terça-feira, 17 de abril de 2018

Confira! Us pior da turma e a micro-tape As margens do fim do mundo!



Cria da banca M2 (Mente Malokera), também do Recôncavo Baiano, Us Pior da Turma é grupo de Rap Underground do interior da Bahia , que foi formado no ano de 2015 nos becos e vielas de Cachoeira, lado côncavo da Bahia, a partir do encontro de três jovens negros, de diferentes cidades - Livramento de nossa Senhora, Anguera e Cachoeira - , de diferentes trajetórias de vida e gerações, que se conheceram no contexto de atuação em programas de serviços comunitários na periferia de Cachoeira. Especialmente nas ações do Cine Comunitário do Povo e da Campanha Reaja ou será 
mort@. 

Us Pior tem se dedicado a construir crônicas contundentes que revelem a guerra racial de alta intensidade nas ruas Bahia. Eles tem escrito e cantado as memórias traumáticas da decadência cotidiana, contra-fluxos, de temas como fratricídio, covardia miliciana, polícias especiais, chacinas , massacres, amor , ódio e violência autodestrutiva , mas que narrados a partir dos dilemas psico-sociais e espirituais de jovens homens negros assumem novas abordagens diante de um epicentro existencial instável de contradições. 



Diante de tudo isso, nós resolvemos trocar uma ideia e apresentar mais as ideias desse grupo pra vocês. Confira abaixo a micro-tape e a troca de ideias com Us Pior da Turma!



NP: Bom, de onde surgiu esse nome?
R: Nosso nome é uma alusão a nossa experiência e existência enquanto homens pretos no Brasil contemporâneo. Como já é largamente noticiado, notificado e tabulado, o Brasil é o país que mais acumula homicídios anualmente, são 50 mil todos os anos, a grande maioria cometido por arma de fogo. Se os números são de guerra, tudo indica que o inimigos a serem abatidos é preferencialmente jovens homens pretos. Então é tipo isso, se é uma guerra e estamos cientes disso, estamos dizendo o seguinte “ ai supremacia vai se fudê , já pegamos a visão, se é pra lombrar vamos ser os piores inimigos pra vocês, us pior”. 


Mas há questões de fundo também, pois sabemos que nós enquanto homens pretos somos socialmente considerados e inimigos de todo mundo – inclusive dentro de nossa comunidade . Quando não somos criminalizados, somos hiper sexualizados. Como aconteceu recentemente no cenário do rap nacional, quando duas rappers brancas destilaram discursos de ódio racial, além de hipersexualizar e criminalizar a existência social dos homens negros , em uma perspectiva de argumento , que não cabe nem falar aqui, mas diga-se de passagem faria orgulho a Cesare Lombroso, hitlter ou nina rodrigues. 

Então nesse contexto, Us Pior da Turma vem trazer a narrativa de quem ta “ sitiado”, cercado por inimigos de todos os lados, inclusive inimigos internos, íntimos , muitos dos quais ocultos. 

NP: Vocês abordam uma temática que acho essencial ao rap, e mencionaram que vocês fazem um trampo daora com o Reaja, da pra contar quando essa parceria se deu? Como vocês enxergam essa responsabilidade de fazer da música um instrumento de luta?

R: Vai além de uma parceria, a Campanha Reaja ou Será Morta/o é a organização politica preta que fazemos parte. Na verdade, nos conhecemos nesse contexto como dissemos anteriormente. Um dos membros do Grupo já era militante da organização há alguns anos e nos conhecemos nesse contexto, em diferenciados períodos, até efetivamente formarmos o grupo de rap. Antes disso nos conhecíamos e nos encontrávamos em ações comunitárias, atos de protesto contra brutalidade policial e espaços de formação politica. 


A reaja então nesse sentido foi essencial para nos conhecermos, nos encontrarmos, construirmos um vínculo, Vinculo esse que em essência esta fincado no HIP HOP em sua completude, enquanto um movimento politico-cultural que ainda tem grande força dentro da politica e cultura de organizações pretas de enfrentamento ao terrorismo de Estado e Brutalidade policial. 

