domingo, 8 de setembro de 2019

Artigo | Negros claros VS Negros retintos, Colorismo, Afro-conveniência e o "Lynch'amento"


Vivemos uma polarização política a um tempo já, porem essa polarização vem crescendo dentro de grupos negros. A internet é um lugar onde todos tem opinião sobre tudo. Muita coisa é debatida só pelo achismo, tá ligado? O tema da vez é: COLORISMO e AFRO-CONVENIÊNCIA.

O Colorismo pode e está sendo usado em benefício próprio por muita gente. Como? Muita gente que normalmente não é visto como uma pessoa negra, adora fazer um cacheado, uma trança e bronzeamento artificial, maquiagem para ser vista como uma pessoa negra, fazer campanhas, participar de filmes, clipes e etc. Não citarei nomes, mas quem acompanha as fitas, sabe do caso da cantora pop que adora fazer cosplay em seus clipes. Porque está na moda ser preto, mas desde que você não seja retinto ou realmente preto.

Porém tem o outro lado... 
Muitos negros de pele clara crescem com crise de identidade. Meus pais tem a pele escura, meu irmão era mais escuro que eu, minha irmã não é retinta como meus pais, mas é lida como negra facilmente. Eu sou o único "bege” da família e descobri que eu não “era tão negro assim” na adolescência. Afinal filho de pais retintos, cujo o apelido do meu pai é preto; então logo pensei: “se eu sou o “fi” do preto, logo sou preto também". Ledo engano meu que seria fácil assim. 

Mas o que é o Colorismo, afinal? É uma parada que dependendo do tom de pele, a pessoa vai sofrer menos ou mais racismo, vai ser ou não aceito perante a sociedade e por aí vai. Negros retintos sofrem muito mais racismo, do que os negros de pele clara, cabelo crespo é menos aceito que cabelo cacheado ou liso, pessoas com feições mais “negroides” são bem mais discriminadas e por aí vai. Quanto mais próximo do traço, biotipo e estereótipo africano a pessoa tem menos chance de ser aceita. Como dito acima, é bonito ser preto, mas se for muito retinto se torna exótico. 


O ponto que eu quero abordar é que essa diferenciação entre claros e escuros, cacheados e crespos, nariz fino e nariz grosso e etc. É uma tática eurocêntrica antiga bem racista e nojenta. Não esqueçamos que o Rei da Bélgica matou 10 milhões de congoleses e uma de suas armas foi criar guerras tribais baseadas em seus traços físicos ou status sociais apoiando uma etnia e demonizando outra. 

Aposto que você sabia que eu ia usar a carta de Lynch... Não tem como não usar, parça! 

Toda vez que eu vejo pessoas em grupos negros debatendo quem é negro e quem não é negro, quem sofre mais e quem sofre menos, me vem na mente a carta de Willie Lynch. 

Pra quem não sabe quem é Willie Lynch vou reproduzir um texto do ótimo Portal Geledés

Willie Lynch foi um proprietário de escravos no Caribe (Caraíbas) conhecido por manter os seus escravos disciplinados e submissos. Acredita-se que o termo “linchar” (to lynch, lynching: em inglês), se deriva do nome dele. Enquanto que a maioria dos europeus se confrontava com problemas como fugas e revoltas de escravos, Willie Lynch mantinha um controle e ordem absoluta sobre os seus serventes negros. 

Esse poder despertou o interesse dos fazendeiros da América do Norte. Em meados de 1712, Willy Lynch faz a longa viagem do Caribe para a América do Norte. Após a sua chegada ao estado da Virgínia, e após constatar os problemas que os seus colegas enfrentavam com os escravos sequestrados da África, Willy Lynch decide escrever uma carta onde ele revelaria seu segredo para manter os seus escravos na linha. 

A CARTA DE WILLIE LYNCH 

“Verifiquei que entre os escravos existem uma série de diferenças. Eu tiro partido destas diferenças, aumentando-as. Eu uso o medo, a desconfiança e a inveja para mantê-los debaixo do meu controle. Eu vos asseguro que a desconfiança é mais forte que a confiança e a inveja mais forte que a concórdia, respeito ou admiração. 
Deveis usar os escravos mais velhos contra os escravos mais jovens e os mais jovens contra os mais velhos. Deveis usar os escravos mais escuros contra os mais claros e os mais claros contra os mais escuros. Deveis usar as fêmeas contra os machos e os machos contra as fêmeas. Deveis usar os vossos capatazes para semear a desunião entre os negros, mas é necessário que eles confiem e dependam apenas de nós. 
Meus senhores, estas ferramentas são a vossa chave para o domínio, usem-nas. Nunca percam uma oportunidade. Se fizerdes intensamente uso delas por um ano o escravo permanecerá completamente dominado. O escravo depois de doutrinado desta maneira permanecerá nesta mentalidade passando-a de geração em geração”. 

Esta carta tem por volta de 300 anos e suas ideias se perpetuam até os dias atuais. 

