores da palavras de deus".

R: Quem é de Àṣe tem que reagir! Se deixarmos pessoas como o Douglas falar abobrinha, que nem conhece o candomblé, vai acontecer cada vez mais cenas, como aquela dos traficantes no RJ, ordenando que a yalorixá e o babalorixá quebrassem tudo. Orixá não é demônio! Não temos porque nos esconder, o povo de Orixá tem que se unir e mostrar que não temos que ser "tolerados", mas sim respeitados! 

Tem alguma explicação de onde vem esta onda conservadora que vem dominando as quebradas e o rap?

R: É uma questão social, mano e que está alinhada ao racismo, isso é um fato! Tu acha que as religiões de matriz africana são demonizadas por quê? Porque é um culto do povo preto! Independente da nação ketu, jeje, efon, angola... o preconceito conosco é o mesmo! Um dia desses, indo para o terreiro com um amigo, estava eu de branco na rua, com minha conta de Oxaguian, e ojá na cabeça, o cara virou pra mim e falou "Deus é mais, tá amarrado em nome de Jesus". Virei pra ele, ia dizer duas, mas no dia eu estava meeeeeeeesmo na paz de Oxalá e continuei andando. Em outro caso, um rapaz veio me dar um folhetol e não aceitei, mas ele não foi intolerante comigo e disse "tudo bem, Jesus te abençoe". Respondi "Amém, Oxalá te abençoe também", ele respondeu "Amém", achei isso bem legal e fiquei surpresa, confesso, diante de toda esta merda que tem acontecido, o respeito foi de ambos e creio que assim deve ser.

O álbum Esú foi lançado em meio esta onda de intolerância religiosa, alias Esú tem umas das capas mais sensacionais do rap ou até da música brasileira. Eu que não sou praticante de religião afro, achei genial. Você como praticante do candomblé deve ter se sentido muito bem representada por esta capa. Falou-se muito sobre a capa, mas creio que você seja a pessoa ideal para falar. Como surgiu a ideia da capa e o que esta capa quer passar?

R: Bom, não participei do processo da montagem da capa, creio que isso o Diogo poderia responder melhor, já falou sobre em diversas entrevistas, inclusive. Mas quando vi a primeira vez, achei incrível! Èṣù está em tudo, até mesmo entre o nome de Jesus, risos. Èṣù é comunicação, é força, Ele é caminho, Ele dá caminho, Èṣù prega peças e a capa do disco fez justamente isso, deu várias perspectivas as pessoas. Teve gente que não gostou, achando que reforçava preconceito, nada a ver isso! Toda a questão negativa envolta a Èṣù foi reforçada pela igreja católica. Para mim, tudo teve uma ligação para mostrar justamente isso, que Èṣù não é demônio, como muitos pensam.


Onde a Laísa quer chegar? e onde você se vê daqui a 10 anos...?

R: Quero ser cada vez mais conhecida pelo trabalho que faço, realizar todos os sonhos e planos que tenho (e me perdoe, mas não falo enquanto não se realizarem) haha. Sei que daqui até lá estarei realizada em muitas coisas que quero, vou me esforçar cada vez mais para que tudo aconteça. Fico feliz por ter a oportunidade de pensar e executar o que quero.


+ Informações

Laísa Gabriela de Sousa - Jornalista
LG Assessoria de Comunicação 
Casting: Baco Exu do Blues e Mobbzilla. 
Produtora e Repórter no Portal RND
Facebook:https://www.facebook.com/laisaassessoria

Portfólio: http://gabehs.wixsite.com/portfolio 
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/gabehs
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