A reaja é uma escola, uma escola de autodefesa preta, como dizem os mais velhos da organização. Nós estamos envolvidos nessa luta, não apenas como produtores da cultura hip hop, mas sobretudo, como pessoas pretas que tomaram uma posição diante da condição de Genocídio que negro@s estão submetidos na Bahia. 

Atualmente estamos envolvidos enquanto militantes em uma ação permanente da Reaja na cidade de Cachoeira, que é a construção do Centro Comunitário de Audiovisual Luiz Orlando, que é um pólo de produção audiovisual comunitária, voltada para auto-representação das comunidades negras mais diretamente atingidas pelo Genocídio de negros/as. 

O Centro Comunitário de Audiovisual tem no cinema, na Cultura Hip Hop e audiovisual, os instrumentos comunitários para construção de uma pedagogia radical negra, que valorize os princípios da ação direta, autodeterminação e enfrentamento ao terrorismo de Estado. O Centro comunitário é localizado na Rua da Feira, Cachoeira-BA, e tem como referência (em seu nome) o cineclubista negro Luiz Orlando, que inaugurou a perspectiva de cine clubismo comunitário na Bahia. 

Então o rap nesse contexto entra como uma ferramenta de formação, pedagógica e de recrutamento fundamental nessa luta. É uma responsabilidade muito grande para uma pessoa preta fazer rap, sobretudo, em um contexto que o “ padrão” é  não ter responsabilidade comunitária. 

NP: Quais são as principais dificuldades pra quem faz rap independente? Vocês acham que tem diferença de tratamento da mídia do eixo Rio-São Paulo? Uma espécie de clubismo do rap? 

R: A produção musical underground de maneira geral encontra dificuldades financeiras, tecnológicas, além do embargo por parte dos conglomerados de produtoras do mainstream. Mas essas dificuldades que dão consistência criativa ao underground e possibilitam o surgimento de verdadeiras “subculturas” dentro e no subterrâneo de gêneros musicais como o rap por exemplo. Nós somos um grupo de rap underground do interior da Bahia, isso quer dizer que diante do contexto de inviabilização dos grupos de rap do nordeste por parte da mídia corporativa do Hip Hop do sul-sudeste, nós estamos pra um observador desatento em um Limbo, menos visíveis que o invisível. Mas pelo contrário, estamos tipo na clandestinidade, atuando nas sombras. 

Para a maioria das pessoas rap do Nordeste virou sinônimo das grandes metrópoles litorâneas como salvador, Olinda, fortaleza etc., mas o Hip Hop no Nordeste está muito além do litoral, por mais que queiram “ inventa-lo” dessa maneira. Nós enquanto grupo de rap underground do interior baiano, somos apenas mais um elo, em uma longa corrente de outros grupos, bancas, estúdios e coletivos de Hip Hop que atuam há anos no interior baiano. Nós por exemplo fazemos parte de um Selo, O Studio Ibori, que reúne também outros mcs e produtores do Hip Hop do interior da Bahia. 

O cenário underground do rap no interior esta cada vez mais forte, com festas que levam centenas de pessoas pra rua, como o Baile Pelo Certo em Cachoeira-BA que participamos e organizamos, ou o Hip Hop na Rua, realizado na Cidade de Santo Antônio de Jesus, pelo Coletivo Quinta Esquina e Zumbeat, que reúne multidões aos milhares nas ruas da cidade. 

As dificuldades são inúmeras, mas de maneira geral, no contexto que estamos inseridos, levamos a frase de Steve Biko ao pé da letra” Estamos por nossa própria conta”, então nós mesmos vamos construir as condições de produzir, divulgar, realizar eventos e ganhar dinheiro com nossa musica, com nossa arte . E de maneira original, sem tentar entrar na onda da “ serialização de boy-bands do rap”. É como diz um dos mcs da banca “ é underground ou a morte! ”.

