sexta-feira, 17 de agosto de 2018

#ReferenciAna - Especial caminhada linda e elegante - Dexter!


Marcos Fernandes de Omena, nascido em São Paulo, no dia 17 de agosto de 1973. Foi adotado por Dona Marina Maria de Omena, mãe de duas meninas, que sonhava em ter um filho homem. Marcos cresceu ao lado de suas irmãs, em São Bernardo do Campo, na favela do Calux. Conheceu seus 11 irmãos por parte dos pais biológicos ainda na juventude. Ainda na juventude também, Marcos decidiu ir morar com Tia Dorinha, esposa de seu pai biológico, por que o jovem se encontrava em conflito com a forma rígida de Dona Marina o educar. Com 17 anos, entre as muitas descobertas que Marcos fez, ele descobriu também o rap, e também o Racionais MC's, e a partir daí teve a certeza de seu caminho. 
Entre as muitas vivências e experiências, Marcos após ler a biografia de Martin Luther King, conheceu um de seus filhos, Dexter, que significa ligeiro, esperto, sagaz. O período de 1994 a 1998 foi de muitos sonhos e desejos, para seu antigo grupo Snake Boys, que posteriormente ficou conhecido como Tribunal Popular. E em meio a dificuldades de fazer música, ganhar dinheiro, pagar estúdio e criar um novo trabalho. Marcos, que já tinha adotado o nome Dexter, tentou chegar ao que desejava pelos caminhos que o conduziram a uma nova realidade. Em janeiro de 1998, seguiu para o exílio. (Saiba Mais)

Durante a nova realidade, Dexter, conheceu o projeto Talentos Aprisionados, surgiu então o grupo 509-E, identificação da cela onde viviam ele e Afro-X, o outro integrante do grupo. Ao lado de Mano Brown, Edi Rock, DJ Hum, MV Bill e outros amigos, o primeiro cd do 509-E ultrapassou 500 mil cópias. Posteriormente, já em carreira solo, o sucesso e reconhecimento trouxeram desconfianças e provações, mas como vaso ruim de quebrar, oitavo anjo do apocalipse, Dexter em Abril de 2018 comemorou o ano de sua liberdade completa, e essa matéria vem para juntar essa comemoração, e o aniversário do mesmo, além da nossa admiração pela carreira linda e elegante de um dos grandes do rap nacional. 


Esse #referênciAna vem numa perspectiva de contextualizar  historicamente os 5 álbuns em que Dexter participa, e brevemente analisar a pegada deles e o contexto em que foram produzidos. Muita gente analisa a carreira musical dos artistas esperando que eles nunca mudem, consistência no trabalho pra mim é produzir bons álbuns que dialoguem com o contexto em que foram produzidos, e isso, não podemos negar, Dexter fez e muito bem. 


Tribunal Popular - Xeque... Mas Não Mate - 1999



Em 1993, o Snake Boys, primeiro grupo de Dexter, adotou o nome de Tribunal Popular, com o objetivo de focar mais nas questões sociais de nosso país. A ideia era criar um grupo que seria como um “tribunal do povo”, sendo a voz de quem não tinha voz. O grupo assumiu, então, uma nova formação com Bad e DJ Lord, e gravaram esse primeiro disco “Xeque… mas não Mate”, com participação e produção de Edi Rock e Mano Brown, em 1998, Dexter foi preso quando faltava apenas uma música para concluir o disco. O álbum só foi lançado no fim de 1999. Tem duas músicas, Legítima Defesa e De preto pra preto. 




Na época que envolve a mudança de nome, e o lançamento do disco, o Brasil era governado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso e sua política neoliberal, ou seja, a intervenção do Estado na economia era mínima, foram realizadas privatizações de empresas estatais, reduzidos os direitos trabalhistas por meio de flexibilização das legislações e a política andava de mãos dadas com a questão da democracia racial. No ano de 1999, FHC assumiu o segundo mandato como presidente do Brasil, neste mandato ocorreram algumas reformas no setor da Educação. O que tudo isso quer dizer? Que nas escolas públicas, principalmente da periferia, mal se ouvia falar em racismo, exclusão social ou violência policial. Na sala de aula havia algo não representativo entre o que tava nos livros e aquilo que muitos alunos e alunas de fato viviam nas quebradas. Esses jovens se reconheciam nas narrativas, o conteúdo das letras era muito mais próximo da realidade que enfrentavam dia a dia do que o ambiente escolar conteudista trazia pra eles. 
Além disso, numa pesquisa rápida sobre como era o Brasil nesses anos, achei o seguinte texto. Brasil da corrupção e da impunidade. Em março o país assiste a cenas revoltantes de PMs truculentos e assassinos na Favela Naval em Diadema. As imagens de um cinegrafista amador mostram os policiais praticando atos de extorsão e crueldade com cidadãos de bem. Em outro caso escabroso, cinco jovens de classe média de Brasília ateiam fogo no índio Pataxó Galdino dos Santos que morre em consequência das queimaduras. (+)

