segunda-feira, 2 de abril de 2018

Invisibilidade indígena e a arte como voz - confira nossa entrevista com Katú Mirim


A Constituição Federal de 1988, teoricamente marca o início de uma nova relação entre o Estado, as minorias étnicas e a sociedade. Essa mudança pode ser observada nos seus artigos 215 e 216 que tratam do direito cultural e protege a manifestação das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, bem como de outros grupos participantes do processo histórico nacional. 


Além destes, existem as normas protetivas de alguns grupos específicos, como os povos indígenas (arts. 231, e art. 67 do ADCT).

Como é comum aos movimentos de minorias étnicas e sociais, nada nos é dado. Pelo contrário, tudo se conquista pela iniciativa, esforço e luta dos movimentos sociais. É importante lembrar, que a constituição de 88 vem como resposta as atrocidades cometidas durante a ditadura militar, foi o que atingiu muitos povos indígenas. Durante o período da ditadura, o desrespeito e combate á diversidade física e cultural eram a política vigente. 

2018, e a estratégia anti-indígena que desde 1500 está em curso, tem provocado uma espiral de violações que chega, neste ano numa fase onde a barbárie contra os povos é praticada sem remorsos por “indivíduos comuns” e por forças armadas do próprio Estado. Ataques diretos às comunidades como o não cumprimento dos direitos constitucionais destes povos à demarcação de seus territórios, inviabilizando seu modo de vida tradicional.

O surgimento do Hip Hop está diretamente vinculado á história das manifestações negras nos EUA, a luta por espaço e visibilidade por parte desse grupo. Além de estratégias para promover a cultura, a conscientização e inserção social dos indivíduos. Por isso, para fazer as letras, é importante que cada um conheça a realidade, a história e se mostre engajada ou engajado no que se dispõe. Ao tratar destas questões, a música dá visibilidade à vulnerabilidade na qual o sujeito está mergulhado, principalmente os grupos violentados historicamente e com poucas perspectivas de ascensão social.

Ao unir o caráter formador do Rap e do Hip Hop com sua apreciação por parte dos adeptos da cultuar, em especial daqueles das zonas periféricas, descobre-se uma poderosa ferramenta de ensino, mais próxima e mais apreensível por eles.



Bom, diante dessas situações, traçando um paralelo dentro de cada particularidade, a história do indígena no Brasil se assemelha em alguns aspectos a história afro-brasileira. E o Rap, tem sido também um instrumento de denúncia e voz. 



Tive a honra de trocar umas ideias com a índigena, artista e ativista Katú. 


Katú é indígena urbana, nascida no interior paulista, por parte paternal descende dos Bororos, porém foi batizada e reconhecida como indígena pelos Guarani Mbya, que foi quando ela recebeu de Nhanderu (divindade) o nome de Katú Mirim. 

Em 2017, Katú lançou seu primeiro single, Aguyjevete, que em guarani quer dizer gratidão ou uma saudação de gratidão; onde ela fala da força e resistência do povo indígena e negro.



Katú foi responsável por lançar a campanha #ÍndioNãoÉFantasia no carnaval, onde questionava a representação estereotipada de culturas, denunciando o racismo de tratar como uma fantasia estereotipada de um grupo.  


Através de um vídeo, Katú emite sua opinião sobre como ela enquanto indígena enxerga essa situação. No vídeo, ao lado da hashtag ÍndioNãoÉFantasia, a indígena critica a aparição de celebridades ornamentadas com símbolos indígenas em baile de carnaval promovido pela revista de moda Vogue Brasil. Desde então, Katú vem recebendo muitas mensagens de apoio, mas também muitas críticas e ataques.


NP: Bom, gostaria que você se apresentasse primeiro, muita gente está com a imagem do vídeo na cabeça, mas o pouco que li sobre, você faz muitos corres e gostaria que você falasse mais pra gente.


"Meu nome é Katú, mas muitos me conhecem como Kim. Tenho 31 anos, nasci na periferia do interior Paulista, sou filha adotiva, fui adotada com 11 meses de vida e meus pais adotivos mantiveram o nome que minha mãe biológica me deu, Kátia, esse é meu nome de registro, mas hoje quase ninguém me chama assim.  Hoje eu me identifico mais com meu nome de batismo, Katú. Sou artista (Fotografa, atriz e cantora) e ativista."


