segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Professor de História e fã de rap - Allisson Tiago dá o papo sobre: Educação, politica e rap.



O entrevistado desta vez é o Allisson Tiago, professor de história e morador da zona leste de São Paulo.
Neste atual momento do país nada melhor que saber a opinião de um professor de história de escola pública que é fã de rap.
Alem de ser fã de rap e professor, o Allisson tem um site de rap (Hip Hop sem Maquiagem) e um programa chamado "O rap em debate".
Bora pra entrevista que o Allisson tem muito a dizer.



Pra começar a entrevista bem, se apresente para os leitores. Quem é Allisson Tiago?


R: Salve! Meu nome é Allisson, sou morador de Guaianazes, zona leste de São Paulo. Sou professor de história na rede de ensino público, escuto Rap a uns 16 anos, tenho um blog chamado ‘Hip Hop Sem Maquiagem’, e apresento um podcast chamado ‘O Rap em debate’.


Como e quando foi seu primeiro contato com o rap?


R: Não me lembro bem ao certo. Mas acredito que tenha sido através do Rap cristão que era tocado nas igrejas que eu ia na adolescência, mas ainda não tinha me apegado à música. No final da década de 90, fui morar na Cidade Tiradentes, bairro da periferia da zona leste de São Paulo, e lá o Rap era muito tocado e comecei a me interessar. A aproximação definitiva veio com o programa ‘Espaço rap’ da rádio 105FM, através dele passei a ouvir cotidianamente Rap e a ver ele como um norteador para minha vida.


Quando e porque você decidiu ser professor?


R: O discurso do Rap sempre bateu na tecla de buscar informação e conhecimento. Era um mantra do Rap politizado, só que eu apesar de entender isso, nunca levei a fundo essa questão. Acabei parando de estudar um tempo, depois voltei, conclui o ensino médio, trabalhei em vários serviços braçais e não tinha perspectiva de cursar uma faculdade. O meu despertar foi em 2008, assistindo ao quadro Interferência no Manos & Minas, onde o Ferréz entrevistou o Eduardo, e no final ele falou a frase “Compulsão pelos livros, compulsão pelo saber”. A partir daquele dia eu resolvi pegar os antigos livros do ensino médio para tentar passar em algum vestibular. Estudei um pouco de língua portuguesa, ciências, e quando peguei o livro de história me encontrei. Tudo aquilo que eu ouvia nas letras de rap sobre escravidão, racismo, desigualdade, extermínio de populações, tinha uma explicação histórica e passou a fazer muito mais sentido. Naquele momento eu decidi que ia estudar aquilo e o fato de conhecer rappers que já eram professores como Renan Inquérito e Cezar Sotaque do grupo Cagêbe me incentivaram nessa empreitada.


A respostas que eu mais leio quando pessoas do rap se posicionam contra o Jair Bolsonaro é: "Não fale pelo movimento" ou "O Hip Hop nunca foi de direita ou esquerda"


O rap e o hip hop sempre se posicionou contra a opressão do sistema. Quando eu era moleque o rap falava muito contra o FHC, Mario Covas, Roberto Tuma, Fleury e por ai vai. Eu não lembro do rap falando mal do PT ou CUT por exemplo.


Como você analisa esta onda conservadora de direita nas periferias do Brasil e especificamente no rap?


R: Existe a questão temporal. Provavelmente não ouvíamos falar mal, pois era final dos anos 90 e começo de 2000 e o PT ainda era oposição na época. E posteriormente à ascensão do partido, tínhamos a impressão de que era um do nossos que tinha sido eleito, por isso fazer a crítica naquele momento não era de bom tom. Na própria eleição do Lula, houve uma comissão do Hip Hop com vários artistas entre eles MV Bill, Kl Jay, GOG. Com o passar do tempo, vimos as alianças e conchavos e hoje temos uma posição mais crítica ao partido. Eu mesmo não vejo o PT como um partido de esquerda, mas há quem o coloque como a “ameaça comunista”. Rsrs.