Esses dados nos permite refletir sobre o disco Xeque… mas não Mate, os dois sons presentes no álbum perpassam a realidade de todo jovem preto e periférico dos anos 90. A violência muito presente no cotidiano periférico, fez com que jovens identificassem nas narrativas de rap, tudo que vivenciavam e precisavam lutar de alguma forma contra.  




509-E - Provérbios 13 - 2000


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Provérbios 13 é o primeiro álbum de estúdio do 509-E. E carrega consigo muita história, além das letras. Com Dexter e Afro-X privados da liberdade, o disco foi gravado em 4 dias, em estúdios diferentes e com a escolta de guardas. Não foi o primeiro disco de um grupo formado no Carandiru (Detentos do Rap - Apologia ao crime), mas o fato do time sensacional que participou do disco, como Mano Brown, Edi Rock, DJ Hum, MV Bill, Zé Gonzalez, e outros, chama a atenção.  Segundo palavras do próprio Dexter na época, "A gente não visa o dinheiro, mas a recuperação por meio do rap, revolucionário e educativo".




O ano de 2000 continuava com FHC no comando do país, em São Paulo, Nicéa Camargo denuncia o esquema de corrupção envolvendo o ex- marido, o então prefeito Celso Pitta, e na política nacional o Brasil assistiu a briga histórica entre Jader Barbalho e Antonio Carlos Magalhães, que trocaram ofensas do tipo safado, ladrão e outros. 

Em junho desse ano, o Brasil assistiu ao vivo pelas câmeras dos abutres, uma sequência de cenas marcantes. O sequestro do ônibus 174 no RJ, acendeu muitos debates entre os brasileiros, a refém Geísa Firmo Gonçalves acabou sendo morta pelo sequestrador Sandro do Nascimento, sobrevivente da Chacina da Candelária em 1993, que foi assassinado por asfixia pelos policiais que deveriam levá-lo à delegacia; essas situações mais uma vez levantaram questões sobre a penalização e punição para crimes, a atuação da polícia, a segurança pública ineficiente e desastrosa. 

Pensando nesse contexto, é possível visualizar que a mensagem presente no CD é trazer a tona a vida na cadeia. Desde a primeira faixa, que mostra um diálogo entre funcionários desconfiando do CD deles ser algum tipo de esquema pra fuga, até outras faixas que mostram a chegada ao Carandiru, até a clássica Saudades Mil, que é uma carta a uma amiga. Importante mensagem de indignação com o sistema falido ao qual estavam inseridos, mas também apresenta reflexões internas dos rappers, pensamentos e situações. É possível fazer uma analogia com a mensagem trazida no disco e o ano contraditório, com personagens represenativos de que só um tipo de pessoa é condenado pelo sistema judiciário, só um tipo de pessoa é morto, enquanto vários Lalaus, seguem em liberdade. 

509-E - MMII DC (2002 Depois de Cristo) - 2002



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MMII d.C, é menos direto do que Provérbios 13, apesar de mandar o recado a quem precisava, de disparar discurso de autoafirmação pros ouvintes periféricos, eles tentam trazer a mensagem principal como sendo um recado positivo a quem os ouve, quem os espera do lado de fora. É um álbum menos 'monstrão' e mais 'guarda baixa', falando com sensibilidade da infância, saudade, família e esperança. 



Esse ano foi marcado por algumas mudanças no cenário nacional, acompanhadas da mudança de governo, a primeira vez que Lula foi eleito, o primeiro presidente de origem popular na história. Algumas transformações marcaram a periferia,  na periferia paulistana em duas décadas e meia, o surgimento do Primeiro Comando da Capital - PCC (em 99), o crescimento dos evangélicos e a explosão de coletivos artísticos, fizeram com que a população começasse a enxergar possíveis contextos para superar a exclusão e desigualdade extrema de 1990. O que contrastava com as situações vivenciadas no contexto nacional. Mais uma vez a questão da violência, o jornalista Tim Lopes foi sequestrado e morto por traficantes, liderados por Elias Maluco, além do assassinato do casal Richtofe, pela própria filha e os irmãos Cravinhos. O filme Cidade de Deus se tornou fenômeno de público e de crítica. Baseado no livro de Bráulio Mantovani o filme retrata o crescimento do crime organizado entre as décadas de 60 e 80 no bairro da Cidade de Deus.