NP: Acho importante você também dizer de onde veio, pra que a gente entenda sua história.

"Sou filha adotiva como já disse, fui criada por uma família cristã, o patriarcado reinava na minha casa e logo cedo eu percebi que aquilo era errado, com 9 anos eu já discutia com meu pai e não baixava a cabeça e esse era um dos “motivos” de agressões físicas e psicológicas que passei durante minha infância e adolescência.  A maioria das agressões físicas vinham do meu pai, meu pai era pastor, um pastor racista e homofóbico. Só hoje eu percebo que eu tive um pai racista, naquela época eu nem sabia que tinha um nome para aquele preconceito, para as coisas que meu pai falava. O primeiro ato racista que meu pai teve foi comigo mesma e é muito difícil eu ter que admitir isso. Eu descobri que era adotada ainda criança e esse ato sempre me foi jogado na cara. Meu pai me lia como uma “índia”, ele sempre falava mal dos indígenas e negros (mas tinha que conviver com uma), toda vez que passava uma reportagem sobre indígenas na TV, meu pai me comparava e dizia coisas horríveis. Depois no âmbito escolar eu também fui lida como “índia” e com o tempo eu fui pegando raiva de ser a “índia”, “indiazona”. Todo aquele racismo foi me destruindo e eu só queria ser branca, eu queria ser branca para ser aceita por meu pai que era branco, eu queria ser branca para me sentir parecida com minha família adotiva, eu queria ser branca para ter dias mais fáceis. Comecei a pintar o cabelo de loiro, a usar lentes de contato azuis. Foi uma época difícil e somente hoje com muito autoconhecimento eu vejo como eu passei anos da minha vida negando minha identidade, passei anos da minha vida querendo ser qualquer coisa, menos eu. Só eu sei o quanto me orgulho de ter me declarado indígena, me declarar indígena foi olhar no espelho e entender que eu sempre fui indígena e que hoje minha declaração não é apenas para eu me reconhecer no espelho, minha autoafirmação é política, é resistência. E minha existência também importa."

NP: Caramba, quanta história! Bom, você já comentou um pouco, mas nos fale mais como é a relação com seus pais biológicos?


"A história de vida dos meus pais biológicos é muito triste e vários motivos levaram minha mãe biológica a me colocar para a adoção. Na adolescência conheci meu pai biológico e foi aí que eu soube que meus traços físicos lidos como “traços indígena” eram herança da ancestralidade paternal, meu pai biológico descende da etnia Bororo, se reconhecia como indígena e era lido como indígena. Minha mãe se reconhece como negra e é lida como cafuzo (cafuzo é a denominação dada no Brasil para os indivíduos gerados a partir da miscigenação entre índios e negros africanos). Minha autoafirmação não tem a ver com eu ter ou não ter “cara de índio” minha autoafirmação não tem a ver com eu saber de toda minha arvore genealógica, minha autoafirmação tem a ver com o meu ser, o ser que sempre existiu em mim e me manteve em pé, o ser que que gritava aqui dentro. Hoje eu luto por esse ser, hoje eu faço o que eu sempre fiz ... resisto. O meu ser resiste, existe ... Toda minha história de vida me levou ao lugar onde me encontro hoje, foram passos dolorosos e nenhuma entrevista daria conta de explicar tudo e por isso eu uso minhas armas que são minhas artes, quando as palavras somem, minha arte fala por mim".



NP: Katu, não quero falar sobre a polêmica do vídeo no sentido de polêmica, porque acredito que quem menos falou sobre o assunto foram os indígenas, mas sim muita gente emitindo opinião sem entender o porque da sua denúncia e porque de você puxar essa reflexão naquele momento. Mas é impossível não falarmos sobre isso. Gostaria de saber de você, como tem sido sua vida depois do vídeo? Você tem sofrido ameaças? 