Quanto a negação do espectro político, associo isso ao desconhecimento do que seja direita ou esquerda. Quando você entende que um movimento que se propõe a combater a desigualdade, as mazelas sociais, o racismo, a intolerância, tem uma origem pobre, preta e periférica, não existe outo ambiente em que se possa colocar que não seja o da esquerda. Talvez, por uma questão de não conceber os aspectos políticos, alguns rappers não se colocavam à esquerda, mas quando se entende o histórico, é visível que o Rap tem lado sim. E quem não concorda com isso, é por que não entendeu nada do que o Hip Hop prega.

Já essa onda conservadora é resultado das nossas tragédias mal resolvidas. Do nosso passado revisionado. Um candidato que enaltece a figura de um facínora torturador, que diz que quilombolas não servem nem para procriar, que banaliza o estupro, inferioriza mulheres e gays, essa pessoa dá legalidade a ideologia da classe dominante se perpetuar, e esses ideais fazem eco também nas favelas.



Dentro do Hip Hop Sem Maquiagem você tem um quadro chamado "O rap em debate" que já está na 22º edição.

Fale o um pouco sobre este quadro? Como que você escolhe os temas e convidados?


R: É um podcast, que é uma espécie de programa de rádio na internet. Sou ouvinte desse tipo de mídia a algum tempo, e sempre achei que esses programas deveriam ter a participação de pessoas do Hip Hop, pois estas teriam muito a acrescentar. Cheguei até a mandar e-mail para alguns podcasts indicando alguns nomes. Foi quando achei que seria interessante produzir um especificamente sobre questões ligadas ao Rap e a militância social, e como já tinha um blog, resolvi inserir um espaço nele.

Os temas são escolhidos de acordo com os convidados que são diversos, pessoas do Hip Hop, as vezes estudiosos, ativistas, entre outros. Cada pessoa que chamo tem uma área de atuação que me desperta interesse de saber mais, e através desse início de conversa, o assunto vai se desenrolando para outras ideias. Só tenho a agradecer a todos e todas que já participaram do quadro, toda gravação que faço é um aprendizado novo, e espero continuar por muito tempo.


Umas das frases mais famosas do Facção Central é: "Não aceno bandeira, não colo adesivo, não tenho partido, odeio político. A única campanha que eu faço é pelo ensino e para o meu povo se manter vivo"


A maioria das pessoas que reproduzem esta frase passaram a não gostar de política, ou seja não entenderam o real sentido da frase.


Longe de mim botar culpa no Eduardo, mas você acha que letra como esta ajudaram ao povo do rap não se interessar por política? Com papo de: "não sou direita nem esquerda, sou do lado do povo"


R: Existem muitas músicas que os autores eram jovens demais na época, e que provavelmente não viram a dimensão que elas tomariam. O próprio Eduardo hoje, nas suas músicas e diálogos faz apontamento sobre posicionamento de esquerda e de como a política é vital para nossa sobrevivência. Passado isso, a pessoa que fica nesse discurso de despolitização só fortalece o inimigo e confunde isso com o simplismo da política partidária, onde “todos são iguais”. Podemos tecer várias críticas ao sistema democrático burguês, mas ainda assim, é necessário separar o joio do trigo. É diferente você ter um PSDB ou DEM no congresso no lugar de um PSOL, por exemplo. Na hora de votar uma pauta da maioridade penal, reforma trabalhista, ou congelamento de investimentos, a ideologia da sigla vai nortear esses votos. E o desconhecimento sobre o espectro político faz com que não estranhemos rappers se candidatando a partidos de direita ou apoiando candidatos fascistas.

Ser do lado do povo é manter-se à esquerda, e isso não tem definitivamente nada a ver como o PT, e sim com ideais coletivos e revolucionários que vão muito além de siglas e associações.


No domingo 7 de outubro, ficou decidido que vamos ter um segundo turno entre: Bolsonaro e Haddad.


Se não houver um fato novo, tudo indica que o Bolsonaro ganhe este embate.
Pra você, quais as consequências reais em ter um presidente que é claramente fascista e tem condutas anti-democrática e contra os direitos humanos.


