quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

A criação perigosa de problematizações, o racismo e a falta de senso

Isso é um artigo de opinião, não sou dona da verdade nem quero ser. Mas a falta de senso é algo verdadeiro.

por Ana Rosa


Gente, vamo lá.


Menos de uma semana eu e meu parceiro fizemos uma homenagem e entrevista a uma das maiores mulheres que o rap nacional já teve, Rúbia. Rúbia, é uma mulher branca, referência no rap assim como Dina Di. Como já disse no post sobre a Rúbia, a qualidade musical sobressai, a luta pela manutenção e resistência de uma cultura da qual ela ENTENDE, faz parte e ajudou a construir nos faz não reparar a cor da pele dela. Mas principalmente a consciência da mulher atrás do microfone, que é mãe de uma filha e um filho negro numa sociedade racista, onde o Hip Hop se tornou uma grande arma para denúncia.


Esse post não é sobre branco poder ou não cantar rap, construir o Hip Hop, esse é um post sobre detalhes, detalhes esses que somados e reproduzidos, são responsáveis por manter um sistema racista, classista e opressor. Sobre uma crítica a criação de ambientes de debates propícios a digladiação entre pessoas e suas opiniões, pra mostrar que se incomoda com algo.


Quem nunca viu posts de amigos e amigas escritos "nada contra, mas tal coisa", e aí chovem comentários ridículos, violentos e preconceituosos e a pessoa dona do post, mesmo que não concorde, não se posiciona sobre, talvez por ser amigo, ou uma tia mais velha, mantendo a internet como sendo terra de ninguém.


Agora vamos afunilar, ao rap. A quantidade de coisas que eu não concordo na atual cena do Rap Nacional são inúmeras, mas o descompromisso com a transformação social e ideológica, que muita gente diz que não é a função da música como um todo, é a primeira delas. Como várias vezes já me posicionei, desde a década de 90 as minas cantam sobre a violência que sofrem, sons do Visão de Rua falam sobre isso, cantam sobre o feminicídio, pra quem não conhece, faz a lição de casa, pesquisa Atitude Feminina - Rosas, a música mais foda sobre o tema; também cantam sobre o respeito e poder fazerem tudo que quiserem. E isso é importantíssimo, uma das minhas maiores referências é o cd Made in Roça, da Sara Donato, mina do rap do interior de São Paulo.


A luta das mulheres é real, é necessária. O machismo existe, e comentários sexistas que subestimam a qualidade das mulheres em qualquer coisa que façam é real. O Rap reproduz muito disso sim, é uma transformação processual. Pontuado isso, a série de comentários limitando os sons de mulheres a comentários estéticos, reflete algo que precisa ser combatido de fato.


Agora voltemos ao ponto inicial. Em dezembro, as cantoras de rap, Lívia Cruz e Bárbara Sweet protagonizaram um vídeo, c l a r a m e n t e, uma crítica a atitude de limitar a qualidade musical das mulheres ao corpo. Porém, fizeram de uma forma muito perigosa, se colocando no lugar dessas pessoas e reproduzindo o que elas fazem. Dessa forma “reversa”, fica evidente alguns pontos, por mais empática e contra opressões que mulheres brancas sejam, não estão livres de serem racistas e desrespeitosas, vide o caso do bastão da luta e a história da Taz Mureb. Ao reproduzirem a atitude de homens desrespeitando mulheres, elas conseguiram em suas falas explicitar o ideário responsável por problemas que acometem o povo preto de periferia, o ESTEREÓTIPO. No fim do vídeo, elas deixam C L A R O, que o quadro é uma crítica pautado em piada e objetificação. A falta de senso e sensibilidade a tratar como piada a hipersexualização dos homens negros e a associação da aparência e vestimenta com "bandidos" evidencia que esse modo de se posicionar é lixo e não é didática nem um pouco, muito pelo contrário. E mais ainda, estereotipar aparência a bandidagem tem muito a ver com a falta de noção sobre o próprio movimento que faz parte, o mínimo que deveria se conhecer é a perseguição e marginalização que quem veio antes sofreu no Rap, no Hip Hop, e em nenhum momento reproduzir isso.
"Esse cara é tipo aquele que eu vou ver saindo do camburão e não sei se ele vai me comer ou me roubar, essa dúvida é parte da atração que ele carrega com ele. Parece um cara que tá na biqueira com o fuzil na mão, e isso é sexy. Se eu trombar um caboclo igual ele com essa mesma cara, vou pensar a mesma coisa dele: tiro minha calcinha ou entrego minha carteira? [...] Dá vontade de quebrar uns caboclo desses né? É bom de bater na cara, deixar piando."


A fetichização da situação de violência, fetiche em homem preto "reprodutor", porque os que "bate fofinho" não estão no padrão. Sem falar o desconhecimento, ao falar sobre a elegância do Rincon Sapiência, Lívia diz "ele usa saia, e a gente gosta, acha lindo do mesmo jeito", como se a gente precisasse do aval da branquitude pra tudo, inclusive pra usar vestimenta típica africana, que não é saia.


Tentando reconectar todos os pontos que abordei. Em que essa gente se baseia pra achar que um vídeo estereotipando homens principalmente pobres e pretos, vai emancipar e empoderar mulheres? Como um vídeo satirizando e tratando como piada e fetiche o fato de ver um homem como bandido pode empoderar mulheres por exemplo que tem o filho preso por "engano" por se parecer com o suspeito? De longe isso não é um post pra discutir o embraquencimento do rap, porque o conceito de embraquecimento não é a cor da pele dos artistas, mas as pautas importantes pra eles em suas músicas e atitudes. Reflete a fetichização de algumas pessoas por situações violentas para homens negros, vide a venda de camisas réplicas da FEBEM numa loja, que naturaliza o encarceramento dos jovens pretos e pobres, coisas como essas justificam a policial militar branca atirar 11 vezes contra um DJ negro desarmado, e ainda o acusar de tentativa de homicídio. Esse post é também pra repensar a maneira de problematizar as coias na forma "reversa", isso não é didático, não dialoga com todas e todos e acaba criando um ambiente rídiculo de exposição de ideias absurdas capazes de manter um sistema opressor como tal.


Possivelmente logo surgirá um pedido de desculpas e não intenção na mensagem. Mas até lá, muito se foi construído na ideia.


O Noticiario Periferico, principalmente eu Ana, responsável por essa nota, repudiamos qualquer atitude impensada e reprodutora de racismo e estereótipo seja por quaisquer artista. Mais que isso, é lamentável algumas meteções de louco desnecessárias, então que o bastão do senso do rídiculo seja passado.


Parafraseando o som Na rua né não do meu parceiro Jota Ghetto, Bando de invenção, eu sei quem cês são, sei bem da intenção, mas na rua né não!
Sem mais.