quinta-feira, 8 de novembro de 2018

A Juventude Negra tem tem voz Ativa - Yala Souza dá o papo sobre: rap, negritude e atualidades da cena politica brasileira.



Abrindo nosso quadro "A Juventude Negra tem tem voz Ativa".
Yala Souza, uma jovem Mc sergipana do grupo Relato Verdadeiro  e cientista social em formação, conversou conosco sobre temas mais que atuais.
Nesta troca de ideia Yala fala sobre: Rap, politica, negritude e outras fitas.

Bora para a Entrevista

Pra quem ainda não lhe conhece, se apresente. Quem é Yala Souza?

R: Sou uma cientista social ainda em formação, mc no grupo de rap Relato Verdadeiro, militante no movimento negro, feminista e nordestina arretada de sangue quente.

Como o rap chegou em sua vida e quando você descobriu que queria ser Mc?

R: O rap chegou na minha vida ainda cedo, em minha adolescência para ser mais especifica, a quinze anos atrás o que mais rolava em minha quebrada era rap, hoje ainda rola, mas não como antes que era fácil ouvir facção central, Racionais Mc’s em cada esquina, foi nessa época que passei a me identificar e compreender as letras, mas ainda assim não achava que um dia poderia cantar rap.

Comecei escrevendo poesias, mas tinha dificuldades para cantar, com uns 18 anos comecei a mostrar minhas poesias a algumas pessoas que diziam gostar do que liam, foi aí que olhei no rap uma forma de me expressar e soltar tudo que eu sentia, minhas angustias, preocupações e revoltas, foi aí que descobri que queria ser Mc e estou até hoje nessa luta.

De que forma a rap influência na sua vida?

R: O Rap me influenciou de várias formas, quem eu sou hoje, o meu empoderamento pessoal foi por conta do rap, me reconhecer quanto mulher negra, periférica e saber que estava na base da pirâmide social dentro de uma sociedade desigual e excludente foi o rap que me deu essa percepção, posso dizer e o rap abriu os meus olhos pra tudo isso, na época não tinha textos acadêmicos como tenho hoje para me mostra isso, quem me mostrava era as letras de rap, hoje se estudo ciências sociais e procuro entender a sociedade de várias formas foi por conta hip hop em especial o Rap, hoje o hip hop é parte de minha vida.

Da esquerda pra direita: Anne Souza, Líria Regina, Yala Souza, Ariane Passos e Clara Noronha

Eu particularmente conheci seu trampo na Cypher "Conto do Vigário". Nesta Cypher vocês usam de um discurso bem forte e pertinente, que é o machismo em shows e festas de rap.

Esta cypher abriu ou fechou portas para você e para as meninas? Quais os bônus e os ônus desta Cypher?

R: Abriu mais portas do que fechou, principalmente por ter um som que teve uma amplitude nacional, mas falando na questão regional esse som foi um pé na porta, teve quem gostou e teve quem criticou e fechou as portas, ficamos bastante visadas em todo os sentidos, eu hoje faço mais shows em eventos que são organizados por mulheres, são poucos homens que chamam eu e minhas companheiras para cantar, ainda somos boicotas, ainda faltam mulheres nos shows de rap, e ainda rola evento que mulher não paga e é tratada como mercadoria, mas diferente de antes, sempre que acontece isso, tem gente comentando “Na sua festa eu não pago mas também não entro” acho que essa é a maior responsabilidade desse som, teve gente que ouviu, absolveu e aprendeu e tem essa música como um protesto.

No seu perfil do Facebook, você diz ser Feminista Intersecional. Porque? Se puder explicar.

R: Me configuro como feminista interseccional porque faço recorte de classe, raça e gênero, intersecção é reconhecer que nessa estrutura social de dominação e exploração que vivemos, existe diversos tipos de opressões, e existem indivíduos que são atingidos por essas opressões de varias formas, uns mais outros menos, seja com o machismo, racismo, preconceito social ou LGBTQ-fobia

Em algum momento você teve que lidar com o colorismo? Falo no sentido de ser negra e ter a pele clara, creio que já teve que lidar comentários contestando sua negritude. Como você lida com isto?

R: Sim, mas sempre esses comentário vieram de pessoas brancas que tentavam de todas as formas mascarar o seu racismo, reconheço meus privilégios na sociedade por ter pele clara, por ser mais aceitável quando comparados com pessoas de pele escura, mas ainda assim sofri e sofro até hoje com o racismo e nunca tive dúvida de quem eu sou, sempre soube que não era branca e o racismo faz questão de passar na sua cara que você não é uma pessoa branca e sim uma pessoa negra onde diariamente, te excluem e te marginalizam de todas as formas.


Recentemente foi eleito um presidente que tem atitudes fascista, racista, misógina e xenofóbica.
Sem preparo nenhum para governar e de um carácter asqueroso. E estas ideias tem adentrado na periferia e no rap.
Como você acha que devemos combater estas ideia em nosso meio?

