sexta-feira, 23 de março de 2018

Desvende "Papel e caneta", novo som de NGO - #ReferenciAna

O #ReferênciAna, assim como explica o nome, é uma seção do NP, aonde você vai encontrar algumas de minhas percepções e discussões sobre referências históricas e sociais utilizadas em letras de músicas. 


E o último dia 22 foi dia de lançamento lá em Mogi Guaçu. O rapper NGO, do grupo Primavera Nacional, lançou o trabalho solo "Papel e Caneta". O som conta com beat de Big J, um audiovisual filmado por Vitão e editado por ele e Rômela Batista. Ouça o som abaixo, curta o canal Na Ponta da Navalha  e confira algumas das minhas percepções sobre o som. 


Vou discutir sobre as referências com cunho histórico e social que eu percebi utilizadas nos versos do rapper, lembrando que são minhas percepções como ouvinte e pode não ser a intenção real dele.

Na primeira linha, NGO já nos chama a mergulhas nas suas referências. Orichalcos refere-se a uma antiga história sobre a força maligna que existe em uma saga do anime Yu-Gi-Oh!, de forma geral, é uma pedra que revela a verdadeira face das pessoas, e fragmentos dessa pedra foram transformados em cartas. Quando essa carta é ativada no duelo, o perdedor do duelo acaba perdendo a alma. Os únicos que conseguem destruir esta carta são os cavaleiros lendários. Acredito que se sentir no círculo de orichalcos, é se sentir "poderoso", de fato, só perder se a alma for tomada; tomado pela energia e poder que o rap traz, é o que a próxima linha diz, em seguida, ele altera o sentido de tomada do verso anterior, e a energia do rap só funciona se a alma for tomada no sentido de preencher, ou o rap sendo a energia, que só funciona com a alma sendo tomada (no sentido figurado) que só tem sentido em contato com a alma do rapper. 

O mundo nada em boletos, de contas feitas por nós mesmos, cara, uma análise sucinta do que vivemos, a sequência de versos nos ajuda a enxergar também parte do nosso cotidiano. A contextualização da situação do mundo caótico ligada a questão econômica é sensacional, afinal de certa forma, como diz Eduardo, o homo-money estragou tudo. Na sequência, materializar a guerra como sendo mais atrativa do que o amor da paz nos ajuda a pensar o primeiro verso como sendo esse lance de se colocar como responsável sobre a situação de maneira consciente. 

Essa eu peço licença poética para interpretação. No verso anterior, NGO nos traz a perspectiva sobre paz e guerra. O bolero é um ritmo cubano, com influências de vários países, mas ficou conhecido como cançao romântica mexicana. Jazz é uma manifestação artistica e musical nascida nas comunidades de Nova Orleans, tem origem na cultura popular e na criatividade das comunidades negras; de certa forma, também houve várias influências para a criação do jazz, mas eram dos vários negros americanos em diversas épocas, o jazz tem sua história de resistencia negra contra a escravidão e preservação do seu povo. Com isso, sem bolero caçamos com jazz, diz, sem paz, sem condições de cantar sobre situações romantizadas, seguimos em resistência. 



Lembra do Yu-Gi-Oh!? Então, usa ele denovo. Leão é tido como o predador mais forte (embora seja mentira), e por isso a analogia a enfrentar leões no dia a dia é tão falada. NGO usa o enfrentamos dragões, de olhos azuis, pra fazer sua crítica. O dragão branco de olhos azuis é também uma carta do Yu-Gi-Oh!, essa criatura é praticamente invencível e causa muita destruição. Alguma semelhança? Sei lá, um sistema branco inimputável e que destrói gente preta todo dia? Não? Então, sim, enfrentamos dragões brancos todos os dias. 


Na sequência, NGO traz outra carta, o dragão alado de Rá, ele é poderoso, chama atenção pela aparência imponente. Sendo assim, temos a força dos dragões alados de Rá, na força, na beleza e na imposição de respeito pela imagem. 


A continuação do verso nos traz a referência dos trabalhos do grande rapper Rodrigo Ogi. Ogi é um rapper, cronista, beatmaker e pixador, ex integrante do grupo Contrafluxo. NGO cita seus dois trabalhos solos, o disco Rá! de 2015, analogia ao nome da carta usada no verso anterior. E também Crônicas da cidade cinza, de 2011. 


Apesar de não ter aparecido ainda nenhuma linha explícita de denúncia ao racismo e situação do negro, NGO subjetivamente coloca esse sentimento em cada linha. O refrão do som não podia ser diferente, chamando outros jovens negros para escrever a própria história, ele faz menção aos filmes de terror, que quase sempre os primeiros personagens a morrer são negros, e quando chega ao fim do filme já não existe nenhum personagem negro. Análogo ao cotidiano, onde nossos jovens negros estão sendo exterminados, e as versões sobre as mortes são sempre dadas por quem não nos quer vivos. (assistam Get Out! Corra!, filme de terror maravilhoso, com protagonistas negros e uma crítica social foda rs).