Esse álbum contrasta muito com o que estava posto e o que os rappers vivenciavam. Encontraram a produção artística como um meio de sobrevivência material, entre o mundo do trabalho e o mundo do crime, construiu-se essa terceira opção: a produção artística como forma de sobrevivência, além da intervenção política e emancipação do sujeito. O rap foi marcado por esse cárater de emancipação de participação política de intervenção.   


Dexter - Exilado Sim, Preso Não - 2005


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Exilado sim, preso não! Essa frase de impacto que nomeia o primeiro disco solo de Dexter, em 2005, define a condição em que ele se encontrava. Esse disco se projetou pra fora dos muros e grades, e deu as caras na rua, chegando até mesmo ao Prêmio Hutúz, como Melhor Álbum do Ano, além de outros prêmios de Hip Hop. Esse álbum é um clássico, suas letras trazem a realidade da periferia, e principalmente do sistema prisional, evidenciando situações e reivindicando melhores condições de vida para as e os brasileiros nessa situação. Conflito, é um dos sons que mais gosto,  letra bem sacada, onde os pensamentos ruins: o ódio, a depressão, viram personagens. 


2005 foi um ano em que a corrupção brasileira estourou em todos os lugares, com o escândalo do mensalão. A missionária Dorothy Stang foi assassinada em Anapu. O referendo para comercialização das armas termina com vitória do não com mais de 64%. Olhando pra questão carcerária, em 2005 segundo o relatório do Conselho Nacional de Justiça, tivemos 361.402 pessoas presas, pra 215.910 vagas, ou seja um déficit de 145.492 vagas no sistema, e com o passar dos anos esse número só piorou, chegando a cerca de 160.000 no ano seguinte. Isso evidencia como era a qualidade dos espaços que deviam ser de ressocialização.

A reintegração das pessoas exiladas no sistema prisional e a formação para que exijam seus direitos humanos e constitucionais, para participação política efetiva e retomada de suas vidas civis, tem que ser um objetivo e uma prioridade de qualquer pessoa que pensa no sistema carcerário. Porém, o que ocorre é apenas a punição, sem pensar na reestruturação da vida da pessoa para romper com o ciclo de violência a qual foi exposta. A história de Dexter, e de muitos outros, mostra o potencial e a importância de suas contribuições para a sociedade. 

Dexter - Flor de Lótus - 2016

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O último álbum lançado por Dexter, Flor de Lótus, conta com participações de Ed Motta, Edi Rock, Gilson, Katinguelê, Péricles,Gregory, Kamau, e muito mais. Nas letras, nas músicas como um todo, dá pra perceber um ambiente novo, diferente do dos outros álbuns. Dexter já tinha conquistado sua liberdade condicional, e já vivenciava várias situações e realizações. Ele não deixa de contestar e questionar o sistema, mas consegue trazer uma outra roupagem a atmosfera dos sons, principalmente sobre renascimento, recuperação e superação. A inspiração para o nome do álbum é a lendária Flor de Lótus, que cresce em busca de luz e se mantém viva dentro da água parada e lodosa. 


2016 foi um ano bem tumultuado, politicamente, com o golpe de Michel Temer, nas ruas com manifestações, tragédias como o acidente com o avião da Chape, entre outras situações. E esse álbum veio como uma forma de mostrar mesmo esse processo de recuperação através da música. 

Contudo, analisando os planos de fundo, os mundos aos quais estavam se movimentando enquanto Dexter produzia seus álbuns, fica evidente o tamanho do seu talento, e como seus álbuns são importantes e dialogam com os momentos em que nasceram.
O objetivo desse post nada mais é, do que expor a correria e caminhada linda e elegante de um dos maiores do rap nacional. Junto com o feliz aniversário, parabenizar pela conquista da liberdade completa recém conquistada! Parabéns Dexter!

Evidenciando todas as dificuldades e conquistas de alguém que passou pelo exílio, a demora de anos para a conquista da liberdade completa, deixamos também nossa indignação com a condenação racista de Bárbara Querino, inocente! Comprovadamente inocente. O sistema nos condiciona a vários fins, não podemos abandonar nossa irmã.