O sistema (brancos dominantes) continua fazendo tudo isso citado na carta do Willie Lynch. Nos jogando uns contra os outros. Essa aceitação ou não aceitação, privilégio e o não privilégio tem feito a gente brigar entre a gente. Europeus sempre promoveram discórdia em nosso povo em prol de seu lucro.
Estimularam o comércio e incendiaram a discórdia
Subjugaram reinos com o poder da pólvora!
Promoveram as diferenças entre escuros e claros
Chamaram pretos aos primeiros e aos segundos mulatos
Chamaram uns superiores pela forma do nariz
Outros inferiores, escravos de raiz
Belgas em Ruanda, franceses no Níger
Negros em Louisiana apelidados Nigger
Maçonaria, Azagaia.


Eu já vi gente dizendo que todo negro claro usa esta carta de moleta contra os retintos, mas essa carta também serve para nós negros de pele clara. Porque o jogo dos racistas é baseado neste pensamento de confusão e jogar um contra o outro. Porque na visão de Lynch, escravos unidos eram perigosos. Nos grupos negros é exatamente assim, homem negro contra mulher negra (e vice e versa) não retinto contra retinto (e vice e versa). A tática ainda é a mesma e surte o mesmo efeito. Você acha mesmo que o sistema quer que os negros se unam e se organize?  Claro que não!!

Falsa democracia racial

Os portugueses apesar de serem “adeptos” a miscigenação, está em aspas porque eles não eram nada adeptos a isso. A maioria dos portugueses que vieram para cá não trouxeram suas esposas, portanto esses arrombados fizeram a “festa” aqui em terras tupiniquins. Por isso a uma diversidade de tons de pele em nosso país. Mas diferente do Estados Unidos, aqui sempre se vendeu que vivemos num país democraticamente racial onde todos aqui vivem muito bem e não há racismo. MENTIRA! 
As raças se misturam baseada no padrão de beleza que nos é imposto. Eles fazem de tudo para não mostrar um casal negro feliz e bem sucedido, eles não querem isso. Algumas empresas tem tido esta abertura, mas ainda é pouco já que os filmes, séries e novelas sempre procuram mostra um negro e uma branca ou um branco e uma negra.

Eu costumo dizer que o racismo é degrade; as pessoas não te veem pela sua origem, mas pelo seu tom de pele. A polícia tem uma abordagem bem padrão pra quem é negro, seja ele claro ou escuro. Branco eles chamam até de senhor, se você não tem a pele alva como a neve, ou rosa como a da pepa, é neguinho na certa. As pessoas adoram me embranquecer ou amorenar, mas a PM sempre me pergunta: “Tá fazendo o que aqui neguinho”. Sabe porque é assim? porque na hora de marginalizar, eles marginalizam tudo que não é branco.

Não estou colocando o negro de pele clara como vítima e o retinto como vilão, passo muito longe disso. A fita é que me incomoda a generalização. Nem todo negro de pele clara é afro conveniente, nem todo negro de pele clara é racialmente consciente, portanto, se um negro de pele clara for racista com um retinto, não tem nada haver culpar a todos. Afinal, nem todo capitão do mato tem a pele clara em 2019. O irmão ou irmã só estão reproduzindo o racismo que ele viram e ainda vêem na TV, na rua, na revista e que fica no subconsciente. O brasil é uma bagunça e tão desestruturado quanto esse texto! 

O única coisa que é bem estruturada no Brasil é o racismo. O sistema tem um lado e não é de quem é negro. 

Militância de internet 

Temos uma geração que se preocupa muito mais com tom de pele, com quem fulano se relaciona, comemora que empresa ultra capitalista tem um negro como protagonista, mas não liga que a maioria dos negros vem sendo os que mais morrem por homicídio, os que mais estão em situação de rua, os que mais estão presos (esquece ou finge demência que o encarceramento em massa atige negros e os ditos pardos), os que menos tem nível superior de ensino e etc. 

Mas esquecem que negros de pele clara, mesmo sofrendo menos racismo, também são marginalizados nesta sociedade extremamente racista. Pois negros de pele clara também são maioria em tudo citado acima. 

Não quero expor ninguém, mas vira e mexe aparece caso de “lynchamento” virtual de pessoas que tem sua negritude questionada como a do rapper Choice, Coruja BC1, a poetisa e maquiadora Aline Tófalo, Fabiana Cozza e muitos outros. 

Vivemos em tempo de muitos textões e pouca leitura de livros, pouca leitura sobre a história de nosso povo. Tem gente que é PHD nos temas citados só lendo textões, só conhecem Malcolm X pelo filme, cujo ator é Denzel Washington. 


Essa geração que desqualifica negros de pele clara, mas esquecem que Luís Gama, Machado de Assis, Malcolm X, Angela Davis, Rosa Parks e outros grandes nomes da história negra não eram ou não são retintos. 

Hypam quem brinca com a luta, não que leva a luta a sério Qual é o textão que nos separa Respeito as manas desde Fabiana a Dona Ivone Lara 

Apócrifo, Coruja BC1. 


Usar o fato de que quem sofre mais racismo é mais negro que o outro, não faz muito sentido, porque é usado só para lacrar na internet e ganhar mais seguidores 

Recentemente a pagina Africanize soltou uma pequena nota sobre como funciona o colorismo veja: 


Neste momento em que vivemos sob um desgoverno total, nós negros de qualquer tom que seja, devemos procurar coisas que nos unem e não o que nos separa. Não podemos dar força para a estratégia do racista Willie Lynch. 

Como diz o Black Alien no som “Um bom Lugar” do Sabotage: “Unido a gente fica de pé, divido a gente cai”.

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