R: Minha leitura é que as consequências terão um agravamento do que já está acontecendo ultimamente. Onde as minorias serão excessivamente perseguidas por apoiadores desse tipo de gente, agora com aval. Antes mesmo do fim do pleito, já temos visto uma enxurrada de crimes contra mulheres, negros, LGBTs, nordestinos e adversários ideológicos. Todos esses conflitos somados as divergências políticas. Não é que essas pessoas passaram a ser violentas ou intolerantes agora, todas elas estavam em silencio por questões da moralidade ou do politicamente correto. Contudo, quando aparece um candidato que representa os anseios fascistas que elas estavam guardando para si, alardeando aos quatro ventos todas essas falas criminosas que ouvimos, elas passam a não temer e pôr para fora seu ódio racial e de classe.
Provavelmente, nunca trombaremos o Inominável na nossa frente, porém, o que temos que nos resguardar é com a polícia que sempre matou e agora tem legitimidade para isso, é com o racista que era obrigado a tolerar os negros e agora se sente à vontade para fazer e dizer o que quiser. Enfim, com todos esses que estavam guardados no armário, e agora se sentem seguros e representados para impelir seu ódio. Bolsonaro em si é uma marionete da elite racista. Sozinho seria mais um fascista que poderíamos frear com alguma medida. Contudo, ele representa o sentimento de ódio de milhões de pessoas contra os nossos pares, e é com essas que me preocupo, pois são elas com quem convivo e trombo todos os dias.
Se tem uma coisa positiva nisso é o escancaramento do antagonismo. Pelo menos agora sabemos quem são nossos inimigos, quem são os oportunistas e demagogos, quem devemos lutar contra. Já era hora de acabar essa falsa conciliação de classe. Um inimigo que se mostra, é um inimigo mais fácil de se atingir.


Além da escola sem partido, o candidato em questão, tem como proposta aumentar o número de escolas militares e também tem uma proposta de os pais alfabetizar seu filho com casa, seria como ter um ensino fundamental e médio sendo ensinado a distância. O que você acha disto?

R: Como tudo que vem desse candidato, essas propostas de discurso fácil são desonestas. Primeiro porque os colégios militares realmente podem ser melhores, mas é ocultado que esse modelo de ensino custa 3 vezes mais do que o comum. Portanto, não é questão do tipo de regime interno do instituto, e sim, a valorização. Se nossas escolas públicas tivessem um investimento sério e massivo, não precisaríamos recorrer a escolas militares ou até a profissionais dessa área. Já que o índice de criminalidade seria infinitamente menor. Fora que já foi estudado que esse modelo é elitista e não comporta uma educação democrática.

No caso da educação doméstica. Não julgo os pais que optam por esse modelo. Porém, acreditar que a maioria desses pais que também foram vítimas da falência educacional, poderiam fazer o papel da escola é complicado. Um candidato que fala uma besteira dessa, desconhece a realidade brasileira. Não tem ideia que muitos frequentam a escola para se alimentar, para fugir do ciclo da fome e da criminalidade, que pais precisam trabalhar e deixar seus filhos em um lugar confiável. Qualquer presidenciável decente, proporia o contrário, um aumento da carga e da qualidade de ensino para todos.
Recentemente o abominável disse para deixar os historiadores de lado quando foi perguntado sobre a ditadura militar. Interessante para o mesmo, já que é a História que evidencia o cancro abissal da terra construída na desigualdade. Inúmeros golpes denominados de “revoluções”, sociedade escravocrata por mais de 350 anos, tiranos endeusados, senhores de engenhos e a sua descendência que nos governam desde 1500. Um país com educação séria, esse tipo de discurso poderia até vir à tona, mas encontraria muito mais resistência.


Como você avalia a proximidade do rap com a história? Acha que deveria ser "matéria obrigatória” para fazer rap?