R: Conhecimento é o que abre caminho, na quebrada onde moro poucos tiveram acesso ao ensino superior, ou concluíram o ensino médio, muitos deles irão sofrer com o Bolsonarismo, mas não tem noção disso, não sabem que serão os primeiros atingidos, tento dialogar ao máximo possível, sei que nem todas as pessoas que votou nesse cara é fascista essa é a verdade, alguns são desacreditados aí junta isso com o conservadorismo que muitos tem e a manipulação da mídia e pronto, essa é a fórmula perfeita para acreditarem que esse cara é um “mito”

Quando vamos para o rap estamos indo para outro caminho, não tem como você está inserido dentro do Hip Hop/ Rap e nunca ter escutado uma música que denuncie todo tipo de opressão que negros, mulheres e periféricos tenham sofrido, acredito que todos já ouviram e muitos se identificaram. Rap também é conhecimento, “Sobrevivendo no inferno” do Racionais Mc’s é uma aula de política, história e racismo, não é por um acaso que esse álbum virou leitura obrigatória para o vestibular da Unicamp e se tornou um livro, ou seja, se você escuta um álbum desse e ainda vota em um fascista é porque ouviu tudo errado ou é porque compactua com as ideias de Bolsonaro, acredito mais na última opção.

Pegando o gancho na pergunta acima.
Muita gente do rap, não só fã, mas pessoas que se dizem do rap apoiaram declaradamente o Bolsonaro.
Você é adepta de um boicote a estes artistas? Porque?

R: Sim, poderia resumir a resposta dizendo simplesmente que um dos motivos que essas pessoas deveriam ser boicotadas é o fato de terem ajudado a colocar um fascista no poder, mas não é só isso é todo discurso de ódio que está por trás desse voto, se você sabe que um candidato é machista, xenofóbico, racista e LGBTQ fóbico e ainda assim o chama de “mito” e tem coragem de votar nele é porque você compactua com todas essas ideias, vejo uma galera dizendo que o hip hop nunca teve lado, essa galera faz questão de pisar na história do hip hop de como ele surgiu, não sabem ou esqueceu que a base do hip hop foi o “Movimento por direitos civis”, e o movimento “Black Power” lá nos E.U.A, pra mim pessoas do hip hop apoiarem esse cara é pisar em toda história de um movimento que sempre teve lado e logico que não é o da direita medievalista.

O Brown fez uma bela crítica ao PT. Uma crítica que muitos de nós fazemos em conversas e debates internos. O Brown externou isto no palanque do PT.

Mas eu quero tentar ampliar este debate.

Você acha que a esquerda brasileira dialoga com a classe trabalhadora ainda? Você acha que esta onda conservadora na periferia vem só da influência das igrejas?

R: Não acredito que esta dialogando da forma correta o resultado dessas eleições mostram isso, muitos se sentem abandonados aqui nas periferias, a tempos que o PT em especial se distanciou da classe trabalhadora, não tem mais trabalho de base como a vinte anos atrás, eu cresci e moro até hoje em uma ocupação eu lembro dos movimentos sociais que chegaram junto e nos fortaleceram e estavam na linha de frete conosco, mas o que acontece agora é que muitos se sentem abandonados, por isso que acho que o avanço no conservadorismo nas periferia não é somente culpa das igrejas com a teologia da prosperidade que elas vem pregando para o povo pobre, porque se a esquerda não estiver lá, a igreja evangélica vai estar, já passou da hora da esquerda fazer uma autocrítica e pensar coletivamente.

Lucas Rabelo

Tem uma frase da Sueli Carneiro que diz: "Eu, entre esquerda e direita continuo sendo preta", o que acha desta frase?

R: Concordo em partes com o que ela diz, não me sinto representar por uma esquerda elitizada que muitas das vezes nos silenciam em vários espaços, sem sombra de duvidas a direita não representa pessoas negras, mas também não posso negar que o racismo é destilado de todos os lados.

Você como uma Cientista Social, como analisa as movimentações políticas do Bolsonaro? Acha que o estrago será tão grande quanto imaginamos?

R: Sem dúvida nenhuma o cara nem assumiu e já conseguiu colocar o Brasil na mira do terrorismo movido por uma relação político-religiosa com a decisão de transferir a embaixada em Israel, se curva ao imperialismo estadunidense de forma deslavada, ele compromete não só o Brasil como o mundo também, com os seus planos de desmatar a Amazônia unindo o ministério do meio ambiente com o da agricultura com claras intensões de transformar a floresta amazônica em mercadoria, e promover um genocídio do povo indígena, viveremos um neofascismo, uma verdadeira ditadura não a de 1964 pois ele conseguiu ser eleito de forma democrática por uma população, com preceitos xenófobos, racistas, misóginos e LGBTQ-fóbicos, viveremos tempos difíceis, principalmente as minorias e a classe trabalhadora.

O militarismo e neoliberalismo de Bolsonaro é fadado ao fracasso, é um verdadeiro retrocesso.

Onde você se vê daqui 10 anos?

R: Pós-graduada, esse é o meu maior sonho, mas confesso que agora depois dos resultados dessas eleições será ainda mais difícil.

Deixe suas considerações finais, uma mensagem aos nossos leitores.

R: Gostaria de agradecer ao Noticiário Periférico por me dar essa oportunidade de expressar o que penso, e por ser também um grande portal que é fonte de informação para muitos.
E para todos que estão lendo essa entrevista em especial as mulheres negras, gostaria de dizer que agora mais que nunca chegou a hora de nos unirmos e resistirmos, tempos difíceis estão por vir, digo que até piores do que muitos já vivenciaram, mas seguiremos firmes na luta, deixo uma frase da filosofa Ângela Davis para reflexão:

“Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”

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Ouça o EP "Estamos Vivos" do grupo Relato Verdadeiro