segunda-feira, 13 de novembro de 2017

OPINIÃO: "O gangsta rap virou uma ferramenta do sistema, que sempre absorve aquilo que é criado para derrubá-lo"

Em depoimento ao Noticiário Periférico,  Indião, MC e produtor de rap alternativo, fala sobre a realidade moldada por uma elite mundial- grupo que controla a política, as religiões, a economia, as corporações e a mídia- e os efeitos da criminalização da população negra


POR INDIÃO
DRAGÕES DE KOMODO


O documentário “A 13ª Emenda”, disponível na Netflix, mostra alguns dados que podem ser relacionados ao estudo divulgado na reportagem “Artistas, militantes e comunicadores do hip hop discutem o papel do rap no combate à violência contra a juventude negra”, que revela o grande número de mortes violentas entre os artistas do rap (mais de 50%). Quando aboliram a escravidão nos EUA (1863), o poder econômico, representado pelos mesmos donos do mundo atual, precisava de mão de obra barata, que foi perdida com a abolição, pois todos os homens eram considerados livres e não propriedade. Então eles criaram um brecha na lei para começar a criminalização dos negros libertos. Sabemos que os EUA também usa a mão de obra dos prisioneiros, mais uma forma de acorrentá-los.

Além disso, as autoridades americanas pegam muito pesado com as pessoas que têm antecedentes, sempre seguindo a cartilha da elite mundial, que controla política, as religiões, a economia e as corporações. Essa criminalização dos negros é uma forma de manter o status quo e a submissão dos negros . A história vem mostrando isso, o documentário “A 13ª Emenda” revela o aumento da população carcerária. Hoje em dia, após a criação de uma série de leis, a população carcerária americana ficou maior que o número de escravos durante o sistema escravista. Vários presidentes americanos executaram leis que foram criadas para prejudicar os negros. Conseguiram acabar com os Black Panthers por meio dessas ferramentas de criminalização.


 ONDE O RAP ENTRA NESSA HISTÓRIA?

 O rap gangsta virou uma ferramenta do sistema, que sempre absorve aquilo que é criado para derrubá-lo. O hip hop não é só o gangsta, ele nasceu do entretenimento e é um movimento social por natureza. Começou como diversão, depois foi tomando consciência social. Mas aí entra o dinheiro e, também, o gangsta rap. Qualquer coisa que seja ostentação, que tira as minas de puta, de vagabunda, que fala que o bagulho é chapar e ter dinheiro mesmo, tudo isso aí só pode degradar o ser humano. Foi o gangsta rap que trouxe isso.

 As pessoas gostam e consomem esse universo gangsta. A criação deste gênero coincide com a movimentação em torno das cadeias privadas americanas. Mano, quando um cara é dono de uma penitenciária privada, o que vai dar lucro pra ele são os presos. Então, os empresários do setor vão incentivar esse discurso violento, uma forma de demanda induzida. Acredito que essa violência começou a acontecer na escravidão, passou pela a abolição, pelos movimentos dos direitos civis, pelos Black Panthers e, na década de 1990, com novas políticas públicas, que prejudicaram negros e latinos, somadas ao rap gangsta, veio de forma mais intensa.

 O SISTEMA QUER ISSO


 O rap gangsta fala de coisas que as pessoas querem muito. A mídia, que também é um dos poderes dominados pela elite mundial, começou a vomitar isso de tal modo, que muitos pensam que o gangsta é o verdadeiro rap.

 De certo modo, o rap- que antes nos ajudava- virou uma ferramenta do sistema, de degradação da nossa população. Com algumas exceções, o rap mainstream, que é influenciado pelo gangsta, deixa as pessoas cada vez mais ignorantes, sem valores e princípios que nos ajudem como coletivo.

Os caras do gangsta têm várias tretas desnecessárias, estão no rap, mas também envolvidos com o crime, e reproduzem isso na música. E a gente já sabe qual é o fim pra quem é do crime: cadeia ou caixão. Pelo estudo que o Noticiário Periférico mostrou, o caixão representa 50% das mortes dos rappers, infelizmente. Tudo isso por causa da criminalização histórica dos negros.



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