Bril é um rapper da nova geração. Numa cypher com a DV Tribo, ele soltou a rima: A sombra penada na taça, a alma lavada na taça Sete velas queimando a sua farsa, e eu ainda nem falei da faca, da faca. E criou-se um imaginário sobre o que seria essa faca que o rapper não havia falado. Posteriormente, em entrevista ao Raplogia, Bril disse que a faca era a realidade do moleque de rua carioca, que no momento que ele procurava a dependência, era somente a faca que dava a resposta. Essa ideia do simbolismo da faca, explica muito sobre a sequência da música. 



Bills (imagem acima),ou Beerus o Destruidor, é um personagem do Dragon Ball Z. Ele é poderoso, confiante, e um obsesivo de cabeça-quente.  
Kill Bill, é um filme onde basicamente a protagonista acorda de um coma de quatro anos decidida a se vingar de Bill, seu ex-amante e chefe, que tentou matá-la no dia do casamento. Ela está motivada a acertar as contas com cada uma das pessoas envolvidas com a perda da filha, da festa de casamento e dos quatro anos da sua vida.
Ligando as três referências, NGO quis nos mostrar a realidade de muitos de nós que acabam seduzidos por esse inferno frio como ele mesmo cita. 

Ainda citando filmes, Neo é um personagem do filme Matrix. O personagem Neo vive no mundo da Matrix, um ambiente ilusório em que os seres humanos são neuralmente ligados a um sistema computacional que simula o mundo no período do século XX. Aqueles que vivem suas vidas conectados a Matrix não têm conhecimento de que a sua realidade não é, de fato, real, nem que existe uma rebelião humana iniciada pelos poucos homens livres na cidade de Zion. Existe uma profecia, que entre os seres humanos, existirá um escolhido que será capaz de desafiar as regras e manipular diretamente seu código. Então, se de fato isso é uma matrix, cada maloca é um Neo, que desafia todo dia o sistema estabelecido e manipulador, e cada um desses Neos, tem o propósito da mudança, da revolução. 


A próxima sequência de versos, NGO fala sobre a condição e prestígio de referências negras no mundo artístico. A brincadeira com o nome de Will Smith, menciona que preto sem ser Smith (pode ser preto de pele ou Homens de Preto, filme estrelado por Will Smith), but I will, traduzido com meu ótimo inglês, quer dizer mas eu vou. Então, preto sem ser o Will Smith, vai ser como ele, no prestígio, no reconhecimento e talento. Depois, NGO lembra outro personagem feito por Will, The Fresh Prince, o Maluco no Pedaço, onde tem o personagem Tio Phill. NGO brinca com o inglês no verso, e quando vê o gueto get rich (também é um álbum/filme do rapper 50 cent - Get Rich or Die Tryin', que quer dizer Fique rico ou morra tentando); ele diz ver o gueto tentando ficar rico pique Tio Phill, porque o personagem tio de Will Smith na trama era um conceituado e rico advogado em Bel-Air.



A próxima linha, eu entendi sendo uma referência ao trabalho do rapper BK, Castelos e Ruínas. Onde de maneira geral, ele conta a história de um rei que vive a pressão de sair da zona de conforto pra alcançar o topo, durante o caminho ele sofre problemas e acaba sucumbindo. Sendo assim, quando NGO pergunta O que distingui Castelo de Ruína, ele está se referindo a essas dificuldades que levam aos nossos sucumbirem, e argumenta em seguida, o que separa ele e outros do sangue de quem nos oprime, é o rap. Então, que o opressor reze pra que não nos falte rima, e os alerta, que enquanto nossas mazelas e sofrimentos forem riso, ou indiferença pra eles, continuaremos a ser risco. 

A finalização da música é uma crítica direta ao racismo cotidiano que estamos submetidos e submetidas. O rapper mais uma vez menciona a falha e seletividade da justiça, que ignora jovens brancos de classe alta que consomem drogas aos montes e são tratados diferentes, do que por exemplo passou Rafael Braga. Jovem negro, pobre, criminalizado e preso. Que até junho de 2013 trabalhava catando material para reciclagem nas ruas do Centro do Rio de Janeiro,foi detido quando chegava a um casarão abandonado, onde por vezes dormia. Rafael não participou da manifestação e carregava consigo duas garrafas de plástico, uma de Pinho Sol e outra de desinfetante. Na delegacia, os policiais que o apreenderam apresentaram as garrafas abertas e com panos. Ele foi acusado de portar material explosivo, que seriam coquetéis-molotov. 



Bala perdida só encontra meu filho, é uma denúncia, a falsa "guerra as drogas", usada como argumento pra que se mate cerca de 1 jovem negro a cada 23 minutos no Brasil, ou as outras tantas notícias que trazem dados sobre a violência. Onde é mais provável também que a chance de um jovem negro morrer é 3 vezes maior que a de um branco

Contudo, sim, sabemos quem puxa o gatilho!

Bom, é isso, minhas percepções como ouvinte de algumas referências utilizadas, pode não condizer com a intenção do autor. Deixem sugestões de músicas nos comentários, e críticas também.