"Muitas pessoas vieram a conhecer meu trabalho artístico e minhas falas na militância indígena através do meu vídeo ÍNDIO NÃO É FANTASIA, algumas dessas pessoas pesquisaram minha vida através da internet, pararam e observaram minhas falas, minhas condutas e ficaram do meu lado, outras olharam a polemica por cima, pegaram o bonde andando, me perseguiram por um tempo mas foram embora. Passei um bom tempo sendo perseguida nas redes sociais, mas já passou. As mesmas pessoas que usaram a fantasia dizendo que era homenagem, hoje não se lembram mais da minha existência, não se lembram mais da existência indígena, a homenagem é só quando convém eles. E meu vídeo fala sobre isso, meu vídeo foi uma reflexão sobre homenagem, fantasia, racismo e a existência dos povos indígenas. O carnaval acabou a fantasia de índio foi jogada fora, eles nos ignoram, ignoram as demais pautas, não estão presentes nas lutas. Se usar a fantasia não é racismo, é o que então? Não se trata somente do carnaval, e não é "fantasia de carnaval", é a postura de se fantasiar de "índio" em qualquer período do ano. 0 motivo de ter abordado no carnaval é porque normalmente essa postura é mais recorrente no carnaval e no Halloween que são festas alegóricas. Em momento algum eu disse que o uso do cocar é apropriação cultural, assim como existe uma grande diferença entre expressão artística e se fantasiar em festas alegóricas. A pessoa que levou o meu discurso para a pauta de apropriação cultural pelo jeito não entendeu minha fala, se é que assistiu meu vídeo. Quando o mar acalma é possível enxergar a linha no horizonte. Por isso hoje já podemos analisar toda a repercussão com aqueles que pensam antes de falar e não com aqueles que olham uma repercussão e falam qualquer merda só para não passarem batidas no assunto do momento." 


NP: Algumas pessoas tem dificuldade de entender a fala de outras, algumas tem mau caratismo mesmo. Na mesma semana do seu vídeo denunciando e puxando a reflexão, veículos da mídia foram atrás de outra mulher indígena para que ela se manifestasse. Não acho certo essa exposição de outra pessoa para deslegitimar a fala de alguém. Eu Ana, consigo ver muito das lutas negras caminhando lado a lado, dentro de suas particularidades, a luta indígena. E pra nós, é muito foda as pessoas reduzirem nossas lutas a histórias mal contadas, como é o caso da abolição da escravatura por exemplo, onde pintam uma branca salvadora, e ignora-se toda a luta e revolta das e dos negros escravizados. Gostaria de saber, o que você sente quando vê que muito da cultura indígena, desde palavras a plantas medicinais, costumes entre outras coisas são incorporadas hoje a cultura brasileira, mas esquece-se tanto a história, quanto a violência que os povos indígenas hoje. Então minha pergunta não é o que você pensa sobre essa opinião diferente da sua, mas sim como você vê a questão da invisibilidade indígena.


"Pra entendermos a invisibilidade do indígena, sua cultura e sua luta hoje, precisamos entender nosso passado, pois foi nosso passado que nos trouxe até aqui. O processo de invisibilidade indígena começou há 500 anos atrás, quando Cabral invade o país e a história o chama de descobridor do país. Descobrir do que? Se já haviam habitantes aqui. E ai começa todo o processo de invisibilidade, genocida e étnocida. Hoje em pleno século 21 as pessoas ainda acham que que o “índio de verdade” é aquele que mora isolado, que não tem contato com tecnologia. Se alguém falar hoje “negro volta pra senzala!” isso é enxergado como racismo. Mas se falarem “índio volta pro mato!” é piada, é zoeira. Hoje a fantasia de “nega maluca” e black face já são consideradas racistas, mas a fantasia de índio ainda não. Porque a verdade é que a sociedade ainda não considera o indígena como uma etnia. E a etnia indígena EXISTE e sim estará nos debates de questões raciais. Sobre visibilidade indígena, deixo aqui algumas perguntas para reflexão do leitor: Quantos indígenas atores vocês conhecem? Quantos rappers? Quantos dançarinos? Médicos? Professores? Modelos? Youtubers? Quantos amigos indígenas você tem? Quantos protestos dos movimentos indígenas vocês já foram?" 


NP: Katú, nos fale mais sobre seu trabalho no rap. É algo que você pretende seguir carreira? O que você tem como influências?

