segunda-feira, 6 de agosto de 2018

ENTREVISTA - Trocamos uma ideia com o beatmaker/produtor/designer moçambicano Proofless

Tivemos o prazer de entrevistar o mano Proofless, que atualmente mora no brasil para terminar seu mestrado de Designer.

Ele fala sobre seu começo no rap, sobre a cena em moçambique, sua moradia no brasil e muito mais.

Proofless trabalhou e trabalha com diversos nomes da cena lusófona como: Kid Mc (Angola), Azagaia (Moçambique), Micro 2 (Moçambique), Iveth (Moçambique), GPro (Moçambique), Kmila Cdd (Brasil) e outros.

Sem mais delongas confira esta entrevista bacana.


Se apresente mano, quem é o Proofless? 

R: O Proofless é produtor de Hip Hop, Moçambicano nascido na Cidade de Maputo (capital do país) e Designer. 

Como você conheceu o rap, bro? 

R: Entro em contacto com o Rap ainda miúdo nos anos 90, no meu prédio tinha um grupo feminino de R&B/Hip Hop chamado “Creep” (inspiradas no grupo norte americano TLC), e uma delas era a melhor amiga da minha irmã mais velha, só que elas não tinham onde ensaiar, e como na nossa casa só vivia apenas ela, eu e meu irmão, ela quebrava o galho para a amiga e o grupo por vezes ensaiava na nossa casa. Eu assistia e ficava a par do que se passava no Hip Hop naquela altura, por vezes ia aos shows com elas, e muitos grupos pioneiros passavam pelo bairro porque eram amigos delas e trabalhavam juntos. E foi assim. 

Conte pra nós como você ingressou no rap e se tornou produtor. 

R: Começo a despertar o interesse em fazer Rap na escola de Artes, por influência dum meu colega e amigo chamado Shot B, que é a maior referência da Arte de Grafitti em Maputo, tinha montes de livros sobre hip hop, me enchia de Nas, Mobb Deep e Queens Bridge, me levava aos shows da Raw Jam (organizados pelo Legacy, dos Micro 2), nas noites para ir pintar murais, ele era tão engajado no Hip Hop, que em menos de 2 anos já tinha uma marca de Tshirts numa loja caríssima vendendo e faturando. O Shot B é que me incentiva a rimar. Mas após isso descobri que um ex colega meu que vivia no meu bairro tinha um grupo, faziam rodas de freestyles todos os dias, e me integraram grupo (The Vice Rappers). Nunca me imaginei como produtor, até ao dia que um membro do meu grupo (Real Vice), me instalou o FL 3 na altura em 2002, e simplesmente saiu algo consistente. Um outro amigo comprou um TurnTable e mais material de produção, aí fundamos a DaBomb Produções, a primeira label só trabalhava com produção (nomes como Dama do Bling, saiu de lá, Iveth produzimos, e muitos...). Após isso, em 2005 o grupo mais famoso e popular do país, a “Gpro” me contrata para ser produtor oficial deles, e até hoje estamos juntos. 

Qual seu nome ? Porque seu apelido é Prooflees?

R: Meu nome é Joy, o Proofless veio do nada porque precisava de um "aka" não muito pesado, nem muito clichê, naquela época quase todos usavam os "aka´s" Master, Killah, Young, Lil, e eu não queria nada disso para o meu. Então escolhi esse. Hehehe.


Como é o processo para produzir seus beats? 

R: É simples, por vezes faço sampling, uso keyboard, por vezes MPC, instrumentos adicionais (toco Baixo e Trompete) e softwares como: Ableton Live, Logic e Fruity Loops, já usei Reason, Sonar, Cubase, Cakewalk, Samplitude, Studio One, Nuendo... e vários Plugins e VST como Mini Moogs, Waves, Massive, Serum, Kontakt, Nexus, e etc... uso diversos processos, com o recurso que tiver a frente me viro. 



Quem é o produtor que te inspira, bro? 

R: Na verdade são vários, mas tem uns que são especificamente a minha cena: Dj Premier, Dr Dre, Just Blaze, Pete Rock, J Dilla e Timbaland. 

Você produz grandes nomes da cena. Como você concilia ser Designer e produtor?


R: Sempre soube separar o lado do Design e da Arte, a prioridade sempre foi o Design, me formei nisso e pagou minhas contas até hoje. Não que não seja possível viver de Arte, mas em Moz é bem mais difícil ter uma vida confortável só dependendo da renda vinda da Arte. Mas me esforço para conciliar os dois.

O primeiro contato com o rap cantando em português fora do brasil que tive contato foi o moçambicano, através do site "Makdap". 
Nele eu conheci: Micro 2, Duas Caras, Iveth, Azagaia, Rage, Mr Ripper, a banca Paiol Sonoro e outros.
Quem são a nova geração do rap de moz? 

R: Há vários atualmente, e muita diversidade, desde o clássico hardcore ao Boom Bap e Trap: Acacianos, Hell Soldiers, Os Primos, Classic la Familia, IBS, Carina Houston, Filady, KNB, Pseudoliricistas, Vila Perygosa, Bander, Tinga Why Project, Queen Mahoze, Kadabra, Homoplata, Nero Vill, Messiah, Kodigo Morse, Young Gee, Ka Zimpeto, Money Talks Records, Bloco 4, K7s, Moneycomio, Dabo Boyz, Oligarquia, Skoko Boy, Bob Same, LCD, Eyee Vee, Lay Lizzy, Slim Nigga, Blanco...são vários, uma geração muito forte. 