R: Tem uma frase do historiador Peter Burke que é “a função do historiador é lembrar a sociedade daquilo que ela que esquecer”. Isso se assemelha muito ao Rap. Nenhum outro gênero musical tem isso tão latente. Nossa música é a que evidencia a hecatombe social que muitos querem ocultar. Acredito que estudar história deveria ser feito por todos, mas no caso da pessoa que se pretenda rapper, deveria sim ser uma obrigação moral. Isso evitaria muitos discursos racistas, revisionistas, e que não condizem com a cultura Hip Hop. Como ideais protofascistas que vemos atualmente no nosso meio. Como diz Emicida, nossos livros de história foram discos, acredito muito nisso. Mas também creio que mesmo o melhor Rap não pode substituir totalmente a leitura e a informação que vem dos livros.
Recentemente, o vice presidenciável Mourão fez alusão as ideias de Gobineau. Sobre a insolência do índio, branqueamento progressivo, raça superior. Se o Hip Hop e os nossos tivessem mais armados, essa chapa de tiranos não ia ter sossego.



Em algum momento você pensou em fazer rap, ser dj, dançar ou grafitar? Em não fazendo isto você encontrou no conhecimento a forma de intervir no mundo a seu redor?

Comigo, Ana foi assim e com você?


R: Acredito que grande parte das pessoas que adentram no Hip Hop sonham em fazer algo nesse sentido, comigo não foi diferente. Cheguei a fazer alguns esboços de gravação, mas nunca me aprofundei. Não descarto tentar novamente um dia, não pela parte artística, mas sim para externar alguns pensamentos. Já na questão do conhecimento só tenho a agradecer ao Hip Hop, com certeza se não fosse por ele, minha leitura de mundo seria outra. O Rap me fez ter uma visão coletiva das coisas, e quando tive que fazer a escolha da minha profissão, decidi por algo que eu pudesse intervir socialmente. Claro que a docência tem a sua limitação e percalços que você Ana sabe bem, mas não me arrependo nem um instante dessa escolha.


Você costuma usar o rap ou hip hop como método de ensino em suas aulas? Qual principal dificuldade hoje em falar com os jovens sobre rap?


R: Existe um lapso temporal entre o Rap que eu escuto e que os jovens com quem eu trabalho geralmente curtem. É normal, houve uma mudança socioeconômica dos anos 2000 para cá que acabou tornando a vida dos mais novos um pouco mais amena. Foram inseridos no mercado através do consumo e isso acaba dando a ideia de melhora de vida e dificultando a afinidade com músicas de caráter político. Eles gostam mais dos grupos novos e que tem como bagagem a vida de jovens de classe média, como carros, festas, rolês, bebidas. Fora o Funk que é unanimidade em todas as quebradas, a gente gostando ou não.

Contudo, sempre que posso tento inserir algumas músicas com conteúdo mais político e social para contextualizar com algum período histórico. Sempre falo que a música “O homem na estrada” é um relato fiel que nenhum sociólogo jamais vai conseguir fazer sobre a vida na periferia dos anos 90. Enfim, a ideia não é forçar a molecada a gostar da música que eu escuto, mas usar ela para tentar construir um pouco de criticidade com eles, e isso é mais importante do que a própria música.


Para terminar mano

Deixe seu salve para os leitores e suas considerações finais.


R: Agradeço ao Anderson e a Ana pelas perguntas e espaço para dialogar sobre questões importantes para os nossos. Sou grato pela contribuição que os dois deram nas suas respectivas participações no “O Rap Em Debate”. Deixo um salve a cada irmão e irmã que todos os dias ajudam a construir um Hip Hop sério, participativo e que não se conforma com as desigualdades, sejam elas quais forem. Não adianta ter trocentos anos de Hip Hop, colecionar LP's, CD's, Dvd's, ter ido em inúmeros shows, entoado hinos do Rap nacional, ter tomado "geral" por usar camisas e calças largas, ter tatuado no corpo o nome de ídolos, ou qualquer outra coisa que te credencie a falar que é do movimento.
O Hip Hop tem uma história de luta e resistência contra a tirania, contra a arbitrariedade, contra os ideais racistas que excluem as minorias a todo tempo. Se você compactua com ideário eliminacionista que conspira contra os nossos, você só perdeu seu tempo e não aprendeu absolutamente nada.

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