"Meu primeiro contato com a música não-religiosa (rs) foi com o Rap. O Rap era o que mais tocava nos intervalos da escola e por toda comunidade. O rap foi a música que me salvou de mim mesma, as vezes eu queria falar algo pro meu pai, não conseguia e colocava um rap bem alto, e é claro que logo ele desligava o som. E foi ai que comecei a escrever. Comecei a escrever letras, poesias, participava de batalhas de rimas da escola, comecei a dançar break, mas tudo isso não durou nem 3 anos. Quando meu primeiro amigo faleceu, eu larguei o Rap, comecei a escutar Rock, tive uma banda de Rock (banda de garagem) que se chamava Kid6 e depois fui pro Pop. Hoje eu sou uma pessoa que escuta quase tudo, mas o que mais escuto é Rap, Rock, Pop. 


Meu irmão é beatmaker e fazia um tempo que eu estava pensando em fazer um som com ele, mas isso sempre era adiado. Um dia eu estava na aldeia conversando sobre música e soltei uma rima, o pessoal gostou e eu disse que estava pensando em gravar, com a pressão carinhosa dos amigos eu gravei minha primeira música. 

Minhas influências são: Drezuz, Oz Guarani, Frank Waln, Rap Plus Size, Flora Matos, KarolConka, Bivolt, M.I.A, Willow Smith"



NP: Como você trata das suas lutas pessoais e coletivas nos seus sons? Tem conseguido trocar informações sobre suas lutas com outras pessoas através do rap?



"Não me considero Mc, acho que tenho muito pra aprender. Quando upei minha música pro Spotify, vi que eu precisava de um gênero e sério, eu fiquei brava com isso (rs). Porque eu só estou começando, nem todas minhas musicas serão Rap, esse caminho eu ainda estou trilhando, vamos ver com o tempo qual será o meu gênero musical. Eu sou uma artista inquieta e quero dar um passo de cada vez, com humildade para escutar as críticas construtivas, mas com posicionamento de quem saber bem o que quer. Uso minha música para falar das questões indígenas e pessoais. Até o momento não tenho muitos contatos com pessoas de dentro do Rap. Só estou com 3 faixas gravadas e minhas apresentações tem sido dentro da aldeia, ainda não mostrei meu som para o publico maior."

NP: Katú, o que você pensa sobre a vivencia dos indígenas junto as comunidades urbanas? Isso não te torna branca, mas você não acha que essa vivência talvez seja uma espécie de "embraquecimento" do povo indígena?



"Existem indígenas em vários contextos. Indígenas aldeados (que moram nas aldeias), indígenas em contexto urbano (que nasceu na aldeia e agora mora na cidade), Indígena Urbano (que nasceu na cidade e mora na cidade). O indígena estar em contexto urbano ou ser um indígena urbano não é “embranquecimento”, o indígena não perde sua cultura e não deixa de ser indígena por estar na cidade. Do mesmo jeito que o negro não deixa de ser negro se for morar no Japão. Embranquecimento está na raiz histórica desse país. O embranquecimento também está no momento em que as pessoas negam minha etnia." 


NP: Como você acha que a cultura Hip Hop como um todo tem se portado diante da violência contra o povo indígena? Como você acha que poderíamos melhorar enquanto canal de voz a todas e todos?



"Infelizmente a coisa não ta legal não. Vou me focar em São Paulo e falar de um grupo mais conhecido, meus amigos do Oz Guarani, quantos rappers conhecem o Oz guarani? Em algum show vocês já viram eles participando, fazendo participações (feat) com outros MCs? Na verdade estamos sendo esquecidos, alguns MCs até reforçam estereótipos indígenas. Por favor não falem da sua avó que foi pega no laço, não fale do índio como folclore. Existimos, estamos aqui e precisamos que vocês nos deixem ocupar nosso espaço de fala. Para ter um boa revolução não podemos nos esquecer da raiz"

NP: Pra finalizar, deixe um salve pros leitores.


"Em abril teremos varias manifestações, contamos com o apoio de todos, na internet, nas ruas, nas aldeias, nos corre. Sigam a pagina visibilidade indígena, e me sigam nas redes sociais @katukim



Ha’evete! (obrigada)" 


Katú, agradeço a atenção, peço desculpas se usei algum termo ou algo que não era pra ser usado, peço que me alerte caso isso tenha acontecido. 
Obrigada, e força pra nós na caminhada!