O que o trouxe para o Brasil ? Tem gostado? Se adaptou facilmente? 

R: Vim ao Brasil fazer Mestrado em Design. Penso que ainda estou a me adaptar, o que acontece é que em Moçambique a gente só tem a imagem de um Brasil pelas telenovelas (sobretudo da Globo), em poucos filmes, por meio de alguns programas sensacionalistas onde só mediatizam o crime e a violência, ou pelo bom futebol, música e carnaval. Vivendo aqui é que comecei a ver que não é bem assim, nem tudo é mau, nem tudo é bom, resumindo é uma sociedade bem complexa, sobretudo na cidade onde estou (Porto Alegre), a gente é um pouco mais fechada em relação a São Paulo por exemplo (onde já estive). Mas enfim, o Brasil é um país enorme com muitos países por dentro, muitas culturas e sociedades, é normal levar um tempo a se adaptar. 

Faz um tempo que não acompanho a cena de moz. Brasil, Angola e Portugal meio que o Trap "tomou" a cena.
Em Moçambique também? Como você vê esta rincha do Boombap para com o Trap? 

R: Sim sim, em Moz também o Trap tomou a cena. Quando cheguei ao Brasil descobri que o Trap é global, porque eu não imaginava que estava se fazendo tanto Trap assim aqui e que tinha tanto grupo new school fazendo, resumindo o Hip Hop é Global. Para mim essa rincha entre Boom Bap e Trap não faz sentido, se é que existe; nenhum estilo nasce para cobrir o outro, a música sempre evolui quando é influenciada por um outro estilo, isto é, nenhuma cultura vive isolada, estamos em tempos em que por causa da internet a informação corre rápido e em quantidade, então muito Trap de merda ganha espaço, mas nem todo o Trap é merda. O Boom Bap tem que se deixar influcenciar pela boa parte do Trap, e vice-versa. A arte não é estática e isolada. No caso de Moz essa rincha já passou há muito tempo, hoje consome-se Trap, Boom Bap, há harmonia entre os fazedores sem problema. 

Como surgiu a oportunidade de produzir um som pra Kmila CDD? 

R: Bom, eu cheguei e não sabia por onde começar cara, este país é enorme e difícil de entrar no “game”, mas como diz um amigo meu: o Hip Hop é difícil em todo o mundo”. Então iniciei pela internet e fiquei pesquisando sobre o hip hop brasileiro, o que havia de novo, etc... e uma das maiores referências de rap brasileiro que a gente respeita em Moz é o MVBill cara, aí ganhei coragem e entrei pelo twitter dele, enviei uns 5 Beats para o email do Nino CDD (agente deles), em 30 minutos ele me liga de volta, e diz que o tio Bill gostou de um beat e que quer ficar com ele. Aí negociamos, tudo certo, até que ele veio a Porto Alegre para um show junto com a Kmila CDD, e estive com eles durante o show todo no palco, e depois do show, no hotel o Bill me diz que o som ficou para a EP de estreia da Kmila CDD, e a música que produzi será a do título da EP: “Preta Cabulosa” (Single). E foi assim, e temos falado, mando novas ideias tranquilo. Acho que tão cedo acabei dando um passo mais que a perna. Hehehe...


Você produziu e ainda produz grandes nomes do rap lusófono como: Azagaia, Iveth, Kid MC, Micro 2 e outros. Porque você acha que ter produzido o som da Kmila você deu um passo maior que a perna?

R: Sim ainda produzo , neste momento estou a trabalhar nos próximos projetos deles. Quanto à Kmila CDD disse que dei "um passo maior que a perna" por superar a minha própria expectativa, porque não é fácil chegar em artistas do patamar do MVBill e a Kmila CDD.

O seu projeto Vibes é bem bacana, e ta no Vol.1. você pretende lançar algum outro projeto em breve? 

R: Obrigado mano, é meu primeiro álbum, quem sabe daqui há uns anos lanço o segundo se deus quiser. Na verdade tenho vários, não propriamente meus, mas de vários artistas que estou a produzir, acho que sou um dos produtores que nunca teve o prazer de parar e só relaxar por apenas 1 mês, há menos de uma semana saiu o 4º álbum dos Micro 2, que tive o privilégio de participar em 4 sons, estou trabalhando em 2 álbuns e uma EP do Azagaia, novo álbum da Iveth, no primeiro do Duas Caras, do DJ Sidney, numa EP do Elfas OnThe MiC em parceria comigo. Em Angola estou trabalhando alguns sons para a nova mixtape do Kid MC e outros membros da sua Label (Cave Play), em Portugal com o Jimmy P, Plutônio. No Brasil estou em diálogo com o MC Marechal sobre um som muitíssimo forte, mais mc's da Bahia, Belo Horizonte, Porto Alegre. E etc. 



Fique a vontade para deixar sua mensagem para os leitores. 

R: Estou aqui para trocar ideias, fazer parcerias mais possíveis, criar e inovar, pela cultura, pelo amor ao Hip Hop, me conectem e vamos trabalhar. Peace. 


Deixo aqui uma Playlist de sons produzido pelo Proofless




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