NP:    Qual a importância dessa microtape pra vocês? Quem tá envolvido nela, e quanto tempo vocês vem trabalhando nela? 

R: A micro-tape As Margens do Fim do Mundo – Tomo I, II, III – é a primeira produção do Studio Home Ibori (Cachoeira-BA), selo esse que fazemos parte e que chega no circuito underground de produção com uma trilogia fonográfica. Divida em três tomos, como em um livro. A Micro-Tape é assinada por nós Us Pior, e em cada Tomo convidamos um grupo/banca de rap do interior para assinar algumas rimas em participações ou tracks Bônus. A primeira Micro-Tape foi gravada no final de 2016 e saiu no inicio de 2017, contou com alguns feats como grupo de rap Quadra Sul – Também do Selo Ibori, além de uma track Bônus com um mc cria de Cachoeira, Rapysaico. 

O segundo Tomo foi gravado no segundo semestre de 2017 e saiu agora em março de 2018, contando com participações do grupo de rap Az Piveta das área – também fazendo parte do casting do selo Ibori – e uma track bônus do Mc Mailson CDR, de conceição da Feira. No terceiro e último Tomo da trilogia, dividimos rimas com MCs da Banca que fazemos parte, A Mente Malokera (M2). O trabalho está em fase de produção e tem previsão de sair no segundo semestre de 2018. Além dos grupos de rap/mcs que participam do projeto As margens do Fim do Mundo, contamos com um time de produtores de peso das Área 75 – Interior da Bahia; Dj F3LIP3(Studio Ibori) e MK Lokosciente (Studio LK) são os produtores musicais da trilogia. 

NP: Se eu esqueci de perguntar algo que vocês querem dizer, fiquem a vontade, agradeço a atenção, e contem com a gente sempre! 

R: Gostaríamos de frisar uma questão, por que muita gente tem nos perguntado sobre o EP ou disco D Us Pior da Turma; “ quando vai sair?” “ quantas musicas?” “ boombap ou trap?”. Nós enquanto grupo temos exercitado uma metodologia de criação que busca incentivar e fortalecer os projetos musicais pessoais dos mcs e produtores da Banca. No período de tempo que vai do lançamento do Tomo I, até o lançamento do Tomo II da Microtape As Margens do fim do mundo, nós estávamos individualmente envolvidos em outros projetos musicais do Studio Ibori. 

Além de clipes lançados como “Castelo”, “Poemas trancados” e “Az Piveta das Area Parte I “, trabalhamos também na produção e lançamento do EP O crime na cor, trabalho solo de um dos MCs do grupo; Lázaro “ ALENDASZ”. Além desses trabalhos que já estão na pista, Us pior da turma estão gravando uma Mixtape colaborativa no Studio Ibori produzida por DJ F3LIP3, chamada de 075 A Peste, que conta com a participação do grupo de rap do interior Quinta Esquina. DJ F3LIP3 também vem produzindo um projeto de Trap-JAZZ chamado FLOW COLTRANE; e Aganju – um dos mcs/produtores do grupo – esta no processo de produção de beats que vão compor uma micro-tape chamada “ Canto dos Malditos” que vai reunir um time de Mcs do interior baiano. 

Dessa forma, acreditamos que essas produções solo, colaborativas ou em parceria, que envolvam os mcs e produtores do nosso grupo, nos possibilita exercitar nossa liberdade criativa e dar mais consistência ainda as produções assinadas pelo grupo. Estamos experimentando, aprendendo, errando, inovando e descobrindo essa arte potente que é o Rap; é isso que estamos chamando de uma perspectiva underground experimental. 

O nosso EP ou disco esta sendo construindo nesse exercício continuo de produção underground, nossa preocupação maior é construir uma obra que valha a pena ser ouvida e apreciada, não temos pressa. Cada trabalho é uma formação para o nosso futuro disco, que ate então só temos o nome: Escombros Bahia.